Notas iniciais
Escrito por JamiePineTree

Aeroporto de Pulkovo, São Petersburgo. 07:37AM — Horário local.

O logo azul e rosa da Oceanic Airlines brilhava sob à luz dos refletores, sendo acariciado pelos cristais de neve, que pousavam suavemente sobre seu desenho. Astrid se apertou no casaco de pele sintética, ajeitou o cabelo preso numa trança feita as pressas naquela manhã e permaneceu olhando para o avião na sua frente, aquele em que embarcaria para a América, seu destino final.

Estava sozinha no bar do terminal de embarque, Yuri tinha conseguido o feito de perder o passaporte e Astrid partiria sem ele para Springfield, num vôo com mais de dez horas de duração. Porém, a lutadora não estava preocupada com o treinador, ela podia se virar sozinha contanto que estivesse com a cabeça no lugar. O próximo combate era com uma brasileira, Astrid já tinha estudado sobre as lutas dela e com os movimentos certos, estava confiante que podia vencê-la.

E conquistar também o Cinturão do MMA e todas as suas glórias.

— Posso me sentar aqui?

A pergunta tirou Astrid de seu momento de reflexão. Ela ergueu seus olhos para a mulher parada ao seu lado e ao vê-la, a loira não soube se respondia a pergunta com sinceridade ou com educação. Sacudiu os ombros e respondeu:

— Claro. –Preferiu ser educada.

Elena sorriu levemente, causando um certo desconforto para a russa, que desviou o olhar para qualquer coisa que fosse mais interessante que a americana. Astrid nunca tinha reparado que as latas de lixo eram tão brilhantes até aquele momento.

— Está nevando bastante, não é mesmo? – Elena soltou as palavras ao vento, enquanto se sentava.

— Eu percebi. – Paciência definitivamente não era uma das melhores virtudes de Astrid. – O que você quer aqui, Elena? Esse aeroporto é tão grande.Tem tantos outros lugares para sentar.

A americana cruzou as pernas e se recostou no assento da cadeira. Ela parecia muito séria, mas ao contemplar Astrid, a expressão em seu rosto suavizou docemente.

— Eu fiquei me perguntando, por que você agiu tão fria com seu noivo, afinal, você disse em várias declarações à imprensa que o amava e todas essas bobagens sentimentais, até que...

— Isso não é da sua conta! – O rosto de Astrid começou a ficar vermelho, evidenciando as sardas em seu rosto. — Você foi extremamente rude comigo. Até mesmo quando a coletiva de imprensa no fim da luta acabou. Por que quer falar disso agora?

— Eu sei o que ele fez, Astrid. – Elena respondeu seca. – O que você passou nas mãos dele... Nenhuma mulher deveria conhecer esse tipo de dor. Violência doméstica pode não ser um crime nesse país, mas é um crime muito grave no meu. E dane-se que você tenha me vencido, eu vou te ajudar se quiser.

Elena despejou aquelas palavras com coragem, não com o ego que sempre mostrava ter. Astrid não soube o que responder, apenas se sentiu estranha por receber apoio de alguém que ela jamais poderia imaginar. Elena tinha uma paranóia de ser vencida por uma novata de lado, enquanto Astrid tinha a filosofia de que só porque eram rivais de profissão, não necessariamente deveriam ter inimizades na vida pessoal.

Aquele era um avanço sem dúvida.

— Eu agradeço, Elena. De verdade mesmo. – O azul elétrico de seu olhar se intensificou com uma centelha de vitalidade e a lixeira deixou de ser atraente, Astrid agora via em Elena, um pouco do que mulheres como ela buscavam.Desde que saí de casa, percebi que é possível viver por um amor, que não seja necessariamente um homem. Amo meu trabalho e é por isso que eu luto. A parte ruim eu já esqueci.

Elena pareceu entender e percebendo a indelicadeza, preferiu não tocar mais no assunto. A morena se aproximou mais da loira, tão perto, que podia sentir o perfume do creme hidratante que irradiava da pele de Astrid. Mas ela permanecia quieta, sem esboçar qualquer reação.

— É uma brasileira perigosa. É bom ter cuidado. – Elena se referia atual campeã e dona do cinturão. – Ou ela vai terminar de quebrar o seu nariz.

Astrid tocou no próprio nariz, ainda doía e permanecia um leve inchado, mas a loira se permitiu rir. Uma risada gostosa, que há vários dias ela não dava. O coração da lutadora se acalmou, ela se lembrou de quando devolveu o anel de compromisso, que foi lhe dado um ano atrás. O valor que fora pago nele não importava mais, só o sentimento de liberdade que aquele ato lhe trouxera. E era assim que Astrid se sentia, absolutamente livre.

Era prazeroso estar conversando com outra mulher, sobre um assunto que ambas adoravam, com a mente longe de qualquer problema. Lidando com parte do cabelo que insistia em cair na frente do rosto, Astrid estendeu a mão para Elena, querendo terminar de uma vez com a rivalidade que nem deveria existir.

— Temos que construir nossa própria grandeza, enquanto os homens já nascem com a deles. –Elena retribuiu o comprimento com firmeza. – Um par amoroso é bom sim, mas devemos ser reconhecidas como aquelas que persistem, mesmo sem ter um homem do lado.

— Vejo que assistiu a final de Supergirl. — E assim como no final da série, Astrid escolheu continuar lutando. Mesmo assim, ela persistiu.

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Cinco dias antes do atentado

Mesmo não sendo bem-vindos, Jane e seus amigos mais próximos, Cadu e John, faziam do aeroporto sua casa temporária. Para as muitas pessoas que transitavam pelo aeroporto diariamente, Jane e seus amigos de rua, eram seres invisíveis e quando notados, eram tratados com desprezo.

John era viciado em crack e por muitos anos, viveu no mundo do crime, até receber a ajuda de grupos de apoio, que conseguiram o libertar da droga e Cadu, um hipster, que apesar de ter condições para uma vida melhor, preferia lutar para merecer vivê-la, ao lado de quem não tinha nada.

Encontrada numa viela suja, a garota foi acolhida por moradores de rua que se assim com ela, faziam parte dos excluídos pela sociedade. A única coisa que Jane mantinha de sua outra vida, era uma pulseira gasta pela ação do tempo, com um pingente em formato de J. Um objeto pequeno e que apertava seu pulso magro, escondido da vista de outras pessoas e mesmo que Jane não soubesse direito o que significasse, ela sabia que deveria ser importante.

Sua memória era como uma televisão fora do ar, Jane tentara várias vezes captar algum sinal de como era sua vida antiga, mas depois de falhar em diversas tentativas, a andarilha passou a se preocupar menos com seu passado, concentrando nos desafios de sobrevivência que ia enfrentar no futuro. E durante os seis meses que seguiram desde a perda da memória, Jane aprendera a deixar de se importar, disposta a iniciar uma nova vida.

Às vezes, Jane ia à diversos centro de reabilitação e parava para escutar as histórias de pessoas, que passaram por diferentes provações, mas que tentavam se reerguer como podiam. Aquilo fazia um bem inexplicável para sua alma.

Ela sabia que com muito esforço e paciência, qualquer vaso quebrado podia ser consertado.

Jane passou a freqüentar o aeroporto por incentivo do hipster, que imaginara ali como um local onde podiam ter o mínimo de segurança e a asiática concordou, mesmo que alguns militares tentassem enxotar ela e seus amigos algumas vezes, ela continuou.

O aeroporto compartilhava o terreno com uma base aérea mais ao sul, por isso não era incomum a presença de militares próximos ao Amelia Earhart. Jane, John e Cadu tentavam se esconder deles o máximo que podiam, porém em algumas vezes eles falhavam, como fora naquele dia fatídico.

Perto de um terminal de carga desativado, Jane procurava pela lixeira onde a comida não servida nos aviões era descartada. Lanches com uma pequena vida útil como aqueles, eram o que impediam Jane e seus amigos, a não dormirem com fome todas as noites.

— Vejamos que vai ser o jantar de hoje. – Ela disse para si, enquanto vasculhava as embalagens perfeitamente fechadas e limpas. — Lasanha e torta de amora! Nem na primeira classe se come tão bem assim.

Jane recolheu o que pode e se preparou para voltar, quando escutou três militares discutindo calorosamente sobre algo mais longe. Por um momento, ela se desviou do que fazia e se manteve atenta ao espetáculo que se abria à sua frente, como uma mera observadora.

— Eu não vou mais fazer, Sargento! – Gritou um deles. – Não foi para isso que me alistei!

— Agora é tarde. – Disse um sujeito alto, carrancudo e com cara de poucos amigos. – Você sabia do que se tratava quando aceitou e não tem mais volta. Esse é um segredo que toda a corporação jurou proteger.

— Vocês perderam o juízo? – Insistiu o soldado, que pelas patentes no peito, era um suboficial. – O país precisa saber o que é feito debaixo do nariz de todo mundo, nem que para isso, eu precise explodir esse lugar!

— Isso é uma ameaça, soldado? – Uma veia no pescoço do sargento pulsou de nervosismo. O homem enrijeceu e fuzilou o soldado insubordinado com o olhar.

— Não, é um aviso. – O suboficial não se intimidou.

— Se é assim que prefere, não podemos deixar você ir.

— Como não vão... – O homem não teve tempo de terminar a frase. Dois tiros a queima-roupa em seu peito o silenciaram.

— Mas que... – Jane se agachou, abafando o grito com a palma das mãos. Ela já tinha presenciado muita violência ao seu redor, por isso um assassinato tão bárbaro como aquele não mais lhe chocava, mas ainda sim, era capaz de despertar sua curiosidade.

— Isso era mesmo necessário, senhor? – Perguntou o segundo suboficial completamente atônito, que tirou a pistola das mãos do superior e procurou ao redor, por alguém que talvez tivesse presenciado o ato. – Devíamos ter contado ao capitão, devíamos ter procurado outra saída.

— Você sabe que não havia mais nenhuma. – O atirador olhou para o corpo sem ressentimento. – Esse é um segredo que envolve a segurança de todo o país e se ele contasse a alguém, estaríamos condenados. Decisões como essa são difíceis, mas alguém tem de tomá-las.

— Infelizmente sim. – O segundo soldado se afastou, indignado com a ação precipitada do colega de farda. – É melhor limparmos essa bagunça, antes que alguém veja e comprometa toda a nossa operação.

Escondida atrás do galpão de lixo, Jane pensou se devia fazer algo. Aquela não era uma área usada com freqüência e muito menos monitorada como devia, imaginou que se contasse para a segurança do aeroporto ou a polícia, seria ignorada como sempre. A palavra de uma mendiga, contra a palavra de um soldado que jurou proteger o país. Em quem iriam acreditar?

O atirador arrastou o corpo do morto até o terminal abandonado, colocou o cartão num leitor magnético e não precisou esperar para que a porta de aço se abrisse. Minutos depois, ele saiu como se nada tivesse acontecido. Jane não ficou para ver mais, ela recuou com o máximo de descrição que seu estado lhe permitia e se juntou aos amigos.

Guardando aquele segredo com ela.

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Ashley Greene ajeitou o terno novamente, procurando qualquer imperfeição em sua a aparência. A van do Hidden Oracle News 7 estava estacionada ao seu lado. O repórter se movimentava ansioso, enquanto seu operador de câmera preparava-se para gravar aquela, que seria uma das maiores matérias que a pacata Springfield já tivera.

O operador de câmera acenou positivo e Ashley respirou fundo, tentando se manter firme entre os demais ruídos e o oceano de pessoas que se movimentavam de um lado para o outro, sem destino. Além disso, era noite de tempestade e mais cedo ou mais tarde, a chuva cairia.

— Nenhum grupo extremista reivindicou a autoria do atentado até agora, mas é suspeito que o Estado Islâmico seja o responsável, assim como fora nas outras crises terroristas em diversas partes do país e também no Reino Unido. Testemunhas afirmaram que mais de 15 bombas foram disparadas em pontos estratégicos do aeroporto, o que dificulta a ação do corpo de bombeiros e o número de vítimas tende a continuar crescendo.

A câmera desviou do repórter e mostrou a imensidão atrás dele. O desespero e a dor impresso no rosto das pessoas que perderam alguém. A preocupação dos responsáveis pelo resgate, que pareciam buscar qualquer vestígio de esperança, debaixo de todo aquele ferro retorcido.

— Como podem ver atrás de mim, o fogo já foi controlado e a equipe de bombeiros continua no local, ajudando as vítimas que foram resgatadas dos escombros. Esse é o maior atentado em solo americano desde o 11 de setembro em número de vítimas, que somam pelo menos duas centenas o número de mortes e um número ainda maior de pessoas feridas em estado grave...

Longe dali, num bairro suburbano de Springfield, uma dona de casa assistia inquieta ao noticiário. Mary encarava a aliança em seu dedo, se perguntando sobre o bem-estar de Randy. Por mais que ela parecesse fria e colocasse o casamento em último plano, o amor pelo pai de seus filhos não tinha sumido, só havia se perdido um pouco no decorrer dos anos.

Atrás dela, uma pequena sombra surgiu, que assim como Mary, assistia ao noticiário com um semblante de tristeza. Andrea agarrava seu bicho de pelúcia favorito, o Senhor Urso, contra o corpo, como se estivesse com frio e tentasse se aquecer abraçando a si mesma. Sempre que chegava de seu turno, mesmo que estivesse extremamente cansado, Randy dedicava um tempo para a filha pequena.

— Mamãe, quando o papai vai voltar? – A voz da garota de cinco anos se mostrou ansiosa.

Mary inclinou a cabeça e encarou com tristeza o rosto da filha, querendo falar algo que a confortasse, mas ela simplesmente, não sabia como responder a pergunta.

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— O que há com ele? – Cisco perguntou para o grupo. Confusa com a expressão de dor no jornalista, Astrid pulou de volta a pilastra derrubada e se juntou ao engenheiro, visivelmente preocupada.

— Lucky? O que de ruim vai acontecer? – Astrid segurou o rosto dele com delicadeza, tentando tranquilizá-lo e também os outros sobreviventes. – Precisa se acalmar e nos contar.

— Alex... – Amparado pelo engenheiro e pela loira, Lucky se levantou com dificuldade. Além de uma sensação impertinente de calor que consumia o seu corpo, seus olhos ardiam de febre, e ele apertou com mais força o braço musculoso de Cisco. – Precisam achar o Alex!

Randy olhou ao redor, percebendo também que além de Alex, Jane e Nate também não estavam ali.

— O do cabelo rosa? – Laura indagou. — Acho que ele foi ao banheiro. Por ali.

Uma pequena explosão alertou o grupo, seguida por um grito desesperado mais adiante, capaz de gelar a espinha de quem escutasse. Por instinto, Randy sacou sua arma e seguiu na direção do grito. Louis, Tami e Laura foram com ele. Mesmo com dificuldade, Lucky se mostrou capaz de caminhar.

O ambiente estava tal como o resto do aeroporto, mas a partir daquele ponto, parecia que um novo incêndio tinha devastado o local. A primeira coisa que os atingiu antes de entrar no corredor foi o cheiro. Era meio adocicado e pegajoso, com toques de carne queimada ao fundo, que se mostravam presentes de forma intensa. Randy fez um gesto fraco com a mão, pedindo que esperassem, mas Lucky se recusou. Algo em sua cabeça não o deixava tranquilo.

— O que aconteceu aqui? – Lucky perguntou autoritário à Jane, sentada em cima de algumas bagagens, com uma nítida expressão de incredulidade.

— Foi só um acidente. Ele surtou do nada e atacou nós dois. – Nate respondeu no lugar dela, em seu estado normal de empatia. – A japonesinha tentou contê-lo com um desses sinalizadores e acabou que todos explodiram contra o surtado. Eu disse que era uma ideia idiota, mas...

— Cala essa droga de boca! – Jane berrou, com os olhos ainda marejados, encarando fixamente o corpo parcialmente tostado de Alex.

Um grito involuntário saiu da boca de Tami, que não quis chegar perto do corpo. Ela já tinha presenciado mortes demais, além de quase ter morrido instantes atrás. A professora se manteve firme, penalizou-se pelo rapaz tatuado e rezou silenciosamente por ele. Já tinha esgotado todo o estoque de lágrimas. Laura desviou o olhar, aquela cena chocante não sairia de sua memória tão cedo. Tanto ela, quanto Tami, queriam sair dali o quanto antes.

Se não bastasse o militar morto no depósito, Randy se deparou com mais um corpo, numa situação que ele ainda não conseguia ver como apenas um acidente. Tentou pedir ajuda pelo rádio comunicador e novamente, estava sem sinal. Ele então se virou para a asiática, em busca de uma resposta mais clara.

— Jane, foi isso mesmo o que aconteceu? – Perguntou, colocando a arma de volta no coldre.

A moradora de rua secou as lágrimas que insistiam em escorrer por seu rosto e prostrou-se na frente do policial.

— A abstinência mexeu com a cabeça dele e foi impossível controlá-lo. – Disse tentando se acalmar. – Ele atacou o Nate, que se defendeu com o sinalizador que eu tinha pegado e foi como num efeito-dominó... De repente os outros sinalizadores acenderam também e eu... Eu não consegui impedir.

Randy meneou a cabeça, ainda em processo de aceitação.

Astrid percebeu a insensatez nas palavras e nas ações de Nate. Ela não o culpava por ter uma parcela de culpa na morte do Alex, mas ainda sim, preferia ficar longe dele. Ela sabia que Alex tinha algum vício quando estavam no depósito, mas não imaginava que a abstinência provocaria sua morte daquela maneira.

— Você sabia que isso ia acontecer. – Afirmou Louis. Unindo os acontecimentos como um quebra-cabeça em sua mente. — Por isso mandou que viéssemos atrás dele.

— Eu só... Não sei explicar como, mas senti que tinha algo errado. – Respondeu o jornalista.

Aquilo impactou Lucky com força. Uma torrente de histeria subiu por sua garganta e Lucky sentia que podia começar a chorar de maneira inconsolável. Misturavam-se em suas lágrimas, a tensão vivida com o colapso do aeroporto e o aparente abandono, junto com a sensação de agonia que antecedera a morte de Alex. Uma dor surda em seu coração ganhava vida, assim como a voz em sua cabeça, que o atormentava sem motivo.

Louis não respondeu. A expressão de surpresa em seu rosto se perdera ao ver o estado em que Lucky se encontrava. O cérebro de Louis trabalhava com a intensidade de uma máquina. Pensando, calculando e tentando recolher o máximo de coragem para continuar suportando aquela noite infernal.

— É melhor não se aproximar, moça. – Advertiu ele à Astrid. A lutadora sentia as pernas trêmulas, enquanto se aproximava do corpo e tirava seu casaco, murmurando palavras de consolo em russo. O inglês fugia da memória dela quando estava nervosa.

No momento em que ela cobriu o rosto carbonizado de Alex, logo se levantou rapidamente, ficando de frente para ele, tentando tomar coragem para não vomitar. Ela mal o conhecia, mas não negou ajudá-lo quando viu que o garoto precisava.

— Descanse em paz, Alexander Holland. – Disse assim que recuperou o fôlego.

Uma fagulha se acendeu na mente de Lucky, que se desvencilhou do auxílio de Cisco e foi até a lutadora, com uma interrogação pairando acima de sua cabeça.

— Holland? Tem certeza que é esse o sobrenome?

— Sim, ele me disse quando estávamos presos no depósito lá embaixo. – Astrid pareceu confusa. — O Alex e eu conversamos bastante e ele inclusive, me contou sobre esse atentado ser parecido com as coisas que o pai dele dizia.

— Isso não pode ser sério. – Lucky andou em círculos pelo corredor, atraindo mais olhares curiosos. Era só o que ele recebia desde que avisara sobre a bomba. — É coincidência demais.

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A energia elétrica continuava precária, vindo principalmente das luzes de emergência. Deixando o corpo de Alex para trás, o grupo liderado por Louis caminhou por aquele corredor em ruínas, tentando não tropeçar nos escombros do aeroporto, que vencidos pela detonação das bombas, deixavam o trabalho de achar uma saída, cada vez mais complicado.

Tami notou uma porta que dava para um pequeno corredor que até aquele momento havia lhe passado despercebido, mas algo naquela direção era o que fazia a morena temer. Como se uma presença estivesse se espreitando pelas sombras, observando-a e sem dúvidas, lhe perseguindo insatisfeita.

— Tami? – Laura parou ao seu lado, pousando sua mão no ombro da professora. – Você viu alguma coisa?

A professora respirou fundo, balançando a cabeça e desejando que aquele delírio acabasse. Depois se arrependeu por ter feito, o cheiro dos corpos ao redor começava a incomodar, mais do que a própria aparência e ela sentiu uma breve ânsia de vômito.

— Você já teve a sensação de ser observada, Laura? Mas sabe que não há nada lá, que é apenas a sua imaginação lhe pregando uma peça?

— Muitas vezes. É natural pensar que vemos coisas. Isso poderia acontecer com qualquer um, que passasse por uma experiência traumática, assim como a sua.

Laura tinha um incrível poder energizante, que para Tami, faziam o terror e a confusão de um minuto atrás desaparecer, como se não fossem nada além de um pesadelo realista demais. A morena sorriu e quando Laura sorriu de volta, aquele pequeno gesto foi capaz de amaciar seu coração em prantos.

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Randy e Louis iam à frente do grupo, localizando possíveis empecilhos. O policial tinha uma pequena lanterna e a usava para combater a escuridão daquele corredor, que conforme se aproximavam, revelava cenas ainda mais angustiantes. Nate, Jane, Tami e Laura seguiam atrás deles. Cisco, Astrid e Lucky fechavam o grupo, um pouco mais afastados dos demais.

— Lucky. – Cisco chamou a atenção. – O que quis dizer com aquilo ser “coincidência demais”? Quer contar para gente o que sabe?

Cisco já tinha deixado de desconfiar da participação de Lucky no atentado, mas certas partes daquele quebra-cabeças não se encaixavam e uma parte de sua mente emitia gritos de alarme, que faziam o engenheiro querer estar por dentro de tudo o que o jornalista sabia.

Lucky cruzou um olhar para Astrid, ele já tinha compartilhado muita coisa com ela e por precaução, preferiu continuar guardando aquilo que pudesse fazer o grupo perder a esperança.

— Vai ser melhor assim, Lucky. – Astrid disse. — Segredos só vão deixar todo mundo ainda mais perdido, do que já estamos. Não vai fazer mais diferença agora.

— Tudo bem. – Lucky inflou seus pulmões com força, tomando coragem para revelar o que sabia. — Semanas atrás, eu fui encarregado de fazer uma matéria sobre a construção desse aeroporto. Entrevistei várias pessoas e uma delas, era um ex-sargento do Exército que estava aqui nessa época, Christopher Holland. Foi ele quem me falou sobre as superstições desse lugar.

Cisco assentiu, indicando que havia entendido. Foi a vez de Astrid falar:

— Alex me contou vagamente sobre isso, mas disse que o pai dele está internado numa clínica psiquiátrica ou algo assim. Por isso que ele não pode avisar das reais intenções por trás desse lugar e segundo a Jane, não podemos confiar nos militares enquanto estivermos aqui.

— É verdade, não pude usar quase nada do que ele me falara na matéria, porque minha chefe não aprovou o depoimento de alguém com problemas psicológicos, mas vejo que agora, ele estava certo.

O jornalista se lembrou de quando falou com Christopher Holland na casa de saúde mental. Aquele homem parecia perfeitamente lúcido na opinião do jornalista e tudo o que ele falava parecia ter coerência, com um fundo de verdade baseado nas pesquisas de Lucky.

Lucky também se lembrou de um caso parecido, que acontecera ano passado na Califórnia. Uma garota fora acusada de ter matado o namorado, os amigos e a própria irmã numa viagem que fizeram juntos para um acampamento de férias. Ela jurou que era inocente, mas ninguém escutou ou conseguiu provar isso. E depois de meses sendo negligenciada pelos pais, de tanto a população da cidade julgar que era culpada, ela finalmente pareceu acreditar que era mesmo uma mulher perigosa e não o dono do acampamento.

Tanto o pai do Alex e garota californiana tinham coisas em comuns. Eles não tinham nenhum histórico de problemas psicológicos, mas foram internados contra a própria vontade mesmo assim, por esconderem um segredo que era demais para eles.

Cisco esfregou as têmporas e tirou os óculos quadrados, limpando-os na barra da camisa rasgada. As feições do engenheiro deixavam escapar uma exclamação de espanto, sem que ele percebesse.

— Então, acho que tenho uma breve noção sobre o responsável pelo atentado. – Cisco recobrou a linha do raciocínio. — Vamos ter de voltar para o depósito alguma hora. Temos que falar com aquele morto.

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Louis sentia a cabeça mais leve, como se as correntes que apertavam suas têmporas afrouxassem o suficiente, para que ele pudesse se concentrar no destino daquelas pessoas. O piloto de olhos claros tirou a gravata engomada com o desenho da Oceanic Airlines e a jogou acima do ombro.

Mesmo com aquele glamour, Louis se sentia sujo. Ele poderia sair, beber, viajar, fazer qualquer coisa que o fizesse se alegrar, mas no final do dia, a doença continuava lá, o assombrando com uma sentença de morte. Louis sentiu um nó de angústia em seu pescoço, só de pensar.

Bastou uma noite, para que a vida de Louis mudasse completamente. Um encontro casual, uma decisão errada em não se proteger como devia e de repente, era preciso conviver com o vírus e a obrigação de mentir para todos que o conheciam. Ele só conseguia imaginar a reação de Tina, que sem dúvidas o amava, mas ter um soropositivo na família, era uma vergonha que temia dela sentir.

— Vamos seguir pelos terminais de embarque. – Disse Louis para o grupo, tentando voltar à normalidade. — Todos eles tem acessos secretos usados pelo pessoal da manutenção, que levam direto até a pista de decolagem. Quando chegarmos lá, estaremos do lado de fora.

Ele e Randy começaram a seguir o rastro de destruição, adentrando cada vez mais no interior do aeroporto. O que não faltam no prédio eram passagens de entrada e saída, eles só não sabiam quais delas ainda estavam acessíveis. Chegaram então ao que era considerado do centro do aeroporto, o saguão principal do segundo andar.

Se existia uma coisa que o Amelia Earhart podia se orgulhar – além de ter o nome da primeira mulher aviadora — era a enorme cúpula de vidro e ferro fundido, que iluminava o amplo saguão entre cada terminal de embarque. Após o atentado, grande parte do vidro da cúpula estava quebrado, e as hastes de cobre se desgarravam da base conforme o vento soprava. Correntes de bronze que faziam parte da decoração estavam dependuradas sem vida nas extremidades da cúpula, iluminadas pela luz da lua no lado de fora.

Abaixo da cúpula, existia uma passarela de vidro, por onde quem estivesse passando por cima, poderia ver o começo do mini shopping com lojas diversas abaixo, que iam até o terminal de desembarque no térreo. Após o check-in, os passageiros passavam pela comprida passarela até as salas de embarque. Agora, a estrutura de vidro desafiava o impacto das bombas ao continuar de pé, quase intacta.

— Não sei como caralhos esse lugar continua de pé. – Nate ergueu as sobrancelhas impressionado.

— Tomem bastante cuidado por onde pisam. – Advertiu Randy, com algumas rugas de preocupação sob os olhos. – Essa estrutura ainda pode desabar. Você sabe de alguma outra forma de passar, sem ser pela passarela, Louis?

O piloto balançou a cabeça indicando que não.

Nate foi o primeiro, a estrutura rangeu com os passos afoitos do estudante de espanhol, mas se comportou bem. Nate imaginava que era como andar num lago congelado, só precisava andar com cuidado pela superfície vítrea até o outro lado. Sem medo de se arriscar, a palavra medo não fazia parte de seu vocabulário.

— Do que está com medo, policial? – Nate perguntou assim que chegou até a metade da passarela. — Não sei você e os outros, mas quero sair daqui o quanto antes. De preferência, antes do café-da-manhã.

— Tudo bem pessoal, vamos lá. — Randy olhou para trás, notando que Cisco, Lucky e Astrid não estavam mais ali e isso o preocupou.

Nate já tinha chegado ao final e mandou que eles se apressarem. Louis caminhou com cautela, o vidro tinha rachaduras em alguns lugares e ele tentou olhar acima da amurada, para os apoios de concreto que seguravam a estrutura, porém não conseguiu enxergar nada no breu abaixo dele. Com o coração aos pulos, Louis seguiu passo por passo até se encontrar com um Nate impaciente do outro lado e respirar mais aliviado.

— Sem medo, Tami. – Laura entrelaçou seus dedos com os dedos de Tami. – Nós podemos fazer isso de cabeça erguida.

Assim que os pés de Tami e Laura tocaram na superfície espelhada, correntes e parte da cúpula despencaram com a força do vento, que começou a soprar com mais força. Com sorte, nenhum daqueles escombros atingiu as moças, mas foi o suficiente para abalar um pouco da integridade da estrutura. Randy, Jane e Louis olharam apreensivos, mas mesmo com a ponte tremendo sob seus pés, as garotas conseguiram passar.

— Sua vez, Jane. – Randy falou para ela com confiança. – Vou esperar pelos outros e depois encontro vocês.

Jane olhou para o alto, vendo a lua ser encoberta por nuvens de tempestade. As primeiras gotas de chuva despencaram do alto e à medida que se aproximava da passarela, as lâmpadas, de emergência começaram a piscar e emitir uma luz cada vez mais fraca, desaparecendo por completo segundos depois.

A oriental não se acanhou e continuou a andar, seus pés descalços demoraram a ganhar aderência no piso úmido e o hálito gelado em seu pescoço fez com que a garota tremesse.

— Você consegue, Jane! – Laura gritou do outro lado, mas o barulho de metal se retorcendo não deixou que Jane escutasse.

A cúpula acima de Jane estremeceu e rangeu, o vento fez com que mais correntes de ferro caíssem sobre a passarela e serpenteassem pelo chão, próximos aos pés de Jane. A oriental não teve muito tempo para reagir, quando o suposto vidro reforçado estilhaçou debaixo de si. Ela só pode perceber o baque de ser derrubada e puxada para baixo em alta velocidade, junto com as correntes que caíram sobre seu corpo.

Jane conseguiu se segurar no último momento num pedaço de ferro abaixo da passarela, com o corpo suspenso no ar e com as correntes se emaranhando a si, Jane seria tragada para baixo, numa queda direto no breu. Sua cabeça zumbia, incapaz de assimilar tudo o que estava acontecendo. Não era a primeira vez que encarava a morte, mas definitivamente, sentia que aquela seria a última vez. Jane sentiu como se uma pedra de gelo atingisse seu coração e com uma face de terror em seu estado puro, ela gritou.

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O som dos coturnos de Cisco fazia um barulho incômodo, conforme ele seguia ao lado de Astrid e Lucky, mais afastados do grupo principal. O rapaz andava com a mente cheia de dúvidas, como se aquele monte de informações fizessem pressão dentro de sua cabeça. Em momentos assim, as palavras de conforto de Jeanne faziam-lhe muita falta.

Cisco explicou para Astrid e Lucky, que ele, Tami, Randy e Laura encontraram um militar morto há dias no depósito. A informação de Jane, mais a pesquisa de Lucky sobre o pai do Alex alimentavam no engenheiro uma teoria conspiratória, que o intrigava. Fosse quem fosse o responsável pelo atentado, aquilo fora feito para que os segredos do aeroporto fossem finalmente revelados.

Desviando-se de seus pensamentos, Cisco reparou que Astrid tremia de frio, por ter dado seu casaco felpudo para cobrir o corpo do tatuador. O vento gelado também lhe fazia tremer, mas aquele era diferente de qualquer corrente de ar que ele presenciara, aquele vento trazia o cheiro de carne apodrecendo e um agouro que parecia perseguií-los. Sua camisa quadriculada estava um pouco rasgada, mostrando o peitoral sem nenhum pelo do engenheiro, que Lucky não conseguiu deixar de reparar por um segundo.

Lucky ralhou consigo, por se permitir vislumbrar a beleza masculina alheia durante aquela crise. Ele tinha muita coisa para se preocupar, a possível responsabilidade dos militares em parte do atentado, as coisas que viam em sua mente e principalmente a dor que Alex compartilhara com ele no momento de sua morte. Enquanto andavam, Lucky tentou voltar para horas atrás, logo depois do começo do atentando, em busca de uma resolução para o mistério macabro que se desenrolava.

Em sua visão, Tami morria com o pescoço cortado e logo em seguida, Alex ia pelos ares. Na vida real, Tami quase tinha morrido e Alex morrera de fato. O jornalista pressentia que aquilo não podia ser apenas coincidência, suspeitava que houvesse mais informações escondidas em seu subconsciente ou até mesmo, que existia um plano superior envolvendo a sobrevivência dele e dos outros.

Lucky se lembrava de ter visto pedaços de Alex Holland chovendo sobre ele e Astrid. Após isso, pessoas corriam desconexas como vultos ao seu redor e reparou numa enorme pilastras de sustentação, que tremia sobre a própria base e ameaçava cair em cima de passageiros assustados. Entre aquelas pessoas abaixo do pilar de concreto, um rosto se destacava, o rosto sujo de uma garota asiática.

— Jane...

As luzes ao redor deles se apagaram ao mesmo tempo. Lucky pode ouvir o barulho de goteiras e de repente, a temperatura baixou com uma rajada de vento gélido que os envolveu.

— Mais uma intuição? – Perguntou Cisco. Um estridente grito feminino mais adiante respondeu sua pergunta.

Lucky sentiu seu coração acelerar e seu corpo ficar pesado, como se estivesse sendo tragado para baixo, olhou para Astrid e Cisco que mais uma vez, mostraram que confiavam e acreditavam nele. Lucky agradeceu por isso.

— Mais uma vez, não posso explicar o que sinto ou que vejo, mas aquela garota... A Jane, ela precisa de ajuda.

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A luz da lua banhava o pingente de Nossa Senhora de Guadalupe, que brilhava sobre o pescoço de Antônio, mas conforme as nuvens escuras tomavam conta do céu, o fugitivo ficava cada vez mais sem direção.

A cerca pela qual passara delimitava o amplo terreno do aeroporto, Antônio caminhou por ele com esperança de escapar das autoridades e com sorte, poder procurar outro jeito de transportar sua encomenda, para conseguir ter o que mais desejara, desde a morte de sua família. Uma vida nova e estável, longe de problemas, onde pudesse se reerguer.

O Notran pesava por todo o corpo de Antônio. O latino tinha medo que o invólucro se rompesse antes que fosse retirado pelo mafioso que o contratara e se algo acontecesse com aquela droga, Antônio era um homem morto. O risco era grande, mas compensaria quando o dinheiro caísse em sua conta.

Antônio continuou vagando pela lateral do prédio em ruína, quando percebeu uma movimentação na direção que seguia. Um comboio de jipes militares vinha da base aérea até os terminais de carga do aeroporto, Antônio estreitou a visão para tentar enxergar melhor no escuro e viu que um homem armado esperava pelos carros. O latino apertou o pingente de Santa Guadalupe, sua padroeira, contra o peito peludo, permanecendo de vigília até o momento que fosse seguro fugir.

— Está atrasado, suboficial. — Disse o militar carrancudo, com voz seca e autoritária, Sargento Hilligan.

— Tivemos problemas, senhor. – O suboficial bateu os calcanhares e prestou continência. – Mas agora estamos prontos para retirar a carga do subsolo e levá-la para um local seguro.

Substituindo Christopher Holland, o Sargento Hilligan grunhiu e fez menção de dar meia-volta, mas sem antes dar suas últimas ordens:

— Se encontrar qualquer risco que comprometa nossa operação, tem minha permissão para atirar.

O suboficial pareceu acatar, ele acenou para os outros soldados que saltaram dos jipes e marcharam pelo terreno, na direção do latino escondido. Cercado pela polícia e o corpo de bombeiros de um lado, e o exército do outro, Antônio não teve outra opção, a não ser correr com o início de chuva caindo sobre sua cabeça.

Tentando não chamar atenção, o latino procurou por qualquer saída, mas só havia o próprio aeroporto como escapatória, visto que a estrada ainda estava repleta de policiais. Antônio seguiu para o prédio, olhando atentamente para a primeira brecha no concreto que encontrou e antes que fosse localizado, se espreitou para dentro do espaço, de volta ao aeroporto.

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Randy tentou se aproximar, mas as rachaduras cresceram vivas pelo restante da passarela de vidro com o primeiro passo, o policial temeu que seu peso fizesse toda a estrutura despencar e precisou recuar. A descarga de adrenalina fez Randy se curvar ao chão, seu corpo se contraiu e seu olhar se perdeu com um ataque de epilepsia inoportuno.

Quando as correntes foram impulsionadas pelo vento até a asiática, elas se enroscaram no corpo magro de Jane, que não tinha como se desvencilhar delas. Jane ficou suspensa no ar como uma marionete, enquanto o vento da tempestade fazia o papel de mestre dos fantoches.

Jane gritou por sua sobrevivência.

I won't just survive

Oh, you will see me thrive

Can write my story

Jane era um espírito livre, que ia para onde queria e fazia o que tivesse vontade, sem estar presa ao seu passado. A amnésia por muitas vezes foi uma benção, privando Jane de saber o sofrimento em sua infância e tudo o que tinha acontecido, até ser encontrada no beco. Era melhor não saber e escrever uma nova história para si mesma.

Do outro lado, Louis, Tami e Laura ficaram perplexos, obrigados a assistir a cena impotentes. Uma pequena sombra de preocupação perpassou por Nate, que mesmo contrariado, se viu torcendo pela vida da oriental andarilha. Na opinião dele, Jane era uma pessoa com quem podia se divertir no futuro.

I'm beyond the archetype

I won't just conform

No matter how you shake my core

Cause my roots, they run deep, oh

Um pouco de sangue escorria de sua testa e manchava sua blusa branca, Jane previa que perderia a consciência logo e suas forças se esvaíam conforme ela balançava no ar. Ao seu redor as sombras eram muito mais escuras, movimentando-se famigerados por sua vida, mas enquanto estivesse respirando, Jane não se entregaria tão fácil. Ela tinha fé.

Oh ye of so little faith

Os olhos da asiática estavam num tom grave de vermelho, como se estivessem cheios de sangue. Suas mãos apertavam a barra de ferro com força, fazendo a garota ranger os dentes, Jane se esforçava para voltar a ter controle do próprio corpo, mas o vento gélido moldava as correntes ao redor da asiática e a puxavam para baixo, para a sua morte.

Don't doubt it, don't doubt it

Victory is in my veins

I know it, I know it

And I will not negotiate

Ela tentava não pensar na morte. Durante últimos os seis meses, Jane á tinha passado por tantas adversidades nas ruas, que sempre lhe fortaleceram no final, morrer tão cedo não era uma opção aceitável.

I'll fight it, I'll fight it

I will transform

O trio correu ao máximo pelo corredor, quando se depararam com Randy tremendo e salivando, Jane pendurada para fora numa passarela enrolada por correntes pintadas de bronze. Lucky estremeceu ao ver o rosto da oriental sangrando e lançou uma expressão mista de raiva e pena.

— Vá salvar a Jane, a gente cuida do Randy. – Astrid se apressou em ir até o policial. – E Lucky... Toma cuidado.

O jornalista assentiu às palavras da lutadora e prosseguiu pelas sombras que cresciam ao redor de Jane. O tempo estava acabando.

When, when the fire's at my feet again

And the vultures all start circling

They're whispering, "you're out of time. "

But still, I rise

Assim que pôs os pés na passarela, as placas de vidros ameaçavam se romper com seu peso e conforme os segundos se passavam, Lucky podia ver que Jane não agüentaria se segurar por muito tempo e tentou bolar um plano. O som do metal tilintando um no outro era irritante, o vento rugia e atirava pedaços de ferro e bronze contra o vão da passarela. Contra Jane.

— Jane! – Lucky gritou. – Aguenta firme!

Com cuidado e rapidez, rapaz engatinhou até a beirada onde o vidro tinha se partido, tendo pequenos cortes nos braços pelos minúsculos estilhaços. A dor não importava tanto, o sendo de dever era o que o motivava a continuar. Naquele momento, lembrou de sua visão, quando Cisco morrera daquela mesma forma. Agora estava claro para ele, o padrão que vira em sua mente se repetia na realidade.

Sobreviver ao atentado fora um erro e agora, o destino se encarregava em consertá-lo.

This is no mistake, no accident

When you think the final nail is in, think again

Jane não pode mais segurar e ao soltar a barra, fechou os olhos e sentiu seu corpo cair no vazio.

Quando menos esperou, sentiu estar na parada no ar de novo. A mão calorosa de Lucky segurava seu pulso magro e com destreza, ele reuniu suas forças para erguer Jane de volta à passarela. Lucky não podia ver, mas era perceptível que todos olhavam para ele com esperança. A face de Jane estava inerte, manchada com o sangue que escorria por sua testa.

Mas ainda estava viva.

Don't be surprised, I will still rise

Lucky puxou Jane com solavancos, enquanto a passarela desmoronava de vez atrás deles. O barulho de destruição era ensurdecedor, como se uma nova bomba implodisse todo o andar abaixo deles e a poeira ascendesse ao céu negro.

Lucky e Jane caíram perto de Cisco em um emaranhado de braços e pernas. O engenheiro agiu rapidamente em livrar Jane da prisão de bronze, vendo a asiática lutando para se manter acordada, enquanto o ruído cessava por completo.

— Jane, você consegue me ouvir? – As palavras de Lucky saíram sem força. — Consegue se lembrar do que aconteceu?

You know it, you know it

Still rise

Os olhos ainda vermelhos de Jane se concentraram em Lucky com um súbito. Ela lembrou novamente da mão que empurrava seu rosto em direção à água quando criança, e o quanto lutou para se levantar. Aquela não era a primeira vez que Jane quase morrera, outras seguiram após o quase afogamento e perduraram durante sua infância e adolescência.

Just fight it, just fight it

Don't be surprised, I will still rise

— Eu me lembro... Lembro de tudo agora.

Notas finais
Espero que tenham gostado, não esqueçam de comentar! As reviews são importantes para a continuidade do projeto.