Superstition
10 Capítulo 09: Flowers N' Rifles (Parte I)
Notas iniciais
Antônio foi empurrado contra uma cadeira de ferro e bateu os braços amarrados contra o encosto. Gemeu pela dor repentina e encarou a face resiliente do sargento com suas imensas rugas pálidas. Gotas de suor molhavam a blusa embaixo de seu moletom preto e o latino olhou ao redor. Um ambiente aparentemente hostil e claustrofóbico, sem muita iluminação. Parecia ser uma tenda militar verde, montada em algum lugar nas imediações do aeroporto, ele sabia, vide que não demoraram muito desde que tiraram-no da saleta onde fora trancado.
— Vou te deixar com alguém especial. — A voz irritante do homem sibilou, enquanto ele balançava um pacote familiar nas mãos. — E isso vai ficar comigo.
Era sua encomenda, agora ela estava na posse de terceiros. Toda sua proteção com a droga fora em vão, o Chefão iria arrancar sua cabeça fora.
— Ah qual é, me devolve isso, cara. — Antônio protestou e tombou a cabeça para trás, ainda um pouco tonto pelo golpe que levara antes de ser amarrado. Seu abdômen também doía da briga que tivera dentro da loja no dia anterior. — Eu preciso disso!
— Não mais. — O sargento retrucou, saindo dali e cumprimentando um segundo homem que se aproximava.
Ele tinha o dobro da altura do militar, parecia mais imponente e estava dentro de um terno caro, dava para se notar. Os braços de pele clara foram colocados cruzados na frente do corpo, como se a qualquer momento o indivíduo fizesse um pronunciamento. Antônio não conseguia ver muita coisa, ele havia parado antes de ficar sob a única lâmpada ali dentro. Seu rosto ainda era um mistério para o latino, sendo coberto por um manto de sombra.
— Você sequer deveria estar aqui, rapaz. — A voz grave disparou, fazendo o transportador da droga tremer. — Mas infelizmente se meteu no nosso caminho.
— Eu posso ir embora, basta me desamarrar. — Antônio respondeu atropelando as palavras e tentando se desfazer das amarras, mas tinham sido muito bem feitas. — Nunca mais volto aqui!
— Oh, não. Acho que não entendeu ainda. Esta é uma questão de estado e precisamos de sigilo completo. Você é só um Mula qualquer. Vocês transportam material ilícito, são pagos para isso e depois são descartados de novo. — O indivíduo caminhou vagarosamente até um painel. Sua voz era extremamente persuasiva. Claramente já estava acostumado a discursos. — Porém, dessa vez, seu pagamento será não ter um buraco de bala no meio da testa. Isso, caso coopere conosco.
O moreno rangeu os dentes, pálido, o suor aumentando. Bastou apenas um botão para que todos os outros botões e telões se acendessem em sequência. E tudo ficou claro para o latino. Antônio visualizou o resto da tenda e o painel com inúmeros televisores e equipamentos de ponta. Aquelas pessoas com as quais encontrou dentro do aeroporto apareciam em cantos estratégicos dos monitores. Dois deles eram levados pelo saguão por soldados, enquanto outros três estavam desesperados dentro de uma sala hospitalar velha. E um jazia no chão duro feito pedra.
— Ora, ora. Parece que um já se foi. — Comentou o homem de terno, aproximando o rosto azulado iluminado pelo painel. — Nos poupou o trabalho.
O latino rapidamente reconheceu o homem e franziu a testa.
— Eu conheço você…
— É claro que conhece, todos conhecem. — Vangloriou-se.
— Vo-vocês mataram ele? — Antônio perguntou nervoso, olhando as filmagens em tempo real. — Por que estão fazendo isso? O que estão escondendo aqui?
O homem foi até o jovem e lhe deferiu um soco. O moreno cuspiu sangue e perdeu um pouco dos sentidos, ficando desorientado. Mas conseguia ouvir o que o homem dizia perfeitamente:
— Isso não é da sua conta, seu merda! Eu sou a pessoa que faz as perguntas e você é quem responde todas elas, ok?
— Eu não sei de na-nada. — Engoliu em seco.
O homem sorriu de maneira irônica e aproximou a mão do pescoço de Antônio, pressionando-o. Ele ergueu a cabeça para cima, os olhos quase apagados encarando a feição séria do engravatado.
— Você esteve com eles, não esteve? Então você sabe alguma coisa. Apenas coopere. — Murmurou, apertando a mãos ao redor da garganta do latino, que sentia os anéis comprimindo-a. Os olhos se irritam imediatamente e Antônio se contorceu na cadeira.
O homem teve vontade de estourá-lo ali mesmo. Um soldado interrompeu o momento entrando na tenda de repente.
— Senhor?
— O que você quer? — Largou o pescoço do Mula assim que o soldado viu a cena, se recompondo. — Espero que traga boas notícias.
— Está tudo seguindo bem com a operação e o Sargento está trazendo a garota, como pediu.
— Ótimo! Chegou o momento que tanto aguardei. — O engravatado comentou, virando-se e observando o latino lhe encarando.
Sorriu de canto, arrumando a gravata.
— Por enquanto, você não será útil.
— O quê? Não, não! Eu posso ajudar! — Antônio se debateu. — Posso falar tudo o que vi! — Seus olhos ficaram marejados, ele engasgava na própria saliva.
— Me poupe dos seus lamentos!
A última coisa que o moreno viu, foi o Sargento arrastar alguém para dentro da tenda. Então, Antônio sentiu um gosto amargo na boca e seu rosto ardeu fortemente. Tudo ao seu redor girou antes de sua visão apagar.
XXXXX
Astrid era levada aos tropeços sob a guarda de dois soldados corpulentos. Por sua vez, os que carregavam Cisco pareciam mais altos e mais fortes. O engenheiro tentava se soltar dando trancos como podia, mas ele também estava imobilizado, assim como a lutadora. Os dois tinham uma espécie de algema nos pulsos, enquanto seguiam até o final de um saguão. Astrid reconhecia aquele percurso, eles estavam prestes a voltar ao local onde Randy quase se afogou.
O galpão hospital fedia muito mais do que antes e tinha vestígios de cacos de vidro espalhados por todo o chão de cimento. Cisco observava ao seu redor, tentando imaginar o que eles tinham em mente, e que talvez com sorte, estivessem indo de encontro ao outro grupo. Ele estava bastante agitado, diferente das sensações as quais estava acostumado, queria saber se todos estavam bem. Se Louis estava bem, principalmente.
A cena que ficou grudada na sua cabeça de Laura sendo degolada e Nate sendo triturado, lhe deixava nervoso. E se ele tivesse como ajudar a deter aquela sentença? Lembrou-se de Lucky citar o Protocolo Argo, Cisco sabia do que se tratava e já tinha cogitado algum plano para conseguir contato com o mundo exterior, mas depois da confusão com os militares invadindo o aeroporto, esquecera completamente. Ele precisava fazer algo a respeito, só assim obteriam a ajuda que tanto almejavam.
Agora a ideia voltava a pairar e deu o estalo mental que ele precisava. O engenheiro parou de apresentar resistência, enquanto mantinha contato visual com Astrid, que parecia confusa. Cisco vez ou outra movia os lábios, mas os soldados intervinham com empurrões, pedindo que eles fossem mais rápido.
— Diga a eles que eu tenho uma ideia, vou tentar nos tirar dessa. — Sussurrou.
— O que vai fazer? — Astrid movia os lábios com dificuldade, para que não fosse pega.
— Confie em mim, acredito que possa dar certo. Mas antes, vou precisar da sua ajuda com eles. — O engenheiro acenou com a cabeça para os soldados e, entendendo o recado, Astrid assentiu. — Quando chegar a hora, vai saber o que fazer.
A lutadora respirou fundo e ao menor sinal de Cisco, por um descuido dos militares, ela moveu-se rapidamente para baixo. Num movimento circular, livrou-se de uma das mãos dos soldados. A loira virou o corpo de maneira hábil, ficando de frente para o militar. Com o pouco espaço que se abriu, Astrid acertou uma joelhada contra as partes baixas dele, que urrou.
Um segundo soldado percebeu e tentou segurá-la. Mesmo com as duas mãos imobilizadas, ela lhe chutou o joelho. Ela nunca mais deixaria que um homem lhe botasse medo.
Os outros dois soldados ficaram alerta para a cena, pronto para detê-la. Um deles, o mais corpulento, chegou por trás e passou os dois braços ao redor dos seus, prendendo-a. A sua arma ficou pendurada. Ele levantou Astrid no ar, mas a loira sabia exatamente como conduzir a luta corporal ao seu favor. Ergueu as pernas e envolveu-as na cabeça do soldado que levantava tonto, fazendo-o perder sua arma e jogando-o para o lado sem chances de pegá-la de volta.
O corpulento levou Astrid ao chão com o solavanco. Cisco estava apenas com um dos homens e ele apontava a arma na direção da sua cabeça.
Só teria uma chance.
O engenheiro aproveitou uma mínima distração e começou a correr na direção contrária, para fora do galpão sem olhar para trás. Sem olhar para Astrid e sem saber se levaria tiros suficientes para se tornar uma peneira-humana. Ele ouviu os estampidos seguintes, suando frio e sentindo o coração prestes a saltar de sua goela. Eram os militares disparando.
De repente, uma das balas passou raspando em seu braço, arrancando-lhe um grito de susto. Cisco sabia que ainda havia Louis antes dele na lista, de modo que ficou aliviado quando os outros disparos não o atingiram. Isso significa que o Louis ainda está vivo, certo?
Ele não sabia se o plano funcionaria, mas agradeceu Astrid por ter aberto caminho. Ele só precisaria se soltar das algemas e encontrar o que procurava.
A lutadora foi jogada ao chão pela segunda vez, desta vez de bruços, batendo seu rosto com força no piso. Urrou, a testa encharcada de suor. Ela continuou oferecendo resistência, mas fora imobilizada mais uma vez. O soldado correu atrás de Cisco e continuou a atirar por alguns metros, mas acabou perdendo-o de vista no meio dos escombros.
— O filho da puta fugiu! — Berrou para os companheiros, baixando a arma frustrado.
— Fudeu, o chefe vai nos matar!
— De qualquer jeito, precisamos avisá-lo. Aquele lá se machucou, ele não vai muito longe. — Retrucou.
Fique bem, Cisco… Todos confiamos em você, pensou Astrid, sentindo uma forte dor em seu maxilar.
— Essa daqui é durona hein! — Comentou um dos soldados, torcendo os braços da mulher para trás, ao mesmo tempo em que carregava-a. — São as minhas preferidas.
— Quem sabe o Sargento deixa ela pra gente. — O outro acompanhou e deu uma risada.
Astrid rangeu os dentes e xingou todos eles em russo. Infelizmente, por dentro estava apavorada.
XXXXX
A porta da sala hospitalar se abriu num rompante, assustando seus ocupantes.
Astrid foi jogada lá dentro. A lutadora caiu sobre os cotovelos e apoiou-se para levantar, amaldiçoando aqueles ogros. Reclamou que seu corpo doía, ela não estava em suas melhores condições, sentindo-se esgotada. Rapidamente Tami correu para ajudá-la a ficar de pé e Astrid agradeceu com um aceno. A porta atrás de si fechou de maneira abrupta e Lucky andou apressado até lá, batendo com força por repetidas vezes.
— Não adianta, eles não vão nos tirar daqui. — Tami proferiu desanimada. — No mínimo, estão apenas esperando a hora de nos exterminar.
O jornalista concordou com a afirmativa. Eles deveriam ter se conformado com a sentença, mas insistiam em ir contra o governo porque no fundo, sabiam que não poderiam viver sob suas rédeas. E em breve seriam livres, o sistema não os controlaria, não se dependesse dele. Em meio às reflexões, notou algo estranho, haviam poucos deles ali.
— Onde estão Jane e Cisco? — Perguntou.
— A Jane foi separada da gente, levaram para sei lá onde, e o Cisco estava comigo, mas conseguiu fugir. Ele disse que tinha um plano. — Astrid respondeu, convicta. — Vamos confiar nele, ele parecia saber o que fazer.
A mulher estranhou que Lucky não tenha esboçado nenhuma reação. Ele apenas ficou estoico, os olhos fixos no nada. Sentou no chão da sala, escorando na parede e tombou a cabeça para trás. Astrid ficou confusa a princípio, mas logo encarou os outros dois. Tami e Randy tinham os olhares cabisbaixos, abatidos e ela sentiu falta de mais alguém.
— Louis, onde ele está? Ele pode estar correndo peri-
A loira interrompeu a si mesma quando surgiu um saco plástico cinza em seu campo de visão, escondido num canto escuro do cômodo. Lançou um breve olhar para Tami e a garota tinha os olhos marejados. No primeiro momento, Astrid não queria acreditar que mais um deles pudesse ter morrido. Deveria haver um jeito de saírem com vida daquele lugar, mas a cada dia que se passava, estava mais difícil de crer na redenção.
A lutadora caiu de joelhos e foi abraçada pela professora, que deitou a cabeça em seu ombro. Tami fungava, enquanto Astrid encarava a exaustão de Lucky. Ficou tentada a perguntar:
— Agora que o Louis se foi, sobraram três… Certo? — Vendo o visionário assentir, prosseguiu: — Eu, você e o Cisco. Apenas nós três… Será que ainda temos chances? Será que não dá pra deter a lista e escaparmos da morte? Perdemos essa luta, Lucky?
Lucky refletiu. Conseguia sentir o impacto de cada palavra proferida por ela.
— Sinceramente, eu não sei. — Negou com a cabeça. — Tem a teoria de que alternando a ordem de mortes, possa quebrar o padrão, mas não sabemos se funcionaria na prática. Nate não foi tão longe e ninguém precisa se sacrificar, porque ninguém merece morrer!
— Eu concordo com o Lucky, tem que ter outra alternativa. — Randy comentou sério, encarando o grupo. — Matar um de nós não é uma solução.
Astrid ouvia tudo de olhos fechados, assim ela se concentraria melhor e evitaria explodir sem necessidade. Seus nervos estavam à flor da pele e entendia que seus companheiros não tinham culpa nisso.
— Supondo que Lucky é o último da lista, quem é o próximo? Astrid ou Cisco? — Indagou o policial.
— Me desculpem, mas agora não consigo lembrar. Me deem alguns minutos e responderei com exatidão.
Como se uma lâmpada se acendesse sobre a cabeça da loira, ela disparou:
— E se inseríssemos alguém na nossa lista?
— Não entendi. — Tami retrucou.
— Se matássemos alguém que a morte não espera levar, mas que não fosse nenhum de nós? — A loira parecia confiante na ideia, havia certa empolgação na voz. — Por exemplo, o Sargento? Ele iria antes da gente e poderia quebrar o padrão.
— Será que funciona? — Randy começou a andar lá e cá na sala.
— Só vamos saber se tentarmos.
XXXXX
Cisco via o sangue escorrer pelo braço e pingar no piso. Várias gotas rubras faziam trilha pelo chão, graças ao ferimento feito pela bala que quase fodeu seu músculo. Não adiantou ele tentar estancar com a própria mão. Na hora que a adrenalina encheu seu corpo, ele só pensava em fugir dos militares. Decerto, precisava de algo mais resistente que pudesse amarrar que não fosse sua única blusa.
Fazia cinco minutos que perambulava pelos saguões e corredores, completamente afoito, ele não tinha tempo a perder. Não ligava verdadeiramente para o ferimento no braço, na sua cabeça a única coisa que lhe restava era executar seu plano de por o Protocolo Argo em prática. Era a última esperança de saírem do Amelia Earhart com vida.
— De qualquer jeito, você como nosso engenheiro principal, irá dar um jeito de deixar o mundo do lado de fora saber que estamos aqui. — Retumbou a voz de Tami dentro da sua mente.
Encorajado a prosseguir, empurrou mais uma porta e entrou ofegante, ouvindo-a ranger. Uma nuvem de poeira irritou seu nariz e Cisco espirrou. Olhou rapidamente em volta, seus olhos brilharam e um pequeno sorriso surgiu nos lábios rachados pela desidratação. Sua barriga roncou pela enésima vez. Finalmente ele havia encontrado a Sala de Comunicações, não tão afetada de maneira direta pelas explosões ou desmoronamentos. Ela era bastante parecida com a Sala de Comando, mas suas aparelhagens eram mais sofisticadas. Porém, poucos equipamentos funcionavam ou alimentavam-se da energia escassa fornecida pelo gerador.
E era trabalho para Cisco, fazer aquele lugar funcionar. Assim, transmitiriam a mensagem sobre o que acontecia de fato dentro do aeroporto, e enfim, desmascarar todo a conspiração do governo.
Não seria fácil e levaria certo tempo, mas o engenheiro ambiental acreditava que era possível. Embora não fosse sua área específica de atuação, seus anos de experiência recluso na plataforma foram de extrema importância para seu aprendizado sobre aquele tipo de tecnologia. Pelo menos, sofrer com a reclusão teve suas vantagens.
Cisco arrumou o óculos sobre o nariz e ligou todos os interruptores possíveis dentro da sala. Algumas luzes vermelhas e azuis se acenderam em pontos estratégicos. Depois disso, o homem começou a vasculhar os cabos dos computadores e servidores locais. Primeiro, ele verificaria se não havia nada que impedisse a rede de funcionar corretamente.
Enfiou-se debaixo da grande bancada que abrigava os aparelhos e encarou o braço sangrando. Até olhar para o lado e avistar uma vestimenta rasgada com um símbolo verde fora de seu campo de visão. Puxou o tecido e fez um curativo rápido ao redor do membro machucado, capaz de estancar o sangramento. Suspirou e passou o pulso na testa, limpando o suor. O óculos do engenheiro ficou embaçado e ele resolveu tirá-lo para limpar as lentes.
Cisco não notou, mas através da porta entreaberta, era possível ver um drone se aproximando bem devagar.
XXXXX
Como um bicho entrando numa gaiola, Jane encolheu os ombros acuada. Por sua vez, sabia que estava em uma gaiola desde o começo.
Os cabelos escuros e úmidos já estavam soltos, cobrindo parcialmente o rosto. Ainda mantinha uma posição de ataque, pronta para se proteger. No entanto, assim que o Sargento Hilligan soltou-a, ela se jogou para um canto da tenda e observou o local com minúcia. Uma lâmpada balançou no final e ela pôde ver alguém desacordado embaixo da luz, babando sangue no próprio colo. Era Antônio. Jane arregalou os olhos e entreolhou-se com o Sargento. Uma onda de eletricidade desceu sua espinha.
Não havia nenhum sinal de consciência, mas notou a respiração do latino. Ele estava vivo.
Jane virou, decidida a não olhar mais na cara do homem carrancudo e ficou de frente para a parede verde da tenda. Um belo quadro chamou sua atenção e fez a oriental se distrair por algum tempo. Ele tinha as mesmas características dos quadros que encontrara enfileirados no escritório subterrâneo no outro dia. Este também era assinado pela alcunha de Jun Kobayashi e mostrava um avião imponente alçando voo na pista de decolagem do aeroporto, no que parecia ser o amanhecer pelos tons amenos transitando entre o rosado e o azulado.
Jane sentiu-se em paz por míseros segundos. Não era a primeira vez que os quadros traziam uma estranha familiaridade.
— Sabia que você iria gostar. — Uma voz firme ecoou pela tenda. — Eu também gosto bastante desse, talvez seja meu favorito dentre todos.
Jane assustou-se e olhou para a entrada. Viu Hilligan sair de fininho, enquanto dava passagem para um homem mais alto e de terno azul-marinho, que entrou. Posicionado ao lado do painel de monitores acesos, encarou a face trêmula de Jane. A jovem cerrou os punhos instintivamente e afastou-se. Ao vê-lo, uma sensação horrível tomou conta de cada centímetro de músculo que ela possuía. Aonde poderia ter visto aquelas feições e aquela voz sinistra? Na TV, presumiu.
Desta vez, o homem de meia-idade e mechas grisalhas invadindo os cabelos negros abriu um sorriso sórdido. Tinha algo naquele sorriso que fazia Jane sentir vontade de estraçalha-lo.
— Quem é você e o que quer comigo?! — Ela berrou.
— Oh, você realmente não se lembra... — Constatou ele fascinado. Os olhos estreitos pareciam brilhar com a informação. — Me desculpe por tê-la feito esperar tanto, demorou até que descobrissem que era você quem estava entre os sobreviventes.
— Do que tá falando? — A andarilha franziu. — Me deixa ir embora!
— Creio que isso não seja possível.
Jane não conseguiu evitar que os flashes de memória tomassem posse de sua mente. Ela voltava aos poucos. Agora, Jane via novamente a garotinha se afogar, os braços batendo na água, as bolhas se formando, o som distorcido dos gritos e a voz masculina entoar uma canção. A oriental quis gritar como a garotinha, mas sua voz não saía.
De repente, a cena mudou, enquanto uma melodia transformava a tormenta em doçura. De longe, Jane via a mesma garotinha que se afogou, sentada em um banco, de frente para um piano. Uma mulher bonita estava ao lado da menina, uma versão sua mais madura, tocando sua mão. Ela pedia que a garota tentasse realizar as mesmas notas, mas a menininha chorou, reclamando da dor em seus dedos. A mulher, que provavelmente era sua mãe, a abraçou com muita ternura. Jane emocionou-se com a cena, mas sequer moveu o rosto para expressar-se quando percebeu as marcas nos dedos da pequena. Não eram calos, pareciam mais queimaduras.
Gentil e delicadamente, a mulher chamou a garota e apontou para a parede. Atrás do piano, dois quadros, lado a lado, pareciam se completar. Era um retrato pintado a mão de quatro pessoas em um jardim, diante do que parecia ser um templo japonês. Era primavera? Tudo na cena era familiar, inclusive o próprio templo.
Aquela era sua família? Jane finalmente tinha lembrado?
Então, os flashes se tornaram inconstantes e a oriental sentiu uma dor insuportável em diversas partes do corpo, como se fosse atingida a todo momento por algo pesado. O peso vinha em seus braços, seu dorso, suas pernas e em sua face. Ela gritou mais uma vez e uma voz masculina entoando a mesma canção assustadora de antes dentro de sua cabeça.
No entanto, Jane não via nada de longe, era ela naquele corpo sentindo a dor. Seus braços e pernas recheados de hematomas estavam maiores e mais desenvolvidos. Ela era uma adolescente? O pingente com a letra “J” chacoalhou e ela viu a figura monstruosa lhe deferir um soco violentamente. Mesmo em pensamento, foi capaz de senti-lo. Aquelas eram as lembranças mais vívidas que já tivera.
Enquanto delirava com a tontura, Jane gravou aquele rosto. Ela nunca o esqueceria. O quadro, a banheira, a voz grave cantando a canção…
Eeny, meeny, miny, moe
Catch the Doe by the toe
Doe. Jane Doe. Havia esquecido o rosto por todo esse tempo, seria muito melhor se continuasse assim. Contudo, o maior medo da andarilha acabara de se materializar. O homem de terno diante dela era o monstro de quem Jane fugia, antes de perder a memória.
XXXXX
— O que tá procurando? — Tami perguntou, tocando o ombro de Astrid.
A mulher estava eufórica, revirando a sala. Ela não fazia questão de manter contato visual, permanecia de costas, vasculhando estantes e gavetas. Principalmente porque o corpo de Louis estava apenas há poucos metros dela, embaixo do plástico. Dar de cara com um defunto que fazia parte do grupo era a última coisa que ela desejava.
Infelizmente, tudo vazio. Bufou.
— Se nós vamos matar o Sargento, precisamos ter como fazer isso primeiro. — Respondeu, séria. — Maldita hora em que o Nate roubou a pistola do Randy!
— E ironicamente, foi ela que causou sua morte. — O policial comentou de forma casual. Deu de ombros, enfiando as mãos no bolso da calça e afastando-se.
— Para Astrid, isso não vai funcionar! — Lucky pediu, sentado na mesma posição em que estava há alguns minutos. — Não tem como colocá-lo na lista.
— Eu quero e vou tentar! Se não estiver disposto a fazer isso pelo grupo… Não tem problema, eu faço! — A loira olhou por cima dos ombros. — Acho que sou capaz de matá-lo.
Tami não sabia como reagir e entreolhou-se com Randy, preocupada. O homem da lei franziu e sacudiu os ombros em sinal de impotência.
— Para e ouve o que você está dizendo, Astrid! — Lucky interveio, levantando e sacudindo as roupas. — Isso é perigoso, não se pode agir por impulso.
— Chega, estou cansada de ouvir o que posso ou o que não posso fazer! — Astrid replicou. — Estou fazendo isso por nós, Lucky, por nós! — Por consequência, o tom de voz da lutadora subiu. — Não está fácil pra ninguém, eu compreendo, mas não me impeça de me importar com nossa sobrevivência!
Lucky viu seus olhos irritados e vermelhos. Mesmo que achasse a atitude um pouco extrema, ele entendia completamente o que era estar sendo pressionado pelo clima claustrofóbico dentro do aeroporto. Alex, Nate, Louis… Todos eles tiveram dificuldades para se manterem estáveis perante os ocorridos, mas Astrid era a última pessoa que ele pensou ceder à pressão. Ela era tão forte e ao mesmo tempo tão destemida, parecia não ter medo de nada. Arrastava tudo o que via pela frente, defendendo os companheiros com unhas e dentes. Talvez seja isso mesmo, Astrid está nos defendendo com sua artilharia emocional, pensou.
Em silêncio e surpreendendo-a, o jornalista envolveu-a com um abraço apertado. Ele sentiu o coração da russa desacelerar. Astrid teve uma boa surpresa e fechou os olhos. Tami viu a lágrima da mulher molhar o peito de Lucky.
— Me desculpa. — Ela murmurou. — Eu queria gritar desse jeito faz um tempão.
O moreno riu.
— Ok, nós vamos te ajudar.
Astrid se deixou desfazer o abraço e fitou o trio. Limpou a última lágrima que descia.
— Saiba que você não está sozinha nessa. — Tami tocou sua mão.
Atrás da professora, Randy assentiu. Lucky, por sua vez, encheu o peito e disparou:
— Alguém aí pediu uma equipe de operações especiais?
Tami ergueu o braço, corada.
XXXXX
Desta vez, o quarteto começou a vasculhar junto toda a sala e suas ampliações, em busca de algo que pudessem utilizar no plano. Astrid e Tami ficaram com a parte leste e os rapazes com a ala oeste, onde situava um centro cirúrgico desativado, parte da área onde outrora eles haviam encontrado as cinzas dos soldados que participaram do experimento décadas atrás. O local fora esvaziado antes dos confinados serem jogados lá dentro, de modo era difícil encontrar o que servisse de verdade.
Randy tropeçou em um móvel metálico e ouviu um ruído oco. Abaixou-se e deu leves batidas na parede atrás do móvel. O som oco vinha dali.
— É uma parede falsa. — Ele comemorou. — Deve ter alguma coisa aqui atrás, me ajuda Lucky!
O jornalista assim o fez e os dois removeram o bloco que tapava o buraco do compartimento de pouquíssimo diâmetro. Lucky enfiou a mão e apalpou, sem ter noção do que o recepcionaria.
— Hoje é nosso dia de sorte! — Ele puxou alguns papéis e algo parecido com um pequeno caderno veio junto, caindo no chão. — Tem algumas fotos antigas enumeradas, uns relatórios, arquivos médicos… Ao que tudo indica, esse material também faz parte do experimento bizarro do governo.
Randy apanhou o objeto que caíra e o analisou rapidamente, retirando toda a poeira e migalhas de concreto do caderno.
— É um diário, pertence a um tal de Abraham Wippler.
O nome chamou a atenção do jornalista, que imediatamente pediu ao policial que lhe repassasse, enquanto o homem conferia os outros itens.
— Tem certeza que é esse o nome?
— Claro, tá no verso. Por que, você o conhece?
A espinha de Lucky gelou e um calafrio o fez tremer.
— Sim, ele foi meu mentor na faculdade.
XXXXX
Seis anos antes
Lucky fechou o notebook e o guardou de maneira ágil dentro da mochila preta pousada na cadeira ao lado. Estava sentado na mesa do canto de um restaurante qualquer do Cairo, Egito, e passou a observar o ambiente, vez ou outra bebericando sua água. Visitava o país graças a um programa de expedição realizado pela universidade onde estudava, do seu curso de jornalismo. Eram ele e mais outro doze alunos, somando com dois professores supervisionando-os.
A alguns metros de sua mesa, um homem da terceira idade se aproximava em uma cadeira de rodas, sendo guiado por uma mulher que julgou ser sua enfermeira. Ele olhava diretamente para Lucky, intrigado, e acenou quando o rapaz o notou.
— Não estou atrasado, estou? — O velho sorriu, mostrando seus dentes pequenos e amarelados.
— De maneira alguma. Sr. Wippler.
— Meu caro Lucky, quantas vezes preciso repetir que pode me chamar só de Abraham? — Repreendeu o senhor.
— Desculpe, é o costume. — Ele deu de ombros, rindo desconcertado. — Não imaginava encontrá-lo por aqui.
Abraham Wippler era um homem de mais de oitenta anos. E no auge de sua velhice, ele parecia mais vivo do que nunca, embora a grande cicatriz no rosto sobre suas inúmeras rugas e marcas de expressão evidenciasse que havia passado por muita coisa em seus anos de vida. A cadeira de rodas era só mais uma evidência da persistência do jornalista veterano, com seus prêmios e sua duradoura carreira. Ele tinha grande cabelos grisalhos que quase iam até os ombros, uma barba carregada também dominada pelo tempo e feições de quem viu muita coisa ruim acontecer. Lucky era fascinado pela sua bagagem teórica e um fã de carteirinha. Sabia pouco de seu passado, mas o suficiente para vê-lo como alguém de importância insubestimável. Tê-lo como professor por um ano durante a faculdade foi como um presente, uma experiência única. E desde então, o homem tornou-se seu grande mentor de pesquisas.
— Pode até parecer, mas não estou aqui como um velho turista visitando as pirâmides. A realidade é árdua demais para me dar esse privilégio. — O senhor comentou com sua voz rouca e falha, olhando brevemente pela vidraça do restaurante. — O trabalho me chamou, e enfim, estou aqui como um mero palestrante.
— Entendo. — Lucky concordou. — De qualquer forma, foi uma grata surpresa quando me convidou para este jantar.
— Não seja bobo, eu já sabia que você viria. — Wippler comentou baixinho, como se não quisesse que a enfermeira ouvisse. A mulher se afastou até o balcão do estabelecimento, deixando-os à sós.
Lucky riu.
— Presumi.
— Digamos que meu faro jornalístico me trouxe até você. — O velho piscou e voltou a encostar na cadeira de rodas. — É sua última viagem antes do trabalho de conclusão, correto?
— Isso mesmo, estou quase no fim. — O universitário comentou, bebendo o último gole de sua água.
Abraham contorceu-e no assento, como se tivesse sentido um calafrio brusco com a fala do rapaz.
— Está tudo bem? — Lucky interveio, levantando rapidamente de sua cadeira e indo no amparo do homem a sua frente. O veterano recuperou-se e meneou positivamente.
— Foi só um susto. E então, vamos jantar?
Mesmo dizendo que ficara tudo bem, Lucky se sentiu extremamente desconfortável durante o resto da noite. Wippler ficou estranho depois do que houve, agindo de maneira calculada, dizendo coisas específicas demais sobre a vida e sobre como o estudante deveria aproveitá-la, que coisas poderiam escapar entre nossos dedos sem que pudéssemos fazer nada. Ele sempre fora uma pessoa misteriosa demais e o faro jornalístico de Lucky nunca falhou perante o mentor. Tinham muitos segredos escondidos por trás daquele semblante consumido pelo tempo.
Lucky voltou ao seu hotel depois de algumas horas. Era uma noite quente e amena, de modo que o estudante estava na varanda trajando apenas um pijama de moletom cinza, apreciando a vista para o deserto. Ele deixou que o vento lhe acolhesse e fechou os olhos, sentindo a textura dos grãos de areia baterem contra seu rosto.
Sentiu um cheiro estranho no ar, mas ignorou, talvez viesse da área externa do hotel lá embaixo.
Era quase meia-noite, quando seu celular tocou em cima da mesinha do quarto. Deveria ser um de seus colegas. Todos haviam saído para uma festa e Lucky possivelmente era a única pessoa sóbria àquela noite.
Lucky caminhou, coçando os olhos. O sono havia chegado.
— Alô? — Atendeu.
— Lucky?
A princípio, o universitário estranhara, pois era a voz uma voz rouca e diferente de qualquer outra de seus colegas. Pertencia a Abraham e ele parecia nervoso.
— Lucky? Consegue me ouvir? — O homem perguntou. A ligação estava um tanto ruim.
— Claro, Abraham. — O jovem mentiu. — Aconteceu alguma coisa?
— Será que pode me encontrar?
— A essa hora? — Franziu, olhando o relógio digital ao lado da cama. — É que está-
— É urgente, rapaz! — O veterano disse sério. — Por favor, se apronte e me encontre na pequena vila, fica perto do seu hotel, né? Faça isso em menos de cinco minutos e não encherei mais sua paciência, prometo.
A ligação caiu.
Lucky se assustou quando percebeu que seu mentor tinha muitas informações sobre sua localização e estadia. Contudo, rapidamente enfiou as pernas dentro de uma calça decente e vestiu uma camiseta listrada. Suspirou e saiu porta afora, descendo as escadas que davam para o hall principal com pressa. Assim que chegou na portaria, sentiu o cheiro característico de outrora aumentar, mas estava confuso demais para se dar conta. Ele saiu do hotel apreensivo com a ligação do professor.
No exato momento em que desceu as escadarias da fachada do hotel, o fundo do lugar explodiu. O estrondo retumbou e uma fumaça negra encheu o céu, cobrindo tudo. Algumas pessoas começaram a correr para fora da pousada. Lucky ficou chocado, quando viu que a explosão veio diretamente do andar onde ficava seu quarto. Por sorte, seus colegas não estavam em seus quartos.
E nem ele, graças a Abraham…
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