Surrealistas

1 Não É Sua Culpa


Notas iniciais
Experimentando novas fronteiras de escrita. Parei um pouco com com as fanfics por causa dos estudos, mas estou voltando aos poucos para me divertir antes que eu pire. Espero que gostem. :)
# Tentei agregar novos elementos ao universo da DC Comics, pra dar um toque original a saga.
# Vou postar um capitulo por semana.
# Vou colocar uma capa que dê uma ideia de como será uma determinada cena em cada capítulo.
# Vou ajustar o tom da fic de tempos em tempos (Dark, romântico, comédia, etc...)
# Boa Leitura! ♥

Escuto um barulho na sala e rapidamente pego meu bastão de beisebol. Ando furtivamente até o cômodo e logo percebo o que é... Alerta de novo e-mail no computador. Tenho andado muito preocupado esses dias desde que invadiram meu apartamento e me renderam para roubar apenas setenta dólares que eu tinha em cima da mesa. Teriam roubado mais ou até me matado, porém um herói apareceu e os arrebentou, dois fugiram com o meu dinheiro. Não perguntei o nome dele, parecia o Batman à primeira vista, mas o simbolo no peito era uma lua e aqui não é Gotham. Perguntei o nome, porém não me respondeu e simplesmente saiu no mesmo subterfúgio que entrou. Foi horrível limpar todo aquele sangue no chão.

Novos vigilantes estão surgindo a cada dia. Não sei se devo agradecer a Deus ou ficar com medo. O aumento deles significa que a violência está aumentando também, não? Enfim, pelo menos ainda estou vivo e meu estágio no jornal da cidade tem conseguido me prover comida e jogos de vídeo game. Futuramente espero que eu tenha minha própria coluna, de preferencia sobre seriados de tevê, esse quadro foi desativado a dois anos por falta de... Alguma coisa — não me falaram — , no entanto tenho certeza que vou mandar bem se me derem oportunidade.

Abro o e-mail, não reconheço o remetente. O anexo é um vídeo. Abro? Aprendi no psicólogo que é preciso assumir riscos. Se for vírus, sem problema, amanhã mando formatar. Clico para baixar o arquivo e subitamente o download termina. Isso é ridiculamente estranho.

A imagem começa embaçada e lentamente vai tomando foco. Parece ser gravado de uma colina longe de uma grande cidade. Metrópolis? Qualquer um reconheceria o lugar rapidamente, a maioria dos prédios são espelhados, o globo dourado do O Planeta Diário é icônico, e a arquitetura do edifício da LexCorp. é inconfundível. É uma transmissão ao vivo, será que alguém vai transar na gravação? Ouço uns chiados vindo das caixas de som, aumento o volume das mesmas no máximo. De repente o som estrondoso de explosão parece estourar não só nos videos como nos auto-falantes. O centro de Metrópolis é tomado por um cogumelo de fogo gigantesco, maior que tudo que já vi. Será uma bomba nuclear? Meu irmão mora no leste da cidade, será que a radiação chega até lá?

Tento pegar meu celular em cima do criado mudo, mas não está ali. Começo a correr pelos cantos do apartamento, sem folego e com pouca luz. Até que tropeço em algo rígido — meu celular. Quebrou. Maravilha! Corro de volta para o computador, entro no skype e ligo para meu irmão. Após quatro chamadas ele atende:

— Oi, Dani. O que foi? — perguntou Warren.

— Você tá bem? Metrópolis explodiu!

Um silencio toma de conta da ligação.

— Alô? Warren! Você tá bem? Me responde, caralho!

— Calma, mano. É que to tragando uma aqui. Desculpa. Por que ta assim? O que explodiu?

— Nossa, War. Que porra! Onde você tá? Não viu que Metrópolis explodiu? — respondi.

— Mais um trabalho para o Super-Homem resolver! Eu não invejo esse cara nem um pouco. — comentou.

— Onde você tá, War? Como não viu a explosão. Ela é enorme. — Digo olhando para o monitor do computador, agora é um cogumelo de fumaça.

— Não to lá. To aqui. — respondeu numa voz rouca.

— Aqui onde?

— Em Star City! A gente tá na planície chapando uma. Vem aqui! Tirar a virgindade desses pulmões. Vai amar tirar um pouco a atenção desse emprego chato e do seu namorado chato. — Respondeu Warren.

— Desde quando você voltou? E eu não to namorando o Lucas. Por que não me avisou que voltaria?

— Foi de ultima hora. Perdi o tesão pelo emprego na LexCorp. e voltei pra cá. To pensando em fazer intercambio no Brasil, o que você acha?

— Aquele emprego era perfeito! Você estava nadando em dinheiro e ainda tinha um ótimo plano de saúde! — Contestei.

— O dinheiro não é tudo. E o Brasil tem o SUS. Vai ser maravilhoso. Por que você terminou com o Lucas?- Argumentou.

— Por que você gosta de se afastar de mim?

Desliguei. Odeio ficar sabendo de coisas ruins sem procurá-las. Não vejo Warren desde o ensino médio. Faz oito anos que não vejo meu próprio irmão, nunca me liga, eu que ligo, uma ótima relação familiar. Lucas mandava eu parar de ligar, mas não aguento, amo meu irmão. Meu herói sem poderes e bugigangas. Cada vez mais distante. Como será que ele está? As fotos no Facebook mostram uma pessoa feliz, mas será que é isso mesmo?

Ligo para a minha chefe. Que atende depois de seis chamadas:

— Não quero nem saber. Vem logo, que Metrópolis explodiu. — Ordenou Linda.

— Eu tenho um vídeo da explosão. De cima do Morro da Redenção, supostamente. — Digo.

— O que?! Traga agora para cá. Hoje será uma loucura.

Tomei um longo banho. Sequei meus cabelos cacheados e me olhei no espelho da parede. Em cima do meu abdome, sobre minha pele negra a grande cicatriz descansa. Não quero me lembrar do que aconteceu naquele dia; da dor e dos escombros; gritos e muito sangue. Vou parar por aqui antes que me lembre do resto. Visto-me com a minha blusa branca abotoada favorita e uma calça jeans com um all star preto que já passou por muitas aventuras. Ao sair do apartamento vejo minha anjo da guarda: Sra. Norris. Me salvou de um aperto econômico ano passado. Percebo que está com dificuldades para abrir a porta.

— Precisa de ajuda, Ellen? — perguntei já tentando empurrar a porta. Parece que algo está bloqueando a mesma.

— Muito obrigada, Dani. — agradeceu acariciando minhas costas. — Tenho certeza de que é o cabide.

— Deixa eu tomar distância.

Encosto-me na entrada do meu apartamento e corro em direção à porta. Falhei orgulhosamente com uma dor tênue no ombro. Ellen me ajuda a levantar e ri da situação:

— E agora? Eu tenho que alimentar o Juju.

— Eu juro que o vi na... Olha ele ali! — alertei apontando para o fim do corredor. — Eu realmente tenho que ir, Ellen. Pode ficar no meu apartamento com o Juju. Volto pela manhã

— Sua chefe é um saco! Te fazendo trabalhar até durante a madrugada.

O filho da Ellen mora nas redondezas de Metrópolis. Melhor não falar pra ela sobre o ocorrido, será bom deixá-la dormir um pouco e descobrir por si só. Não quero ser aquele que a preocupa, mas o que lhe traz alegria. Mais tarde eu acalmo ela.

— A cama box está desocupada. Vá dormir um pouco. — sugeri.

— Ah! Claro! Estava esperando a proposta. Tenha um bom dia de trabalho.

Fui andando depressa e tão logo ao chegar na rua chamei por um táxi. Estava muito deserto e vivo em um bairro perigoso demais, e por incrível que pareça o Arqueiro Verde nunca passou por aqui... Não que eu saiba, uma entrevista com ele ou uma simples foto renderia muito no emprego; talvez uma promoção?

Após uma corrida de quinze quilômetros e vinte dólares adentro. Chego o mundo da imprensa de Star City: O cheiro de perfume caro dos chefes de edição e dos papéis novinhos exalam e abrem minhas narinas. Mesmo durante a noite isso me renova. Vou direto para o elevador, há um homem de calça jeans preto e um moletom cinza com capuz cobrindo metade do seu rosto. Pressiono o botão para o quinto andar.

— Trabalhando a essa hora da noite? — pergunta o homem, me espanto por um segundo. Sua voz é bem grave.

— Sim.

Ele ajusta a postura e chega mais próximo de mim. Por que diabos o elevador não se move?

— É provavelmente sobre Metrópolis, não é? Pobres coitados, ter que aturar uma grande tragédia todo ano. — lamenta.

Limpo minha garganta e respondo — Ainda bem que eles têm o Su--

— Super-Homem? — solta uma leve risada. — Tenho que admitir, ás vezes penso que ele é um imã bem sexy de super vilões.

Isso foi definitivamente uma crítica seguida de um elogio. Raramente há pessoas que consigam atingir tal feito. Parabéns a ele. O que há de errado nesse elevador? Pressiono novamente o botão.

— Enquanto muitos dormem ele faz o trabalho sujo contra os super vilões. Dá um crédito pro cara, vai. — sugeri.

O homem se aproxima mais ainda. Consigo sentir sua respiração na parte de trás da minha orelha. Afasto-me discretamente.

— Sei que ele faz muitas coisas boas. Mas lembra que antes dele não havia muitos loucos por aí? Assassinando pessoas a sang--

— Lembra de Adolf Hitler? Já foi em Gotham? — perguntei já com a intenção de encerrar a conversa.

Ele se aproxima mais ainda e já estou encostado na parede.

— Eu quis dizer sobre os meta-humanos e os aliens. Eles trazem problemas.

Empurro ele com gentileza e o mesmo condiz com o ato e se afasta revelando por um instante sua face. Barba mal feita sobre uma pele branca, uma cicatriz cruzando a mesma em diagonal de ponta a ponta.

— Entendo. — pressiono dessa vez o botão para abrir as portas do elevador. Em vão. — O senhor tem fortes argumentos. Porém a Liga da Justiça está aí para provar que há um bem no meio de todo esse desconhecido.

— Diz sobre a Liga da Justiça que não compartilha tecnologia necessária para o avanço da sociedade? — Ele tira um pedaço de papel do bolso e o coloca na minha mão. — Tenho mais um forte argumento: Eles poderiam nos prover com as tecnologias e descobertas que eles têm naquele satélite ridículo deles no espaço. Salvariam muitos doentes, pessoas com HIV, câncer ou seja lá a desgraça que os esteja afligindo seriam curadas. O que fazem ao invés? Travam batalhas monstruosas contra monstros que fazem monstruosidades e causam monstruosas destruições!

O elevador começa a se mover. Aperto o papel na minha mão, parece-me que há algo escrito.

— Não culpe os heróis. Cul--

Esse cara ama me interromper.

— Coisas terríveis acontecem no mundo. — a porta do elevador se abre; saio lentamente em passos pesados; olho para trás. — O único conforto que nos é concebido é que não somos os responsáveis. — diz com uma entonação quase que teatral.

As portas se fecham. Melhor diálogo em séculos, perdendo apenas para eu saindo do armário no jantar em família. Nunca vi esse cara por aqui, será ele um novo diretor de arte? Esses costumam ser estranhos. Gaby não me avisou sobre novatos. Desdobro o papel que o homem me dera e realmente há algo escrito. Não vou ler agora; muita coisa na minha cabeça e chega de negatividades por hoje. Caminho até o escritório da minha chefe — Chloe Sullivan.

— Você demorou pra caramba. Disse que quer uma chance não é? Pois tô te dando uma. Escreva sobre a atual situação de Metrópolis. — Ordena ao mesmo tempo que nem sequer me encara.

— Eu? Onde está o Drake? Ele não ficaria bravo? — Indago.

—Não me importo. Você veio, você pega a matéria. — Respondeu.

— Okay. Estarei na minha mesa se precisar de qualquer coisa.

Sento na minha mesa. Estranho ter ninguém aqui gritando e o barulho do teclado clicando parece as vezes me tranquilizar, não sei como descrever. Acho que me relembra que eu consegui chegar pelo menos até aqui. Ligo o computador, abro meu e-mail e baixo o anexo para o drive, a gravação contém duas horas. Coloco na hora exata da explosão.

— Esse é vídeo que te enviaram? — pergunta Chloe aparecendo do nada atrás de mim. — Hm... Tá assustado?

— É só que muita coisa estranha tem acontecido esses dias. Quem era aquele cara de barba que vi no elevador?

— Cara de barba? — Pergunta se inclinando para manusear o vídeo. — Não tinha ninguém aqui antes de você chegar. Não nesse andar.

— Um cara acabou de me abordar ali e --

— Bingo! A criptografia desse vídeo é anônima. Pessoas têm recebido filmagens de "injustiças" esses meses. Tenho tratado isso como algo aleatório. Mas você é o décimo caso só essa semana. Certeza que há um grupo de hackers hipsters tentando chamar atenção. Pode escrever sobre isso também, ok?

— Mas isso não é meio... Aleatório, como disse?

— Sim. Você ainda não tem uma imagem no mundo da imprensa. Pode testar nos horizontes: Conspirações, Fofocas, Culinária, Arte... Tem que saber onde você se encaixa antes que seja tarde demais. Vê Lois Lane? Ela é bem apressadinha, com apenas vinte e cinco anos já tem mais troféus que Meryl Streep. Mãos a obra! — incentivou.

— De jeito nenhum vou escrever sobre conspirações.

— E você tem escolha? — perguntou soltando uma leve risada — Acabou de conseguir o emprego e já ta colocando banca.

Falei besteira.

— Não é isso. É que tenho duras opiniões sobre teorias da conspiração, iluminattis e outras coisas ocultas. Muito exagerado, parece surreal. — opinei.

Chloe da de ombros e vai em direção ao seu escritório:

— Há amazonas e aliens te protegendo dia e noite, tudo é possível.

Não tiro a razão dela. Realmente muitas coisas têm acontecido, não da pra ignorar que o estranho é o novo pretinho básico. Deixo esses pensamentos pra lá e começo a fazer uma vasta pesquisa sobre Metrópolis e sua geografia; aspectos econômicos e sociais; celebridades e sua história. Escrevo dois parágrafos falando sobre como as épicas batalhas travadas em Metrópolis afetaram e afetam até hoje suas famílias e como uma nova tragédia vai ser digerida por essa geração que aos trancos e barrancos sobrevive o seu cotidiano. Abordo os heróis e vigilantes das ruas com seus respectivos papéis para com a população da cidade e faço uma ligação com a responsabilidade de um líder da nação. Defendo Super-Homem e faço os leitores indagarem onde poderia ele estar numa situação dessas e como algo tão grandioso passou por entre seus dedos? Sua visão de raio-x falhou? E sua rapidez sônica? "... Coisas terríveis acontecem no mundo e o único conforto que nos é concebido é que não somos os responsáveis."

Apago essa ultima linha? Aquele idiota parece ter penetrado na minha mente. A luz do poste ultrapassa a vidraça das janelas e reflete no papel, que curiosamente está cheio de glitter. Não deve fazer mal dar uma lidinha:

“Dentre milhões, você foi o lesado escolhido. Entendemos o que você passou e provavelmente passará. O sofrimento nunca para nesse mundo cheio de titãs, cujo que travam batalhas que carregam todo o trabalho árduo que a humanidade ergueu ao chão. Eles talvez possam querer seu bem, no entanto, não medem suas forças. Muitos inocentes morrem nessa ‘guerra pelo bem’; a carnificina é enorme e horrorosa. Ainda tem aquelas invenções que poderiam certamente salvar a humanidade de muitos descalabros naturais. Esses ‘heróis’ são lindos nas fotos de revistas, jornais e blogs, mas nós convivemos nesse mundo por tempo demais e sabemos que NADA é perfeito, por que eles seriam? Eles NÃO são. Certamente juntos descobriremos a verdade: Tu, eu e mais quatro. Sofri muito; sei que você também... Perdeu seu bebê adotivo logo na primeira semana enquanto passava um feriado em Gotham--”

Seria essa uma desculpa óbvia para parar de ler isso?! Melhor esquecer isso e focar na reportagem. Meus olhos vão diretamente na frase: “Coisas terríveis acontecem no mundo e o único conforto que nos é concebido é que não somos os responsáveis.”

— Não quero lembrar. Não preciso. – digo para mim mesmo.

Não adianta...

“Um dia claro em Gotham. Raridade. Meus pais sempre trouxeram Warren e eu para cá nas férias de verão. Os vizinhos sempre nos disseram o quão arriscado seria ficar vindo aqui tantas vezes – ignoramos. Nossas melhores memórias são aqui, corridas; piqueniques; acampamentos... Nunca me arrependi de vir aqui. Até que...

— Ele é tão lindo. – disse Lucas tirando Gabriel dos meus braços. – Que nem o pai.

— Você é tão adorável. Que nem esse por do sol. – respondi acariciando os braços do meu noivo.

— Eu só tenho a te agradecer, Daniel. – Lucas diz e beija o rosto do nosso bebê. – Não sei se sem você eu daria passos tão grandes na minha vida. Nunca me imaginei sendo pai. É revigorante. Só coisas boas vem de você.

Eu sinto meu rosto queimar. O que eu fiz pra merecer esse homem tão amável, inteligente, cuidadoso e pelo amor dos deuses! Ele é muito lindo!

Gabriel dá uma risadinha e tenta agarrar o rosto do pai. Eu não resisto:

— Eu amo vocês demais. Não paro de pensar em vocês desde que meus olhos pousaram em vocês. Eu morreria por vocês.

— A gente deve ser o casal do ano. – disse Lucas rindo. – E merecemos um prêmio por isso. – afirmou formando uma expressão lasciva que só ele consegue.

— Concordo muito!

O sol se pôs depois de alguns minutos. Fomos para um bistrô no fim do parque ecológico. Ficamos em uma mesa do lado de fora. Todos passavam e olhavam admirados com tamanha fofura do bebê. Eu não poderia estar mais feliz.

— Você tinha razão sobre Gotham. Não se resume a palhaços, família morcego e maníacos assassinos. – admitiu, Lucas.

— Talvez seja. Mas as chances de se encontrar com esses loucos e o Batman são mínimas. Venho aqui todos anos e nunca topei com nenhum deles. – Argumentou uma moça da mesa ao lado.

— Olha, mamãe! É o bat-sinal! – alertou o garoto saindo de dentro do bistrô.

— Nossa! Tira foto, Daniel! – sugeriu Lucas todo animado.

Levanto-me, saco o celular e miro para o céu em direção a luz forte que atinge as nuvens espessas no alto. O símbolo de morcego é enorme e lindo. Sinto um leve arrepio.

— Pronto. – entrego o celular para Lucas.

— Quer voltar para o apartamento? – perguntou.

Uma buzina ensurdecedora ultrapassa meus ouvidos e logo após uma risada descontrolada e assustadora toma de conta do ambiente. Um carro muito parecido com um modelo de bat-móvel invade a calçada junto de barulho de freios.

— POR QUE VOCÊ ESTÁ TÃO SÉRIO?! – perguntou um palhaço saindo de dentro do veículo.

Lucas me puxa um pouco antes de a lateral do veículo me atingir. A parede do bistrô está destruída. A força da puxada foi fenomenal. Meu braço esquerdo dói. Uma corrente envolve o pescoço do palhaço que cai no chão antes de poder escapar.

— Já chega por hoje, Coringa! – gritou uma garota vestindo um uniforme muito similar ao de Batman, porém roxo com o símbolo morcego amarelo.

— Batgirl! – gritam as crianças em um lindo coro.

Lucas me entrega Gabriel que está chorando de um jeito que nunca o vi chorar. Tento acalmá-lo. Lucas ajuda uma idosa a se levantar do chão, deve ter se assustado na hora do impacto.

— Uh-Oh... Parece que vai cair. – alertou, Coringa.

Uma grande sombra toma de conta de mim. Olho para cima e algo enorme parece vir em minha direção, tento me mover, mas parece que meus músculos estão mortos. Uma grande pressão toma de conta da minha cabeça e só vejo o escuro.

— Ele está abrindo os olhos! – Gritou Batgirl.

A dor na minha barriga é aguda e insuportável. A única coisa que lembro e consigo fazer é gritar.

— Calma amor. Estamos aqui e vamos te ajudar. – confortou, Lucas. – Consegue ver Gabriel? Sente ele?

Estou ofegante. Tento sentir meu bebê, mas a dor me impede. Por que ele não está chorando? Onde ele está?

— Tem certeza de que ele está com o bebê? – pergunta Batgirl.

— Sim! Eu tenho certeza! – responde Lucas, já desesperado.

Lucas tenta levantar com todas suas forças a placa de metal de cima de mim. Algo parece se mover dentro de mim e uma dor horrível toma de conta de todo meu corpo.

— Não! PARA! – grito loucamente.

— Tá machucando ele! – grita Batgirl.

— Você uma adolescente num uniforme ridículo. O que anda fazendo querendo ser uma vigilante? Batman deve estar perdendo a cabeça mesmo! — gritou, Lucas.

Dessa vez consigo mover meu pescoço, mas muito sangue corre por minha face. Um pouco da luz do ambiente adentra a placa de metal e as pedras. Gabriel está em repouso sobre minha barriga. Um pedaço de metal nos une. O rosto me passa ideia de descanso e de morte. Ele morreu? Esse sangue é dele também? Minha maior alegria morta em cima de mim. Mais uma vez a placa de metal se mexe. A dor me apaga completamente.”

Odeio quando tudo isso me passa pela cabeça. Meus sonhos indo para o ralo. Minha vida e minha verdadeira felicidade. Completo meu texto sobre a tragédia em Matrópolis e salvo o arquivo. Não tenho coragem de jogar o papel fora, coloco-o no bolso.

— Não precisará mais vir hoje. Veja isso como meu presente, ok? E vê se vai pra uma festa se alegrar. Tristeza afeta o texto. – sugeriu, Chloe.

— Vou tentar, chefe.

Entro no elevador, aperto o botão do Terraço e me encosto na parede. Dessa vez as portas se fecham e segue o caminho desejado. O que diabos aconteceu naquela hora? Meu celular toca; é Warren. Hoje tá muito esquisito.

— Que milagre! – disse eu.

— Estou do lado de fora do seu trabalho. Pronto pra matar a saudade? – diz ele e logo desliga.

As portas do elevador abrem e corro em direção a saída. Olho para os lados e vejo ninguém.

— Warren! Eu tô aqui! – gritei e a rua está deserta.

Ando para o beco do lado esquerdo do edifício e não encontro nada. Deve estar no do lado direito.

— Não tô com paciência pra susto! Sério! Só vem aqui e me dá um abra--

Uma mão começa a se arrastar saindo do beco direito. Ensanguentado. Afasto-me um pouco. A mão recua e momentos depois Warren sai do beco e vem em minha direção. Sua cara está toda arranhada e um de seus braços está queimado.

— Warren! – grito e corro em sua direção. – Quem fez isso? O que aconteceu?

Ele tenta falar, mas acaba vomitando sangue.

— Ca-ca-calma! Vou chamar a ambulância.

Tento digitar os números da senha do meu celular, mas erro três vezes e o celular é bloqueado.

— NÃO! – Grito. – Me dê seu celular.

Quando enfio as mãos no bolso de Warren ele cai inconsciente no chão. Há quatro flechas verdes cravadas nas costas.

— Me desculpe! A ambulância já está a caminho. – Arqueiro Verde surge ao meu lado. – O fugitivo usou ele como escudo-humano.

Warren começa a vomitar mais sangue e lentamente para de respirar. Não consigo acreditar no que estou vendo.

— Deixe-me ver... – Arqueiro Verde se aproxima do meu irmão e coloca seu ouvido próximo de sua boca. – Ele não está mais respirando. Vou tentar reanima-lo.

— Saia daqui. – Empurro ele.

— Senhor... Me desculpe. Não era minha intenção. Deixe-me aju—

— Você já fez muito por hoje! – empurro ele mais uma vez. – SAIA JÁ DAQUI, SEU FILHO DA PUTA!

Fico ofegante de repente. O que está acontecendo? Está tudo acontecendo novamente. O papel cai do meu bolso. A luz do poste auxilia na leitura:

“[...] junte-se a nós. Se revelarmos a verdade, a triste surrealidade que assola esse planeta e seus poderosos... A morte daqueles que amamos não terá sido em vão. Podemos para todo esse sofrimento juntos.”

Caio de joelhos ao lado do meu irmão e deito minha cabeça sobre seu corpo. A sirene da ambulância preenche o ar ao redor. Chloe sai do prédio e vem na minha direção; fica surpreendida ao ver o Arqueiro Verde.

— O que foi isso?! O que aconteceu? — perguntou Chloe me abraçando.

— Senhor! Afaste-se para que possamos colocá-lo no veículo. — Ordenou o paramédico gentilmente.

Obedeço e encaro o Arqueiro Verde. Sua face está indiferente. A chuva começa a cair e o vigilante diz:

— Eu realmente peço desculpas.

Um policial se aproxima de mim com um bloco de folhas:

— Sabe descrever o que aconteceu?

Limpo as lágrimas do meu rosto e respondo:

— Um herói matou ele.

Notas finais
Tomara que vocês tenham gostado. Qualquer critica é muito bem-vinda. Quero sempre melhorar. Também aceito sugestões... Amo escrever junto com aqueles que leem o que escrevo. :)
Obrigado por lerem. Se possível deixem comentários sobre o que acharam. ♥
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.