Surfando na Mudança

13 Um convite esquisito


Voltando para as aulas de depois do intervalo, as coisas pareceram mais calmas para os Suli, porém os irmãos não podiam negar que ouvir o sinal da saída bater era um motivo de alívio e alegria. Eles se encontraram no portão da saída e, apesar de muitos estudantes estarem enchendo a rua naquele momento, Lucas avistou primeiro o carro do pai, seus irmãos seguiram logo em seguida.

—E aí, Sulis? Como foram de escola? — Tiago brincou com eles, enquanto as crianças entravam no carro.

—Foi bom, melhor do que eu esperava — Lucas opinou.

—Eu fiz uma amiga nova, trazer o bolo de chocolate foi uma boa ideia! — Tainara comemorou.

—Natan? Karla? — o pai quis ouvir mais deles.

—Tudo certo, conhecemos um garoto legal até — disse o irmão mais velho de todos.

—Tá, admito que o Rian foi legal com a gente, mas o amigo dele nem um pouco — Karla reclamou mais um pouco.

—Que amigo? — Lucas quis saber.

—Então, é um colega de classe nosso, se chama Arthur — Natan contou.

—Entendi, bom, pelo menos amanhã vocês já não são mais desconhecidos — o pai tentou animá-los.

—É, amanhã eu já chego sabendo que é bom evitar ele — Karla resolveu.

—O que é que eu posso fazer pra animar vocês? — Tiago quis ajudar de coração.

—Tá tudo bem, pai — sua filha mais velha suspirou, grata pelos esforços dele, o achando fofo — talvez falar com o Spider ajude.

—Certo, boa ideia — o pai concordou e deixou ela à vontade para uma chamada de vídeo com o amigo.

Enquanto Karla esperava Ravi atender e seus irmãos desciam do carro, quando acabaram de chegar em casa, a atenção de Tiago foi chamada por Teodoro na porta de casa outra vez, dessa vez vestido de maneira um pouco mais formal, uma camisa polo, calça jeans e tênis, não muito diferente do Tiago, que tirando o jaleco do laboratório que trabalhava, estava vestido na moda do vizinho.

—Oi, boa tarde! — Teodoro cumprimentou, muito simpático.

—Oi, Teodoro! — Tiago respondeu, indo na direção do vizinho, enquanto os filhos olhavam de relance para o homem, tentando julgar alguma coisa sobre ele.

—Ele é pai da minha colega de sala — Lucas sussurrou para os irmãos — sabe, a Tamires? A Tamires falou que me viu, viu a gente naquele dia da confusão com a vizinha da frente.

—Nossa, que coincidência esquisita — Karla comentou.

—Pois é, tá aí uma coisa pra contar pro pai e pra mãe — Natan pensou alto sobre a possibilidade.

—Tem certeza que é uma boa ideia? — Lucas cruzou os braços — tipo, a mãe brigou com a mãe da Tamires.

—Ah talvez é bom saber sim, mesmo assim — Natan tentou pensar num motivo forte pra isso, mas não quis gastar mais energia com isso. Talvez fosse só o lado responsável dele falando mais alto, preferindo deixar tudo às claras.

Eles entraram em casa, com Karla indo logo para o quarto, depois que Spider atendeu o celular, enquanto o pai deles continuou falando com o vizinho.

—Eu queria falar com você, coisa rápida, prometo — Teodoro iniciou a conversa.

—Tudo bem — Tiago aceitou.

—É que eu não sei se você ficou sabendo, me dá um pouco de vergonha falar isso, mas a minha esposa conheceu sua esposa de um jeito bem ruim, e... — o vizinho explicou.

—Ah sei, a Natália me contou, não se preocupe, eu acho que tá tudo bem — o outro vizinho também ficou constrangido por toda a situação.

—Então, eu falei com a Roberta, falei que não gostei do que aconteceu e que a gente podia fazer alguma coisa por vocês — Teodoro continuou — a gente pensou em convidar vocês pra jantar no fim de semana, pode ser? Lá em casa.

—Jantar, muito bom, acho uma boa ideia — Tiago coçou o pescoço, ponderando — por mim tudo bem, mas é claro, eu preciso falar com a Nat e as crianças primeiro, mas eu te dou uma resposta até sexta, tudo bem?

—Sim, ótimo, combinado, obrigado — Teodoro se despediu dele com um aperto de mão amigável.

Assim, meio apreensivo, Tiago voltou para casa, imaginando como traria aquele assunto à esposa. Já no quarto das meninas, uma conversa mais amigável acontecia.

—Então, hoje foi meu primeiro dia de aula — Karla desabafou para o amigo — acredita que um idiota da minha sala ficou me olhando torto? Eu nem sei porque, eu fiquei quieta na minha e tudo mais, mas o Natan, como sempre foi bonzinho com eles.

—Você sabe que esse tipo de gente dever ser ignorada — Spider aconselhou.

—É o que eu vou fazer, mas eu espero que seja isso que o menino faça por mim também — ela confessou — fora isso, tá tudo bem, e pra não ser tão chata, teve sim um menino legal com a gente.

—Menos mal, que bom — Spider deu um pequeno sorriso, sentindo uma pontada de ciúme — e a praia? Vocês já foram na praia?

—Ainda não, esses últimos dias foram uma loucura, né? Arrumando a casa e indo pra escola, ainda não deu pra explorar a cidade — ela explicou.

—Oi, Spider, eu fiz uma amiga hoje — Tainara invadiu a chamada.

—Ou! Eu tô conversando, Tai — a irmã a repreendeu de leve.

—Chocolate resolve tudo! — declarou a garotinha, com ânimo.

—Concordo, Tai — Spider riu — aí, se ficar triste, compre um chocolate por mim, pense que eu tô comendo também.

—Valeu, Spider — ela sorriu — é bom falar com você.

—Também acho a mesma coisa — ele deu um sorriso maior ainda.

—Ah eu não acredito nisso! — o grito da voz de Natália ecoou pela casa e pela chamada de vídeo.

—Spider, você ouviu? Foi minha mãe, eu não sei o que foi isso, mas acho melhor ir lá ver o que foi, a gente se fala depois — ela se despediu, preocupada.

—Tá bom, 'té mais! — ele encerrou a chamada.

—Eu não acredito nisso! — Natália repetiu, agora com os quatro filhos junto com o marido de plateia.

—Eu acho ótimo a gente ir, nós somos vizinhos, é bom se dar bem, eu não quero causar uma rixa boba — Tiago explicou — já basta de rixas na minha vida, não acha?

—Você sabe muito bem porque eu detesto o Quarit! — ela respondeu à altura, ainda muito brava.

—Alguém pode me dizer o que tá acontecendo? — Karla quis saber.

—Nós recebemos um convite pra jantar nos vizinhos no fim de semana — a mãe explicou, menos nervosa — a mesma que brigou com o Lucas.

—Ah tá — respondeu o dono do nome — assim, mãe, eu fiz amizade com a filha deles na escola hoje, então tipo, se eu for, tem pelo menos ela pra conversar, e ela é bem mais legal que a mãe dela.

—Seria bom a gente ir pra mulher pedir desculpas pra gente — Natan tentou apaziguar.

—Tá vendo? Até os meninos entendem — Tiago usou o argumento.

—Tudo bem, tudo bem, pela boa educação, eu vou — Natália decidiu — mas se ela me tirar do sério e me ofender de novo, eu vou me defender.

—Sorte minha estar por perto — Tiago sorriu de lado, sua esposa entendendo a piada, um tanto fora de hora.

—Prometo me comportar e você não ter que me acalmar — ela sorriu de volta, com o mesmo sarcasmo.