Superstition
8 Capítulo 07: The Argo Protocol
Notas iniciais
A água misturada com sangue escorria por suas pernas, pés e então desaparecia num pequeno vórtex, descendo pelo ralo minúsculo dos chuveiros do aeroporto. O banheiro era escuro e frio, a água estava gelada e Cisco mal conseguia abrir os braços dentro do cubículo. Também era mais alto do que as paredes da divisória do box, tendo uma visão completa do banheiro. Seu corpo reagia com a situação, tremia de volta e vez ou outra o engenheiro bufava de frio sem querer. O homem encarou para uma janelinha no topo do cômodo, a noite finalmente caindo lá fora, e se perguntou por quanto tempo ainda ficaria trancado ali.
Agora que Lucky havia finalmente contado sua teoria, Cisco sentia o alvo em suas costas. Sabia que era o sentimento certo, porém não queria se sentir daquele jeito. Estar trancado num aeroporto forrado de cadáveres após um atentado terrorista já era combustível para quinze anos de pesadelos. E o pior? Talvez ele sequer tivesse cinco anos pela frente.
Cisco sabia que jamais teria todas as respostas. Tinha aprendido que o universo seguia uma infinidade de variáveis, e que ele nunca teria o controle. Ele podia fugir de tudo que o assustava, mas seria impossível fugir de si mesmo. E se a teoria de Lucky estava certa, era melhor encarar de frente. Ou pelo menos, seguiria de acordo com o plano: não causar conflito, não criar inimigos, não foder com tudo. Aqueles eram tempos estranhos, e Cisco sabia que tempos estranhos exigiam condutas estranhas. Acreditar que a morte estava ao redor, um ser que segue pelo mundo desligando consciências para equilibrar a ordem do universo, era uma das condutas estranhas.
Sabia que aquele aglomerado de blá blá blá era apenas seu cérebro treinado, racionalizando as informações para que ele não pirasse. No fundo de sua mente, o Cisco de 12 anos berrava aos quatro cantos que “a morte estava o perseguindo”, mas o Cisco velho tinha que ficar firme. Não deixar a peteca cair.
A porta do banheiro foi aberta repentinamente, e Cisco deu um pulo no cubículo fechado. Tami entrou com um meio sorriso ao ver o susto do homem, e riu de novo ao ver a cabeça de Cisco pairando acima da altura das divisórias.
— Desculpa. — Tami escondeu o sorriso, como se repentinamente se sentisse culpada por rir. — E desculpa por isso também.
— Tudo bem. — Cisco deu de ombros. — Eu caí numa risada longa agora há pouco pois me assustei com a água gelada.
Tami riu. Parada diante do espelho da pia, abriu a torneira e molhou o rosto. Passou a lavar os braços.
— Encontrei uma mancha de sangue gigante no meu cotovelo. — Comentou tranquila enquanto o lavava, e fez uma expressão estranha a notar a naturalidade da frase, considerando o contexto todo.
— É por isso que tô tomando banho. — Cisco comentou calmo. — Então eu não acho sangue nos lugares indevidos.
Tami concordou e o encarou.
— Você sabe que a gente vai arrastar alguns corpos para o salão de eventos, não sabe? — A garota suspirou e se espregioçou. — Não precisa demorar tanto esse banho aí.
— Já arruinou meu banho mesmo. — Cisco desligou o chuveiro e Tami arremessou a toalha da pia para ele.
A jovem encostou no azulejo, agora encarando o nada.
— Você era especial pra ela, sabia?
Cisco sabia que tinha uma conexão mais forte com Laura, porém não tinha parado pra pensar muito naquilo. Era natural ele se apegar com um ou outro mais rápido – tinha sido com Tami também, porém não era algo de se refletir muito, e sim deixar acontecer. É apenas a questão de química, alguns tem, outros não. Mesmo assim, quis ouvir a professora.
— Especial como?
— Ah por favor, você notou o jeito que ela olhava pra ti. E não tô falando que ela tava afim de você, porém pelo que ela falou o pai dela era engenheiro, e eu acho que você a lembrava dele. Talvez no físico, talvez no modo de interagir... é a minha teoria.
Cisco sentiu um golpe no estômago. Sabia que tinha passado mais tempo com Laura do que com a maioria das outras pessoas, mas não tinha pensado por aquele lado. Se tivesse pensado naquela explicação, talvez teria feito diferente. Talvez Laura estivesse viva.
— O quão terrível eu sou por não ter percebido isso? — Perguntou, incerto de que queria a resposta.
— Você tá agora considerando o que poderia ter feito de diferente, não é? — Tami suspirou. — Não adianta. Ela... ela se foi.
Tami segurou as lágrimas e Cisco engoliu em seco.
— Eu te trouxe algumas roupas. — A garota apontou para um conjunto de moletons na pia e deu de ombros. — Vou te deixar se vestir.
— Ótimo. — Cisco disse enquanto a garota fechava a porta. — Obrigado mãe!
E ele era grato. Por tudo.
XXXX
“Espero que Paris te traga coisas melhores...”
Nate riu ao lembrar se de Adriel. A frase dita sem pensar agora era a última memória que o rapaz tinha do namorado. Talvez seria a última frase que um dia, Adriel se lembraria de ter dito para ele. E era uma ironia terrível.
Ele pensou sobre a oportunidade perdida para Paris. Não era a primeira oportunidade perdida em sua vida, e Nate faria de tudo pra não ser a última.
Andando apressado e desconfiado pelo corredor do prédio dos funcionários, respingado de sangue e extremamente suado, encarou a arma em sua mão. Tentou identificar o tipo, porém não teve sorte. Ele era inteligente, sempre foi acima da média, mas se ele nunca tinha estudado certos assuntos, era impossível. Porém, mesmo após atirar Louis (Nate se resumia em concluir que tinha sido um acidente), com aquele sangue todo fervendo em seu interior e a adrenalina abastecendo sua alma, ele se sentia mais vivo do que nunca.
Os últimos dias preso com os outros tinham sido uma tortura. A galera levou dias pra descobrir e entender coisas que ele tinha percebido desde o início. Não todo o lance de Lucky, aquilo não. Aquilo estava fora do alcance de entendimento de Nate em muitos níveis, porém não significava que ele não poderia ter seus próprios insights.
Ele admitiria que correu pois na hora ficou com medo. Ninguém reage muito bem quando alguém é decepado diante de seus olhos, mas agora pensando racionalmente, não corria tanto perigo.
Ele não seria idiota e ficaria dando voltas quando um ar condicionado está prestes a explodir. E o grupo poderia seguir as mesmas regras se quisessem “viver”, mas Nate sabia que ninguém receberia sua ideia de bom grado. Randy caiu num tanque de água, se não estivesse sapateando em cima da madeira podre, não teria acontecido. Se Jane não tentasse atravessar a porra da passarela fudida, ela não correria perigo, e se Tami parasse de enfiar a cabeça em tudo que não era da conta dela, ela ficaria bem. Talvez aquela fosse a regra: parar de fornecer situações para a morte seguir atrás de você. Nate poderia viver com aquilo.
Cruzou um corredor repleto de destroços de uma bomba que explodiu posteriormente, e encontrou uma porta dupla que levava a um galpão. Um sorriso percorreu seu rosto, e ele encarou o local como se fosse uma oportunidade.
Tinha finalmente encontrado o Centro de Bagagens.
XXXXX
Jane e Astrid vestiam luvas, jalecos e usavam máscaras no rosto, surrupiadas da farmácia do aeroporto. Louis também usava uma máscara, encostado contra um carrinho de bagagens abandonado as pressas, a expressão de bobo no rosto como se tivesse ciente de que a dor estava próxima de agarrá-lo, porém não conseguiria. Pelo menos não até o efeito dos anestésicos passarem. Vestia uma camiseta parcialmente aberta, revelando o curativo improvisado por Lucky. Embora tivesse perdido bastante sangue, aparentemente não tinha sido atingido em nenhum ponto estratégico.
— Sabe o que vocês poderiam fazer? — Louis disse pelo que parecia ser a milésima vez naquele trecho de hora. A voz afetada pelos anestésicos, movimentos lentos e erráticos, Jane e Astrid reviraram os olhos juntas. — Não revirem os olhos pra mim, eu levei um tiro... Vocês deviam tirar o Tonho da cela improvisada que vocês fizeram e mandar ele fazer o trabalho sujo.
Jane e Astrid cambalearam ao soltar outro cadáver no palete sobre o carrinho. Trocaram um olhar triste.
— Tonho? — Astrid ignorou o resto da mensagem. — Você o conhece?
— Tonho, Antônio. — Louis riu. — Não importa, ele é latino também. Nós latinos devemos nos unir sempre. Mi abuela costumava dizer... “barriga llena, corazón contento”... ou era “cría cuervos y te sacarán los ojos”?
— Não acho que nenhum desses se encaixa com o que você tá tentando dizer. — Astrid deu de ombros.
— Mi hermano, mi sangre...
Jane e Astrid continuaram firmes em suas ocupações. Astrid já tinha feito de tudo, e ainda sentia como se aquele fosse o pior trabalho de sua vida. Por vezes segurava o vômito, por vezes sentia-se desesperada em secar os olhos pra não deixar Jane perceber que ela estava chorando. Os cadáveres já estavam cheirando muito mal e o grupo havia percebido a necessidade de removê-los para um local mais afastado do saguão para que pudessem continuar aproveitando dos mantimentos das lojas locais. Após combinarem aquilo, Astrid percebeu que deveriam ter feito aquilo muito antes.
Era o turno de Jane e Astrid, e a lutadora estava grata por sua companheira, que não dizia nada sobre os cadáveres. Não era necessário. Jane pegava os corpos pelas pernas, e Astrid que era mais reforçada pegava pelos braços. Homens e mulheres, adultos e jovens, Astrid tinha evitado olhá-los na cara (pelo menos os que não estavam cobertos por lençóis) nos últimos dias, porém agora era impossível. Rostos que mereciam uma vida inteira, agora tinham uma expressão de confusão que ficaria pra sempre. Alguns dos cadáveres desmontavam, alguns ainda estavam duros, enquanto outros pareciam estar vivos, apenas adormecidos. Se Astrid por vezes sentisse que estava levemente fora de si nos últimos dias, agora mais do que nunca se sentia presente, jogada de cara contra a realidade cruel.
Repentinamente, Louis passou a cantarolar uma música da Shakira no fundo.
— Espero que Lucky e Randy encontrem algo que nos ajude. — Jane comentou. — Eu tô cansada.
— Eles sabem o que estão fazendo. — Astrid deu de ombros. — Eu espero. Eu só me preocupo o que vai acontecer se os militares resolverem invadir o local... Acabar com a gente.
Jane encarou Astrid.
— Eu sei que assisti muitos filmes na vida. — Astrid comentou séria. — Porém sei admitir quando algo tá estranho.
— Você está certa. Não vai adiantar nada eles descobrirem algo, se for tarde demais. — Jane suspirou. Encostou contra o carrinho de cadáveres, como se já tivesse se acostumado com a situação. Tirou uma das luvas e arrumou o cabelo. — Eu acho que tenho uma ideia. Pode me ajudar depois... desse nosso compromisso?
— Claro. — Astrid concordou. Confiava em Jane. — Sem problemas.
Louis reclamou de algo e tentou levantar-se no fundo e caiu. Xingou.
— Piloto, fica frio. — Jane aproximou-se de Louis e abaixou-se na frente dele. Tirou a máscara do próprio rosto, e tirou a dele também. Encarou-o, que fez uma careta com o cheiro, mas estava mais é desconformado com o resto de sua situação. — Louis, vai passar. É terrível, mas vai passar.
— Eu... eu preciso dos meus remédios. — Louis a encarou. — Os de...
— Ok. — Jane confirmou e olhou para o relógio no topo de uma das paredes do saguão. — Eu vou pegar pra você, não precisa sair daí.
— Já deu nosso turno. — Astrid também encarava o relógio. — Cadê...
Um som elástico, e os três se viraram para um dos corredores. Tami e Cisco esticavam e estalavam as luvas de látex nos dedos, ambos protegidos por jalecos, plásticos e máscaras também.
— Frescos. — Louis comentou. — Não é a porra do The Walking Dead
— Mais uma vantagem pra gente, né Francisco? — Tami encarou o engenheiro com um sorriso forçado. — Nosso turno?
Jane e Astrid concordaram, tentando não mostrar que estavam aliviadas por se livrarem daquilo por algumas horas.
— Então... — Astrid apontou para Louis. — Seus remédios, e então... seu plano Jane?
— Te conto os detalhes no caminho. — A mulher falou gentilmente, subitamente empolgada. — É algo que já fiz antes...
Ambas desapareceram no corredor, e Cisco e Tami trocaram um olhar.
— Rapazes. — Louis encarou ambos com um sorriso triste. — Preciso fazer xixi.
XXXXX
O Centro de Bagagens parecia uma fábrica. Diversos trilhos e esteiras subiam e desciam o galpão com algo em torno de sete metros de pé direito. Boa parte do local estava lotada de bagagens, abandonadas as pressas. Se tivesse tempo, Nate abriria uma por uma. Ele já tinha imaginado um cenário assim em sua mente quando mais novo – fuçar dezenas de malas e pegar o que quiser, e agora ria da oportunidade que tinha em mãos.
Porém o cenário era diferente, e embora ele quisesse, não podia checar mala por mala, sem contar, ainda sentia medo do que o grupo faria com ele se o alcançassem. Ele tinha atirado em Louis. Ele entendia a fúria que viria.
A arma, lembrou-se. Talvez precisasse usá-la novamente. Não quis pensar muito sobre aquele assunto em especial. Ele sabia que já estava com a etiqueta do vilão em sua testa, mas não queria mais nada com aquelas pessoas.
As paredes eram repletas de portões de carga, que levavam a diversas direções, rumo aos carrinhos e para os aviões. Com um pouco de pressa, seguiu porta por porta, porém sabia que não seria tão fácil. O sistema automatizado provavelmente tinha lacrado tudo quando as explosões começaram.
Como esperado, nenhuma das portas estava aberta, todas trancadas com metal. Então ergueu os olhos para o teto, observando os trilhos que levavam aos locais mais altos do galpão, e entre esteiras e malas, enxergou o que parecia ser uma abertura. Talvez aquele fosse o seu caminho. Checaria mais tarde.
O rapaz estava ciente de que, ainda se conseguisse escapar do galpão, sobreviver lá fora era totalmente diferente. Não sabia o que o esperar dos militares. Ele já tinha sido adepto do chegue e descubra o que fazer, porém dessa vez não poderia arriscar tanto. Precisava de metas, ter alguns planos estabelecidos. Então observou uma sequência de armários diferentes numa das paredes. “Funcionários”, uma placa dizia.
Definitivamente, armário dos funcionários.
XXXXX
Lucky e Randy haviam decidido buscar saber mais sobre os segredos do local. Então poderiam fazer mais sentido sobre o que tinham, e como poderiam bolar um contra-ataque. Ainda se escapassem da morte, precisariam dar um jeito de sair ilesos do local. Negociar com quem estava os mantendo lá dentro, talvez?
Tinham ido além. Uma das portinholas do bendito galpão de hospital (que quase havia matado Randy), tinha levado a um cômodo com um incinerador, e repleto de armários metálicos. Com ajuda de Randy, conseguiram arrombar uma das gavetas e encontraram um pequeno recipiente metálico quadrado, etiquetado no nome de “John Fisher”. Lucky forçou o objeto e a fechadura abriu, arremessando cinzas para todos os lados, Randy havia dado um pulo. Nenhum dos dois precisou dizer alguma coisa. Eram os restos humanos de um tal de John Fisher.
Então Randy encontrou um arquivo com diversos nomes, escritos a tinta. Com cuidado manuseou o arquivo e deixou com Lucky, que espiou e viu centenas de nomes que não eram familiares de maneira alguma. Mais gavetas foram arrombadas, mais recipientes metálicos foram encontrados, e logo ambos concluíram que havia centenas de cinzas de diversas pessoas. Ok. Não era a coisa mais estranha do local. Eram os pacientes? Mas que famílias eram essas que não tinham interesse nos restos de seus familiares falecidos?
A pergunta logo foi respondida também.
— Randy Calipari. — Lucky havia dito de repente.
— Presente. — Randy respondeu rápido sem se importar. Quando viu que Lucky não respondeu, o encarou. — Randy Calipari. Sou eu.
Lucky apenas encarou o policial, que primeiro fez uma careta, então notou que o jornalista apontava para o livro de nomes dos corpos incinerados.
— Randy Calipari, 1920 a 1942. — Lucky repetiu. — Isso te diz alguma coisa?
Randy havia o encarado sério.
— Que estranho. É o meu bisavô.
Randy informou que seu bisavô havia morrido na Segunda Guerra Mundial, defendendo a América. Jamais tinham encontrado seus restos, então não fazia sentido as cinzas de seu bisavô estarem ali.
Então Randy lembrou-se da história da família. Randy Bisavô havia sido convocado e então foi enviado. Porém, após embarcar no ônibus do governo e deixar a sua esposa que havia acabado de engravidar, ele não deu mais notícias até duas semanas depois em que foi dado como morto em combate.
Foi aí que Lucky sugeriu que os “pacientes” que sofreram experimentos, na verdade poderiam ser os candidatos a soldados americanos, prestes a serem mandados para territórios estrangeiros. O governo decidiu ir além, tentando realçar o poderio de seus homens ao tentar cruzar a biologia das mentes humanas com experimentos como armamentos (os instrumentos suspeitos no hospital, câmaras de hipnose, fotos de diversos aparelhos que lidam com o cérebro e implantes metálicos nos corpos), e o resultado não deu muito certo. As centenas de gavetas com restos humanos respondiam por si só.
Randy então terminou a linha de raciocínio de Lucky. O governo jamais admitiria que sua sede de sangue foi exacerbada, a ponto de não encontrar o limiar entre uma realidade perversa e uma ficção estúpida. O governo jamais admitiria que matou muitos de seus homens em casa.
E aquele era o segredo que precisavam esconder. Que milhares de famílias foram arruinadas pelas mãos daqueles que deveriam protegê-los. E os militares estavam ali para impedir que aquilo escapasse, principalmente considerando a situação atual do descontentamento dos cidadãos americanos com a política e seu sistema de governo.
Era insano, Lucky sabia. Porém encaixava com muitas das coisas que tinha descoberto antes sobre o Amelia.
Pelo menos era um ótimo começo.
— Já que temos uma teoria, eu sei exatamente por onde começar. — Lucky parecia satisfeito consigo mesmo. Pela primeira vez, muita coisa começava a fazer sentido.
Lucky podia notar a impaciência crescendo em Randy, que agora roía as unhas.
— Fala homem. Tá esperando o quê?
— O Protocolo Argo.
XXXXX
Sentadas no chão de um dos andares superiores, Jane e Astrid usavam um pequeno tanque de hélio para encher bexigas em formato de coração. Ambos tinham sido encontrados numa sala de funcionários do aeroporto, e Jane sabia exatamente onde tudo estava, pois dias antes tinha ganhado uns trocados ajudando a encher bexigas, partes de uma festa surpresa organizada de última hora para uma aeromoça querida.
Por vezes, as duas mulheres observavam a abóbada no topo do saguão do aeroporto, um dos únicos locais que ainda tinha uma abertura visível, direto ao céu da noite. Era impossível escalar até lá em cima, porém os balões chegariam fácil.
— Então, não vai me contar onde você já fez isso antes? — Era Astrid. Tinha que admitir, embora tivesse possíveis falhas, ainda poderia funcionar.
— Preciso? — Jane não tirou os olhos do topo.
— Precisa. — Astrid respondeu rápido. As vezes precisava ser mais direta com Jane.
— Não é grande coisa. — Jane deu de ombros. — Eu fiquei pensando sobre os balões flutuando aquele dia que ajudei com a festa da aeromoça. Fiquei me perguntando de quantos eu precisava pra sair voando e desaparecer por aí, sabe? — Jane ficou envergonhada de repente. — Coisa boba minha.
— Você não tem ideia de quanto eu já pensei nisso. — Astrid deu de ombros. — Eu só acho que cheguei em um ponto da minha vida, que por mais que eu tente fugir, eu dou de cara com as paredes da minha vida me segurando. Meus compromissos e...
— Bom, mas você não precisa de tudo isso. — Jane a encarou. — Sei que você é lutadora conhecida, e que tem seus compromissos, porém... não ache que eu estou louca, mas tô vendo esses acontecimentos como uma chance pra um renascimento. Pelo menos quando superarmos isso tudo.
Astrid não disse nada. Sentiu um calafrio correndo por sua espinha e então arrumou os próprios cabelos num gesto automático.
— Caneta.
— Oi? — Astrid se virou.
— A caneta, lutadora. — Jane riu. — Me passa a caneta.
Astrid riu e passou a caneta. Escapando da morte e deixando aquele lugar, não seria uma má ideia recomeçar do zero.
XXXX
A noite se aprofundava, e Louis cantarolava baixinho outra vez.
Cisco e Tami erguiam os corpos até o palete, por vezes trocando um olhar gentil um para o outro. Cisco ouvia a própria barriga roncando e engolia em seco, nervoso com o fato de estar morto de fome enquanto lidava com cadáveres.
— Y soy Rebelde...
— Essa não, Lou. — Tami riu baixinho. — Você não vai querer liberar o meu monstro interior.
— Tá bom. — Louis arregalou os olhos como se tivesse assustado de repente. — Sem monstros... hoje não.
— Tami, não acha que os efeitos do Lou já deveriam ter passado? — Cisco sussurrou, franzindo o cenho e arrumando os óculos. — Eu fumado não fico assim por tanto tempo.
— Deixa ele. — Tami deu de ombros. — Alguém aqui de nós pelo menos se diverte.
Cisco concordou.
— Bom, pelo menos me sinto útil.
— Que? — Tami estranhou. — Você é útil sempre.
— O Lucky tem as teorias e os estudos. O Randy patrulha. A Jane é dona do aeroporto, você mantém a galera legal e a Astrid ameaça dar porrada em quem sair da linha. O Lou cospe um fato super importante de vez em quando — Louis ergueu um drink imaginário no ar ao ser mencionado. — Enquanto eu fico aqui tirando e botando o óculos. Eu era útil quando tava perdido na Austrália com um monte de gente doida.
— Bom, essa última parte não mudou, não é?
Cisco concordou.
— De qualquer jeito, você como nosso engenheiro principal, irá dar um jeito de deixar o mundo do lado de fora saber que estamos aqui. — Tami sorriu, escolhendo cuidadosamente as palavras com seu jeito charmoso. — Pronto. Super importante.
— Primeiro, não tenho ideia de como fazer, e segundo... não tem segundo pois eu realmente não tenho ideia de como fazer. Nem é minha área.
— Ah sei lá, você cuida do meio ambiente, certo? Talvez possa sei lá, plantar algo caso nossos estoques acabem...
Ciscou pausou, fazendo os cálculos em sua mente.
— Quanto tempo você pretende ficar aqui?
— Cisco, você já foi útil mais de uma vez aqui. Tire isso da cabeça logo e me ajuda aqui.
Cisco abaixou-se e ambos levaram outro corpo em direção ao palete.
— Eu gosto das mandonas. — Cisco sussurrou.
— Cala a boca.
Cisco riu. Então uma foto caiu do cadáver pesado que haviam colocado no palete, e o engenheiro pisou em cima, porém tarde demais.
— Cisco, o que é isso?
— Eu... eu não...
Tami abaixou-se e ergueu o pé de Cisco. Catou a foto e fez uma expressão de tristeza. A foto que tinha caído do cadáver era de Tami e seu pai.
O cadáver era...
— Ah não... Ah não!
— Tami, me escuta.
Mas não adiantou. Tami caiu em lágrimas e desatou a correr.
XXXX
— Protocolo Argo? — Randy franziu. — Sou todo ouvidos.
— O governo americano e os nossos departamentos de defesa possuem uma série de protocolos e códigos especiais para resolução de problemas. Quando viajamos para países com um nível de periculosidade alto, ou se você é um jornalista e se interessa por essas coisas, temos acesso a esses documentos.
— Eu estou familiar com essa história. — Randy concordou. — Porém, quanto ao protocolo?
— O Protocolo Argo é usado quando você está preso em uma situação ruim por algum tipo de corporação, sistema, governo, porém sabe que a influência de um “júri” maior, a opinião pública, pode interferir com as decisões que serão tomadas sobre ti. Para conseguir esse “jurí”, é necessário fazer um grande anúncio sobre o que está acontecendo contigo. A mídia usa isso o tempo todo para limpar o nome de candidatos, vender propostas, personalidades... Edward Snowden usou isso na época que soltou aquelas informações sobre a CIA e a NSA. Sob os olhos do público e tendo a razão, se ele fosse assassinado, o público se voltaria contra o sistema.
— Acho que sei onde está chegando. — Randy concordou. — O governo não vai nos deixar sair, por medo do vazamento das informações. Porém, eles não podem fazer nada se conseguirmos fazer o “grande anúncio”, é isso?
— Sim. Vazamos documentos, fotos, e que estamos sendo mantidos aqui sem motivo algum.
— Ok. — Randy concordou. — Mas isso não os deixaria ainda mais putos com a gente, fazendo eles finalmente entrarem atirando na gente? Desculpa, mas eu tenho que pensar por esse lado. De que adianta se preocupar com uma espécie de entidade nos seguindo, quando ela pode vir pelas mãos de um bando de militares?
— Eu pensei nisso. — Lucky concordou. — Mas nesse caso, pelo menos teremos milhares de espectadores quando eles invadirem. Isso me dá esperanças.
Randy concordou. Sentou-se na cadeira e suspirou. Passou as mãos ao redor do rosto, e Lucky franziu.
— Eu lamento por seu bisavô. — Lucky disse. — Desculpa por não ter falado antes... eu me empolguei.
— Ah, comigo tá tudo bem. — Randy disse dando de ombros. — Eu não o conheci. Meu avô que sofreria mais com essa notícia também está morto. Apesar do choque com tudo que aconteceu, é estranho pensar que estou mais surpreso por estar conectado com o aeroporto.
— Eu me pergunto se todos nós não estamos conectados com o aeroporto de algum jeito. — Lucky franziu. — E que talvez, todos nós presos agora, fosse o plano dessa entidade.
Randy o encarou. Caiu numa risada sincera.
— Cara, você é bom. Agora vai assustar os outros.
XXXXX
Cisco aproximou-se do banheiro, ouvindo os choros de Tami. Pensou em bater na porta, mas sabia que a amiga não era de fazer isso. Empurrou e entrou.
— Tami, eu não imaginava.
— Shhhh. — Ela respondeu de dentro de um dos boxes maiores, que abrigava banheiras. — Não é sua culpa.
Cisco aproximou-se e puxou as cortinas. Tami o encarou com os olhos marejados, sentada na banheira com os braços ao redor dos joelhos. O engenheiro encheu um copo de água para a garota, arrancou os sapatos, apoiou-se na parede e sentou-se na outra ponta da banheira, de frente para ela. Pegou nas mãos da professora e não disse nada por um tempinho. Tami fungava, por vezes cedendo e por vezes lutando. Por ora suspirava fundo, por ora soluçava até se afogar.
— Quer falar sobre?
— Jesus, não Cisco. — Tami fungou. — Agora não.
O rapaz concordou.
— Me conte uma história Cisco.
— Que tipo de história?
— Uma real. Que aconteceu com você.
Cisco franziu e pôs-se a pensar.
— Sabia que eu quase morri uns meses atrás? — Cisco interrompeu-se, percebendo o timing. — Desculpa, foi a primeira coisa que eu pensei.
— Não, tudo bem. Conta.
— Ok. Quando eu estava na Austrália, eu fazia experimentos sobre como as plantas reagem em diferentes atmosferas, certo? E isso envolve uma combinação de hidrogênio, oxigênio, nitrogênio, hélio e etc, sabe? Diferentes níveis, diferentes resultados.
Tami concordou, entretida.
— Usamos um laboratório selado para conseguirmos efetuar as pesquisas. Estávamos eu, Tony e Cameron, muito empolgados quando não percebemos que o nível de hélio estava acima do necessário. Como é um sistema inteligente, se o nível de alguma coisa subir demais, eles diminui os outros para igualar. Pra não correr riscos de explosão e etc. Tony disse algo e sua voz estava muito aguda. Ele se assustou, nós nos assustamos e caímos numa risada uníssona e aguda. Foram uns bons dez segundos, aí Tony desmaiou e eu também. Cameron nos contou que desmaiou logo em seguida.
Tami estava boquiaberta.
— Achei que vocês não se divertiam. Chocada.
— Algumas dezenas de segundos depois, eu acordo do lado de fora do laboratório com uma máscara de oxigênio na cara. A garota que nos salvou, só chegou a tempo pois lembrou-se de que tinha que perguntar para Cameron qual era a marca do rímel que ela usava. E essa é a história de como um rímel salvou a minha vida.
Tami riu.
— Tomara que o rímel seja bom.
— Naquele instante, eu só estava feliz que rímels existiam. Se ela não voltasse por Cameron, ninguém voltaria naquele canto do navio. Mais alguns segundos, e a inalação do hélio nos sufocaria.
— Eu tenho uma situação assim também. — Tami riu. — Outra hora te conto.
Cisco concordou.
— Porque vocês terminaram? — Tami perguntou séria. — Parecia ótimo pelo que você me conta.
Cisco deu de ombros.
— Bom... era ótimo, mas eu já tenho quase trinta e três anos. Eu não sou mais o mesmo de dez anos atrás, que se importava menos sobre coisas que vão acontecer no futuro. Eu ouvia Tony e Cameron, que já são casados, fazendo um milhão de planos pra quando deixassem o navio, mas eu não estava envolvido neles, não me imaginava neles. Eu era uma espécie de responsabilidade adicional do casal, e não queria me sentir assim mais. Então eu avisei, o Tony aceitou e a Cameron disse que as coisas não eram desse jeito, mas eram. Ela me odiou por alguns dias. E eu aproveitei o fim do meu contrato que eu podia renovar, mas cancelei de vez. Voltei pra cá.
— E você tá aqui agora.
— Tcharam.
— A Cameron te fudeu.
— Mais de uma vez.
— Quê?
— E como.
Tami franziu.
— Sinto muito. Eu concordo com seu raciocínio. Tenho certeza que você merece melhor, Cisco.
— Obrigado. — Cisco sorriu. Tirou os óculos e passou a limpá-los no moletom. — Quando saírmos daqui, vou te levar pro restaurante dos meus pais. Você gosta de cozinha italiana?
— Pizza?
— Pizza vai ser então. Peço desculpas antecipadas pois minha mãe vai tentar te enfiar comida por todos os lugares.
— Espera só até eu te levar pro Brasil pra conhecer a minha mãe.
Cisco sorriu, e Tami lembrou-se de como sua mãe reagiria com tudo. Perguntou-se, se sua mãe achava que ela tinha morrido também. Segurou as lágrimas pela milésima vez no dia.
— Cisco, como você se mantém esperançoso assim? Metade da galera aqui já parece ter desistido e você continua fazendo planos pra quando deixar o local.
— Eu tô há vinte anos fazendo coisas absurdas pra tentar aumentar o tempo de vida do nosso planeta. — Cisco piscou. — Esperança é o que eu tenho de sobra.
XXXXX
Limpa no armário dos funcionários concluída, usando um sobretudo grande e cheio de bolsos (todos cheios) e o coração batendo forte, Nate encarava o topo do Centro de Bagagens. Era o seu caminho. Rumo ao outro lado, o rapaz agora sentia-se com medo.
Cogitou a possibilidade de que sua ansiedade repentina talvez não fosse algo de si mesmo, e sim um sinal do além de que não deveria tomar aquele caminho. Ele tinha dito que não entraria em situações absurdas, porém aquilo não era tão absurdo. Era só uma subidinha.
Checou a arma novamente. Colocou na cintura, e então checou tudo que havia pegado dos funcionários. Chaves de fenda, alicate, até um martelo tinha guardado, dentre outras coisas. Não tinha certeza se qualquer coisa daria certo. Deu de ombros.
Empurrou as bagagens do caminho e passou a subir os trilhos íngremes. Rumo ao topo.
Rumo ao outro lado.
XXXXX
— Acho que está ótimo. — Astrid comentou. — Espero que os militares não vejam.
— Eles não vão ver. — Jane comentou. — Tá escuro. Até eles perceberem, os balões já voaram para longe... alguém vai nos ajudar. Pelo menos isso me dá esperanças.
Astrid concordou. Terminou de escrever no pedaço de papel e encarou a mensagem clara.
“TEMOS SOBREVIVENTES NO AEROPORTO AMELIA. MILITARES ESTÃO NOS PRENDENDO. MANDAR AJUDA. AVISAR POLÍCIA. AVISAR TV.”
— Espero que não achem que é uma brincadeira. — Agora pensando claramente, o plano tinha mil possibilidades de dar errado. Astrid ignorou aquela sensações e continuou escrevendo as mensagens. Virou a folha.
VIVOS:
JANE DOE
ASTRID IVANKOWITCH
LOUIS GOMEZ (PILOTO)
CISCO GALLO
TAMI PAES (PROFESSORA)
NATE (HOMEM, 22-25)
LUCKY RAY (JORNALISTA)
POLICIAL RANDY
— Eles vão saber. — Jane a encarou.
XXXXX
Ao aproximar-se do local de saída no topo do telhado, Nate notou que não era uma das aberturas para retirada das bagagens. Era um dos respiradores. Porém como o aeroporto estava sem energia elétrica, aquilo não seria problema.
Nate apoiou-se numa escadinha pequena, que levava a uma espécie de tubo em direção ao bocal. Escalou cuidadosamente para que nada caísse de seus bolsos, e então soltou um sorriso ao se aproximar do final.
Estava aberto. Passando a hélice, era só atravessar. O bocal do respirador tinha uns noventa centímetros de diâmetro, mais do que o suficiente para Nate atravessar.
O rapaz encarou as hélices, enxergando as dificuldades. Encarou as lâminas afiadas o suficiente para ganhar um tétano de brinde, não obrigado. Arrancou a chave de fenda do bolso e a posicionou entre a hélice e a parede, de modo que não girasse nem um centímetro quando ele passasse. A abertura entre as hélices era estreita, mas Nate daria seu jeito. Já tinha passado por buracos menores.
Atravessou as hélices. Segurou com força a beirada, e empurrou o peso de seu corpo.
A primeira coisa que sentiu foi o vento gélido da noite em seu rosto. Respirou com prazer, e quase sentiu como se fosse cair em lágrimas.
Droga. Ele estava amolecendo. Não era assim com ele.
Puxou o corpo para cima, e finalmente atravessou o topo do respirador. As pernas trêmulas, ergueu-se devagar sobre a estrutura que estava. Era uma espécie de torre.
Dali podia ter uma visão privilegiada da parte traseira do aeroporto. Se sentia deslocado pois não tinha ideia de onde estava, ou para onde deveria ir. O coração batendo, queria berrar pra todos os cantos que estava livre, mas sabia que aquele era só o último passo. E ele ainda tinha um caminho pela frente.
Viu as garagens e os hangares dos aviões no lado oposto de onde estava. Ainda, podia ver diretamente alguns dos blocos das áreas de espera dos visitantes, e também podia ver os vidros do saguão. Lá dentro, poderia ver alguns dos outros sobreviventes carregando alguma coisa.
— Otários. — Riu baixinho.
Em seu primeiro passo, sentiu-se preso a algo. Escorregou na superfície metálica e despencou com um baque para trás. Sentiu como se fosse ter um ataque cardíaco, e percebeu o próprio sobretudo ainda preso no bocal do respirador. Ao cair de costas no metal, atingiu em cheio com a mão um dos bolsos em seu sobretudo. O bolso cheio das chaves dos carros dos funcionários. Botões haviam sido pressionados. Nate quis morrer.
Vinte metros abaixo, cerca de cinco carros dos funcionários destravaram em uníssono, e Nate quis morrer. Porém ele provavelmente apertou algum botão mais de uma vez, e alarmes começaram a disparar.
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Jane e Astrid observaram os balões vermelhos em formato de coração flutuando em direção ao topo aberto da abóbada do saguão do aeroporto, em todos eles um papel com a mensagem amarrada. O vento faria o resto do serviço, se tudo funcionasse bem. Respiraram fundo quando os primeiros balões se aproximavam da abertura, a tensão de que eles poderiam ficar presos, porém tudo foi perfeito. O primeiro saiu, e depois o segundo, e o terceiro.
Então no meio do silêncio da noite, Jane ouviu algo.
— Isso é um alarme?
— Nos descobriram? — Astrid fez uma expressão de espanto. — Já? Mal subiu no ar...
— Outra coisa está acontecendo. — Jane a encarou. — Rápido, me ajude a soltá-los.
Aos poucos, ambas soltaram cerca de trinta balões em direção ao céu da noite.
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De volta no saguão recolhendo os corpos, Cisco ouviu quando o alarme soou. Parou repentinamente, e lentamente andou até as janelas de vidro do aeroporto, seguido de Tami.
— O que tá acontecendo? — Louis soltou no fundo, curioso. Finalmente voltando a si mesmo. — É um alarme de carro?
Com um estalo, as luzes nos hangares opostos ao bloco onde estavam se acenderam, e a iluminação repentina fez Cisco e Tami recuarem assustados. A luz do hangar se movimentava, e pareceu varrer boa parte dos arredores, como se procurasse alguém. Cisco e Tami abaixaram-se quando a luz passou pela janela de vidro, mas seguiu seu caminho até parar no topo de uma das torres dos outros blocos.
— O que está acontecendo? — Tami sussurrou. — Cisco, o que tá acontecendo?
— Temos um intruso? — Apontou para a pessoa que tentava a todo custo se esconder no topo da torre.
— Cisco, não é um intruso. — Tami o encarou. — É o Nate.
Cisco trocou um olhar com Tami, e ambos pareceram entender a mensagem ao mesmo tempo. Se Nate escapasse, ele poderia informar o que estava acontecendo no aeroporto. Alguém viria por eles.
E embora o rapaz fosse um bosta, Nate era uma vítima tanto quanto eles.
— ATRÁS DE VOCÊ! — Cisco berrou, não acreditando que o rapaz o ouviria. Passou a golpear o vidro e apontar para algo que Nate parecia não ter visto.
Alguns metros atrás do rapaz, tinha uma escadinha que levava até o estacionamento. Porém estando no topo dos holofotes, a luz repentina não tinha o deixado ver. Não o deixava pensar direito.
— NATE! — Tami passou a berrar. — CORRE! ATRÁS DE VOCÊ!
Ambos passaram a bater contra o vidro.
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Agora ouvindo os alarmes, Lucky e Randy corriam de volta ao saguão do aeroporto. Jamais ouviriam aquele som num dia normal, porém as últimas noites no local tinham sido de silêncio absoluto.
Foi aí que as luzes dos corredores se acenderam com um estalo forte de energia e ambos congelaram no lugar.
— Será que estamos sendo resgatados? — Randy tinha uma expressão de pânico no rosto.
Lucky suspirou.
— Eu acho bom.
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Nate recuou tremendo, o vento frio contra seu rosto e luzes fortes do hangar confundindo sua visão. Ele estava tonto e não tinha onde ir. Parecia que todos os lugares ao redor eram apenas quedas bruscas para o chão. Ele precisava pensar com calma.
Então um estalo forte aconteceu e todas as luzes do aeroporto se acenderam repentinamente. Nate congelou, sem saber como reagir. Virou-se para voltar pelo bocal até o Centro de Bagagens, porém seu coração despencou.
Vooooshhh. As hélices giravam, alimentadas pela energia elétrica. As luzes do hangar pareceram aumentar, e ele ficou com medo de cair da torre. Abaixou-se. E se eles começassem a atirar?
Olhou em direção ao saguão e viu que eles gritavam e apontavam pra algo, porém ele não seria capaz de ouvir. Não naquela distância.
Então um disparo e ouviu um som agudo metálico próximo a ele. Estavam atirando. Os militares estavam atirando. Virou-se para abaixar, porém outro estalo metálico na superfície o assustou e o rapaz perdeu o equilíbrio.
Despencou de volta para as hélices.
O rapaz segurou firme, pendurado na beira do bocal do respirador, porém com o corpo quase inteiro dentro do tubo, aquilo não adiantaria. Ouviu o baque metálico outra vez e estranhou a origem do som. Não eram tiros. Era a chave que ele havia posicionado para parar a hélice que estava estalando contra o metal. Idiota. Achou que eram tiros.
Pensou em disparar nas hélices com a arma, pelo menos interromperia o movimento. Esticou um dos braços, a arma caiu nas hélices e desapareceu abaixo, sequer tocando o metal. MERDA.
Ergueu o braço novamente na beira do bocal, e foi aí que um ardor explodiu em ambas as suas pernas. Sentiu seu corpo inteiro esquentar repentinamente. Pensou que tinha mijado na calça, mas olhou para baixo e com horror notou que era outra coisa.
Ambos os seus pés haviam sido dilacerados pelas hélices. Seu pé esquerdo tinha desaparecido.
Nate berrou, mas não adiantaria. Seu coração quase explodindo em seu peito, sentiu seus dedos escorregando mais e mais do bocal, e na medida que afundava, mais suas pernas eram trituradas e mais sangue jorrava em sua direção.
O rapaz encarou o céu gélido da noite, sem estrelas. Berrou para que a ajuda viesse. Suplicaria para Deus e para o Diabo também. E mais um jato violento de sangue irrompeu das hélices e seu rosto subitamente foi encharcado. Apenas a parte branca de seus olhos eram visíveis, em meio a um rosto sôfrego e encharcado de sangue, encarando o vazio no céu da noite.
Os braços de Nate resistiram no bocal por mais alguns segundos, não porque ele ainda tinha forças e sim pois seu corpo não estava respondendo direito. Escorregando aos poucos, as hélices estavam em seu joelho, outro respingo de sangue jorrou no ar com músculos e pedaços de ossos, o sangue grosso atingindo suas mãos, que finalmente escorregaram e soltaram-se do topo do bocal.
A mente do garoto estava um caos. Não havia o que processar, além de sangue, ossos, músculos e morte. Não teve tempo de concluir que a teoria de Lucky estava certa.
Uma série de estouros repentinos, os bolsos do sobretudo de Nate foram devorados também. Restos de chaves de carro, instrumentos, roupas e papéis foram arremessados no ar, antes de cairem de novo e serem sugados no vórtex fatal
Antes sendo devorado aos poucos, dessa vez o tronco de Nate despencou repentinamente, agora girando com a hélice poderosa. O resto de suas pernas, sua cintura e abdomem escorregaram de uma só vez entre as frestas de uma hélice e outra, porém seu corpo parou de cair até ambos os braços travarem o resto do corpo entre duas hélices.
Agora preso nas lâminas, o corpo semiconsciente de Nate passou a girar com o movimento das hélices numa velocidade assustadora. Girou uma vez, cinco vezes, dez vezes, e então devido a inércia, a cabeça tombou para o lado, raspando pelas paredes do tubo. A velocidade assustadora fez o resto do trabalho, e a cabeça de Nate ricocheteou violentamente pelas paredes do tubo até finalmente explodir numa massa sangrenta de miolos, ossos e pele.
Se ainda havia um único pingo de consciência no cérebro do rapaz, nesse momento tudo acabou.
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Tami, Cisco, Lucky, Randy e Louis acompanharam em silêncio quando o corpo do rapaz desapareceu no buraco. As luzes ainda iluminando o topo da torre, os cinco tinham os olhos arregalados com a cena que desenrolava diante de seus olhos.
Foi aí que algo foi arremessado do interior do tubo e deslizou por alguns centímetros na superfície da torre. Cisco forçou a visão e identificou o que parecia ser um braço e um pedaço do tronco envolto num tecido escuro. Afastou-se da janela no mesmo instante.
— Era uma hélice do respirador. — Louis sussurrou. — Uma das grandes.
As luzes do saguão apagaram-se repentinamente, e o apagão se estendeu para todos os outros cantos do aeroporto. Os cinco se encararam no escuro outra vez, ainda chocados e respirando fundo. Nada podia ser feito.
Cisco sentia que seu coração poderia parar a qualquer instante.
Pew. Pew. Pew.
Ouvia os sons em algum lugar. Seria imaginação dele, ou os militares já estavam vindo com as balas? Será que finalmente era hora do adeus?
— O que são esses tiros? — Tami soltou com a voz embargada de desespero. — Eles estão vindo nos pegar? É isso?
— Não é isso. — Astrid sussurrou num sotaque pesado, lágrimas descendo o rosto. Ninguém tinha visto Jane ou Astrid se aproximarem.
— São os meus balões. — Jane disse séria, encostada contra o vidro da janela do aeroporto e olhando para o céu. Pequenos pedaços vermelhos despencavam graciosamente pelo ar. Alguns desciam mais rápido devido ao peso do papel amarrado neles. — Eles estão derrubando meus balões.
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