Notas iniciais
Escrito por 483ViniKaulitz (com uma colaboração de PW)

Os pulsos algemados e pendurados no teto do caminhão do exército, tornozelos amarrados no chão do veículo, Antônio balançava de um lado para o outro com os buracos na estrada, quase como se fosse um pedaço de carne num açougue. Não tinha ideia de seu papel naquela história, não sabia o motivo de estar ali, mas sabia que estava rumo ao próprio fim.

Desde o primeiro instante que havia se envolvido com o grupo, sabia que tinha alguma coisa fora dos eixos. Apesar de sua parte mais lógica continuar lhe dizendo que devia dar o fora pois aquele mundo não era dele, seu subconsciente o havia dito pra ficar. Espere e veja o show. Tudo fará sentido e você ficará bem.

Mentira.

O sangue já seco em seu rosto e peito, por vezes ria, contemplando a situação. Por que é que ele não tinha dado no pé?

XXXXX

12 anos antes

Tami entrou no banheiro em silêncio. Antes de fechar a porta atrás de si, deu uma última olhada no corredor, para ter certeza de que ninguém a veria ali. Então, empurrou a porta e se pôs de frente para o espelho, analisando sua aparência.

Os cabelos castanhos claros e curtos estavam escondidos embaixo do seu inseparável chapéu marrom, que havia sido comprado poucos dias antes. Ela achava-o muito bonito, de modo que quase nunca o tirava. Preferia ficar sem ele durante as aulas, mas com sua atenção redobrada, para que não arrumasse problemas com outros alunos da escola. Em hipótese alguma, poderiam saber do seu segredo.

Calmamente, quase de maneira ritualística, retirou o chapéu, pondo-o sobre a bancada da pia. Tirou a peruca logo em seguida, vestindo seu punho para segurá-la. Tami sacou um pente do bolso do shorts padronizado de alguma escola pública brasileira e começou a penteá-la com carinho. Ela sempre achava um momento durante as aulas para se manter bonita. Todas as meninas costumavam arrumar seus cabelos, encher seus rostos de maquiagem e Tami só queria poder fazer o mesmo. Sentir que fazia parte do grupo lhe trazia um sentimento bom, de alívio. Ela via como tratavam os diferentes, sabia que eram cruéis e tinha certeza de que não deixariam sua Alopecia passar.

A garota encarou o reflexo, sua cabeça careca sobre uma tez cabisbaixa. Tami não queria ser vista daquele modo, queria que vissem-na como uma garota comum, com seus cabelos esvoaçando, vaidosa.

De repente, ouviu burburinhos se aproximando do outro lado da porta. Rapidamente, Tami enfiou-se dentro de um dos box do banheiro e tapou a boca. A mão que segurava a peruca tremia. Ela sentou na pia atenta, ouvindo as vozes do lado de fora do box.

Vi ela entrando. — Houve uma pausa e a voz continuou: — Acho que alguém esqueceu uma coisinha aqui.

A latina olhou em volta e teve vontade de se punir naquele exato momento por ter esquecido o chapéu sobre a pia. Uma sombra passou embaixo da porta e Tami encolheu os pés.

Sabemos que está aí, Tamizinha, seu chapéu está comigo.

Por que está se escondendo da gente? — Disse a segunda voz, um pouco mais irritante que a primeira. — Está muito calada pro meu gosto.

É, diga alguma coisa! — Bufou.

Tami tratou de arrumar a peruca sobre a cabeça e guardar o pente de volta no bolso do shorts. Levou apenas alguns segundos e abriu a porta do box.

Será que uma menina não pode fazer xixi em paz? O que vocês querem? — Tentou ser brava, mas ao contrário do que pensou, não surtiu tanto efeito.

Que bicho te mordeu, garota?

Nenhum, eu só… — As palavras de Tami entalaram na garganta.

Fale assim comigo de novo, e vou fazer um inferno na sua vida! — A mais alta ameaçou, cuspindo.

Tami encolheu os ombros e sentiu o empurrão da segunda garota. Teve tempo de apoiar-se na pia, mas o couro cabeludo ficou exposto, a peruca da garota caiu no chão e os olhares das alunas pareceram lhe perfurar como facas afiadas. Tami subitamente encolheu os ombros e agarrou a própria cabeça. Tudo menos ficar desprotegida. Olhou de soslaio para o espelho e nunca se viu tão frágil como naquele instante.

Que horror! — A garota baixinha murmurou, perplexa. Virou para a amiga e continuou: — Ela tem câncer.

É mesmo.

Tami quis enfiar o rosto no primeiro buraco na sua frente, e só conseguiu chorar quando ouviu as risadas debochadas das estudantes. Provavelmente nunca ouviram falar da sua doença e sentiu muito por não saberem como reagir diante de sua condição. Elas se cutucavam e apontavam para sua careca, caindo na risada.

Me deixem em paz! Saiam da frente! — A jovem berrou e tentou passar por elas correndo, mas foi interceptada. As garotas seguraram seus braços, o pente despencou no chão, caindo sobre a peruca.

Calma, Tamizinha, tá com pressa? — Uma delas sibilou.

Espere até todos verem essa aberração.

ME LARGUEM! — Tami se debateu, dando um solavanco.

As meninas lhe empurraram e Tami tropeçou para trás. Sua testa bateu com força na quina da pia. No meio do trajeto até o chão, Tami sentiu o nó se formando e o crânio queimando. Quando atingiu o chão, apagou completamente.

Acordou horas depois, no pronto-socorro. A médica séria concluía seu prontuário e dizia para sua mãe que se não tivessem encontrado-a no banheiro a tempo, o nódulo poderia ter se agravado. E Tami estaria morta.

Pela primeira vez, ela não se importou de estar sem sua peruca.

XXXXX

Jane corria de volta ao aeroporto com passos largos, o coração batendo forte no peito quase como uma contagem regressiva. Aquilo estava finalmente acabando.

Quando havia embarcado Cisco na ambulância, entre tosses ensanguentadas o rapaz havia sussurrado sobre a senha. O golpe final, o último ajuste que precisava ser feito para que o Protocolo Argo fosse executado com sucesso e todos os documentos, inclusive uma carta escrita por Lucky fosse liberada ao público. A conexão com o servidor tinha sido reestabelecida, porém faltava a chave. Faltava tão pouco, mas a cada passo que dava, sentia como se faltasse mais e mais. Sentia que cada vez estava mais distante de ser livre.

Mas sabia que em algum lugar na estrada, Lucky buscava outra chave.

XXXXX

A ambulância balançava violentamente com a estrada, porém Lucky continuava firme. Randy no volante, Tami no passageiro, Cisco machucado enquanto Astrid tomava conta do rapaz.

— Eu não sei se ele vai dar conta. — Astrid suspirou. — Ele está esgotado demais.

Porém Lucky não ouvia. Tinha os olhos fixos no diário de Abraham, tentando encontrar algo que fizesse sentido dessa vez.

“DIA 15

Talvez essa seja a última vez que apareço por aqui. Tenho certeza de que eles irão mexer conosco novamente. Foram incontáveis vezes, mas desta vez nós vimos o próximo passo antes. Não era isso que queriam desde que começaram o Experimento Oracullum? Foi como da primeira, eu vi tudo em um sonho vívido. Não só a mim, mas vários da mesma remessa. Graças a uma falha deles não os deixaremos realizar a porra de uma lobotomia coletiva, vamos contra-atacar! Essa é a única chance de sairmos vivos.”

DIA 20

Atacamos de volta. Desde a última vez que escrevi, muita coisa aconteceu. Muitas descobertas e muito chão explorado. Descobrimos que nossas visões estavam funcionando em conjunto. Se juntássemos pedaços, podiamos ter acesso a maiores períodos de tempo, e podíamos ensaiá-lo para saber como agir em cada passo que eles dessem em nossa direção no futuro. Assim que avançaram com a lobotomia, atacamos de volta, porém não éramos capazes de prever os resultados de nossas pequenas mudanças ao atacá-los. Um incêndio se alastrou pelas instalações dos experimentos e a maior parte de meus colegas morreram. Eu tinha visto o fogo em meus sonhos, então eu me escondi num duto de ventilação.

Esperei a noite virar dia e evitei a minha própria morte. Desde aquele momento, continuo tendo visões de meu próprio fim. O que for que eles tenham me dado, aguçou meus sentidos, então eu vejo tudo o que vai dar errado. E eu evito. O pensamento de conviver com isso para sempre me aterroriza, porém eu não vou desistir. O que meus colegas consideravam como uma maldição, eu decidi abraçar como um presente.

Estou prestes a escapar desse lugar. Eu espero que tudo fique bem.

Lucky engoliu em seco, sem saber o que fazer. Teria sua visão sido causada devido ao encontro com Abraham, anos depois? Mas não era daquele jeito que funcionava, certo?

Visões em conjunto. Visões coletivas. O que aquilo poderia significar? Se Abraham tinha sobrevivido com aquilo, seria aquela a chave para Lucky?

Um estouro e cacos de vidro foram arremessados por todos os cantos da ambulância. Alguém gritou, e o jornalista sentiu-se pulverizado por um líquido quente. Secou o rosto e encarou a situação.

Primeiro: concluiu que os militares estavam atirando lá fora.

Segundo: Astrid tinha sido atingida por um tiro em seu braço, perdia muito sangue e tinha caído no chão do veículo. O líquido rubro escorria pela ambulância, e com um arrepio ele concluiu que se Cisco tinha sido pulado, a lutadora era a próxima.

XXXXX

Jane aproximou-se da garagem de onde tinha escapado minutos antes, e arremessou-se de volta no interior do aeroporto. Parecia uma piada retornar as pressas para um lugar que tinha quase morrido pra escapar.

Porém, pensando bem, os erros na vida de Jane tinham provado serem uma piada constante, um bumerangue que continuava pousando em seu colo por mais que ela o arremessasse longe. E mais uma vez, mais memórias voltavam em seu interior, e Jane se esforçava em deixá-las de lado para terminar sua missão.

Ouviu passos pesados surgindo logo atrás de si virou-se repentinamente, sem parar de correr. Dois militares corriam atrás dela – ela sabia que eles não tinham ideia do que era o plano, mas iriam fazer de tudo para impedi-la de seguir em frente.

XXXXX

Tami berrou encarando o corpo ensanguentado de Astrid, arrepiando-se inteira ao ver uma das mulheres mais fortes que havia cruzado seu caminho em toda sua vida entrando em desespero. Cisco estava pálido, encostado contra a lateral da ambulância, o rosto amassado e ensanguentado, soluçava e parecia pairar num estado entre a consciência e o outro lado. Aquela visão do engenheiro já estava amedrontando Tami desde que o mesmo havia sido embarcado. Ela não sabia o que fazer com o rapaz, não sabia o que fazer com a lutadora, e aquela falta de controle da situação estava a deixando louca.

— Rápido Randy! — Tami berrou, sem saber como reagir. — Rápido!

Mas ela sabia que não importava o quão rápido Randy corresse, eles já não teriam tanto tempo restante. E agora pensava que ficar quieta, escondida no aeroporto pra sempre talvez não fosse a pior ideia.

Randy encarou a parte traseira da ambulância e deixou escapar um gemido de horror. Segurou as lágrimas e continuou acelerando pela estrada vazia.

Tami abaixou-se próxima de Astrid com os olhos marejados. Lucky tinha ambos os braços pressionados contra o local que Astrid havia levado o tiro, mas não parecia fazer muito efeito.

— É uma ambulância, pelo amor de Deus! — Lucky berrou entre lágrimas. — Deve ter algo que podemos fazer!

Tami passou a revirar os armários pequenos, retirando gazes e curativos e tentando encontrar um jeito de lidar com a situação, porém a lutadora perdia sangue demais.

Astrid encarou Lucky séria, os olhos azuis brilhando em contraste com o sangue em seu peito.

— Descubra... a lista. — Astrid apontou para o diário. — Eu.. fico bem.

— Você vai ficar bem. — Tami a encarou, infelizmente certa de que não estava soando convincente o suficiente. — Você precisa FICAR BEM!

Astrid concordou e forçou um sorriso.

Tami entendeu que aquele sorriso era uma expressão de quem já sabia o que estava vindo.

XXXXX

Num dos corredores, Jane sentiu se empurrada contra uma das paredes e atingiu o queixo num extintor de incêndio. Caiu no chão e viu o sangue escorrendo de seu próprio rosto. Sentiu as lágrimas da dor chegando, mas ignorou. Forçou-se para levantar-se, mas um dos militares a agarrou pelo cabelo.

Jane gritou, lutando para desvencilhar-se, porém o militar passou a arrastá-la pelo corredor, forçando-a para se levantar.

— Me solta! — Jane berrou. — Por favor!

Nenhum dos dois a ouviu. Eles trocaram um olhar de como se ambos já tivessem discutido que ela imploraria para ser poupada outra vez.

— Eu só preciso fazer uma coisa... — A voz embargada de dor, Jane conseguiu levantar-se dessa vez, e o militar agarrou seu pulso, finalmente soltando seu cabelo. Ela suspirou aliviada, uma ideia rápida surgindo em sua mente.

— Vocês já tiveram tempo demais nas últimas horas...

Um estalo, um empurrão e os militares se encararam. Jane tinha tratado de arrancar uma das armas do coldre de um dos militares e apontava para a cabeça do que havia a puxado pelo cabelo. O outro militar tinha a mão no coldre, porém não tinha retirado a sua arma.

— Se você se mexer eu atiro... Me deixem ir! — Jane berrou, destravando a arma. — ME DEIXEM IR! ME DEIXEM IR! ME DEIXEM IR!

No canto de sua visão, observou o próprio reflexo num espelho no corredor. Empunhava a arma como se fosse a dona do mundo. O rosto parcialmente ensanguentado, o que não tinha sangue estava coberto de suor. Mechas de cabelo colados sobre sua testa, a expressão de uma mulher que não tinha absolutamente mais nada a perder.

Tinha se tornado aquela mulher.

Ambos ergueram os braços. Jane virou-se e passou a correr novamente.

XXXXX

Lucky folheava o diário com as mãos tremendo. Agora suas mãos ensanguentadas também sujavam as folhas, porém com o calor do momento ele não sabia mais que tipo de informação podia extrair. Estava exausto e queria apenas desistir. Queria ir embora e desaparecer.

— Eu não sei o que fazer. — Suspirou, segurando contra a corda no teto da ambulância. — Eu não tenho ideia de como seguir em frente....

— As visões... não tem nada? — Era Tami. Ela não tirava os olhos de Astrid, que a encarava de volta.

Lucky estava frustrado. Tinha passado uma vida inteira juntando e distribuindo informações da melhor maneira que podia, porém agora não conseguia juntar nada. O que ele mais podia fazer?

— Lucky... — Era Cisco. Sussurrava com dificuldades devido aos ferimentos. O jornalista jamais tinha visto o engenheiro tão vencido daquele jeito. — Lucky... volte ao começo. O começo de tudo é o que define...

Então Lucky pensou. Voltou a uma noite seis anos mais cedo, e certamente era o encontro com Abraham. O homem era o dono do diário. O homem que teria continuado vendo sua própria morte por todos os anos e evitado. O homem que... havia salvo Lucky.

— Astrid fica comigo! — Era Tami. — ASTRID FICA COMIGO!

Lucky encarou. A loira apenas concordava com a cabeça, os olhos marejados de lágrimas.

Ao mesmo tempo que Abraham havia salvo Lucky, ele havia criado uma nova lista. Uma sequência de pessoas que passaria a interagir com Lucky, e que desequilibrariam a ordem natural das coisas. Lucky teve uma visão e salvou outras pessoas... criou uma nova lista...

Lucky arrepiou-se ao considerar que talvez o próprio homem fosse o causador do incêndio em seu quarto no passado. De qualquer jeito, Abraham criou um novo visionário.

E se aquela tivesse sido a tática de Abraham?

XXXXX

Jane entrou na sala de comunicações como um furacão. Correu até o assento do controlador, soltou-se na poltrona e lembrou da vez que Louis havia sugerido que ela poderia ser controladora de voo. Louis quase tinha acertado, era sua mãe a controladora de voo.

Encarou o painel. Engoliu em seco, não tinha pensado direito na opção da senha. Como é que ela poderia saber? Esperava que uma luz acendesse em seu cérebro.

Abriu uma pasta na tela e encarou todas as dezenas de arquivos que os rapazes haviam escrito, organizado e escaneado nos últimos dias. Ia ser enviado para diversos tablóides e jornais do mundo, tudo graças a ótima memória de Lucky para endereços. A última cartada.

E tudo dependia dela.

Tentou uma senha. Duas. Três. Quatro. Cinco.

Então alguém entrou na sala.

XXXXX

Astrid via o mundo girando ao redor de si mesma. Era quase como se estivesse tonta no ringue novamente. Porém não era o ringue.

Tami estava chorando copiosamente acima de seus olhos. Queria abraçá-la e dizer que tudo ficaria bem. E aquilo de certa maneira estava certo. Seu coração dizia que Tami iria dar conta.

Porém ela... era outra coisa.

Queria abraçar Cisco. Queria abraçar Lucky, Randy e Jane. Queria agradecer por tudo o que tinha passado. E queria xingar tudo que havia dado de errado. Toda a situação que levou até aquele lugar.

E ela estava cansada. De certa maneira, estava grata por não estar acabando em mil pedaços.

— Astrid? ASTRID?

— Eu tô bem. — Astrid sussurrou. — Obrigada.

E então a visão da lutadora começou a girar, como num vórtex. Se perguntou se aquele era o sinal de que devia ir embora, e finalmente dar o braço a torcer. E seu cérebro voltou a ser preenchido por algo barulhento.

Eram os gritos da multidão.

“... Mas Astrid não vai desistir... ela está machucada demais depois de dois takedowns da adversária espanhola... porém Astrid está se levantando novamente... ah meu Deus... ASTRID IVANKOWITCH ESTÁ INDO PARA AS CERCAS!”

Astrid riu em seu pensamento. Swing for the fences, indo para as cercas. A expressão que indicava que os competidores iriam dar tudo o que tinham nos últimos segundos de uma competição.

Astrid tinha dado tudo de si.

ASTRID IVANKOWITCH, MAIS UMA VEZ, MEUS QUERIDOS! A NOSSA PRINCESA RUSSA DETONOU HANNY LOPEZ EM SEUS SEGUNDOS FINAIS COM UM TRIÂNGULO IMPECÁVEL! PALMAS PRA NOSSA GAROTA!”

E a multidão continuou comemorando, até o som desaparecer no horizonte de consciência.

Levando Astrid junto, rumo a um novo campeonato.

XXXXX

Os dois militares entraram como trovões na sala de comunicações. Jane virou-se de volta pra eles e então suspirou fundo.

Pensou na figura materna que cercava os cantos de seu cérebro machucado. Não podia ser tão difícil, não é?

Respirou fundo. Digitou a única senha possível e pressionou enter.

Foi atingida por um soco na nuca enquanto acompanhava a senha ser aceita e dezenas de arquivos sendo transmitidos para o mundo inteiro em segundos.

Foi pressionada contra o chão. O rosto já machucado contra o piso gelado, porém acompanhando a barra de conclusão surgir na tela do computador.

Sorriu. O Protocolo Argo tinha sido executado.

Então um saco foi colocado ao redor de sua cabeça e ela não viu mais nada.

XXXXX

— Eu preciso criar outra lista! — Lucky encarou Tami. — Eu preciso fazer que outra pessoa tenha uma visão. Foi o que Abraham fez comigo!

Tami cobriu o rosto de Astrid com uma coberta. Não encarou Lucky.

— E como é que você vai fazer isso? — Berrou. — É tarde demais.

Lucky olhou ao redor na ambulância, pensando demais. Abaixou-se com mais tiros que vieram.

— Precisa que eu faça algo? — Randy berrou lá da frente. — Logo vamos chegar numa cidade...

Então todos na ambulância foram arremessados com um golpe, o caminhão de guerra estava começando bater no veículo para tirá-los da estrada.

— Como você vai fazer isso? — Tami berrou novamente. — Como?

— Eu vou criar uma lista inesperada. — Lucky fechou os olhos. — Uma que a morte não espera. Vou causar um acidente.

— O que você tá falando?

— Se esconde e segura firme! Agora!

Lucky pensou em Ariel. Em tudo que não poderia fazer para o filho. Em tudo que iria deixar para trás. E concluiu que não tinha escolha.

Abriu ambas as portas da ambulância, e alguns tiros vieram com mais intensidade.

O jornalista empurrou uma série de armários e macas, que caíram na estrada com uma velocidade assustadora na direção do caminhão. Ele encarou a cena por alguns segundos, então sentiu sua mente se contrair repentinamente e uma queimadura repentina arder em sua testa.

Ouviu Tami berrar, e então entendeu que um tiro havia atravessado sua própria cabeça. A morte mal esperou ele dar as caras, e atacou. Viu o próprio sangue jorrar na parede oposta da ambulância e despencou no chão do veículo.

XXXXX

Ainda preso nos ganchos, Antônio berrava com dificuldades. Estava desesperado para que aquilo acabasse logo. Parecia que anos haviam passado desde que havia sido preso naquele lugar. E agora o caminhão estava acelerando demais e atingindo a ambulância de segundos em segundos.

Pensava no que aconteceria com o tal do Lucky, o que teve a visão. Porque é que Antônio não conseguia parar de pensar nele?

Pelo menos tinha uma visão boa da estrada. Esperava que aquela maldita ambulância na frente do caminhão capotasse de vez, para que finalmente os militares parassem e as coisas voltassem a fazer sentido novamente.

Então as portas da ambulância na frente do caminhão se abriram e uma série de materiais e macas e armários foram arremessados na estrada na direção do caminhão. Antônio berrou, mas de nada adiantou.

Observou uma muleta atravessar o para-brisa como se fosse nada e empalar a cabeça do militar que dirigia. Cérebros explodiram na frente do caminhão e o corpo do rapaz despencou na direção do vidro. No mesmo instante, o caminhão deu um soco violento e Antônio entendeu que algo tinha perfurado o tanque de combustível.

Uma fumaça negra seguida do fogo vermelho e vivíssimo subiu diante da frente do caminhão, engolindo o militar assistente, que não tinha ideia do que estava acontecendo. O fogo seguiu devorando na direção de Antônio, porém o homem sentiu-se levitar repentinamente como se a gravidade tivesse ido embora, o corpo ainda preso nas cordas.

O caminhão estava capotando. Ouviu os gritos de mais militares na carroceria sendo arremessados para todos os cantos – nenhum deles estava amarrado.

Então o caminhão atingiu o chão de ponta-cabeça e deslizou pelo asfalto seco com uma chuva de faíscas, enquanto Antônio agora vomitava no ar o que restava em seu estômago, ainda amarrado flutuando devido as cordas em seus braços e pulsos, presas no teto e no chão da carroceria. Na capotagem, as portas traseiras do caminhão se abriram e o homem foi iluminado repentinamente, quase como se estivesse prestes a entrar no túnel da morte.

Finalmente, Antônio notou que além do sangue e pedaços humanos pra todo lado (militares mortos e feridos na capotagem do veículo), ainda estavam na estrada. E mais veículos vinham atrás.

O segundo caminhão atingiu a parte traseira do caminhão capotado, Antônio foi arremessado e engolido por uma explosão enquanto gritava.

Porém tudo ficou branco repentinamente e Antônio estava de volta, amarrado no caminhão que não havia tombado. A ambulância ainda estava de portas fechadas na frente do caminhão. Nada daquilo tinha acontecido.

Antônio tinha tido uma visão. Aquilo significava que ele entraria na lista? Droga, ele tinha muita coisa pra fazer.

— HEY! — Antônio berrou. — EU SEI O QUE ELES VÃO FAZER! DESVIA ESSE CAMINHÃO!

XXXXX

Cabelos ao vento com as portas abertas da ambulância, Tami acompanhou o corpo de Lucky desabar sobre o de Astrid. Atingido por um tiro. Morto.

A professora não reagiu. Não tinha mais como reagir diante dos acontecimentos. Acompanhou os conteúdos da ambulância caírem na estrada, na medida que o primeiro caminhão na fila desviava, como se magicamente tivesse previsto que Lucky iria arremessar conteúdos na pista.

O segundo caminhão atingiu os conteúdos da ambulância, o tanque de combustível foi perfurado e uma explosão subiu pelos ares, iluminando o rosto da professora com um calor intenso, ao mesmo tempo que sentia um peso enorme sendo retirado de suas costas. Será que...?

— FILHO DA PUTA! — Randy berrou no volante, meio chocado e meio extasiado. — Vocês sentiram isso?

Tami havia sentido, mas não estava pronta pra reagir. Estava em choque.

— Alguém teve uma visão em algum lugar. — Cisco sussurrou. — Estamos salvos?

Estavam?

— Pessoal... — Randy pigarreou. — Temos companhia. Vou ter que parar...

Tami queria berrar pra que Randy continuasse, porém ergueu-se na parte traseira e olhou a estrada diante de Randy.

Uma série de carros da imprensa havia parado na frente da ambulância. Os diversos jornalistas agora saíam de seus carros e corriam em direção ao veículo. Entraram na parte traseira e encheram o veículo de flashes e interrogações para os três que estavam vivos.

— Ajuda médica. — Tami os encarou, acabada. — Precisamos de ajuda médica!

Então os jornalistas foram expulsos do veículo e militares passaram a gritar alguma coisa com a mídia.

Tami fechou os olhos marejados e esperou.

XXXXX

I remember when your head caught flame

It kissed your scalp and caressed your brain

Well you laughed, baby it's okay

It's buzz cut season anyway

A peruca de Tami foi arrancada e ela foi arremessada nua contra um chuveiro. Em lágrimas, seus choros foram abafados pelo som e pelo gemidos do contato com a água gelada. Então outra mangueira de algum composto químico foi segurada por militares e direcionada na garota. Mais água em Tami.

— Não precisa entrar em desespero, moça. — Uma das militares mulheres falou ao observar o pânico no rosto de Tami. — Acabou.

Os militares haviam resgatado ela, Randy e Cisco e os levado até uma instalação no meio da cidade. Ela já não tinha certeza do que seria feito com eles, porém rezava para que o Protocolo Argo funcionasse de acordo com o discutido. Tinha ouvido Randy dizer que também tinha visto Jane ser levada na instalação, mas naquela altura não tinha certeza de nada.

Respirou fundo e deixou a água cair, pelo menos ela teria uma eternidade inteira pra pensar. A única certeza que tinha é de que nunca mais seria a mesma.

XXXXX

Explosions on TV, and all the girls with heads inside a dream

So now we live beside the pool, where everything is good

We ride the bus with the knees pulled in

People should see how we're living

(We ride the bus with the knees pulled in)

Shut my eyes to the song that plays

Sometimes this has a hot, sweet taste

Vestindo apenas um pijama de hospital, trancada em uma salinha com apenas uma mesa e uma cadeira, Jane encarava um espelho, que sabia que do outro lado da parede era possível observar tudo que ela fazia lá dentro.

Os ferimentos em seu rosto já tinham sido cuidados por médicos, porém todo o seu cabelo tinha sido raspado. Por vezes a mulher encarava seu reflexo sem cabelos no vidro e tinha sensações mistas.

Os militares queriam que os sobreviventes passassem pelo mesmo processo de quarentena, submetendo-os a exames e banhos gelados diários, mesmo que estivesse evidente que nenhum deles tinha vírus algum.

O processo de quarentena era pra justificar para a imprensa o porque de tê-los mantido trancados no aeroporto durante aqueles dias. E mais uma vez o governo seguiria impune.

— ME DEIXEM SAIR! — Jane berrou. — VOCÊS JÁ TEM TUDO O QUE PRECISAM!

— Volte ao seu dormitório. — Uma voz surgiu no megafone. — Agora.

A porta automática abriu-se repentinamente e Jane respirou fundo. Então o senador Kobayashi entrou no cômodo e a encarou com um semblante de preocupação.

Jane aproximou-se do homem. Encarou o próprio pai por longos segundos, então cuspiu na cara dele, que fechou os olhos.

— Não está cansado de arruinar a vida dos outros, senador Kobayashi?

O homem limpou o cuspe do próprio rosto enquanto Jane deixava a sala.

XXXXX

The men up on the news, they try to tell us all that we will lose

But it's so easy in this blue, where everything is good

And I'll never go home again (place the call, feel it start)

Favorite friend (and nothing's wrong when nothing's true)

I live in a hologram with you

Randy estava deitado sobre uma maca num cômodo refrigerado por um ar condicionado. Ambos os pulsos amarrados na maca, também tinham raspado seu cabelo e ele estava nu. Se sentia exposto e machucado, e achava que aquilo tudo era desnecessário demais porém não podia fazer nada.

— Tem certeza que eu preciso ficar pelado pra vocês fazerem isso? — Bufou. — Eu tenho meus direitos.

Ninguém respondeu. Na maca ao lado, Cisco estava exatamente do mesmo jeito. Também estava sendo cuidado, mas parecia estar sob o efeito de tantos analgésicos que não conseguia se expressar direito. Por vezes o rapaz fazia sentido demais, outras vezes viajava e começava a contar diversas histórias sem pé nem cabeça para os militares, e que para Randy poderiam muito bem pertencer a outra vida.

O policial estava desesperado por ver sua família. Desconfiava que cedo ou tarde o liberariam – tinha falado com a esposa por alguns segundos no telefone no dia anterior, então tudo indicava que ele poderia ter um final feliz. Não se sentia mais perseguido pela morte, e mais uma vez suas expectativas voltavam a se resumir no sentir medo das coisas que os seres humanos realmente deveriam temer.

Ele conhecia os procedimentos que estavam fazendo com ele. Já tinha lido sobre quarentena. Ele sentia-se furioso pois apesar do governo ter perdido muita credibilidade com tudo o que estava saindo na mídia – décadas e décadas de mentira, a quarentena faria parecer com que todos eles estavam doentes e precisavam de fato ficar trancados. E então o governo não teria culpa daquilo.

Uma militar loira aproximou-se com uma seringa e Randy engoliu em seco.

— Precisamos mesmo fazer isso?

— É o procedimento. — Ela respondeu. — Você conhece as regras.

XXXXX

Where all the things that we do for fun (and I'll breathe, and it goes)

Play along (make-believe it's hyper real)

But I live in a hologram with you

Cisco observou a militar retirar o sangue de Randy e colocar num recipiente. Ela aproximou-se do engenheiro e forçou um sorriso pra ele, que por sua vez não retribuiu.

O rapaz estava esgotado. Finalmente começavam a diminuir as doses administradas de analgésicos e ele voltava a fazer sentido das coisas novamente. Estava grato por estar aparentemente salvo da morte, porém não sabia se ficava feliz ou triste em como tudo tinha acabado. Astrid e Lucky não tinham sobrevivido, e ele sentia horrível. Por vezes queria cair em lágrimas, por vezes queria desaparecer.

— Como se sente hoje, Cisco?

— Tô pelado e com frio. Me encare de novo e refaça a pergunta.

A militar o olhou de cima a baixo, constrangida.

— Por favor, por quanto tempo precisamos ficar aqui? — Cisco suspirou. — Ninguém aguenta mais.

A militar o ignorou. Deu a volta, pegou uma seringa e enfiou algo nas veias do engenheiro pela milésima vez naquela semana. Então abaixou-se repentinamente perto do rapaz e sussurrou.

— Eu não devia dizer isso, mas tem mais gente lutando por vocês lá fora. Vai ser logo, fique firme... Oficial Gallo.

Cisco concordou, respirando fundo ao sentir as drogas caindo novamente. Foi fechando os olhos.

— Obrigado, Oficial Cameron.

Notas finais
Espero que tenham gostado, não esqueçam de comentar! As reviews são importantes para a continuidade do projeto.