Surf

1 Come Here, lil mama


— Dinheiro ou cartão? — o caixa do mercado perguntou com uma expressão tediosa no rosto, quase tão desinteressado quanto eu.

— Cartão. – respondi, tentando forçar um sorriso de agradecimento, mas tudo o que eu queria era ir para casa, tomar um bom banho e dormir até Jesus Cristo voltar.

Uma parte dentro de mim se entristecia perante tanto tédio e arrependimento, mas o que eu poderia fazer? Eu havia perdido parte do controle da minha própria vida. Quando eu estava em pé queria sentar, quando sentava, queria deitar e quando eu estava acordada, desejava estar dormindo.

Posso estar sendo um pouco dramática, mas tinham vezes em que eu sentia que minha vida era uma tragédia grega dividida por atos.

ATO I — O Auge e a Queda

Em algum dia da minha existência, ouvi que na vida existe um pico de felicidade estável antes dela se estabacar ladeira à baixo. Logo quando escutei, comecei a pensar se meu auge teria acontecido ou não.

Bom, aconteceu. Durante o ensino médio, fui considerada a melhor aluna da escola, ganhei prêmios estaduais como estudante modelo, fui a aluna mais votada na categoria de "estudante com o futuro mais promissor", tinha feito intercâmbio de 2 meses nos Estados Unidos financeado pela escola devido minhas notas avançadas e além de tudo ainda tinha tempo o suficiente para ser capitã das líderes de torcida e campeã de campeonatos regionais de surf, minha verdadeira paixão. Falando sério, eu podia passar o dia todo no mar e não seria capaz de sentir o tempo passar.

A água, sim, era meu verdadeiro lar. Sempre que tinha um minutinho sobrando, corria pra praia.

No último ano eu estava feliz como nunca. Eu passava os fins de semana e cada horário livre surfando e aproveitando tudo ao máximo.

Meu melhor amigo, Lyon, com quem eu tinha um "rolo" na época, vivia reclamando comigo por ser teimosa e ficar até tarde na praia, mas a culpa era dos meus pais por me criarem numa casa perto da praia, ué.

Por mais que Lyon falasse, era pura implicância, pois ele era o primeiro a pular na água pra fazer guerrinha comigo.

Quando o ensino médio finalmente acabou, a forma que usaram para encerrar foi um grande baile... que eu não fui. Eu estava com... bem... melhor falar depois.

Achei que tudo seriam flores, pois havia passado na minha faculdade dos sonhos e seria bióloga marinha, sendo assim ainda teria tempo de surfar o quanto quisesse nas minhas folgas, além de ganhar uma graninha extra nesses mini-torneios.

Mas sabe aquele momento em que tudo está dando TÃO CERTO que você sente que em algum momento tudo o que você demorou para construir e firmar vai se destruir? Foi o que aconteceu comigo.

Contei que Lyon era/é meu melhor amigo, mas minha mãe sempre foi a pessoa em que eu mais confiei em toda a minha vida.

Conversávamos sobre absolutamente tudo desde sempre pois nós tínhamos uma relação super aberta. Ela me entendia sempre e eu sempre a entendia quando ela queria desabafar sobre algo.

Mamãe era tudo o que eu queria ser e tudo o que eu mais amava.

Nunca havia mentido para ela. Uma vez até tentei, no famoso baile de formatura, mas ela conseguia ler todas as minhas expressões e deixou claro para mim que já sabia de tudo sem que eu precisasse sequer abrir minha boca.

Mamãe era minha conselheira, minha maior paixão, minha melhor amiga.

Cerca de 6 meses depois da escola acabar, eu havia começado a faculdade e como planejado, ganhava dinheiro extra dando aula de surf ou de natação na praia.

Um dia, quando já estava recolhendo minhas coisas para voltar para casa e assistir alguma novela mexicana com meus pais, recebo uma ligação de papai. Me pedia para ficar calma e que Lyon iria me buscar onde eu estivesse.

Fiquei apreensiva mas esperei pacientemente. O albino chegou e me abraçou, me olhando com lágrimas nos olhos e tentando me passar confiança. Fiquei confusa e encontrei meu pai chorando no hospital.

O que estava acontecendo?

Perguntei pela minha mãe, como normalmente faria. Ela sempre nos passava força quando visitávamos algum parente no hospital.

O olhar que papai me deu foi o suficiente. Mamãe havia tido uma morte súbita após um mal estar.

Foi ai, exatamente ai que todo o meu mundo foi destruído. Todas as minhas expectativas e perspectivas foram por água abaixo. Tranquei a faculdade pois não tinha forças nem para sair do meu próprio quarto. Desisti de tudo. Que se danassem os diplomas, se minha mãe não estivesse comigo então eles não serviam para nada.

Foi uma época dura, eu tinha acabado de fazer 19 anos e estava totalmente desacreditada.

Com o tempo, voltei a cuidar das minhas coisas, ainda sem a mesma disposição de antes.

Não voltei para a faculdade mas continuei dando aulas de surf porque era a única coisa capaz de me fazer feliz. Isso e Lyon. Ah, e falando nele, nos casamos dois anos depois, quando eu tinha 21.

Eu sei que éramos novos, mas parando para pensar, nos conhecíamos desde os 6 anos de idade e nós nos dávamos super bem. Na época fazia super sentido, sabe? Eu o amava e sei que ele me amava também, então nada podia dar errado.

Lyon trabalhava numa agência publicitária e ele sempre tentava me colocar para cima o máximo que podia, me incentivando a voltar a estudar e conseguir o emprego dos meus sonhos, mas eu estava desacreditava e não conseguia mais ser a mesma Juvia do passado que acreditava que minha vida pós-escola seria semelhante a algum conto de fadas.

Quando engravidei, cerca de 3 ou 4 anos depois, resolvi entrar num emprego com salário fixo para ajudar meu marido, ainda que ele fosse totalmente contra que esse emprego não fosse na minha área.

Para ele, por mais que todo emprego fosse digno, eu havia escolhido telemarketing, trabalho este que depois de um tempo levava os funcionários à loucura devido a tanto stress a que eram submetidos.

Não o ouvi, pois era melhor que nada e naquele ponto eu não pensava em mais nada a não ser no meu filhinho que estava prestes à chegar.

Minha amizade com o Vastia era tão grande que não nos víamos como marido e mulher há um tempo. Nem conseguíamos lembrar mais como era ficar juntos de uma maneira amorosa, se é que me entendem.

Assim que o nosso pequeno Yuki nasceu, nos divorciamos, mas continuamos nos vendo praticamente todos os dias porque o albino era um pai muito presente, morávamos perto um do outro e como continuávamos amigos eu estava sempre à par dos novos relacionamentos que o louco se metia. Após tanto tempo junto de uma garota, Lyon resolveu aproveitar de sua bissexualidade e investir em relacionamentos com pessoas bem mais diferentes de si e aproveitar sua juventude, me incentivando ao mesmo.

Mas eu já não me via daquela forma, sabe?

Era como se o Yuki tivesse sido um presente por todo o mal tempo que eu havia tido depois do falecimento de mamãe. Assim que olhei pros olhos daquele pirralhinho na maternidade já havia lhe prometido que ele era toda a força que me manteria viva.

ATO II — O Convite

— O cartão excedeu o limite, moça. – fui tirada dos meus pensamentos com a voz do cara do caixa novamente.

— Hã. Tudo bem. – peguei minha carteira e dei o dinheiro necessário para que a conta fosse paga, chorando por dentro porque estava tentando economizar aquele valor há semanas.

5 anos haviam se passado desde que tive Yuki e agora eu tinha acabado de completar os tão temidos 30 anos, me tornando mais rabugenta e irritada com tudo à minha volta.

Continuava me matando de trabalhar como operária de telemarketing, passando por várias empresas no decorrer dos anos.

Lyon havia se demitido há cerca de um ano e meio e começado um canal no youtube que estava dando super certo e ele já tinha meio milhão de inscritos que adoravam ver seus reviews sobre os livros que ele lia e sobre fofocas de celebridades ou sei lá. Confesso que não assistia o canal dele sempre porque minha mente estava em um constante looping de "comer, dormir e trabalhar", me impedindo de pensar em qualquer coisa que não tivesse a ver com meu filho.

Falando nele, era exatamente por isso que eu estava no mercado.

Como trabalhava em casa, Lyon era encarregado de cuidar dele no período da manhã. Quando eu largava, o buscava para o levar para a minha.

No dia de hoje, havíamos combinado de fazer um jantar e meu ex marido me pediu para comprar algumas frutas para ele fazer uma vitamina.

O uber me deixou na porta da residência do albino e eu peguei minha chave para entrar. Eu já era de casa.

— Querido, cheguei! – brinquei como costumava fazer quando estava em companhia dele.

— Que susto, mulher! Achei que fosse um sequestrador.

— Claro, porque uma pessoa segurando uma sacola com maçãs é bem intimidante. – ri. – Cadê o amor da minha vida? – chamei por Yuki.

— Mamãe! – ele veio correndo e me abraçou. O levantei no ar com um pouco de dificuldade e fiz carinho nas suas madeixas azuladas como as minhas. Ele estava ficando pesado.

— O papai cuidou bem de você, meu princeso?

— Ele me ajudou com as tarefas da escola e a gente assistiu "Barbie em Vida de Mamãe"! – disse com sua pronúncia atrapalhada.

— "Barbie Em Vida de Mamãe"? – perguntei olhando pro Vastia.

— Ele quis dizer "Barbie em Vida de Sereia" – gargalhou. – Eu continuei te chamando de sereia e ele viu suas fotos de anos atrás, por isso a confusão.

Dei um sorriso pro meu bebezinho e comecei a dar uma sequência de beijos em sua bochecha, resultado em gargalhadas do garotinho.

Algum tempo depois de jantarmos, o pequeno azulado dormia no meu colo, com a cabeça na curvatura do meu pescoço. Eu e Lyon estávamos conversando sobre algumas coisas que ele estava projetando quando de repente pareceu se lembrar de algo.

— Puta que pariu, bicha! – disse dando um pulinho da cadeira.

— Fala baixo, o Yu tá dormindo! – reclamei. – E não fica falando palavrão perto dele, ele é só uma criança.

— Posso falar? – me interrompeu, animado. – Eu lembrei que recebi um e-mail essa manhã e quero que você veja o seu.

— Eu não vou ver coisa nenhuma, meu e-mail só recebe notificação de canal infantil do YouTube. – disse eu.

— Vai, sério! – estendeu meu celular pra que eu o pegasse.

Abri meu gmail sem esperança nenhuma, o máximo de interação que ocorria ali era quando eu precisava confirmar que era eu que havia baixado os jogos da Turma da Mônica e não meu filho.

Corri meus olhos para minha caixa de entrada e me deparo com um texto escrito "FAIRY TAIL REENCONTRO TURMA DE 2007".

— Que diabos...?!

— Vai rolar um baile daqui a um mês lá na escola pra nossa antiga turma se encontrar. – comentou empolgado. – Nós TEMOS que ir. Que saudades da professora Mirajane, e até daquele velhote do Makarov! Já estou pensando no look que nós vamos usar e...

— Hã? Nós? – o interrompi. – Lyon, amore, eu não vou.

— Ué, por que não?

— Você já deu uma olhada na minha vida e na vida de outros ex-alunos? Enquanto todos eles estão vivendo um futuro promissor, eu ganho um salário mínimo por mês e estou com meu filho dormindo no colo enquanto janto com meu ex marido. – constatei o óbvio. – Eu não posso encontrar com essas pessoas. Elas são... superficiais demais e podem acabar me atingindo.

O homem se aproximou e beijou minha testa me dando um abraço e bagunçando meu cabelo carinhosamente.

— Você sabe que tem capacidade pra fazer o que quiser nesse mundo, paixão. – disse, com um tom carinhoso na voz. – Você é inteligente, é carinhosa, é bastante empática, uma mãe incrível e ainda é uma das pessoas mais lindas que já conheci em toda a vida. – consegui sorrir fracamente com os elogios. – Você não precisa da aprovação de ninguém pra se sentir melhor, entendeu?

— Obrigada, Lyon. Você que é demais.

— Disso eu sei. – riu. – Agora podemos planejar seu look?

— Espera, não é porque você disse tudo aquilo que eu decidi ir. Eu ainda não suporto a ideia de encontrar aquele bando de gente falsa. Se eu não fui pro baile na época da formatura, imagina agora. – Yuki soltou um suspiro longo enquanto relaxava nos meus braços.

— Ajudaria se eu te falasse que Gray Fullbuster vai estar lá de novo?

Ah, merda, e lá vamos nós de novo.

Gray Fullbuster era um garoto que estudou comigo por anos e que TALVEZ tenham chances de um ter gostado SÓ UM POUQUINHO dele.

Gray sofria bullying desde o sétimo ano devido ao seu excesso de peso em comparação a outros alunos, o que me fez comprar briga com muita gente, como Natsu Dragneel, por exemplo.

Nem vou perder meu tempo falando muito de Natsu porque nem quero me estressar, mas a verdade é que discutíamos tanto que quase fui parar na secretaria por causa disso.

Lyon costumava me zoar dizendo que eu era apaixonadinha pelo Fullbuster e eu insistia que não porque era muito tímida até pra admitir para mim mesma, mas não era o fato de eu defendê-lo que fazia meu amigo achar que eu tinha sentimentos pelo garoto, e sim todos os olhares que eu lhe lançava e o jeito bobo que eu tinha na frente dele.

Vou admitir: eu gostava muito de Gray Fullbuster. Quer dizer, como não gostar? A lista de prós era muito grande.

1) Ele era super inteligente;

2) Sempre eu que me aproximava, ele ficava vermelhinho como o cabelo de Erza Scarlet, a filha do diretor;

3) Ele gostava de surf tanto quanto eu. Não costumava praticar, mas era muito fã do esporte e às vezes quando ele passava lá na praia no horário em que eu não estava mais dando aula, passávamos horas conversando sobre nossos surfistas preferidos e sobre os campeonatos do momento

4) Eu amava ouvir sua voz rouquinha;

5) Eu tinha vontade de afagar os seus cabelos e sentir o cheirinho do seu shampoo.

— Gray o quê? – engoli em seco a informação.

— Fullbuster, ué. Não reconhece mais o nome do amor da sua vida? – o filho da mãe riu.

— Ele não é o amor da minha vida, tá legal? Ele não se chama Yuki Lockser Vastia, amore.

— Me engana que eu gosto. Vai, me pergunta se eu sei como ele tá porque você sabe que eu conheço todas as fofocas do bairro e eu sei que você tá super curiosa pra saber como ele está. – disparou.

— Ok, como ele está? – tentei esconder a curiosidade mas falhei miseravelmente.

— Ouvi falar que ele saiu da cidade depois que as aulas acabaram e foi morar com a mãe lá na cidade grande. – se referiu assim a cidade porque morávamos mais ou menos no interior – Parece que ele está rico e famoso. Está se preparando para cuidar da empresa da mãe que é responsável por um instituto que salva animais aquáticos e limpa o meio ambiente.

Fiquei boquiaberta.

— Gray sempre foi incrível no final das contas. – abri um sorriso. – É bom ver que ele está passando bem depois de tudo o que aconteceu.

— Arrã. E o que quase aconteceu também, né, amada? – me lançou um olhar malicioso.

Senti meu rosto esquentar.

ATO II.1 — Flashback

Faltando pouco menos de um mês para as aulas acabarem, o demônio do Natsu Dragneel não tinha o que fazer, e resolveu espalhar ódio como de costume.

Assim que os portões se abriram para que as aulas se iniciassem, os alunos se depararam com cartazes com fotos de Gray com legendas de ofensivas, xingando-o de vários formas e até desejando que este morresse.

Tal ato posteriormente gerou uma suspensão leve para o rosado (o que causou minha revolta), mas no momento eu estava preocupada demais para ficar com raiva. Me desesperei e o procurei em todos os lugares, mas nunca mais o moreno foi visto na escola.

Ele fez as provas separado, entregou seus trabalhos e faltou todos eventos antecedendo a formatura.

Eu estava tão revoltada e possessa que resolvi que não iria. Como eu poderia comemorar algo sem que ele estivesse lá para dividir a alegria de não ver mais aqueles babacas comigo? Não dava.

Comentei a situação com Lyon e ele me apoiou com meu plano para vê-lo ao menos uma última vez.

Foi nessa situação que tentei mentir para minha mãe. Eu não sabia qual seria sua reação ao descobrir que eu não queria participar do tão aclamado baile de formatura e fiquei com medo que ela me proibisse de não faltar, sei lá.

Me arrumei toda com as roupas que mamãe tinha comprado há um tempão e tentei ao máximo não me encher de joias, mas mamãe insistiu.

Na hora que eu estava indo embora, ela me deu um abraço apertado.

— Tchau, filha. E boa sorte com o Fullbuster.

Engoli em seco.

— O-O quê?

— Eu sei que você vai para o seu próprio baile, filha. Então boa sorte. – sorriu. – Mas volte antes da meia noite. – alertou.

Deu vontade de dizer "bibit bobt boo", mas não tive outra reação além de sorrir e agradecer.

Lyon me deu uma carona e estacionou na frente da casa do moreno, me desejando sorte e saindo em seguida, dizendo que me ligaria quando fosse me buscar.

Bati na porta e fui atendida por um homem bastante parecido com o garoto que eu esperava ver.

— Hã, boa noite. – fiz uma reverência um pouco desajeitada porque o nervosismo estava me consumindo. – Gray está?

O cara abriu um sorriso.

— Irei chamá-lo. – disse e o fez, gritando pelo nome do garoto que desceu o chamando de pai.

— O que foi? – ouvi a voz rouquinha dele e meu coração palpitou.

— Visita para você. – respondeu, dando de ombros, tentando conter um pouco da sua... animação (?).

— Mas quem poderia ser... – começou a dizer quando me viu na porta e ficou todo vermelhinho do jeito que eu gostava. – Ju-Ju-Juvia?!

— Oi. – não contive um sorriso. – Vim ver como você está. – contei.

— Ah, te mandaram aqui, saquei. – ele balançou a cabeça desanimado.

— Não! – falei rápido porque não queria que ocorresse nenhum mal entendido. – Eu vim te chamar para o baile.

— Desculpa por te decepcionar, Juvia, eu realmente queria poder ir com você, mas eu simplesmente não posso aguentar nenhum momento perto daquelas pessoas. Você me entende? – ele dizia lentamente como se estivesse tomando todo o cuidado do mundo para não me machucar. A este ponto estávamos na varanda da sua casa pois ele tinha fechado a porta pro seu pai não escutar a conversa.

— Você me entendeu mal, Gray. – segurei sua mão. – Vamos fazer nosso próprio baile.

— Como assim? – me olhou confuso.

— Vem comigo. – comecei a lhe puxar.

— Espera, não estou vestido para um baile.

Eu sorri e lhe dei um beijo na bochecha.

— Nós fazemos nossas próprias regras.

O nosso "baile" na verdade foi ir até a orla da praia e admirar o mar, sentindo aquele cheirinho salgado.

Eu, que antes estava toda produzida, estava toda suja de areia e usando o casaco de moletom que Gray havia me dado dizendo que estava ficando frio.

Nós conversamos por horas e horas.

— O que você você vai fazer quando terminar a escola, Gray? – lhe perguntei depois de lhe contar meu plano para o futuro.

— O primeiro deles é deixar essa cidade. – falou com sinceridade. Me senti um pouco triste mas entendia seu lado.

— Aqui é um droga, né? – joguei um pedra para longe.

— Demais. Eu espero conseguir me reerguer quando sair daqui, eu só... preciso ir embora.

— Conheço alguém que ficaria triste em saber disso.

— Ah, qual é. – ele riu. – Ninguém vai sentir a minha falta. Não estou na festa agora e ninguém nem percebeu.

— Tem alguém que vai sentir, sim. – insisti.

— É claro que não tem. – discordou.

— Tem sim! – rebati.

— E quem seria, você? — disse em tom de brincadeira.

— Sim! – falei um pouco mais alto do que pretendia. Gray se calou e ficou vermelho. – D-Digo, eu vou sentir sua falta quando não estiver mais aqui.

— B-Bom, eu vou sentir a sua também. – dizia olhando pra qualquer coisa que não fosse eu.

De repente eu sorri. Me aproximei dele. Meu coração estava acelerado, a vontade de sorrir fazendo com que meus lábios tremessem de ansiedade. Meu rosto queimava de tão vermelho.

— Estamos muito perto agora. – sussurrei, olhando-lhe nos olhos.

— Sim. – sussurrou de volta. – Seus olhos são muito azúis. – constatou. – Me lembra o mar.

— Você tem um sinal debaixo do olho. – consegui enxergar. – É fofo.

— Você é fofa. – disse, diminuindo cada vez mais a distância, mas bem na hora em que estávamos prestes a nos beijar, meu celular tocou.

— Puta que pariu, Lyon! – atendi já na grosseria. – O que foi?

— Ô, sua louca, já vai dar duas da manhã.

— O quê? – olhei o horário do celular e vi que já eram 01:40h da manhã. – Puta merda. – ele avisou que estava chegando em breve.

Envergonhados, eu e Gray nos despedimos formalmente. Ele insistiu que eu ficasse com o seu moletom pois segundo ele estava frio e disse que depois o buscaria.

Antes de entrar no carro do meu futuro ex-marido, lhe dei um abraço apertado e lhe desejei boa sorte em seu futuro.

Ato III — Baile Próprio

Semanas se passaram desde que recebi o e-mail do convite para o reencontro do terceirão e eu decidi sinceramente não ir.

Após um dia em que eu estava prestes a explodir depois de tanta reclamação de cliente, tudo o que eu queria era renovar minhas forças nos braços do meu filhinho. Sorri olhando o papel de parede do celular onde Yuki e eu estávamos sorrindo vestindo roupas parecidas.

Que saudades do meu baby.

Assim que larguei, corri para pegar o ônibus(porque não é todo dia que o Uber tem promoção mais barata que o transporte público) e desci na parada mais próxima da casa de Lyon. Fui andando até lá e já abri a porta chamando meu príncipezinho.

Mal entrei na casa e já fui recebida com um abraço e vários beijinhos na bochecha.

— Mamãe, mamãe, a senhora precisa ver seu vestido!

— Ué, que vestido? – perguntei.

— Mas o Yuki tá ficando fofoqueiro, hein? – Lyon disse.

— E a quem será que ele puxou? – rebati e meu ex estirou a língua. – Que história é essa de vestido?

— Era para ser surpresa mas o Yu fez questão de contar antes da hora. – sorriu pro nosso filho. – Tcharam! Vamos para o baile de reencontro!

— O quê? De jeito nenhum! Não quero encontrar aquele povo de novo. Além disso, quem iria cuidar do Yu?

— Já providenciei tudo. – disse o Vastia.

— Vovó vai cuidar de mim. – Yuki fazia uma dancinha desajeitada. – Ela me disse que ia fazer bolinho de chuva.

Eu já estava ficando sem argumentos.

— Mas... mas eu não quero ir, tá legal?

— Eu sei e respeito tudo o que você decidir, mas antes vou lhe dizer duas palavras que talvez possam te convencer: OPEN BAR.

— Ok, vamos.

Demoraram algumas horas antes de irmos porque Lyon demorava mais que eu pra se arrumar e eu ainda queria curtir um pouco com Yuki porque na noite passada eu estava tão cansada que havia capotado na cama.

O ajudei com a tarefa de casa enquanto meu ex marido decidia entre um terno, dizendo que não havia motivo de pressa porque era deselegante chegar cedo. Ao contrário dele, eu já havia terminado de me ajeitar há algum tempo. Eu sempre era mais rápida que o Vastia nesse quesito. No nosso casamento foi o noivo quem atrasou e não o contrário.

Depois de toda enrolação, o albino enfim ficou pronto e nos despedimos do nosso filho, deixando-o aos cuidados da minha ex-sogra.

Doía meu coração passar uma noite longe do meu baby, mas era necessário, quer dizer, OPEN BAR era exatamente o que eu precisava. Meu maior objetivo era beber até não lembrar meu nome.

Chegamos na escola já gongando toda decoração que víamos. Não nos leve a mal, mas mesmo depois de 12 anos a escola continuava a mesma pobreza. Aqueles enfeites estavam presentes em todas as festas desde que me entendo por gente.

Na faixa de boas vindas eles riscaram o ano de uma turma anterior e colocaram a nossa por cima. Dei uma gargalhada ao constatar aquilo e logo Lyon tratou de gravar e postar no insta. PÉSSIMO DEMAIS!

— Olha lá se não é o Natsu! – apontou. – Menina, quantos anos ele tem, 60? Envelheceu todos os anos de uma vez?

Dei um tapinha no braço do homem ao meu lado para que ele falasse um pouco mais baixo e logo meus olhos focaram no rosado. Quis dar um grito. Se eu achava que estava acabada, deveria dar uma olhada no Dragneel. Não eram nem 22:00h e ele já estava quase vomitando perto da mesa de bebidas.

Quase senti empatia por ele porque eu tinha comparecido com o mesmo objetivo, mas ele havia sido tão babaca no ensino médio que só consegui dar um risinho discreto.

— Oi! – recebi um abraço sem nem ver quem era. – Juvia, como você está?

Sorri falsamente encarando o rosto da pessoa pra tentar focar na lembrança de quem era quando me dei conta que era Wendy e me choquei completamente.

— WENDY, OI! – retribuí a gentileza que ela havia me tratado. – Você cresceu bastante!

Wendy era alguns anos mais nova que o resto da turma pois havia pulado algumas séries. Enquanto a maioria tinha 18 como eu, ela tinha apenas 15. Lembram que eu disse que tinha sido bastante popular naquela época? Wendy era uma das presidentes do meu antigo fã clube.

Eu amargamente com a memória.

— Então, já está sabendo quem confirmou presença hoje?

— Quem? – perguntei com sinceridade porque minha mente só queria pensar em beber, cair e levantar.

— O Gray Fullbuster! Não sabia que ele está famoso?

— Ah, Lyon me falou sobre isso. – constatei.

— Vocês eram próximos no colegial, tem o visto desde então? – essa baixinha estava curiosa até demais pro meu gosto.

— Não, não. Opa. Tenho que ir. – fingi que tinha escutado alguém me chamando e saí caminhando a passos rápidos em direção ao barzinho improvisado no canto do ginásio, quando esbarro nas costas de alguém. – Aí, desculpaaa! – fiz uma reverência rápida e praticamente corri, sendo depois capturada por Erza Scarlet, que queria colocar o papo em dia.

Passei 30 minutos pagando de doida, bem pinguim de Madagascar, sorrindo e acenando. E Lyon sumiu de vez, aquele filho de uma boa mãe.

Quando finalmente cheguei perto das bebidas, não quis saber de mais nada. Olhei pra um lado, olhei pro outro e peguei uma garrafa, tratando de sair do salão para poder beber até o cu fazer bico.

Aqui voltamos a questão inicial: minha ascensão e queda.

Há 12 anos, nunca imaginaria que estaria bebendo uma garrafa de vinho sozinha no reencontro da turma.

Ninguém disse que seria fácil mas puta que pariu, hein.

Comecei a lembrar do que eu era, do que eu queria, do que realmente me tornei.

Quis chamar pela minha mãe, mas a única coisa que eu fiz foi tomar mais um gole e deixar algumas lágrimas escorrerem.

— Com licença, esse lugar está ocupa... – uma voz ligeiramente familiar falou e eu tratei de passar a mão pelo rosto pra disfarçar o choro. – Ei, você está chorando?

Me levantei com um pouco de dificuldade devido ao fato de ter bebido mais que metade da garrafa.

— Claro que não. Eu estava bocejando, são lágrimas de... – encarei seu rosto. – ...sono.

— Juvia! – Gray abriu um sorriso.

— G-Gray! – me desequilibrei e quase caí mas ele me segurou com firmeza. Minha pele parecia queimar com seu toque. – Como... como... como você está? – perguntei, me amaldiçoando mentalmente por estar gaguejando tanto.

— Eu vou bem, e você? – me perguntou com gentileza, soltando meus pulsos devagar para que eu não caísse de novo.

— Eu tento. – fui sincera, abrindo um sorriso nervoso. Nunca pensei que o veria depois de tanto tempo.

— Escuta, sei que é meio do nada, mas não quer sentar e conversar? Faz tanto tempo que saí da cidade que não sei mais de nada.

— Hã, tudo bem. – disse.

— Sério? – sorriu me fazendo derreter toda. – Podemos fazer como 12 anos atrás. Ter nosso próprio baile.

ATO IIII — "Mamãezinha"

— E foi isso que aconteceu na minha vida. – terminei minha história vergonhosa. Eu a contava tanto que parecia aquelas bonecas que tinham falas prontas. Acho que se apertassem minha barriga eu já ia começar a contar tudo.

— Wow. – foi tudo o que ele disse. – Então você é mãe, agora?

— Sério que de tudo o que aconteceu isso foi tudo que você conseguiu absorver? – eu ri lhe batendo de leve enquanto o via tomar outro gole da garrafa de vinho. Estava tão bêbado quanto eu.

— Eu sinto muito, mas só consigo imaginar que você deve ser a mãe mais bonita que já conheci. – falou sério. As bochechas coradas não me deixavam saber se o motivo da vermelhidão era vergonha ou o efeito do álcool.

— Ai, para com isso. – ri, amarrando meu cabelo num coque doido porque estava sem nada para prendê-lo. Fechei os olhos para sentir a brisa.

Estávamos na praia como no dia do baile de formatura. Lyon iria me matar ao ver o estado do vestido mas eu estava nem aí. Eu queria encher a cara e era isso que eu iria fazer.

— E quanto a você, o que você fez?

— Me tornei ambientalista. – falou. – Ajudo algumas ONGs a limpar rios e salvar alguns animais das mãos dos homens.

— Isso é incrível, Gray! – sorri. – Eu sabia que você teria um futuro brilhante.

Ele riu sem graça, bebendo um pouco mais.

— Não acho que isso é motivo pra me orgulhar. – falou mais para ele mesmo que pra mim.

Fiquei calada porque queria respeitar seu momento e porque eu não parava de encarar as feições dele.

Era pleonasmo falar que o moreno havia crescido, porque isso era óbvio. Da última vez que nos encontramos ele tinha 18 anos. Agora ele tinha 30 assim como eu.

Gray tinha um maxilar forte, seu corpo agora era malhado e ele havia deixado seu cabelo crescer um pouco mais, chegando a cair por cima dos olhos. Por mais que estivesse bêbada, ainda conseguia notar sua barba crescendo, ainda que parecesse ter sido retirada há pouco tempo.

— O-O que está olhando? – me perguntou depois de um tempo e eu pude perfeitamente enxergar aquele Gray nerd fofo novamente.

— Nada não. – respondi. – Só estava pensando no meu filho.

— Ah. Sobre isso, você foi com Lyon para festa mesmo que tenham se divorciado?

— Sim, por quê?

— Vocês... ainda têm sentimentos um pelo outro?

— Claro que sim, somos amigos. Mas fora isso não dá. Não conseguíamos mais fazer sexo. Era muito estranho. – sussurrei a última parte.

O moreno me pareceu ligeiramente aliviado.

— Legal que vocês se dão bem. Acho muito maduro.

— Sim, eu não conseguiria viver sem ele. Quer dizer, eu o amava, mas a mamãe aqui não vive sem aquilo. – meu Deus, o que eu estava falando? Alguém tira esse vinho de perto de mim. Não queria que minha vida sexual virasse pauta, mas a presença do Fullbuster estava me afetando. – Então, como vai sua namorada? – eu disse após minutos de silêncio.

— Eu não tenho namorada, Juvia. – riu.

— Desculpa. Namorado?

— Não! – não se aguentou e caiu na gargalhada. – Sem namorado, sem namorada. Solteiro.

— Entendi. – sorri inconscientemente.

— Você lembra da última vez que estivemos aqui? – Ele começou a falar, se aproximando de mim.

— Você diz da vez em que você se aproximou de mim assim? – sorri debochada. – Não lembro muito bem. Sabe que sou mãe agora.

— Mãe, é? – ele entrou no meu jogo, fazendo carinho no meu rosto.

— Isso. Mamãe. – e novamente estávamos tão próximos que sussurrar era o bastante. – Ei, você continua com um sinal debaixo do olho.

— Seus olhos continuam tão azúis quanto o mar. – me disse de volta, terminado sua frase sussurrando no meu ouvido. – Eu quero que você passeie pelo meu corpo como se eu fosse uma prancha de surf.

Foi o suficiente. Começamos a nos beijar. Meu corpo começou a ferver e ao mesmo tempo que o ósculo me aquecia, eu sentia a refrescância do mar me invadir por completo. Nossas respirações descompassadas aos poucos tornavam-se uma só. O tempo passava mas nada mais importava.

Gray passava as mãos pelo meus cabelos, agora soltos, e eu sequer percebi que já estávamos na minha cama. Nos despíamos dando risadas, trocando selinhos e sussurrando algumas palavras de carinho (e outras coisas mais) ao mesmo tempo que nossos lábios dançavam entre si e nossas línguas faziam sua própria coreografia.

— Você é como uma onda. – Gray me disse depois que eu ri do botão de sua camisa ter sido descosturado porque puxei com força.

O beijei antes de continuar a falar.

— Então surfe pelo meu corpo.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.