Surfando na Mudança
9 Confusão
Quando as coisas estavam finalmente em seu lugar, a casa começou a parecer mais aconchegante para a família Suli. Ainda assim, eram justamente as crianças que ainda estavam com a sensação de que algo estava fora do lugar, talvez fosse a estranheza de estarem em um lugar novo batendo outra vez.
Tentando distrair a mente um pouco, Karla se jogou no sofá, procurando alguma coisa pra assistir na TV.
—O que foi? — Natan passou por ela e notou sua cara desanimada.
—Eu sei que eu tô parecendo um disco furado, mas essa coisa de mudança é uma droga — ela confessou.
—Eu sei, insistir pra gente se acostumar ou dizer que vai passar não adianta muito, não é? — ele se sentou ao lado dela, cruzando os braços.
—Exatamente — ela ergueu as mãos, grata por ter alguém da família que entendesse — e você? O que achou disso tudo?
—Eu? O que eu tenho pra dizer? — ele deu de ombros, não muito disposto a se abrir.
—Anda, mano, sou eu, sabe que pode falar o que quiser, estamos no mesmo barco juntos — Karla incentivou.
—Tudo bem, eu não gostei de me mudar — Natan disse a verdade, finalmente — a gente tinha uma vida, eu tinha minha vida, tinha meus amigos na escola, tinha tudo planejado pra faculdade, mas agora, uma decisão do pai e tudo mudou.
—E você não acha injusto? — sua irmã questionou.
—É claro que é injusto, a gente não teve chance de escolha — ele concordou — mas eu entendo o pai no fim das contas.
—Por mais que eu tenha raiva da mudança, não consigo ficar com raiva do pai — ela suspirou.
—O que tem seu pai? — Natália apareceu da cozinha.
—Mãe, tava ouvindo? — Karla quis saber, fazendo uma careta.
—Não, eu juro que não, só peguei a parte do seu pai — ele garantiu.
—A gente tava falando que entende o papai vir pra cá — Natan foi parte sincero, não querendo ter que inventar uma mentira para se justificar.
—É, gente, eu sei que é difícil — a mãe se juntou a eles — sinto falta da vovó, da tia Sylvia, mas aqui estamos nós, temos que fazer o melhor que temos com o que temos. Isso soou repetitivo mas vocês entenderam, isso é que importa.
—Obrigada, mãezinha — Karla agradeceu pelo conselho.
—Valeu, mãe — Natan sorriu.
—Olha, o Lucas foi dar uma volta de skate — Natália contou — por que vocês não dão uma caminhada por aí pra espairecer as ideias? É melhor do que ficar reclamando no sofá.
—Fala sério, mãe! — Karla reclamou um pouco.
—Não é má ideia não, mana — Natan concordou e se levantou, puxando um dos braços dela para ir com ele.
Karla revirou os olhos mas o seguiu para uma caminhada. Ao fim da rua, eles podiam ver o irmão ao longe, se distraindo ao andar de skate e fazer manobras. Lucas era realmente o único que andava de skate por aí.
Se divertindo com sua atividade, Lucas subiu a calçada oposta ao lado da rua que morava. Ele passou o percurso até a frente da casa dos vizinhos fazendo manobras, até que um pisar em falso, o fez se desequilibrar e cair bem em cima de um canteiro de flores que pertencia aos vizinhos da frente. Não demorou muito para que Roberta saísse de dentro de casa, disposta a dar a maior bronca no garoto.
—O que pensa que tá fazendo com o meu jardim? — ela perguntou, irada.
—Oi, eu... desculpa, eu... — Lucas tentou se recompor da queda, um tanto confuso.
—Oi, desculpe o meu irmão, foi um acidente, nós vimos quando ele caiu — Natan veio ao resgate enquanto Karla o ajudava a se levantar.
—O seu irmão devia tomar mais cuidado em andar em um lugar que ele não conhece e não é dele — Roberta continuou impassiva.
—Espera aí, minha senhora, foi um acidente, eu não caí de propósito não, eu já pedi desculpa também — Lucas se incomodou com a atitude dela.
—Licença, eu posso saber o que tá acontecendo aqui? — Natália percebeu a confusão toda e apareceu ali, com Tainara em seu encalço.
—Esse garoto acaba de cair nas minhas flores — Roberta pôs as mãos na cintura, impondo sua voz — ele acabou com o meu jardim.
—Lucas, você tá bem? — a mãe dele ignorou a vizinha por um minuto para dar atenção a ele.
—Tô, mãe — ele confirmou.
—Eu tenho certeza que ele não fez de propósito — Natália o defendeu — eu conheço bem meus filhos.
—Tá bom, mas eu não quero mais ele andando de skate aqui perto da minha casa — declarou a vizinha.
—Calma aí, senhora, a rua é pública e nós moramos aqui também, não pode proibir uma coisa dessas — Natália achou o que ouviu um verdadeiro absurdo.
—Até pode ser, mas eu não quero mais acidentes com as minhas flores — disse a vizinha, ainda com o queixo erguido.
—Vai fazer o que se acontecer de novo? Desculpa, eu não sei seu nome — Natália chegou a sorrir de forma sarcástica.
—É Roberta, e eu acho bom você guardar meu nome — ela falou de forma autoritária outra vez.
—Tá bom, Roberta, eu sou a Natália — a recém chegada respondeu — se incomodar os meus filhos outra vez, vai se ver comigo, entendeu? Vamos, crianças.
—Eu não tenho medo de você — Roberta disse com toda vontade.
Dessa vez, Natália preferiu ignorar a provocação voltando para casa, mas a mulher já a tinha irritado profundamente.
—É, não foi uma boa ideia dar uma volta por aí — Tainara comentou sobre o que tinha acontecido.
—Tem gente que é apenas grosseira e metida — a mãe dela reclamou com raiva — você não fez nada de propósito, né, Lu? E tem certeza que está bem?
—Eu tô mãe, foi um acidente mesmo — seu filho mais novo confirmou — eu só não entendi porque ela ficou tão irritada, eu não destruí o jardim dela coisa nenhuma.
—Eu sei, só vê se fica longe dela, não gostei dela nem um pouco — Natália aconselhou — isso vale pra todo mundo.
—Tá bom, mãe — disseram os filhos, enquanto os irmãos trocaram um olhar que dizia "quem é a maluca que mora aí na frente?".
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