Suplico que me dê a Morte

1 Suplico que me dê a Morte


Notas iniciais
☞One-shot da série de livros As Crônicas de Gelo e Fogo. ☞Contém spoilers do terceiro livro, A Tormenta de Espadas. ☞Espero que gostem! Por favor, deixem suas impressões nos comentários.

Tudo acontecera há muito tempo. Ela ainda podia sentir o beijo frio do aço em seu pescoço, a dor latejante no couro cabeludo e até mesmo as cócegas causadas pelo sangue que correra em sua face. Lembrava-se de ter gargalhado na situação. Fora um riso tão alto e espontâneo. Mas agora já não ria. Seu coração era pedra e seus sentimentos, pó disperso ao vento.
Ela também tinha lembranças de pessoas. Via, em suas memórias, um homem com raízes no lugar dos pés, brancas como a madeira de um represeiro. Ele não tinha cabeça, ou melhor, esta encontrava-se em suas mãos. O rosto era magro e triste, de cor azulada como gelo. Havia também um lobo ruivo com face de rapaz, e em sua cabeça repousava uma coroa de flechas ensanguentadas. Em suas visões, existiam também duas meninas. Uma era bela, de semblante bondoso e cabelos que eram chamas. Ela estava acorrentada a um pequeno e distorcido leão, que bem merecia provar o sabor da morte. A outra garota era pequena, com presas de lobo onde deveriam haver dentes. Vestia-se como um menino e seu olhar era selvagem. Aparecia sempre portando agulhas, com as quais costurava algo semelhante à pele humana.
Além destes, seus sonhos eram também habitados por dois garotos rodeados por uma lula gigante num mar de sangue. Um deles possuía asas de corvo e voava e escalava por altas torres. Seu rosto era luminoso como o sol do verão, mas, onde deviam estar as pernas, não havia nada. O outro menino era ainda um bebê, embora tivesse a ferocidade de um lobo. Na verdade, ele era ora garoto, ora lobo, e atacava qualquer um que ousasse se aproximar. Por fim, havia uma mulher com asas de morcego, que aparecia apenas por um momento e não mais voltava, e um velho com rabo de peixe, deitado num leito que flutuava em um grande rio. O velho estava ardente de febre, e esta incendiava-lhe o corpo, o leito e o rio.
Todas essas pessoas pertenciam a um passado distante, do qual a terrível senhora participara. Apesar de ver constantemente essas figuras, ela não era capaz de recordar seus nomes, ou onde estavam, ou o que fizeram. Lembrava-se apenas que elas sofreram e que era seu dever dar a devida vingança para os causadores de tantos males.
A Senhora Coração de Pedra era uma criatura movida à vingança. Esta percorria seu peito, como uma serpente faminta por carne de leões, lulas, homens esfolados e fuinhas que viviam em torres gêmeas. Desde o dia em que fora despertada do sono da morte pelo beijo de fogo de um homem feito de relâmpagos, Coração de Pedra sentia apenas ódio e desejo de vingança. Entretanto, sentia, por vezes, cansaço. Estava cansada de não recordar-se totalmente e de ver as coisas por meio de simbolismos. Sua mente ocupava-se apenas do ódio, e era difícil assimilar todas aquelas imagens e memórias dispersas. A Senhora Coração de Pedra sabia que tivera uma outra identidade, da qual recordava-se apenas de ter sido uma truta que nadou e se afogou num mar de dor e que, quando finalmente liberta da vida, fora novamente acorrentada.
A senhora silenciosa não tinha a noção do tempo. Para ela, dias e noites eram os mesmos borrões cinzentos, e seu ofício era unicamente procurar os culpados e enforcá-los. A liberdade da senhora chegaria quando todos estivessem mortos e pendurados em cordas. Porém, o fato foi que a liberdade não chegara. Por muito tempo, Coração de Pedra percorrera diversas regiões, matando vários dos que fizeram mal às pessoas de suas visões. Ela tirara a vida de leões, lulas, homens esfolados e homens das torres. Ela mandara aos infernos a grande fuinha que sentava-se no salão principal em uma de suas duas torres. O rosto decrépito e sem vida jazeu no próprio castelo, pendurado em cordas com outras tantas fuinhas, a sua detestável prole. As entranhas de todos foram cortadas e despejadas em pratos, à maneira de um grande banquete, do qual participariam apenas os corvos e os vermes. Embora muito desejasse, a senhora não havia matado muitos leões, lulas e homens sem pele, pois estes escondiam-se em seus rochedos dourados, fortalezas vermelhas, ilhas e fortes, em regiões imundas e distantes. No entanto, Coração de Pedra permaneceu sua jornada em busca de vingança, percorrendo as Terras do Rio, o Gargalo, o Norte. Neste último, a senhora alcançou o seu livramento definitivo.
...

A liberdade tinha um rosto magro, roupas esfarrapadas e presas caninas no local dos dentes. Na mão portava uma agulha, e seus olhos eram tão ferozes quanto o desejo de vingança da senhora. Esta conheceu-lhe no cair da tarde, quando resolvera aproximar-se do castelo sem a companhia de sua Irmandade sem Bandeiras. Ainda estava muito distante, quando uma figura aproximou-se dela, silenciosa como uma sombra. Era a loba de seus sonhos, a que costurava peles humanas. Com a luz precária de um bando de vagalumes que voavam ao redor, a senhora podia ver tanto o físico quanto o espírito da garota paralisada em sua frente. O corpo dela exalava o odor fétido da vingança, seu coração era uma rocha de ódio e dor e seus olhos eram um mar furioso e negro, embora estivesse submergido em covardia e fraqueza, como notou Coração de Pedra. A menina parecia lutar contra ela própria, suas mãos tremiam e lágrimas resistiam à queda de seus olhos. As gotas salgadas ficaram retidas nos olhos da garota e, assim, a senhora aproximou-se da loba amedrontada.
A Senhora Coração de Pedra estava agora a centímetros de distância do rosto da loba. Elas tinham quase a mesma altura, e o mesmo coração, conforme observara a senhora. A vingança pulsava no coração da garota, e esta sentia agora medo de tal sentimento. A menina temia tornar-se semelhante à senhora, e esta sabia disso pois podia enxergar a alma da loba. Neste instante, as nuvens moveram-se no céu e a pálida luz da lua incidiu sobre as duas figuras. A temível senhora viu a própria imagem refletida nos olhos lacrimosos da garota. Por baixo das lágrimas contidas, estava a Senhora Coração de Pedra. Era uma mulher de olhar cruel, tendo um rosto marcado por arranhões e a garganta aberta. Sua pele era da cor de leite coalhado e seus poucos e frágeis cabelos eram brancos. Mas foi quando deixou de ver o reflexo, e aprofundou-se no negrume do olhar da menina, que a silenciosa senhora lembrou-se por completo, num arrepio de súbito pavor, de quem fora anteriormente. Ela havia sido Catelyn Tully Stark, filha da truta e do morcego, esposa e mãe de lobos. Recordava-se dos nomes: Hoster, Minisa, Brynden, Lysa e Edmure; Eddard, o seu "Ned" Stark, o rei Robb, Sansa e Arya, Brandon e Rickon, os seus filhos. Os seus amados filhos, todos mortos ou perdidos, tudo por culpa dos leões e fuinhas. No entanto, a loba à sua frente observava-lhe, e ela era uma de suas filhas. Arya Stark, a que jamais seria uma dama, a que preferia as armas às agulhas de costura, a mais semelhante aos Stark de Winterfell. Fora por ela que a senhora devastara os Frey, os Lannister, os Bolton e os Greyjoy. Fora por ela e por todos os que sofreram. A todos os que a antiga Catelyn não conseguira proteger, a Senhora Coração de Pedra levara o gosto frio da morte e o calor dos infernos. Mas agora ela estava cansada. E estava com a sua filha.
...

— Arya. — A Senhora Coração de Pedra arranhava as palavras, enquanto seus dedos tocavam a garganta, para que o seco e ruidoso som saísse. — Como sua mãe, eu te faço um último pedido: suplico que me dê a morte.
A loba à sua frente tremia de pavor. As lágrimas já corriam livremente por sua face e seus pêlos da nuca se arrepiaram. Ela ergueu a agulha. Por um momento, Catelyn Tully emergiu das profundezas de Coração de Pedra, e sentiu medo. Seria a sua filha capaz de matá-la? Por outro lado, a morte era o desejo da senhora. Os olhos negros encontraram os opacos. A sua menina tinha medo, mas também tinha coragem. A agulha veio, rápida como uma fera, num golpe certeiro no coração. Este já não era de pedra. O sangue coagulado irrompeu das vestes da senhora e sujou a roupa da garota. Coração de Pedra soltou um arquejo de dor e tombou para a frente, tendo o corpo amparado pelos braços finos de Arya, que chorava copiosamente.
— Estou livre. — A senhora disse, fracamente, num leve e quase imperceptível sorriso.
— Eu também estou. — A menina disse, num sussurro carregado pelo vento, as últimas palavras que a mãe ouviria antes de libertar-se, enfim, para descansar para sempre nos braços da morte.

Notas finais
Se você chegou até aqui, tenha o meu muito obrigado! Então, o que acharam da história? Não deixem de comentar, é sempre bom ouvir o que os leitores têm a dizer.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!