Supremacia

1 Prefácio


Notas iniciais
Olá, espero que estejam bem!! Um recadinho para aqui em diante: Os capítulos que escreve me passam alguma sensação diferente e sempre escuto uma música para entrar no clima e fazer algo mais emocionante. Por conta disso eu deixarei lincado algumas músicas baseada no sentimento que estou querendo passar. Caso queiram ouvir: https://www.youtube.com/watch?v=kCMafpo-6Io https://www.youtube.com/watch?v=cfLafrC3bHs Espero que gostem do capítulo.

A brisa de um possível outono percorre todo meu corpo como se quisesse me proteger; cobre-me com aconchego desnorteando meus pensamentos caóticos. E mesmo que gélida me recuso a apertar os braços contra mim e transformo tal sensação em calor para talvez assim retomar minha sanidade – Será que enlouqueci ou... morri?

Prefácio

Adaptação. Se adaptar é um grito de guerra contra receios e medos, sair do lugar que está para se encaixar em outro mundo desconhecido, um mundo muitas vezes que se apresenta solitário e caótico. Talvez analisar os motivos que te fazem escolher esse lado possam diminuir essas sensações angustiantes.

— Você está no seu mundo de novo?

Miro surpresa um doce sorriso estampado a minha frente, e isso me acalma um pouco.

— Aklon... – retribuo o sorriso – Desculpa, mas sou tentada a responder com outra pergunta... Não sente também saudade? – fixo o olhar em seus olhos curiosos.

— Bem, eu fiz uma escolha e devo arcar com suas consequências, sendo boas e ruins. Ir embora nunca é fácil quando você tem boas lembranças e ligações fortes (puxa uma cadeira e se senta na minha frente) – Quando fui tirado de meus deveres pensei muito sobre deixar meu povo, meu gentil pai e minha dedicada irmã. Foi doloroso ter de fechar os olhos perante o trono, agradecer pela última vez o reinado que cuidou de mim e ir embora.

– Entendo... – um leve suspiro sai entre meus lábios.

Aklon sempre me trata com gentileza desde que cheguei e por isso é um alivio tê-lo aqui para conversar. Apesar de muitas vezes ter receio em algumas palavras e ações bobas de minha parte, pois ele seria o futuro rei de seu reino.

— Gostaria que todos vocês se sentassem, por favor. Peço desculpas pelo atraso – a voz cansada ecoou por toda a sala e repentinamente todos que estavam em pé começaram a se sentar.

A sala de aula por um momento esteve muito silenciosa.

Eu apenas ouvia a delicada voz de sono de Aklon, ao mesmo tempo em que meus ouvidos ignoravam o ramo da árvore lá de fora que batia incansavelmente em uma das janelas; os pássaros que entoavam uma melodia para despertar outros animais e o extenso campo que lá fora dançava junto ao vento; os alunos discutiam interesses mútuos entre si; havia um chiar rítmico passando pela fresta de uma das enormes janelas da sala.

Enquanto isso, todos os outros do meu grupo estavam em círculo olhando a habilidade de Mika que facilmente é capaz de criar redemoinhos com as mãos.

Meus olhos brevemente trombaram com os da garota de cabelo colorido que me fitava com semblante raivoso e que logo suspirou ao ver Aklon debruçado sobre minha mesa. Foi nesse instante que toda a gritaria entrou em meus ouvidos e acordei do transe.

Ouvi uma risada leve e baixinha atrás de mim, virei-me para olhar.

— Moça, você devia se orgulhar dessa tua capacidade em prestar atenção. Desse jeito vai realmente nos proteger... de você mesma.Só vive no seu mundinho distante.

Vi a pequena se ajeitar na cadeira e um seu livro pairar no ar. Com certeza a física não é normal aqui.

— Annare, você é muito cruel – retrucou irritada a jovem ao meu lado. Seus cabelos longos e dourados brilharam com a luz que adentra pela janela, e por um momento me senti nostálgica por lembrar o sol da Terra.

Agradeci Dunc com a cabeça e sorri sem graça para ela – Sinto muito por não atender suas expectativas, Annare. Só que não estou te obrigando a ter algum tipo de relação comigo. Sei bem que vocês ainda me rejeitam... Eu apenas espero que nenhum de nós se machuque por essa falta de confiança.

Um leve calafrio subiu por todo meu corpo, não é sempre que bato de frente com um deles. Além disso, é exaustante ser deslocada num grupo que sequer escolhi. Preferia estar com Telissa, Gaare e Eren, que apesar de também serem surreais são mais bondosos e não me julgam o tempo todo por estar atrasada em habilidades que nem sei como ter.

— Aklon?! – chamou o professor – Aklon, vamos rapaz. Ajeite-se na sua carteira para começarmos... – agarra firmemente a gola da camisa do garoto com um sorriso desalmado – por...

Aklon pode ser muito perspicaz, mas quando decide cochilar ele com certeza perde todos seus sentidos.

*BAM*

— FAVOR!

Aklon voou como nenhum pássaro jamais voaria e destruiu pelo menos três salas seguidas. Enquanto, todos se assustaram com o vulto destruidor e muitos acharam que seria alguma carteira arremessada com tamanha violência que com certeza teria se desintegrado, o professor caminhou até seu posto naturalmente. Por um incrível acumulo de sorte ninguém se feriu, talvez a pobre bola humana jogada a esmo.

Tsc... – Admiro a agilidade dele para dormir – Iuno se debruça (inconformado) para ver até onde seu amigo fora arremessado.

— AKLON! – Mika bate suas mãos contra a carteira que rapidamente lasca ao meio

Alguns comentários rapidamente tomam conta da sala ao mesmo tempo em que Aklon levantava desorientado e as outras salas tentavam entender o ocorrido.

— Ele deveria ser um pouco menos agressivo...

— Aklon não faria isso por mal...

— Não devíamos estar surpresos...

Confesso que meu maior medo às vezes é estar rodeada por seres incrivelmente fortes e que sequer dosam a força que usarão. Muitos seres que vivem aqui se assemelham fisicamente aos humanos (é curioso que uma parcela não goste de humanos), mas são extraordinários em força física e capacitados a feitos admiráveis.

— Aklon parece bem – os olhos amarelados de Annare aparecem por cima de seu livro flutuante.

Aqui os seres mais fortes são treinados diariamente e testados até o limite.

— Não esperava menos dele – suspira aliviado Iuno.

Só faz alguns meses desde o incidente que me trouxe aqui e ver tantas criaturas espetaculares a cada dia ainda me surpreende. Tudo é surreal desse lado do universo.

— Você tem algum ferimento? – questiona Dunc.

O governo daqui é nomeado como A Ordem, sendo composto por seres quase divinos e que juntos se proclamam Supremacia. Seu regime dura pelo menos três séculos. Eu não entendo bem como podem viver tanto tempo e penso que talvez o receio deles comigo seja justamente pela minha falta de fé no absurdo que é tudo isso.

— Você está bem... – Mika limpa com dificuldade as lágrimas que caem.

Eu, uma humana que sonhou todos os dias com as estranhezas do universo, vivo algo completamente ilógico e complexo. Cada dia aqui é uma nova aprendizagem e muitas vezes me pego pensando que a vida após a morte existe e é esta que vivo.

— Estou bem – sorri de orelha a orelha – Foi um despertar bem desagradável, apenas. Sinto muito pela bagunça e por assustá-los – diz gentilmente reverenciando todos a sua volta.

Meu grupo é conhecido como a nova linhagem, a geração que assumirá após os três séculos de governo da atual Supremacia. Um grupo escolhido a dedo pelas mãos que regem o Universo. E tenho a impressão que ele parou em uma curva de rio quando decidiu me adotar no grupo.

— Fico feliz que esteja bem, Aklon – sorrio enquanto apoio minha cabeça em uma de minhas mãos e admiro a loucura disso tudo.

É uma loucura, não é? A adaptação nunca foi uma palavra tão intensa para mim como está sendo agora.