Surpresa

2 Encontro


Um imenso muro de concreto e sem pintura alguma.

A casa ocupava todo o quarteirão. Avisei que havia chegado e esperei no uber até que viessem me receber no portão prata. Ao pôr os pés no ambiente observei as pessoas que me recebiam. Um segurança com olhar curioso e o V com as feições mais curiosas ainda, um meio sorriso se formou em seus lábios e após trocarmos olhares nos abraçamos brevemente, ele me direcionou a uma moça que me indicou todos os lugares e espaços do terreiro.

Um grande pé de cajueiro se estendia numa clareira de pedras, cadeiras se estendiam ao redor e uma corda fazia a separação. Não falei muito e apenas observei e principalmente me concentrei em sentir, os cheiros eram muito diferentes e certamente agradáveis, fui apresentada a várias pessoas e seus cheiros também se ressaltavam. Havia harmonia e uma espécie de sensação de limpeza.

Um grupo de médiuns se reunia nas proximidades da piscina, entoando algumas orações, tirei meus calçados e senti o frio manso nos meus pés.

O pai de santo abriu a jurema e os dois tocadores deitaram no chão com as mãos para cima, batendo cabeça para os santos e pedindo licença para iniciar a cantoria.

Pai acendia um incensário e ao som dos batuques saiu um por um espalhando os cheiros e pedindo proteção para os que ali estavam. V estava no ultimo banco dentro do terreiro com seu médium, entoava as canções e por vezes, achei que nossos olhares se cruzaram.

Uma médium chamou minha atenção e optei por ela, quando o pai permitiu, entramos no terreiro para receber os passes, onde a entidade dá direcionamentos de vida. Saldei minha médium e ela me abraçou.

"O que tu busca aqui?"

Seus olhos estavam mais do que fixos, estavam dentro de mim e sem piscar por longos períodos.

"Vim atrás de crescimento espiritual"

Fui breve mas não fui verdadeira.

"A fia não precisa ter medo."

Não tinha medo dela, pelo contrário, me sentia ouvida.

"Não estou com medo."

Ela permanecia olhando pra mim, balançou a cabeça e disse:

"De nada, nem de NINGUÉM"

Faltou o ar... O sentimento mais presente em mim nos últimos meses foi o medo, medo pela minha vida, medo de me perder, medo de enfrentar, o mais puro medo e instinto de sobrevivência.

"A fia tem uma longa caminhada. A fia ainda tem muito pra viver e a fia não tem que ter medo de nada e nem de ninguém"

Soluços brotavam da minha garganta e eu já enxergava ela de forma embaçada devido as lágrimas.

"A fia tem que deixar ir o que passou e quem passou, a água da fia está parada, energia baixa, a fia precisa mover essas águas, a fia precisa se curar"

A mãezinha me passou banho de alecrim e vela pra Iansã. Percebi que minha trajetória não poderia estar mais certa. V observava atentamente e minhas lágrimas não passaram despercebidas.

No final agradeci a todos, conversei um pouco, falei sobre como havia sido o meu primeiro contato, sobre como me senti, V parecia muito orgulhoso e eu fiquei muito agradecida a ele e a minha amiga que fez tudo acontecer. Estou determinada a mover essas águas. A namorada dele também frequentava o mesmo terreiro, ela se juntou a nós porém falou apenas com ele e logo fui me afastando.

No uber de volta pra casa, pela primeira vez, senti muita paz.