Survival
1 Ybyra
Olá. Não sei quem você é ou de onde veio, mas espero que esteja melhor do que jamais estive. O que você vai ler a seguir é um registro de como a humanidade cometeu seu maior pecado e tudo que veio a acontecer logo após.
Sinto que ao escrever, essa história não se perderá, pois, no momento que estamos, já não existem mais escolas ou bibliotecas... Não existem mais cidades... Não existe mais nada...
Bem, vamos explicar do início...
***
23 de Septem de 322
Dia 1

Pra mim, era só mais um dia comum. Tomava meu café da manhã enquanto assistia o jornal e me preparava para ir trabalhar. Eu era guarda da maior empresa de pesquisas farmacêuticas do planeta, no centro da cidade de Ybyra. Ela possuía várias filiais espalhadas ao redor do mundo.
Fui informado que nesse dia ocorreria o anúncio dos resultados dos testes do novo produto. Era um vírus modificado geneticamente que prometia ser a maior revolução da medicina: A Imortalidade.
“Baboseira!” — Pensei eu – “Isso é simplesmente impossível...”
***
Era por volta de meio dia quando o anúncio foi feito. Eles haviam conseguido... Os malditos haviam feito... A Imortalidade era mesmo possível.
Segundo eles, o vírus era capaz de curar qualquer doença, ferida ou até mesmo repor membros inteiros. Após séculos de teste, finalmente estava pronto para ser distribuído a população geral, ainda esta tarde, através do lançamento mundial de um gás contendo o material.
Nenhum de nós sequer imaginava o tamanho do pecado que estávamos cometendo.
***
Antes de prosseguir, vamos situá-lo resumindo nossa história em Gaia, este planeta.
Os humanos são seres originários do planeta Terra. Com o passar do tempo e a “evolução” tecnológica, nossos recursos se tornaram escassos e a economia mundial entrou em colapso.
Com a anarquia se instaurando em vários lugares, os líderes de alguns países decidiram adiantar os planos do projeto Êxodo. Centenas de arcas espaciais seriam construídas com o intuito de levar o maior número possível de pessoas ao mais novo planeta descoberto: Gaia.
Pouco antes do término da construção, os países que sediavam as plataformas de lançamento entraram em guerra civil após a população descobrir que os requisitos para embarcar eram extremamente elitistas. No meio de toda a confusão, o lançamento foi feito, levando consigo apenas pessoas ricas e de classe média alta, além de alguns poucos operários e outros mais clandestinos.
Não temos mais informações do que aconteceu com nosso planeta natal após a saída das arcas. No entanto, depois da chegada em Gaia, os humanos prosperaram como nunca e montaram a tão esperada utopia. Nossa tecnologia evoluiu de forma mais sustentável e os recursos agora estavam disponíveis para todos.
Mas nem tudo são flores quando se trata da raça humana...
***
Duas horas após o anúncio, o gás estava sendo liberado em Ybyra para amostragem antes de ser distribuído globalmente. Em todo canto se ouviam choros de alegrias. Centenas de pessoas comemorando a cura de suas enfermidades e hospitais gerando altas em massa.
Tudo era um sonho. Incrédulo como eu sou, puxei minha faquinha do cinto e fiz um levíssimo corte na minha pele. O ferimento regenerou-se quase que instantaneamente, sem escorrer uma única gota de sangue.
Meu expediente havia chegado ao fim e eu me dirigia para casa constantemente pensando que algo não estava certo. O que realmente é a imortalidade? Que benefícios podem vir ao se quebrar o ciclo da vida e da morte? Que preço poderíamos pagar por esse pecado?
Chego em casa e resolvo tomar um banho para esquecer esses pensamentos...
No final, eu estava certo...
***

Era noite. Como sempre, o ponto mais movimentado da cidade era o Centro. Nesse momento ocorria uma grande comemoração pela “imortalidade” conquistada. Os sons de música e comemorações rasgavam o céu noturno.
Todos os canais faziam a transmissão do evento. Crianças passavam correndo no fundo da reportagem, imersas em suas próprias brincadeiras. Casais namoravam sob a luz dos fogos de artifício.
Porém, meu trabalho como guarda me permitiu ver algo além daquela felicidade. No canto inferior direito da minha tela, claramente algo errado estava acontecendo. Uma comoção começava a se juntar ao redor de uma pessoa caída no chão. Momentos depois, o pânico se instaurou naquela multidão. Gritos e correria. Os repórteres ainda sem entender o que ocorria se aproximavam e tentavam, inutilmente, perguntar o motivo às pessoas que fugiam do local.
“Pessoas estão atacando umas às outras com mordidas!” — gritou finalmente um dos envolvidos, claramente sangrando com uma marca de mordida em seu braço. O ferimento não estava sarando.
A confusão se espalhou quase que instantaneamente pelo centro da cidade e já chegava aos bairros próximos. A minha rua era uma das principais avenidas que ligavam o centro ao bairro comercial vizinho. Olhando pela minha janela percebi a numerosa quantidade de pessoas correndo ou tentando se esconder. Ouvi o alarme de desastres soar pela primeira vez em toda a minha vida.
Olhei para o meio da rua mais uma vez. Uma garota de chapéu e moletom verdes com um short curto rosa estava caída na pista. Alguém estava atacando-a e parecia que mais deles se aproximavam para ajudar o primeiro.
Quando dei por mim, já havia descido as escadas do meu prédio e me encontrava no meio da rua. Empurrei a pessoa que estava em cima dela. Caído no chão ele virou o rosto para mim. Seu olhar era fixo em nós, sua boca aberta enquanto rosnava como um animal e marcas de mordida em seu corpo eram evidentes. Ele avançou novamente. Aproveitando seu movimento, puxei seu braço para trás do corpo e coloquei minha faca em seu pescoço.
“O que você quer? Por quê está fazendo isso?” — perguntei. Nada além de mais rosnados. Joguei ele novamente para longe, levantei a garota, e corremos de volta para o meu apartamento.
“Muito obrigado! E-eu não sei o que seria de mim se você não tivesse aparecido...” — agradeceu a jovem.
“Não foi nada” — respondi. — “Aliás, você sabe o motivo de tudo isso?”
“Não faço ideia. As pessoas simplesmente começaram a atacar umas as outras sem motivo nenhum.”
“Estranho isso. O que pode ser tud-”
Pancadas à porta interromperam minha fala. Fui até o olho mágico: mais deles tinha conseguido entrar no prédio e estavam nos seguindo.
“E agora?” — perguntou ela, visivelmente aflita.
“A saída de incêndio!”
Seguimos em direção à janela. Parei apenas para pegar minha única arma que guardava na gaveta da cozinha.
A escada ficava no lado do prédio onde havia um minúsculo beco sem saída que seguia direto pra avenida, logo, descer não era uma opção. Os gritos de socorro e pânico ecoavam por toda cidade. Decidimos subir até a cobertura.
Lá de cima, a situação não era nada diferente do que nossos ouvidos nos diziam. Pessoas corriam em desespero pelas ruas enquanto eram seguidas por aquelas coisas. Precisávamos fazer algo, um plano. Não poderíamos ficar ali para sempre.
“Ei garota, você mora por aqui?” — perguntei.
“Não. Minha casa fica do outro lado da cidade. Corri nessa direção por que não tinha outro caminho por onde fugir... Será que meus pais estão bem?” — ela indagou com uma voz chorosa.
“Não se preocupe, nós iremos atrás deles. Aliás, qual o seu nome?”
“Rana, e o seu?”
“Muito prazer Rana, meu nome é Steve.”
***
Próximo Capítulo
Rana
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