Superstition 2
17 Capítulo 14: Karma
Notas iniciais
Wiltshire, Reino Unido — Duas semanas antes dos eventos em Hadiah
Uma hora após o Impala deixar Oxfordshire em direção ao sul da Inglaterra, eles chegaram na pequena cidade de Salisbury, no condado de Wiltshire. E logo, o indecifrável complexo monolítico erguia-se nas planícies verdes; enigmático e hipnotizante para o olhar de Skylar, que via seu destino chegar conforme o carro se aproximava.
—Aqui estamos, campeão. — Jon anunciou. — O tão famoso Stonehenge.
—É lindo… — Foi só o que garoto conseguiu dizer, de tão maravilhado que estava.
Pelo vidro do carro, Skylar admirava a arquitetura rústica e igualmente intrigante, da qual só vira em imagens ao longo dos anos. O Stonehenge ainda era maior pessoalmente, com seus pilares estando a mais 5 metros de distância do chão, numa formação circular e repleta de mistérios incrustados em suas pedras.
—E deve ficar ainda mais lindo no solstício de inverno, quando o nascer do sol se alinha perfeitamente às pedras principais. — Completou, sentindo o vento rápido em seu rosto. — Por isso eu tenho certeza que as pessoas daquela época, conheciam as estrelas tão bem quanto eu.
—Essa não é minha área. — Jon deu de ombros, procurando um lugar para estacionar o carro. — Mas se quiser que eu conte a história do lugar, eu posso falar um pouco dos mitos por detrás dessas pedras.
Sendo este o monumento pré-histórico mais importante da Inglaterra, diversas teorias especulavam sobre a função do altar de pedras azuis, dentre rituais mágicos, cerimônias em celebração ao sol e até mesmo como um aeroporto milenar para alienígenas. Seja o propósito que for, o Stonehenge conseguia a atenção de milhares de pessoas assim como Skylar, que mal esperou o tio parar o carro para se aproximar da construção histórica.
—Não é necessário. Qualquer pessoa que tenha o mínimo de conhecimento sobre astronomia, sabe que o Stonehenge é um observatório feito pelos europeus primitivos. Abençoada seja a arqueoastronomia!
—Vou fingir que sei do que você está falando. — Sorriu, aceitando a leve afirmação de superioridade. Mesmo tendo metade de sua idade, Skylar demonstrava saber mais do que Jon em diversas áreas e ele não se importava com isso. — Mas de qualquer jeito, quero ter certeza que da próxima vez que você decidir cruzar metade da Inglaterra sozinho, você vai me avisar primeiro. Fechado? Promessa de dedinho?
—Promessa de dedinho. — Ele concordou, entrelaçando seu dedo mindinho ao dele. — Apesar desta promessa não ter qualquer valor legal.
Alguns guardam montavam perímetro ao redor do monte, fazendo a guarda das pedras e das pessoas que estavam ali para vê-las. Numa pressa singular, Skylar passou por eles e por uma guia turística, que liderava um grupo de 15 pessoas mais preocupadas em tirar selfies, do que ouvir as explicações dadas. Ele chegou ao primeiro dos três círculos de pedras e deslizou seus dedos sobre alguns delas, sentindo o toque da pedra gelada e as inscrições gravadas nelas.
“Ele vai nos levar para casa” — Leu em uma delas. Exatamente como em seu sonho. Na noite passada, Skylar sonhou com algo parecido com o Stonehenge, visto do alto de uma torre, pequeno por causa da distância. Ele também se viu passeando por entre os arcos de pedra, vestindo roupas pesadas e antigas, gravando as mesmas palavras no monólito.
E aquilo o assustou.
—Espere! Não se distancie tanto. — Jon o chamou de longe, fazendo um pouco de esforço para alcançá-lo no meio das outras pessoas. Tudo culpa dos seus quase dois metros de altura, que o tornara desajeitado para corridas.
—Eu sei, me desculpe. É que eu precisava ver mais de perto uma coisa.
Skylar era impulsivo e disso Jon sabia muito bem, mas pela primeira vez naquele dia, estranhou o comportamento do garoto. Desde a viagem de trem para Oxfordshire, até o desejo repentino de conhecer o Stonehenge. Quando chegou até o garoto, Jon se inclinou para mais perto, retirando o cabelo dos olhos verdes para fitá-lo melhor e então perguntar:
—Sky, por que você estava com tanta pressa em vir aqui?
O garoto se sentiu desconfortável, fitando o chão por quase um minuto, sem fala, aparentemente desnorteado e com um leve fervor em suas bochechas.
—Isso é algo que eu não sei explicar, só sei que tinha de vir. É como se eu precisasse voltar para um lugar… — Tentou buscar em sua memória uma resposta lógica para o sonho — Eu acho que esse lugar é o Stonehenge.
Jon arqueou as sobrancelhas intrigado, Skylar não era de “achar” ou de ter dúvidas de seus pensamentos.
—Sabe de uma coisa, campeão? Seu pai e eu já trouxemos aqui perto antes, mas você era muito novo para lembrar.
—Mas o que tem para ver aqui além do Stonehenge? — Fitou de volta o monumento. — Só vi uns bois pastando o caminho inteiro.
—Bem ali, aquele castelo lá longe. — Jon se ajoelhou ao lado do garoto e apontou para a construção no horizonte, semelhante à um grande punho rasgando a planície onde estava. — Ali é Monterruna, sede ducal da família Lachlan. Se olhar a árvore genealógica da nossa família, você vai descobrir que temos um laço bem distante com eles.
—Não conheço eles. — O nome Lachlan lhe era familiar, apesar de nunca tê-lo escutado antes até aquele dia, pelo menos.
—Hoje em dia, os Lachlan são bons demais para se lembrarem que dividem o sangue azul com nós, pobres mortais, mas uma Lady Lachlan se casou um Lancaster no reinado da Rainha Vitória, se não me engano.
—Sangue azul é um conceito bastante errôneo, tio. Dito apenas porque era possível ver as veias sanguíneas das pessoas nobres através da pele.
Jon suspirou e soltou um leve riso, enviando para o sobrinho um olhar de “eu sei, foi só uma metáfora”.
Skylar voltou sua atenção de novo para o castelo, apertando os olhos e buscando algo que lhe fizesse sentido. Parecia ser um castelo comum, assim como vários outros no pariato da Inglaterra: muralhas espessas de pedras negras, tão antigas quanto o próprio país e altas torres com merlões quadrados.
Torres de onde eram possível ver o Stonehenge.
As duas únicas diferenças que saltavam aos olhos do garoto, eram a estrela e sol negros coroados num fundo amarelo, pintadas no brasão esvoaçante em uma das torres, semelhança à tatuagem que o tio possuía no peito. E o segundo detalhe mais peculiar, justamente por não ter qualquer simples conexão: uma torre que parecia abrigar um campanário de igreja em seu cume, com marcas de incêndio e severamente deteriorada pelo tempo.
Skylar percebeu que o lugar onde deveria estar o sino, estava vazio e com isso, um aperto em seu peito veio sem avisar, como se seu coração fosse esmagado dentro de uma só vez. De repente, Skylar se desequilibrou, caindo de joelhos na grama e sentindo o ar faltar. Jon se apressou em ir até ele e como de costume, segurando as mãos do jovem estudante. Porém, Skylar não estava tendo mais uma de suas crises e sim, parecia estar se lembrando de algo que lhe trazia uma grande dor física e mental.
Skylar apertou suas têmporas com a ponta dos dedos e por um breve espaço de tempo, se viu dentro das paredes de Monterruna, com um homem de preto sobre ele, cujo rosto não conseguia ver, mas que conseguia sentir uma estranha força vital surgindo em seu corpo. Logo após, essa mesma força se esvaía lentamente sobre um grande sino quebrado.
—Essa não, campeão… Você ficou igual na última vez que estivemos aqui. — Jonathan o acalentou, dizendo para os transeuntes curiosos que estava tudo bem. — Acho que já deu por hoje. Vamos lá. Eu te compro um Stonehenge em miniatura na lojinha de presentes.
—Não, eu não quero ir. — Skylar se levantou sozinho num rompante, apertando os nós dos dedos. — Eu preciso de respostas!
—Sky… — Sentiu-se impotente diante da recusa. O garoto não reconheceu a expressão no rosto do tio, mais focado na estranha sensação de déjà-vu.
—Odeio quando não posso explicar alguma coisa. — O garoto chutou uma pedra, com os braços cruzados e visivelmente chateado por não entender seu sonho.
As horas foram passando e as respostas não apareceram. Durante isso, o céu azul já tinha dado lugar ao alaranjado do pôr do sol. Os turistas do grupo de passeio foram embora de ônibus, deixando apenas os dois familiares e os guardas. Sem alternativa, Skylar precisou deixar o assunto de lado, juntando ao tio que estava sentado um banco, olhando preocupado para o adolescente.
—Já vai escurecer, campeão. É melhor a gente voltar para Oxfordshire e você dormir por lá. Amanhã eu te coloco no próximo trem para Londres.
—Espera, tio. Vamos ficar mais um pouco. As estrelas logo vão aparecer.
—Você está melhor?
O garoto não respondeu, concordando com um aceno de cabeça.
Em seguida, Skylar pediu o casaco do tio emprestado e Jon assim o fez, pensando que o garoto estava com frio. Porém, Skylar estendeu a vestimenta sobre a grama e deitou em cima, tomando cuidado para não ter contato direto com o solo. Jon não reclamou e deitou ao lado do estudante, misturando seu cabelo ao dele.
O crepúsculo caiu sobre eles em instantes e com ele, as estrelas se tornaram visíveis, ainda mais vivas por estarem longe da cidade grande e do clima nublado de Londres. Ali em Wiltshire, elas não tinham nada que as fizesse esconder seu brilho.
—Consegue ver? — Skylar perguntou. — As constelações?
—Algumas. — Murmurou o mais velho. — Não sei o nome da maioria delas.
Isso era algo que Skylar podia explicar.
Nos minutos que se seguiram, o garoto explicou cada um dos conjuntos possíveis de ver naquela noite, explicando a latitude, longitude e quantidade de estrelas que cada uma possuía. Sem parar por aí, Skylar tomou fôlego para falar ininterruptamente sobre as demais 88 constelações, ignorando os avisos dos guardas para se retirarem do local por causa do horário.
E quando acabou, virou-se para o tio e disse:
—Um dia, eu ainda vou ter uma constelação com o meu nome. Eu sei que sim.
X-X-X-X-X
Boston, EUA — Janeiro de 2018
Quando o avião finalmente pousou em Boston, Vânia soltou um longo suspiro de alívio. Geralmente a mulher não tinha medo de aviões mas depois de tudo o que ela passara e vira nas últimas semanas, o medo da morte havia aumentado de forma exponencial. E ela sabia que mesmo o avião sendo o meio de transporte mais seguro do mundo, nada era impossível para aquela estranha força que Vânia enfrentou: o Deus Sem Face. Ou como Vânia simplesmente preferia chamar: a Morte.
Vânia esperou alguns passageiros apressados passarem até finalmente se levantar e sair do avião, enquanto sua mente ainda processava o fato de que estava de volta para Boston, sã e salva. Mais a frente, ela percebia que uma senhora conversava com um garotinho loiro, enquanto andavam de mãos dadas. Naquele momento, Vânia lembrou-se imediatamente de John, Steve e David, seus três filhos, e de como estava explodindo de vontade dentro de si para reencontrá-los depois de tudo o que aconteceu.
Aquele retorno seria como um renascimento para Vânia.
Quando finalmente saiu no saguão do aeroporto, percebeu que o garotinho sairá correndo na direção de um outro senhor, que Vânia presumiu ser seu avô, que estava acompanhado de outro homem.
— Tio! — O garotinho gritou e pulou no colo do rapaz, fazendo o tio do garotinho o envolver em um abraço. Naquele instante, Vânia passou do lado dos dois e olhou para o rosto do menino, lembrando-se na hora de uma pessoa que conhecera no incidente.
As feições dele… Ele é a cara da Victoria. Será que esse era o filho dela, o Jeremy?
Sua mente foi novamente transportada para Hadiah quando as lembranças da atriz Victoria Martyn vieram em sua mente. Ela estava tão aflita, achando que o filho dela havia sucumbido ao acidente e no fim, ele estava vivo… Ela iria ficar tão feliz.
Pensar em Victoria fez a mulher se lembrar de Dawn e Jon, que perderam pessoas importantes para o desígnio do Deus Sem Face, assim como deveria ter acontecido com todos os parentes dos mortos. Ela vira a dor dos dois estampada em sua frente, e naquele instante veio o pensamento em sua mente de como seria se os seus filhos houvessem perdido a mãe para o maléfico plano da Morte.
Um grito despertou Vânia de seus devaneios.
— Mãe! — A voz de David ecoou pelo saguão, e quando a empresária percebeu, ele já vinha correndo em sua direção, com Steve e John andando apressados logo atrás.
Um sorriso se formou no rosto da mulher enquanto o seu filho mais novo a envolvia em um abraço apertado. Pouco depois Vânia sentiu os seus outros dois filhos abraçando os dois, e foi aí que David falou:
— Estávamos com saudade, mãe.
Uma lágrima então finalmente escorreu pelo rosto da empresária, fazendo ela ter certeza de que estava a salvo.
Hadiah havia dado uma nova chance de vida para Vânia, uma dádiva que ela tinha certeza que não desperdiçaria.
X-X-X-X-X
Dois meses depois...
Tema: Levitate
O Stonehenge ainda era o mesmo.
As pedras ainda estavam no mesmo lugar, assim como estiveram há séculos indefinidos. O pôr do sol também estava igual e a grama não parecia ter crescido um único centímetro desde sua última visita, mas mesmo assim, Jonathan sabia que nada estava como antes.
There's so much on my mind
I don't know where to start
There's that light in your eye filling up the dark
Voltara para casa com três caixões, que foram postos para repousar em um cemitério de Londres, onde de frente para as novas lápides, o futuro historiador aprendeu que a vida não era a mesma sem sua família. Seu peito já não doía mais fisicamente, porém, a dor interna continuava a lembrá-lo da perda por debaixo da tatuagem. Era como estar que andando num grande vazio, esperando por algo que ele não sabia direito o quê, mas que sabia precisava ser resgatado.
O ar ainda carregava o cheiro de chuva, como um manto pesado sobre suas costas e praticamente sozinho no monumento, tendo apenas a companhia dos guardas que protegiam as pedras, Jon se pôs a andar sem rumo pelos monólitos,acolhido pelo escuridão.
Querendo ou não, o céu noturno o fazia se lembrar de Skylar, o garoto que nem mesmo na morte, perdera a luz que habitava em seu olhar.
Though, I lost myself
I know it's not the end
You're my shooting star
You make my heart ascend
Ele se deitou na grama úmida, entre os mesmos arcos de pedras onde ele e Skylar estiveram antes. Pego de surpresa pela frente fria, ele se apertou dentro do casaco e olhou para o alto, para um conjunto de estrelas diferente de todas aquelas que tinha visto e que brilhava numa intensidade mais forte que as demais. As seis estrelas pareciam formar um raio curvo, ou como Jon enxergava, elas pareciam formar um “S”. Um riso passou por seu coração, ao lembrar do que Skylar tinha dito quase três meses atrás, sobre ter uma constelação para chamar de sua.
Você conseguiu, campeão. — Pensou. — Para mim, esse vai ser a sua constelação.
La, la, la, la, la, la, la, la, la, la, la
La, la, la, la, la, la, la, la, la, la, la
Just levitate, just levitate
La, la, la, la, la, la, la, la, la, la, la
La, la, la, la, la, la, la, la, la, la, la
Just levitate, just levitate
Pensar em Skylar também era pensar no que se sucedera desde que deixara Hadiah, e também nas pessoas que conhecera lá. Assim como aconteceu na América, com o grupo preso no aeroporto, Jon sabia que ninguém acreditaria na premeditação que abatera os turistas em Hadiah, um por um.
Em seu tempo estudando história, pessoas como Vânia eram tidas como loucas ou charlatães, que buscavam uma mente fértil para fazer suas mentiras crescerem. Mesmo meses ao o último contato que tivera com a visionária, Jon desejou para que estivesse onde estivesse que estar, Vânia pudesse finalmente ter paz e que aproveitasse essa nova vida com sua família.
Ela entre poucos, merecia.
I know that we're far from where we need to be
But the world wasn't made in just one day
Se viu também pensando em Dawn Pierson e na distância de meio continente entre eles, longe de mais do que ele gostaria, mas que sabia que deveria aceitar. Afinal, ela também tinha acabado de perder alguém importante recentemente, assim como ele. Contudo, o sentimento de amizade e suporte que criaram durante a breve estadia turbulenta na ilha crescera de tal maneira, que Jon não conseguia tirá-la de sua cabeça.
La, la, la, la, la, la, la, la, la, la, la
La, la, la, la, la, la, la, la, la, la, la
Just levitate, just levitate
La, la, la, la, la, la, la, la, la, la, la
La, la, la, la, la, la, la, la, la, la, la
Just levitate, just levitate
Ele ainda podia lembrar da última vez em que se viram, no aeroporto indonésio, cada um com sua bagagem emocional, mas abertos a compartilhar o peso entre eles. Podia lembrar do último momento em que seus olhos se cruzaram, da sensação calorosa do último abraço, do perfume que emanava de seus cabelos e do som de sua voz, que lhe dizia para não esquecer de passar pomada na cicatriz duas vezes ao dia.
Durante esse meio tempo, eles prometeram manter contato e por algumas poucas vezes, se falaram pelo telefone, mas não era a mesma coisa que ver seu rosto todos os dias.
Though our journey's long, I know our love is strong
You're my shooting star
We're flying higher above
Mas apesar de querer poder vê-la de novo e dizer o que sentia, ele não podia, pois como dizer para uma recém-viúva que a amava? Nos dois meses que se seguiram, ele guardou esse sentimento dentro de si, acumulado sobre seus ombros, esperando ter coragem para contar.
Uma estrela-cadente cruzou pelo céu, no exato momento em que seu telefone começou a vibrar dentro do bolso. Apressado, ele alcançou o aparelho e sorriu ao ver o número que piscava na tela.
Just levitate, just levitate
(Oohh)
Just levitate, just levitate
—Dawn? Oi! — A voz suave de resposta dela do outro lado da linha foi suficiente para o peso sobre seus ombros desaparecer, deixando o mais leve. Tão leve, que ele seria capaz de flutuar. — Eu estava mesmo pensando em você.
X-X-X-X-X
San Francisco, EUA — Março de 2018
O caminho até a clareira era longo o bastante para fazer Dawn refletir durante todo o trajeto. O céu nublado acima de sua cabeça simulava seus próprios sentimentos. Eles mantinham-se fechados, embaçados, carregados; assim como ele.
Tema: I'll Never Love Again
Era difícil concentrar a mente em algo que não fosse o pesadelo de se ver precocemente desolada. Costumava pensar que a ideia de casamento lhe levaria para o túmulo junto do seu grande amor, mas nunca imaginou que esse final viesse tão cedo. A ida abrupta de Andreas, o amor de uma vida inteira, mostrou que com uma simples tacada do destino, eram feitos estragos eternos dentro de uma pessoa.
Wish I could
I could've said goodbye
I would've said what I wanted to
Maybe even cried for you
Desde aquela noite chuvosa no crematório abandonado da província indonésia de Hadiah, Dawn sentiu que voltaria para casa com um imenso vazio. O espaço em branco deixado por Andreas inicialmente a deixara confusa. Em um momento estavam juntos, no outro o corpo de Andreas permanecia debruçado contra a terra. A enfermeira voluntária lembrava-se com riqueza de detalhes o momento em que deixou o local ao lado de Jon e Vânia logo depois da mulher empurrar o velho nativo para o incinerador.
If I knew
It would be the last time
I would've broke my heart in two
Tryin' to save a part of you
A empresária de vestes hospitalares estava exausta, tropeçando nos próprios pés, encharcada pelo temporal. Naquele instante, Dawn tinha que ser forte por ela e pelos outros, mas quando caiu de joelhos enquanto se afastavam, constatou que não conseguiria manter sua pose resiliente por mais tempo.
Por breves minutos, Jon tornou-se um alicerce necessário e vital para que Dawn não viesse a desabar nas horas seguintes. A dor era excruciante, e não era como uma dor física passageira. A dor interna era como uma chuva torrencial dentro da alma, lavando as lembranças boas e restando um amontoado de destroços emocionais. Naquela noite, Dawn não dormiu. Fora resgatada por um dos caminhões ao lado de mais voluntários, como Kevan Jaramillo. Eram as últimas pessoas, os últimos indivíduos atingidos pela tragédia.
Don't wanna feel another touch
Don't wanna start another fire
Don't wanna know another kiss
No other name falling off my lips
A partir disso, ela não vira mais Jon, muito menos Vânia, mas sabia que eles também teriam que lidar com suas cicatrizes. O que não presumia, era que mais tarde, e por acaso, reencontraria Jonathan e manteria contato periódico com o britânico.
Don't wanna give my heart away
To another stranger
Or let another day begin
Won't even let the sunlight in
No, I'll never love again
I'll never love again, oh, oh, oh, oh
Ainda que machucada pelos acontecimentos crueis, Dawn marchou ritualisticamente pela colina de grama verde e úmida, vendo as gotas caírem no orvalho e as flores brancas geladas em suas mãos. Desejava não ter que passar por aquilo, mas era inevitável. Sua mente pedia para aceitar, mas seu coração gritava para que remoesse a ausência do marido. E com as fases do luto completamente embaralhadas, ela seguia.
When we first met
I never thought that I would fall
I never thought that I'd find myself
Lying in your arms, mmm mmm
And I want to pretend that it's not true
Oh baby, that you're gone
'Cause my world keeps turning, and turning, and turning
And I'm not moving on
A enfermeira avistou a clareira e aproximou-se calmamente. Embora fosse manhã, o clima sombrio transformava o que seria um ambiente ameno em um sopro de obscuridade. Uma névoa deslizava sorrateira entre os túmulos e Dawn se pôs diante de uma das lápides. Ela dobrou um pouco do tecido do terninho preto que usava e abaixou-se. Ao encarar o nome “Andreas Pierson” talhado na pedra, engoliu em seco e segurou para não chorar. Há dois meses ela vinha visitando-o, sempre com um semblante congelado de ternura e com as mesmas rosas brancas trazendo um pouco do seu perfume.
Era o preferido dele… — Pensou, depositando o ramalhete sobre a lápide.
Don't wanna feel another touch
Don't wanna start another fire
Don't wanna know another kiss
No other name falling off my lips
E assim, ela tentava, dia após dia, acalmar o coração diante da nova perspectiva de vida que possuía e de como passou a enxergar o mundo como um todo. Seu contato direto com a lista da morte deixou-a com a pulga atrás da orelha. Ao mesmo tempo em que Dawn queria saber mais sobre o assunto, mergulhar nas teorias e em outros eventos semelhantes, também queria colocá-lo de vez no passado.
Don't wanna give my heart away
To another stranger
Or let another day begin
Won't even let the sunlight in
No, I'll never love
A primeira decisão que tomara baseada no que vivenciara na Indonésia fora afastar-se de Vânia. Independente de como haviam terminado — e haviam terminado bem —, a enfermeira pensou muito e levou em consideração as últimas palavras de Andreas para se manter longe da mulher. Não só porque ela tornara-se um lembrete constante das tragédias, como também porque Dawn passou a ter medo. Vânia era a última sobrevivente, o símbolo mórbido de uma série de mortes e a ideia de tê-la no seu convívio era assustadora.
— Ela não é uma pessoa ruim, mas representa coisas ruins. — Pensou alto, fungando em seguida.
I don't wanna know this feeling unless it's you and me
I don't wanna waste a moment, ooh
And I don't wanna give somebody else the better part of me
I would rather wait for you, ooh
Uma lágrima pesada escorregou pelo seu rosto e Dawn não se importou em limpá-la, assim erguendo o queixo e olhando brevemente para o céu. Respirou fundo, tentando se recompor e deu meia-volta. Olhou uma última vez para o túmulo, antes de refazer seu trajeto. Voltaria no dia seguinte com mais flores.
Don't wanna feel another touch
Don't wanna start another fire
Don't wanna know another kiss
Baby, I'll stay on your lips
Atrás da colina, a figura silenciosa de Jon lhe observava. O jovem alto estava prostrado sob uma das árvores centenárias, os braços justapostos na frente do corpo como um sentinela usando roupas escuras. Esperava-a como um sincero e paciente amigo. Quando a mulher pálida aproximou-se, ele nada disse. Manteve seu silêncio sepulcral e apenas acenou positivamente com a cabeça, provavelmente imerso nos seus dilemas doloridos.
Don't wanna give my heart away
To another stranger
Or let another day begin
Won't even let the sunlight in
Oh, I'll never love again
Love again
X-X-X-X-X
Um homem de camisa larga corria esbaforido pelo saguão do aeroporto, o suor grudando no peito. Ao seu lado, a sombra de um avião partindo na pista de decolagem em pleno pôr-do-sol. Ele parecia desesperado por respostas. Ergueu o olhar no meio da multidão que andava lá e cá em seus compromissos e horários de voo a cumprir e encontrou quem procurava. A mulher de vestido longo, carregando várias bagagens parou de repente e como se acionasse um sensor, olhou diretamente na sua direção. Ela sorriu o sorriso mais lindo que ele já vira e o viu correr para abraçá-la forte.
Sentada no sofá da sala, Dawn fungou em meio às lágrimas e quebrou em um riso desconcertado, desacreditando de sua reação. Largou o pote de pipoca que segurava no colo e tentou esconder o rosto quando Kevan encarou-a.
— Ok, foi uma péssima ideia ver esse filme. — O jovem constatou, percebendo o efeito do filme sobre a amiga, pegando o controle remoto e parando a reprodução. — Eu deveria ter escolhido aquele documentário sobre detetives coreanas.
— Não, tudo bem. — Dawn arrumou a postura e jogou os cabelos loiros. — Ultimamente estou uma manteiga derretida.
Kevan sorriu de lado com tamanha doçura e remexeu incomodado em cima dos travesseiros.
— Que tal mudarmos de assunto? — A expressão curiosa e acalentadora de Kevan relaxava. — Como está indo no seu novo trabalho?
Dawn havia prometido para si mesma que deixaria as viagens à trabalho um pouco de lado, ao menos até sentir que poderia recomeçar do zero sem ter que recordar memórias indesejáveis. Então, procurou uma oportunidade profissional que soasse mais estável e acessível, encontrando-a em uma clínica local especializada em atendimento às mulheres. Apesar de não estar acostumada a trabalhar fixamente em um único lugar, devido seus serviços voluntários, Dawn gostava da sensação de sua vida entrando nos eixos novamente.
— Estou gostando. Não é algo completamente diferente, mas eu precisava desse cheiro de experiências novas. — Ela respondeu, enchendo o peito. — Me faz se sentir viva.
Kevan pareceu satisfeito com a resposta. Estava contente de ver a amiga se distraindo com seu novo trabalho, assim como esperava que um dia ela pudesse cicatrizar todas as feridas que ainda permaneciam abertas em seu coração. Ele aceitara mais rápido o fato de que não teria mais o pai por perto. Os dois não tinham uma relação muito amistosa, mas conseguiram resolver tudo a tempo. E mesmo com a saudade apertando o peito, Kevan tinha um vida para tocar em frente. Principalmente por Nicholas.
O jovem pensou por alguns segundos, deitando a cabeça no estofado do sofá.
— Foi um gesto lindo o do Jonathan de te visitar no final de semana passado. Vejo que estão se apoiando como podem. Ele está sendo um amigão, né? — Disse, de repente.
— Sim… Digamos que tudo isso está sendo menos perturbador pra mim por causa da companhia de vocês. — A loira tocou suavemente a mão do amigo. — Obrigada.
Kevan abriu um sorriso de orelha à orelha, sentindo os olhos marejarem.
— Isso é golpe baixo, vai me fazer chorar… — Fez muxoxo, mas logo alterou a feição melancólica para uma tez desafiada. — Ok, essa é nossa deixa para o documentário das detetives coreanas!
Com o comentário, a imagem centrada e ao mesmo tempo delicada de Sun invadiu a mente de Dawn. Pediu para onde quer que a oriental estivesse, cuidasse de todos os outros.
— Já sabe pra onde será seu próximo serviço voluntário? — A enfermeira perguntou, tombando a cabeça para trás.
— Para uma cidadezinha chamada Spring alguma coisa. Não soube detalhes, mas será um trabalho de apenas uma semana. Soube que lá, há alguns meses, rolou um atentado no único aeroporto do condado.
A possibilidade de Kevan estar falando de Springfield e do aeroporto Amelia Earhart fez os pêlos de Dawn arrepiarem. Lembrou-se imediatamente da conversa que teve com Jon em Hadiah e preferiu não desdobrar tal assunto com o rapaz.
X-X-X-X-X
Vânia observava o computador a sua frente, enquanto olhava alguns detalhes da viagem que faria com seus filhos no dia seguinte. A mulher estava em seu escritório localizado na loja matriz da Vandelli Joalherias, esperando a chegada de um representante de uma joalheria menor para conversarem a respeito de uma fusão de negócios que fortaleceria as duas empresas e que poderia finalmente trazer a estabilidade para a Vandelli, o motivo de sua viagem para Hadiah, há dois meses atrás.
Era pra ser somente uma viagem a negócios, mas havia se transformado em algo muito maior. E completamente inesperado para Vânia.
Quando a empresária testemunhou o Pantai Mamba Resort sendo levado pelas águas do Oceano Índico, não imaginava que estaria prestes a lidar com algo tão sobrenatural e assustador como fora com a lista da morte. Se não bastasse a estranha visão já ter traumatizado a mulher o suficiente, as mortes que viriam logo em seguida a afetariam mais e mais. E foi assim que Vânia viu, um por um, os outros sete sobreviventes caírem por terra, sucumbindo ao estranho plano do Deus Sem Face.
Pensar no Deus Sem Face fez a mulher logo se lembrar do Ancião, que aterrorizara a mulher desde sua chegada em Hadiah. O enigmático senhor ainda tentou matar Vânia diversas vezes, inclusive tentando jogá-la dentro de um incinerador. Só de lembrar do incidente e das labaredas consumindo o corpo do Ancião, Vânia já sentiu um arrepio.
Ela não entendeu muito bem o que acontecera, mas aparentemente a lista havia terminado com a morte do Ancião em seu lugar, fechando o círculo e todas as pontas abertas, com o Deus Sem Face finalmente levando o temível Ancião para casa.
Repentinamente, uma moça entrou no escritório que Vânia havia montado no interior da sua principal loja em Boston.
— Com licença, senhora Vânia. — Sua nova assistente pessoal surgiu na soleira da porta. — O senhor Byrd acabou de chegar. Posso pedir para ele entrar?
— Obrigada, Brandy. Peça para ele esperar mais um pouco, tudo bem? Só estou terminando de arrumar umas coisas aqui.
Brandy confirmou com a cabeça e logo saiu da sala da chefia, enquanto Vânia ainda olhava para a jovem. Brandy havia começado recentemente em seu trabalho, substituindo a antiga assistente pessoal de Vânia, Chandra, que havia sido levada pelas águas vermelhas que devastaram o Pantai Mamba.
A lembrança de Chandra ainda afetava Vânia de certa forma, pelo fato da jovem ter sido sua companheira de trabalho por quase dois anos e ter sucumbido tão cedo. Se pudesse, teria avisado Chandra do que estava prestes a acontecer.
Mas não ia adiantar nada… Porque teria aquela lista.
Como se fossem desenhando conexões em sua mente, a lembrança de Chandra passou a ser a de Georgia Thompson, a jovem que se transformou em sua maior companheira naqueles fatídicos dias. Vânia ainda desejava salvar Georgia naquele dia, mas sabia que aquilo já era passado. Assim como todos os sete sobreviventes, ela somente era uma lembrança que Vânia guardaria, de uma página de sua vida que estava tentando virar.
No fundo, a empresária sabia que aquela página nunca poderia ser virada completamente, já que aquelas lembranças nunca a deixariam por completo. Mas o que Vânia podia fazer, e estava fazendo ao ter consultas periódicas com uma psicóloga, era não deixar aquelas lembranças a afetarem.
Decidida, a mulher então retirou o telefone do gancho em sua mesa e discou um número.
— Brandy? Pode deixar o senhor Byrd entrar.
X-X-X-X-X
Mais tarde, no mesmo dia...
Vânia não costumava tirar férias, mas sentia que era isso que ela mais precisava naquele momento, principalmente se seus filhos fossem juntos.
Como já havia prometido a David meses antes que fariam uma viagem, a empresária decidiu aproveitar o feriado prolongado da Páscoa para realizar uma viagem com os filhos e após muita discussão, decidiram que passariam alguns dias na região do Parque Nacional de Yellowstone. Steve chegou até a sugerir que fossem para a praia, mas logo percebeu que sua mãe queria distância do mar.
Faltavam apenas cerca de uma hora para saírem de casa e os meninos terminavam de arrumar as malas apressados. Em seu escritório próprio em casa, a mulher conferia em seu notebook as últimas atualizações a respeito do seu voo e sua hospedagem, tendo certeza de que estava tudo certo.
A viagem também serviria para Vânia comemorar o sucesso de reunião de hoje, e que a longo prazo poderia significar um novo tempo para a Vandelli. A fusão de negócios esboçada na reunião estava caminhando a passos largos e Vânia podia ver no horizonte que a estabilidade causada por esta fusão traria a Vandelli de volta com força total ao competitivo mercado joalheiro. A empresária estava mais que aliviada, e pronta para começar um novo futuro que quase esteve ameaçado há alguns meses atrás.
Vânia não pode conter um sorriso se formar em seu rosto de fortes traços norte-americanos. A mulher suspirou aliviada e então clicou para imprimir o comprovante da compra das passagens de avião via internet. Vânia se levantou da cadeira giratória de couro e foi na direção da impressora, que já imprimia os comprovantes. Naquele instante, a mulher olhou para a mesa bagunçada em que a impressora estava, cheia de pastas e papéis.
— Eu preciso arrumar isso pra ontem… Não sei como deixei acumular tanta bagunça. — A mulher falou para si mesma, enquanto mexia em alguns dos papéis sobre a mesa. No mesmo instante, um papel chamou a sua atenção, e Vânia o pegou, olhando atentamente para ele.
Eu não me lembrava disso…
O documento estava com a tinta muito fraca, o que dificultava sua leitura e fazia Vânia acreditar que esse tinha sido o motivo pelo qual ela deixara ele ali no mesa. Entretanto quando Vânia passou os olhos na parte legível do papel percebeu que se tratava do comprovante da compra da passagem de volta da Indonésia, dois meses atrás.
Só que Vânia nunca pegou aquele avião. Sua volta já estava marcada para três dias após a reunião no Pantai Mamba Resort, mas o tsunami destruiu qualquer tipo de retorno que a empresária pudesse realizar naquele tempo.
Repentinamente, a mulher sentiu suas costas congelarem por um vento gelado que entrou pela janela do escritório. O vento fez os papéis da mesa voarem, fazendo com que todos se espalhassem pelo chão, inclusive os comprovantes das passagens de avião dela e de seus filhos. Quando notou o que tinha acontecido, a mulher se ajoelhou para pegar os documentos mas logo sentiu uma forte dor de cabeça seguida de um estranho incômodo no peito.
O que estava acontecendo?
O movimento brusco realizado fez a visão de Vânia se tornar turva e a mulher quase perdeu o equilíbrio. Quando abriu os olhos novamente, viu que estava em um lugar diferente.
Parecia ser o templo do Deus Sem Face em Hadiah, o mesmo que acabaria destruído pelo incêndio que quase levou Skylar junto. Vânia conseguiu identificar duas figuras conversando na sua frente, e ela se arrepiou ao perceber quem eram.
— Não há mais tempo, Sawar. Meu tempo está acabando, eu devo concluir minha tarefa ainda em vida.
— Grande mestre, isso não é possível. O Deus Sem Face irá te conceber mais anos de vida, vamos rezar para isto!
— O meu sucessor já está aqui entre nós, Sawar. Você sabe melhor do que eu qual foi a profecia mostrada pelo Deus. Skylar Lancaster é o destinado a tomar meu lugar enquanto sou levado para casa.
— Grande mestre, o senhor sabe que eu não aceitarei isso! — Sawar retrucou. — É ao senhor que eu sirvo!
— Sawar, Sawar… Você não entendeu nada. Não é a mim que deve servir, é ao nosso Deus Sem Face. Eu sou apenas um sacerdote fiel a palavra dele. Se faz necessário que eu cumpra a profecia escrita pelos nossos antecessores. Completar o ciclo e aparar as pontas abertas há séculos.
— Quantos meses ainda faltam para o fim, grande mestre?
— Dois meses, minha cara. É o tempo necessário para Skylar alcançar a sabedoria necessária para se tornar o novo Alto Sacerdote e para que o ciclo se feche por completo. Dois meses é o tempo limite...
No mesmo momento, o Ancião desviou o olhar para o lado, exatamente na direção em que Vânia estava, como se estivesse enxergando a empresária, e falou:
— Até que o Deus Sem Face nos leve para casa.
Vânia piscou os olhos mais algumas vezes e percebeu que ainda estava ajoelhada no escritório de sua casa, sua face envolta em terror enquanto respirava de forma ofegante.
Dois meses. O Ancião iria morrer dois meses depois do tsunami de Hadiah.
— Mãe, a senhora… Mãe? — David surgiu na soleira da porta espantado com a cena.
Naquele instante, a dor no peito de Vânia aumentou de forma repentina e ela sentia seu peito queimar como brasa, enquanto gritava. A mulher ainda tentava respirar, mas a cada segundo parecia estar cada vez mais difícil obter qualquer ar.
— John! Steve! Socorro! — A voz de David começava a se tornar distante para a empresária.
Vânia Vandelli desabou no chão do escritório enquanto sentia sua pressão arterial desabar, seu peito arder com fogo e sua visão se tornar embaçada. Ela já sabia o que estava acontecendo e podia sentir o seu fim chegar repentinamente assim como aquele infarto fulminante.
Vânia ainda conseguia ver as silhuetas de seus filhos desesperados e chegou a ouvir John falando que ia ligar para a 911, mas tudo se perdeu rapidamente em meio a dor.
A cabeça da mulher tombou para o lado da janela do escritório, de onde viera o estranho vento gelado e no meio das silhuetas aflitas de seus filhos conseguiu perceber uma sombra a olhando fixamente para ela no fundo da sala. A barba longa e branca e as vestes aos trapos eram inconfundíveis.
Antes de perder a consciência por completo e perder a luta pela sua vida, Vânia conseguiu ver o Ancião sorrindo diabolicamente para a mulher.
Ele era um deles.
Ele esteve entre eles.
E ele levou todos para casa.
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