Dormir em um colchão causou certa dor nas costas aos irmãos Suli e seus pais, mas ao menos eles tinham descansado da viagem. Era só olhar para os seus arredores que notavam que o dia inteiro seria de muito trabalho e tentar colocar tudo em ordem.

Dessa vez, para o café da manhã, eles inauguraram a cozinha, mas ainda usando copos descartáveis.

—E aí, gente? Empolgados pro primeiro dia na casa nova? — Tiago tentou quebrar o gelo, enquanto os filhos ainda bocejavam e matavam a fome.

—Bom, pai, ninguém tá animado com o trabalhão que vai dar arrumar isso tudo — Natan foi sincero.

—Eu sei que cansa, mas quando tudo estiver pronto vai valer a pena — Natália tentou manter o ânimo.

—A gente já sabe quem vai ficar com cada quarto? — Karla perguntou.

—A suíte é do casal — Tiago declarou, sem dar chance para os filhos escolherem.

—Poxa, achei que se mudar ia dar essa vantagem pra gente — Lucas reclamou um pouco.

—Não foi dessa vez, garoto — o pai deu de ombros — vão ter que dividir o banheiro, de novo.

—Tá, mas ainda tem os dois quarto do corredor, eu sei que ainda continua meninos e meninas, então... — Karla especulou distraidamente, mas depois sorriu de forma travessa antes de declarar — o da direita é nosso!

—Que? Não, eu quero o da direita, tem uma árvore perto da janela, com certeza fica arranhando a janela a noite e fazendo o maior barulhão! — debateu Lucas.

—Você disse eu, sendo que EU e VOCÊ dividimos o quarto — Natan fez questão de apontar.

—Olha, ter uma árvore na janela significa sombra quando o sol da tarde bate lá dentro, é o quarto mais fresco com certeza — a mãe tentou apaziguar a situação.

—Retiro o que disse, quero o da esquerda — Lucas deu um sorriso cheio de dentes e apertado, como se tivesse ganhado a disputa.

—Tá, tanto faz — Karla revirou os olhos, achando que no fim das contas, tinha conseguido justo o que queria.

—Falando em quarto, vou pedir pra vocês arrumarem eles primeiro, cada um guarda suas coisas, a sala é fácil, tá praticamente pronta — Natália listou — só falta a TV, depois vou querer ajuda com a cozinha, de todo mundo, tá bom?

—Um hum — os filhos murmuraram em concordância desordenadamente.

—Eu vou aproveitar e conferir a matrícula pra escola nova de vocês — Tiago avisou.

—Escola? Sério, pai, a gente acabou de chegar e tá pensando nisso? — Lucas cruzou os braços, irritado.

—Você tem que ir pra escola pra não ficar burro! — aconselhou Tainara.

—Tainara, não chama seu irmão de burro — a mãe corrigiu.

—Eu não chamei ele de burro, só falei que ele precisa ir pra escola pra não ficar burro — a garotinha se justificou.

—Tá bom, já chega de farra — declarou Natália — quem já terminou, pode ir arrumar seu quarto, agora, depois vou dar uma olhadinha depois.

—Sim, senhora — Natan se levantou e fez como combinado, seus irmãos se juntaram a ele logo depois.

—Até mais, amor — Tiago se despediu dela com um beijo rápido, saindo para resolver as coisas.

Antes que entrasse no carro, ele teve a primeira visão de seus vizinhos. O homem estava do outro lado da rua, em frente à casa paralela à dos Suli, ele era alto, vestia camiseta, bermuda e chinelo, muito mais informal que o próprio Tiago.

—Bom dia — ele desejou ao recém chegado.

—Oi, bom dia — o pai dos Suli respondeu.

—Acabaram de se mudar? — questionou o vizinho.

—É, a gente chegou ontem a noite — Tiago se aproximou mais, até chegar à calçada e ficar em frente dele.

—Que bom, fizeram boa viagem? — continuou o homem.

—Sim, a gente veio de Omaticaia, foi meio longe mas estamos aí, eu e a família — Tiago respondeu de forma simpática.

—Longe mesmo, eu sou o Teodoro, aliás — se apresentou o vizinho.

—Tiago, Tiago Suli — ele apertou a mão de Teodoro.

—Legal, Tiago, se precisar de alguma coisa, qualquer coisa, pode falar viu? — ele ofereceu sua ajuda.

—Eu vou, pode deixar — Tiago disse, agradecido — eu vou lá, preciso resolver umas coisas das crianças, sabe, coisas de escola, mas a gente conversa depois.

—Claro, até mais — Teodoro se despediu dele.

Assim, Tiago foi até a escola, pensando no caminho que tinha sorte de ter encontrado um bom vizinho.

Dentro da sua casa, sua esposa e filhos tentavam deixar as coisas no lugar.

—Oh Tan, você viu aquela minha camiseta preta, que o Spider me deu? — Lucas perguntou ao irmão, enquanto procurava.

—A da estampa de banda vermelha? — Natan quis ter certeza — vi não, cara, por falar em coisas que sumiram, não achei meu tênis verde.

—Se tiver sumido, eu juro que mato o motorista do caminhão de mudança — Lucas se irritou.

—Relaxa, não é pra tanto — seu irmão deu de ombros — daqui a pouco aparece, falando em aparecer...

Natan se interrompeu ao ver uma das bonecas de Tainara no meio das coisas dele. Ele pegou o brinquedo e foi entregar à irmã, que estava com a camiseta de Lucas.

—Eu não sei como essas coisas se misturaram — comentou a garotinha dando de ombros.

—Natan! — Natália chamou do próprio quarto.

—Oi, mãe — o garoto não demorou muito pra responder.

-Achei seus tênis — Natália mostrou.

—Valeu — ele pegou os sapatos e sorriu agradecido.

Depois de um tempo, a casa nova começou a parecer em ordem. Até mesmo o skate de Lucas tinha reaparecido e uma ideia clara se formou na cabeça dele, dar uma voltinha agora que o trabalho tinha acabado não seria má ideia.

—Oh mãe, posso andar de skate aqui na frente um pouco? — ele pediu na porta do quarto dela.

—Pode, mas só por aqui, a gente não conhece o bairro ou a rua ainda, toma cuidado — ela aconselhou.

—Brigaduuu! — ele agradeceu e saiu com pressa para fora.

Deslizou e fez manobras por algum tempo, até chamar atenção de alguém da casa da frente.

—Vish, o menino da frente anda de skate, e olha esse boné pra trás... — comentou Roberta, olhando pela janela.

—Que menino, mãe? — seu filho mais velho, Arthur, olhou também — deixa ele, não é nada demais.

—Eu não quero vocês falando com ele até eu saber quem ele é e quem é a família dele — instruiu ela.

—Mãe, a senhora está sendo preconceituosa — sua filha mais nova, Tamires, comentou, com um pouco de receio.

—Eu não tô sendo preconceituosa, tô sendo cuidadosa — Roberta se explicou, o que não convenceu os filhos.

Apesar da implicância da mãe, o garoto novo despertou certa curiosidade em seus filhos, principalmente em Tamires.