Survivor
7 Enterrando o passado
Notas iniciais
Entramos em uma casa, ela parecia normal, quieta demais, o que era estranho, Michonne se afastou de nós dois pra verificar outros cômodos, Carl parecia ter uma luta interna, eu não estava aguentando aquilo, então falei de modo impaciente.
– Desembucha, homem.
– Eu sei como é perder um irmão, no meu caso foi irmã, ou como perder tudo, ou quase tudo. Eu tinha tantos amigos, e todos morreram por causa de um cuzão, e o resto por causa de uma gripe idiota, eu me sinto culpado quando eu sinto falta de videogame, de histórias em quadrinhos, da escola, ou de jogar futebol. Eu tento não mostrar sentimentos, só pra vida não saber que eu me apeguei a alguém, por que parece que essa desgraçada quer me ferrar. É um pensamento estranho eu sei, mas não esqueça que eu vi você matar sua cunhada. Eu também já matei uma pessoa, mas pra proteger aqueles que eu amo. Mas... eu vou tentar não dizer de uma maneira cruel, mas como você não tem ninguém pra proteger, eu estou aqui pra te fazer companhia. – Ele falou, apressado, tropeçando nas próprias palavras, seria engraçadinho se ele não falasse de uma coisa tão séria, ele suspirou e olhou para o chão. – Eu tive que atirar na minha própria mãe, pra impedir ela de se transformar, ela morreu no parto de Judith, que acabou morrendo no ataque do Governador à prisão, eu sinto tanta falta delas. Da minha mãe, de Judith, da Andrea, do Hershel, do Glenn, da Maggie, até do Patrick. Eu queria enterrar meu passado, esquecer ele. No momento em que eu vi seu irmão morto, eu percebi que eu havia falhado com você também, mas você me abraçou, nem ligou de eu ter atirado em seu irmão, apesar de você ter me empurrado e ter ido embora depois.
Eu ouvia ele atentamente, a voz dele dava algumas recaídas e ficava trêmula, eu não toquei em seu ombro, ou peguei sua mão, ou o abracei, eu queria ouvir tudo o que ele tinha pra falar, pois ele havia feito o mesmo comigo. Mas ele era mais forte que eu, e não havia chorado como eu. Esperei ele falar algo a mais, mas ele ficou quieto, ele ainda olhava pro chão.
– Você misturou seu resumo de vida com um consolo, Carl. – Falei com um sorriso torto, e continuei. – Você não falhou comigo, eu não deveria ter saído do meu acampamento, por culpa da minha curiosidade eu acabei matando meu irmão, acabei descobrindo o interior de Phoebe da pior maneira. Não há nada de errado com vocês, mas acredito que há algo de errado comigo, eu arruinei a vida do meu irmão, eu vou acabar colocando vocês em perigo. Será melhor se eu deixar o grupo de vocês.
– Você está maluca? – Uma voz surgiu atrás de mim, era Michonne, estava encostada na batente da porta, ela me olhava descrente. – Nós nunca deixaríamos você ir, ouviu, Ramona? Você faz parte desse grupo e está começando a fazer parte da família, você conseguiu arrancar alguma emoção do Carl, e ele mal te conhece. Isso pelo o que você está passando é uma crise, todo mundo tem, sua ferida ainda está aberta, não deixe que ninguém a cutuque, não deixe seus pensamentos fracos te derrubarem, você é forte, Ramona.
– Obrigada, Michone, eu... estou começando a ter uma família? – Eu perguntei, meus olhos brilhavam a cada palavra “família” citada.
– Está. – Ela abriu os braços, me acolhendo, eu corri e a abracei, eu senti o abraço apertar e era apenas Carl do meu lado, abraçando nós duas. – Se um de vocês quiserem chorar, meu ombro está livre.
– Não, eu cansei de chorar. – Eu falei firme, e Carl assentiu com a cabeça, presumi que concordasse comigo. – Mas, Michonne, eu sinto sadismo só de lembrar de Phoebe levando um tiro, ou sendo devoradas por zumbis, isso me torna um monstro?
– Todos nós temos um monstro interior, não estou falando da fome. – Ela brincou e eu sorri. – Você não gostava dela antes, e piorou ainda mais agora, eu entendo isso.
Suspirei aliviada, mas eu sentia algo rugir dentro de mim, algo que também não era fome. Voltamos para o abrigo mas Rick veio correndo e acenando para corrermos, e assim fizemos.
DIAS DEPOIS
Alguns dias ou horas andando não me faziam mal, eu adorava andar, depois de vermos um cara que o Rick presumiu se suicidar, corremos de alguns zumbis, e agora estávamos dormindo dentro de um carro abandonado, mas agora estávamos fora, Rick e Michonne conversavam em volta da fogueira, eu e Carl estávamos mais afastados, eu poderia dizer que ele é quase meu melhor amigo, mas sempre que ele tocava em meu ombro ou em minha mão, ou mesmo sorria, eu sentia algo formigar dentro de mim, talvez pelo fato de eu nunca ter estado tão próxima de um garoto. Eu havia achado uma caneta e um papel, então resolvi fazer uma brincadeira sobre algo que Carl havia me dito alguns dias atrás.
– Você disse que queria enterrar seu passado... – Eu comecei a cavar uma cova da largura da minha mão e a profundidade mais que dez centímetros, eu era boa em medir. Peguei o papel e a caneta e escrevi “Passado de Carl” e o entreguei. – Faça as honras.
Ele não havia entendido de primeira, mas quando entendeu, revirou os olhos e sorriu, colocou o papel dentro da cova, e pegou um dos papéis em minha mão e a caneta, escreveu algo e me entregou.
– Faça as honras. – Ele havia repetido minha fala, sorri e peguei o papel, coloquei dentro da mini cova e começamos a tampar, ao terminar fizemos um toque com as mãos sujas de barro e rimos. Senti minha bexiga apertar então me levantei indo em direção a floresta.
– Aonde você vai? – Rick perguntou em alerta.
– Aliviar minha bexiga. – Respondi e os três deram uma risadinha, destampei meu canivete e entrei na floresta.
Eu estava começando a tirar meu cinto quando um pé chutou minha mão, me fazendo soltar o canivete, levantei para dar um soco na pessoa, mas ela foi mais rápida e me deu um soco me derrubando, outra pessoa me levantou e me colocou contra uma árvore.
– Será que ela faz parte do grupo dele? – Uma voz desconhecida perguntou.
– Não sei, mas podemos fazer ela de refém. – O homem que me segurava passou a mão pelo meu corpo, eu não podia gritar ou me mover, pois a força dele me impedia de tudo. – Olá benzinho, sou o Joe.
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