Suplício
8 Para Cada Beijo, Uma Lágrima
Quando Raquel acordou, a claridade estava incomodando seus olhos. Era cedo e ela havia sido acordada pela luz do sol pois havia dormido com a cortina aberta. Ela achou engraçado, pois ela apenas dormia com a janela aberta quando trazia alguém para a cama, pois ela esquecia de fechá-la, então nesse momento ela despertou completamente e teve consciência total: Marcos havia dormido com ela.
“Puta merda, eu não acredito que fiz isso!” ela pensou, então ela olhou para o lado e Marcos dormir a seu lado. Ela olhou para o outro lado e eram 6h40 da manhã, ela colocou as mãos sobre o rosto e ficou pensando no que havia feito, então ela levou um susto e Marcos acordou num salto quando o telefone de Raquel tocou.
— alô? — ela disse, nem havia olhado no identificador de chamadas quem estava ligando.
— você acredita que o Marcos dormiu fora de casa só de birra? — disse a voz de Lívia do outro lado da linha.
— sério? — foi a única coisa que Raquel conseguiu dizer.
— sim, eu cheguei a tempo e ele nem deu sinal ainda, eu já dormi mas já estou muito eufórica, o dia vai ser muito cheio no banco hoje. Será que eu ligo pra ele ou espero ele chegar em casa pra gente conversar?
— olha Lívia, eu sei lá, eu se fosse você esperaria ele chegar – disse Raquel com a voz baixa.
— é, acho que vou ligar pra ele, eu não vou aguentar esperar. Depois a gente se fala Racks, beijos te amo — ela disse e desligou.
— Lívia? — perguntou Marcos.
— sim, ela quer saber o por que você dormiu fora de casa. — então Raquel colocou as mãos sobre a testa – vamos fingir que nada disso aconteceu? — ela olhou nos olhos de Marcos.
— não dá, foi bom demais pra ser esquecido.
Raquel ficou calada, por alguns instantes, então ela disse.
— vai pra casa, sua noiva está te esperando.
Marcos não disse nada, ele se vestiu e foi embora.
***
— tenho uma proposta pra te fazer amiga – disse Sheila para Sônia.
— sou toda ouvidos.
— eu tenho uma barraquinha num mercado popular aqui que eu trabalho fora dos horários que estou trabalhando na cadeia. É uma barraca de camelô, simples, mas eu tiro uma grana boa por mês, então eu estava pensando em deixar ela na tua responsabilidade. Você mora aqui comigo e abre lá em horário comercial, você quer?
— mas é óbvio! Eu jpa estava muito preocupada mesmo com essa história de arrumar emprego.
— no Brasil é horrível, é um preconceito imenso com ex-presidiários que chega a dar nojo, é por isso que o pessoal sai da cadeia e tem que voltar pro crime. A pessoa pode até sair regenerada, daí tenta recomeçar a vida e não consegue, pra não morrer de fome se obriga a voltar pro crime.
— o que eu fiz pra merecer uma pessoa tão boa como você na minha vida amiga? — disse Sônia.
— eu estou te ajudando por que eu sei que você é inocente, desde o momento em que te vi eu sabia que você é inocente.
— pois é, desde o primeiro dia né. Mas como você teve essa certeza?
— eu trabalho a muito tempo como agente penitenciária amiga, eu sei quem lá dentro é inocente ou não – então Sheila deu um gole em seu café e mudou sem tom de voz – bom, essa foi a parte boa, agora tem a parte chata da conversa.
— meu Deus, eu tenho até medo. O que é?
— está na hora de você saber o que aconteceu com todo aquele povo. Pra poder fazer justiça, você vai ter que estar bem informada – ela então pegou um monte de folhas de dentro de sua bola que estava na cadeira ao lado e colocou sobre a mesa – O banco da Guilhermina vai de vento em poupa. O Pedro ainda trabalha lá e – ela fez uma pequena pausa, então retornou a falar – ele é casado a oito anos, com a Laura.
Sônia ficou sem reação. Ela imaginou que Pedro seguiria sua vida em frente, mas saber que ele havia ficado com Laura a deixava dominada por um sentimento ruim que ela nem sabia que nome dar àquilo.
— filho da mãe, eu sabia que ele nunca tinha acreditado em mim – ela então deu uma suspirada profunda – ele ter se casado com a Laura é a prova final de que ele nunca acreditou em mim, mas eu não fico com raiva dele, eu tenho é pena dele. Ele sempre foi uma vítima daquele bruxa daquela mãe dele e da infeliz da Laura. A Guilhermina ainda faz as merdas achando que está fazendo pelo bem do filho, mas a Laura, aquela desgraçada, essa daí faz as coisas por ser ruim, porque é podre.
— bom, eu acho que antes de qualquer coisa a gente precisa descobrir um podre dessa Laura aí. Descobrir alguma coisa pra gente ter por onde começar.
— é bem isso que eu vou fazer, e via ser agora. Você me empresta seu carro?
— todo seu – disse ela, estendendo a chave em direção a ela.
Sônia saiu e foi até a casa de Laura que Sheila havia passado a ela o endereço. Ela precisaria descobrir algo a respeito de Laura para saber pode onde partir.
***
— achei que já estaria no banco – disse Marcos ao entrar em casa e ver que Lívia havia preparado uma mesa imensa de café da manhã.
— bom dia pra você também meu amor, eu fiz esse café da manhã lindo pra te esperar – disse Lívia sorrindo – eu sei que você deve ter ficado bravo ontem, mas poxa, você sabe o quanto o meu trabalho é importante pra mim, mas você também sabe o quanto você é importante pra mim.
— Lívia, você via pra aquele maldito banco todo dia, o aniversário da sua melhor amiga é só uma vez por ano – Marcos estava seco.
— eu sei meu amor, e por isso hoje mesmo eu vou recompensar. Nós vamos pra uma balada hoje a noite e vamos nos divertir a noite toda e o meu telefone eu vou deixar em casa, prometo! — Lívia então foi em direção ao noivo e beijou-o.
Marcos retribuiu o beijo, porém sua cabeça estava em outro lugar.
— bom, mas eu estou indo pro banco que tenho muita coisa pra resolver hoje. Vou resolver tudo agora a tarde pra estar livre a noite – ela sorriu.
— você não tem jeito né Lívia – então ele também sorriu.
***
Parada do outro lado da rua em frente a mansão de Laura, a mente de Sônia jogou-a para o passado no momento em que ela viu Pedro saindo de casa. Ela apenas o viu de longe, pelo vidro do carro em movimento, mas ela sabia que era ele. Sua mente se lembrou dos momentos felizes que viveram juntos, todo o amor que havia entre eles e por alguns instantes ela se questionou se ainda o amava, porém seu questionamento logo acabou quando ela viu Laura saindo.
Laura não dirigia, então ela foi até a porta de entrada da mansão onde ela estava esperando o motorista vir pegá-la. Ela estava muito bem-vestida e ainda mais linda do que Sônia se lembrava, afinal a beleza de Laura nunca pode ser negada, e na cabeça de Sônia passou a cena completa dela descendo do carro, indo até onde Laura estava, pegando-a pelos cabelos e a espancando ali mesmo, porém esse não era o momento, então ela contentou-se apenas em seguir Laura para ver onde ela iria.
Foi uma viagem completamente inútil, pois Laura não fez nada demais, ela apenas fez compras por horas em um os shoppings da cidade e depois de almoçar voltou para casa. Por volta de meio dia, Sônia voltou frustrada para casa e então Sheila a levou até o camelô e apresentou para ela a peça onde ela trabalharia. Foi fácil para Sônia se adaptar, pois ela já tinha trabalhado como vendedora.
A tarde havia sido movimentada, porém ela notou que havia alguém estranho olhando para ela a tarde toda. Era um homem que ela nunca havia visto na vida, porém ela notou que o homem veio várias vezes durante a tarde, ficava alguns minutos olhando para ela e para a movimentação da loja dela e saia, então ali ela percebeu: ela também estava sendo observada. Até esse momento ela não havia tomado conta que sua vida nunca mais seria a mesma. Era óbvio que ela estava sendo monitorada, então ela precisaria se prevenir mais.
Naquela noite Sônia e Sheila estavam almoçando e então Sônia fez um pedido muito inusitado.
— Sheila, eu preciso de uma arma.
— sério Sônia? — perguntou ela, meio assustada pelo modo como foi abordada.
— eu preciso me defender, tem gente da Laura atrás de mim. Teve um capacho dela hoje eu ficou indo a tarde toda lá na loja ver a movimentação.
— mas armas de fogo não são defensivas, são ofensivas Sônia. Se você quiser uma arma eu te arrumo, mas você tem que estar ciente que elas não são feitas pra defesa, armas são feitas pra matar.
— se esse for o preço, eu pago.
Sheila sabia que Sônia queria se vingar, porém essa era a primeira vez que ela realmente via Sônia dar um passo real em direção a sua vingança.
***
Lívia como havia prometido, chamou Marcos, Pedro e Patrícia e os três foram para uma festa. Ela estava agradabilíssima, ela não havia tocado no nome do banco e nem em Guilhermina e todos ficaram muito felizes, afinal a própria Lívia havia resolvido dar-se uma noite de folga.
Conversa, música, diversão, bebidas e horas e horas… Então, Lívia começou a passar mal e Patrícia levou ela para o banheiro vomitar e Raquel ficou sozinha com Marcos a pedido de Lívia para que ele não ficasse sozinho.
— é a cara da Lívia, eu não sei porque ela bebe se sabe que passa mal – disse Raquel, tentando quebrar o clima pesado que havia ali na mesa, porém ela não olhava para Marcos ao falar com ele.
— vamos fingir até quando que nada aconteceu? — perguntou Marcos.
— mas não aconteceu nada – Raquel ainda estava com a cabeça baixa.
— olha pra mim, fala olhando nos meus olhos.
— chega Marcos, essa conversa não vai acontecer aqui, com a sua noiva a cinco metros de nós vomitando em um banheiro – então ela encarou Marcos.
— que conversa? — disse Patrícia ao chegar na mesa e notar o clima pesado que havia ali.
— é uma surpresa que quero armar pra Lívia – disse Marcos.
— nossa, vocês querem dar uma bomba pra ela? — Patrícia estava realmente consternada vendo aquele clima, ela achou aquilo tudo muito estranho.
— cadê a Lívia? — perguntou Raquel.
— ela acabou de ir embora.
— o que? Como assim embora? — estranhou Marcos.
— ela estava mal e disse que não queria acabar com a festa, então foi embora e disse pra gente ficar – Patrícia então dirigiu-se à Raquel – bom, eu também vou, mas fiquem vocês dois conversando, terminem de organizar a surpresa – então ela sorriu gentilmente para a amiga.
— é a cara da Lívia, sempre arranjando as coisas pros outros. Lívia deveria trabalhar no RH e não como bancária – disparou Marcos.
Patrícia então se despediu e assim que a amiga saiu, Raquel disse que também iria embora.
— isso tudo é medo? — disse Marcos.
— Marcos, não tem necessidade de ficarmos juntos aqui, se não você sabe que a gente vai fazer merda de novo – Raquel realmente não queria ficar sozinha com ele novamente.
— um drinque Raquel, só um e vamos embora. Eu gostaria muito de ficar perto de você novamente.
Raquel então aceitou. Havia algo dentro dela que nutria o mesmo sentimento de anos atrás quando havia conhecido o namorado da amiga. Quando o drinque terminou, Raquel foi ao banheiro. Quando ela saiu do reservado, ela deu de cara com Marcos.
— você tá louco Marcos? — disse ela assustada – isso aqui é um banheiro feminino!
— eu não aguento mais ficar longe de você, não aguento mais! — então ele foi em direção a Raquel e os dois se beijaram.
Raquel afasta Marcos.
— você é noivo da Lívia, eu não posso.
Então ela se virou e saiu.
***
— oi Patrícia, a secretária avisou que você queria falar comigo – disse Raquel ao entrar na sala da colega.
— claro, entre e feche a porta.
Patricia então foi até Raquel e parou na frente dela.
— eu preciso te dar uma coisa – ela disse.
— claro, o que é? — perguntou Raquel, então ela levou uma bofetada na cara que a deixou completamente sem reação.
— como é que você tem coragem de fazer isso, uma podridão dessas contra a Lívia, sua vagabunda! — disparou Patrícia.
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