Survival Game
5 Marco Mikami!
Jogo de sobrevivência. Matar para sobreviver. Se tornar Deus. Tudo parecia fantástico demais. Daria um ótimo enredo para um filme. A ideia agora me parecia divertida. Ou melhor, pareceu divertida, até eu perceber que estava dentro disso tudo. Que minha vida corria risco, que eu teria que matar os outros. Entrei em pânico novamente. Aquilo que havia acontecido entre Marco e Robert era apenas uma demonstração, eu ainda veria coisas piores. O pânico só ia aumentando e eu surtei quando, sem querer, imaginei Robert me perfurando com um Machado. Eu gritei, chorei e gritei e chorei mais.
A única pessoa que estava ali para me entender era Marco. Nós ainda estávamos no corredor da escola. Ele observava atentamente ao meu ataque. Após um período de tempo, se dirigiu até mim e esticou a mão, esperando que eu a pegasse para levantar.
Reparei atentamente no garoto em minha frente. Apesar de ambos sermos homens, tenho de admitir que Marco é um garoto muito bonito. Seus olhos marrons claros, naturalmente, chamam atenção. O cabelo liso e curto castanho claro não é penteado, mas escorre suavemente para a direita ficando bonito por fim. Abaixo do cabelo, um rosto pouco arredondado. Marco é mais alto que eu e tem a pele morena. Está vestindo uma camisa sem manga deixando musculosos braços aparecerem e as pernas que imagino também serem musculosas, estão em baixo de uma calça jeans. Invejo-o um pouco já sou basicamente um menino muito magro, fraco com olhos e cabelos pretos.
Estávamos no corredor e Marco disse que era melhor voltar para a sala de aula. Concordei com ele, porque ver o sangue e os cadáveres no corredor estava me dando náuseas. Voltamos para aquele lugar onde Robert me atacara e tentara me matar.
Eu e Marco nos dirigimos para a mesa do professor, eu sentei na cadeira e Marco sentou em cima da mesa.
-Então, agora você entende? –Ele perguntou.
Virei os olhos para o rosto dele e respondi com a voz falhando:
-Sim. Entendo. Robert tentou me matar apenas por causa do jogo. E você me protegeu, você quer começar uma aliança.
Marco fez que sim com a cabeça. Saiu de cima da mesa e ficou em pé. Ele tirou uma caneta de quadro branco de algum lugar e começou a escrever no quadro. As inscrições eram letras, ele escrevia o meu nome. Em baixo de meu nome, ele desenhava as letras do nome dele.
-Sim. Quero formar uma aliança com você.
-Por que? Por que quer fazer a aliança comigo? Você acha que eu vou te ajudar a viver mais? – Não fazia sentido. Marco frequentava a mesma escola que eu e sabia que eu não seria útil em matar outras pessoas. Eu sempre fui mais fraco que os outros meninos da turma, minha habilidade de corrida não era das melhores e eu também não era tão inteligente. Além disso, nas aulas de primeiros socorros, eu não conseguia nem olhar para o boneco com sangue falso, como mataria alguém?- Uma aliança comigo seria como carregar alguém nas costas.
Marco olhou seriamente para mim, fitando-me gravemente com os olhos cor de mel, sem dizer uma palavra. Ele se virou novamente para o quadro branco e circulou seu nome. Confuso como sempre, fiquei prestes a dizer algo, mas Marco foi mais rápido.
-Não se trata de você, Blake! Trata-se de mim. Eu estou disposto a “carregar” você nas costas, eu quero fazer a aliança para te proteger, não para você me ajudar a viver.
-Você... Como assim?
Marco suspirou:
-Eu não quero vencer o jogo de sobrevivência. Meu interesse não é me tornar Deus, eu quero proteger você, fazer com que você vença – Marco pegou a caneta e foi ao quadro, mas dessa vez para riscar o nome dele. – Se fizermos a aliança, vou fazê-lo viver.
Me proteger. De início, pareceu suspeito. Que pessoa em sã consciência largaria de viver e se tornar Deus, apenas para entregar tudo isso a alguém que mal conhece. Pensei que ele estava blefando, que ele queria se unir a mim para me matar desprevenido.
-Não! Não aceito fazer aliança nenhuma. Como eu vou saber que você não está me enganando e quer me matar? E por que você quer meproteger?
Marco me olhou fixamente mais uma vez. Já era a segunda vez que ele fazia isso e era realmente agoniante. O modo com que os olhos dele me fitavam era impressionante, como se em um olhar, ele quisesse me dizer tudo que pensava e não conseguisse, entretanto ele continuava tentando. Não foi a última vez que ele fez isso e na verdade, mais à frente, eu sentiria até falta desse olhar.
Ele pôs a mão esquerda no bolso e ao tirá-la de lá, vi a faca brilhando. Ele veio até mim, ainda segurando a faca, me jogou contra a parede e colocou a faca contra meu pescoço, não chegou a me cortar, apenas estava com o lado cortante apontado para minha garganta.
Sendo empurrado na parede por Marco, senti seu corpo pressionando o meu e a respiração gelada dele.
-E agora, como vai sair daqui? – Ele me indagava. Meu coração acelerou instantaneamente e a minha adrenalina aumentou. Tentei incansavelmente empurrar Marco para longe, mas minha força era incomparável a dele, logo nada aconteceu.
-Me... Solte... – Continuei tentando tirá-lo de mim, sem sucesso, pois Marco me pressionava contra a parede usando o braço direito. Senti-me impotente, eu não conseguia empurrá-lo, o braço dele conseguia ser mais forte do que meu corpo todo.
“É agora”, pensei. “Vou morrer aqui pela faca do cara que acabou de me chamar para fazer uma aliança.”
-Ande logo com isso e me mate – Sussurrei.
-Pode deixar...
Marco levantou a mão esquerda com a faca e... a guardou no bolso. Ele voltou a me fitar com seus olhos.
-Blake, não seja idiota! Eu não vou te matar, acabei de falar que vou fazer você vencer o jogo. Eu não quero te matar, se quisesse já teria feito.
Marco voltou a escrever no quadro branco. Dessa vez ele escreveu “Deus” antes de meu nome e “Morto” antes do dele, resultando em um “Deus Blake” e um “Morto Marco”.
-Quando nós dois formos os últimos vivos, eu mesmo me matarei. Se não acredita em mim, eu não poderei protegê-lo com a mesma intensidade, mas farei de tudo para manter a sua vida. E então?
Por tudo que ele já havia feito até ali, aceitei. Apesar de os termos dele parecerem mais com um ultimato e eu não entender o motivo de ele querer me proteger.
-Somos uma dupla agora. –Balancei a cabeça e tentei dar um sorriso, mas saiu totalmente forçado, pois ainda tinha um pouco de medo de ele voar no meu pescoço mais uma vez, apenas para me dar um tipo de lição. Ao contrário de mim, Marco sorria espontaneamente.
-Hahaha! Então somos uma equipe, amigo. –Ele sorria – É tão estranho parecer durão para você, mas agora temos que armar os nossos planos.
Marco agora não estava mais sério como antes, ele dava gargalhadas como se formar a aliança comigo fosse algo super legal. Olhando para ele, não consegui deixar de soltar um sorriso e depois começamos a rir por um tempo. Não sabia de nada até ali, não sabia o que eu faria, mas depois daquele momento, eu sabia que podia confiar em Marco. Ele era meu aliado.
Perguntei mais uma vez o porquê de ele me oferecer sua proteção, mas só fui respondido com um “porque sim”.
O Resto da nossa conversa foi sobre planos e dividiu em três partes. Primeiramente, Marco me contou tudo sobre seu Diário Radar. Tem um formato de um relógio de bolso, mas dividido em duas partes, uma maior e uma menor. A Parte maior continha o Radar. O Radar tinha o fundo Branco e no centro sempre mostrava um número “9” representando Marco. Toda vez que algum outro jogador entrasse nos limites do Radar, os Diário de Marco mostraria o número correspondente, como era o meu caso naquele momento. O Meu número “2” estava bem ao lado do “9” de Marco. A outra parte do Diário continha uma narração. Era a parte onde se previa o futuro, quando alguém entrasse nos limites do radar, o futuro daquela pessoa começava a ser mostrado. Entretanto, nada sobre o futuro de Marco era mostrado, apesar de ele estar sendo marcado no Diário, ou seja, Marco só veria o futuro se algum dos outros entrasse nos limites do Diário.
A Segunda parte dos planos foi falar sobre as habilidades que os jogadores antigos cederiam. Peguei meu telefone e vimos os rostos um por um. Nenhum conhecido por mim com exceção da sexta e do décimo primeiro. A sexta era Tsubaki Kagano, a líder de uma religião famosa em Sakurami e o décimo primeiro era o prefeito da cidade de Sakurami, Jhonn Balks. Achei realmente estranho uma líder religiosa e um prefeito fazerem parte do jogo de sobrevivência. Marco disse que poríamos encontrá-los facilmente, mas como eles eram os únicos que todos os jogadores atuais reconheceriam, corríamos o risco de já terem pegado as habilidades que eles cederiam ou até de encontrarmos com os outros jogadores, então decidimos não correr atrás de habilidades por enquanto.
Olhei os jogadores antigos mais uma vez e quando indaguei achar engraçado que os sétimos eram dois jogadores e que eu achava conhecer o homem de topete estranho, Marco exaltou-se e me mandou calar a boca. Depois ele pediu desculpas pela grosseria. Como eu não tinha provas, realmente fiquei quieto, mas havia algo suspeito sobre aquilo, então perguntei. Mais calmo, ele disse que me contaria mais tarde. Já é a segunda vez que ele deixa uma de minhas perguntas no ar, no entanto ignoro, pois ficar perto dele faz me sentir seguro e não quero magoá-lo, correndo o risco de ele ir embora.
Em seguida falamos sobre o que faríamos por enquanto.
-Amanhã, eu tenho que me encontrar com Ami, nós vamos a um instituto para apadrinhar idosos e passar um dia inteiro com eles.
Marco levantou uma das sobrancelhas como se me perguntasse: “Sério? Um asilo? Temos coisas mais importantes para fazer!”. Por coincidência foi mais ou menos isso que ele perguntou.
-Mas eu tenho que ir. Eu tenho que me encontrar com Ami. Nós marcamos de fazer isso todo sábado. –Retruquei.
-Você tem certeza? Corremos muitos perigos indo a um asilo. E alías, quem é Ami?
Ah, claro. Ami. Ami Buredo. Acho que ainda não lhes contei sobre ela e nem tinha contado para Marco até aquele momento.
-Ami é minha namorada. –Respondi para ele.
Marco fez uma expressão surpresa, daquele tipo que teria cuspido toda a água se estivesse bebendo.
-Você tem uma namorada? –Ele repetiu surpreso.
-Sim, eu tenho, qual é o problema?
Marco deixou a palavra “nenhum” sair junto com as risadas que brotaram nele em seguida. Fiquei com um pouco de vergonha e quando Marco percebeu isso, deixou de rir e ficou sério. Sério como estava no momento em que pôs a faca perto de meu pescoço.
-Tudo bem! Podemos ir a esse tal instituto para idosos, mas saiba que sua namorada corre risco. Se dermos de cara com algum outro jogador, ele pode facilmente fazê-la de refém para te matar. E se isso acontecer, eu não hesitarei em deixá-la morrer. A sua vida é mais importante.
Ele voltou a me fitar. Encarei ele também, mas meu olhar não era tão ameaçador e atraente como o dele. Mas eu precisava ir o asilo, era importante para mim e Ami, como uma tradição.
Depois de discutimos mais um pouco de como seria improvável encontrar com um dos jogadores em um asilo, Marco cedeu um pouco e voltou a rir, imaginando como seria estranho se um dos idosos fosse um jogador e como seria mais estranho se a minha namorada Ami fosse outra. A segunda ideia não foi engraçada, mas depois me juntei aos risos de Marco. No fim, decidimos que iríamos ao instituto no dia seguinte.
Ah, como me arrependi dessa decisão...
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