Superstition 2
8 Capítulo 07: The Natural Selection (Parte I)
Notas iniciais
Banhado pelo sereno da chuva suave que desmontava sob seus ombros cansados, o grupo formado pelos cinco forasteiros chegou novamente ao vilarejo. Lado a lado, eles passaram pela entrada e foram atingidos pelos primeiros olhares tortos dos moradores. Olhares esses, que eles não presenciavam desde que chegaram naquele local pacato.
As pessoas simples e solidárias de outrora, agora se escondiam detrás dos tecidos coloridos das cortinas, olhando pelas brechas das janelas, apagando suas lamparinas. Andreas sentiu como se uma barreira invisível fosse erguida pouco a pouco ao redor deles e acompanhou a expressão cabisbaixa de Skylar ignorá-los. Sun olhou para o lado de soslaio e avistou duas crianças se camuflarem na barra da saia da mãe, que entrava para seu casebre de maneira acanhada.
— O que está acontecendo aqui? — Georgia perguntou, enquanto as gotículas de chuva respingavam contra seus olhos.
— Tenho um palpite. — Sun murmurou, olhando por cima dos ombros e se certificando de que ainda existisse um rastro de uma fumaça negra e pesada se espalhando pelo céu acinzentado. — E tem a ver com a destruição do templo.
— Eles nos olham como se fôssemos os responsáveis pelo incêndio. — O olhar de Vânia esbarrou com o de um morador. Ele tinha uma tez enraivecida, as sobrancelhas grossas espremidas numa carranca.
— Mas a culpa não foi nossa! — Georgia rebateu, cruzando os braços, inconformada.
— Não é o que eles acham. — Foi Andreas quem concluiu.
Skylar pisou em uma poça e continuou caminhando sem manter contato visual com ninguém. Ele só queria chegar até sua tenda e fugir daqueles olhares de reprovação e medo.
O horizonte estava embaçado e escuro por conta da chuva e da lua escondida atrás do manto de nuvens carregadas. O grupo observou o resto das pequenas vielas de terra molhada, vazias e sombrias, se dirigindo direto para suas tendas. Desta vez, decidiram se reunir em uma delas apenas. Seria o suficiente. Eles tinham aprendido que quando estavam sozinhos, ficavam mais vulneráveis.
Naquela noite fria, unindo os tatamis de palha, dormiram todos juntos.
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No fundo do riacho, Andreas abriu os olhos e os raios de sol distorcidos pela refração na água iluminaram seu rosto. Os cabelos castanhos do homem estavam flutuando e um pensamento mórbido sobre a morte de Victoria entrou como um intruso em sua mente. Desconfortável e disposto a esquecer aquilo, ele levou o corpo de volta à superfície.
Deu de cara com Sun de pé na margem, desenhando na areia com um galho.
— O que está fazendo aqui? — Ele indagou, penteado os cabelos compridos para trás com as mãos.
— Já não falamos sobre entrar sozinho na mata? — A oriental se manteve séria durante o sermão.
— Eu precisava de um banho depois do que aconteceu e o poço fica muito longe da tenda.
Sun sabia quando as pessoas estavam mentindo. Eram anos de experiência e dedicação ao seu trabalho. No meio de sua trajetória como detetive, ela aprendeu a ler as pessoas. O terapeuta não era a única pessoa com aquela habilidade. Sun era testada a todo momento com interrogatórios, e reparar nos detalhes corporais não passava de uma consequência. Mesmo rodeada de diversas pessoas com diferentes tipos de personalidade, ela preservava por perto somente aquelas que lhe transmitiam transparência.
— É mais fácil chegar ao poço, do que chegar até aqui. — Respondeu de maneira firme.
Andreas riu de lado. Ela era realmente boa.
— Tudo bem, você venceu. Eu precisava pensar um pouco, ter um tempo sozinho e aqui me pareceu o lugar perfeito pra isso. — Disse, saindo da água.
— E conseguiu?
— Não. É inevitável lembrar do afogamento da Victoria. É como se o rio tivesse sido marcado com a morte dela. — Ao terminar a frase, seu olhar se perdeu.
— Você também está evitando pensar no que conversamos ontem?
A pergunta pegou Andreas de surpresa, mas parecia ter ido direto no seu calcanhar. Pela primeira vez, ele não soube como proceder. Sua cabeça estava um turbilhão, onde milhares de informações colidiam por segundo.
Ele não conseguia dar uma resposta direta para Sun e entendeu naquele instante que ela o compreendia, pois estava fazendo o mesmo. Por mais que tivesse sugerido a ideia de que as mortes que sucederam o maremoto não fossem obra da ocasionalidade, assim como ele, a detetive queria afastar a sensação de ser uma peça no tabuleiro do destino.
Por fim, Andreas respondeu:
— Sim, com todas as minhas forças. Por mais que faça sentido pra vocês, não é fácil aceitar que uma energia externa está definindo minha vida. Eu sempre tomei minhas próprias decisões.
— Não precisa aceitar, Andreas, só acreditar na possibilidade já é o suficiente. Você é inteligente, vai saber o que fazer. — A loira tocou seu ombro.
— Ontem a Vânia disse que nos viu morrer. Todos nós. — O homem começou a lembrar das palavras da empresária. — Na última sessão que tivemos, ela me contou sobre um sonho estranho que teve antes da morte da Victoria e eu achei que fosse apenas estresse pós-traumático.
— Você é terapeuta, é seu trabalho diagnosticar quando há algo de errado com as pessoas. Também demorei até que uma lâmpada acendesse na minha cabeça.
Com a voz de Sun ficando distante, Andreas continuou:
— Então, ela surtou e talhou o nome do Milan numa árvore, antes de eu encontrá-lo morto. — A imagem de um Milan extremamente ferido lhe arrancou uma careta. — Provavelmente aconteceu o mesmo quando Nicholas estava agonizando, assim como ontem, quando ela afirmou que o Skylar era o próximo.
— Agora entende a importância de discutirmos sobre a teoria? Não é questão de acreditar na existência de fantasmas, mediunidade ou ignorar as leis da física. É questão de sobrevivência. — Sun explicou, se afastando do rio com passos calculados.
As palavras da oriental não poderiam ser mais esclarecedoras para Andreas. Se o destino tinha um plano de matá-los desde o início, e Vânia interrompeu o curso natural da vida de um ser, prolongando-a, significava que o plano atual do destino também estava sujeito a intervenções.
— O que acontece agora que salvamos o Skylar?
— Bom, talvez o mesmo que houve com a Vânia. Ela escapou de morrer queimada na fogueira e no dia seguinte, a Victoria morreu. Vânia foi pulada e o plano seguiu até o segundo sobrevivente.
— E quem é o próximo? — O terapeuta perguntou, seguindo-a.
— Só a Vânia pode responder essa pergunta.
— Então, vamos falar com ela.
— Calma! — Sun segurou o punho de Andreas. — Eu não vim até aqui pra te ver tomando banho. — Ergueu a sobrancelha. — Quero que me ajude com uma coisa.
O homem deu o sinal para que ela prosseguisse.
— Preciso que me mostre o local exato onde encontrou a armadilha que feriu o Milan. Eu tenho uma pista de quem pode ter feito isso com ele.
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Skylar dormia como um bebê. Vez ou outra se mexia, incomodado com os mosquitos.
Georgia estava deitada de olhos abertos, ao lado do adolescente. Seus cabelos negros estavam espalhados pelo chão e ela encarava o teto, pensando no que poderia ter feito em seus últimos dias de viagem. Se ela soubesse que uma tragédia se acometeria sobre Hadiah, teria aproveitado mais. Teria realizado mais desejos e consequentemente, não sentiria a frustração que a embalava naquele momento.
A revendedora de cosméticos sentou, sentindo dores nas costas pela noite mal dormida e encarou Vânia sentada sobre os joelhos, inteiramente compenetrada em si.
— No que está pensando? — Georgia quebrou o silêncio.
— Que a vida é muito louca. — A joalheira respondeu dando brecha para um sorriso nervoso. — No primeiro segundo, você tem tudo ao alcance das mãos, sua família por perto, uma grande empresa pra comandar... No outro, lhe restaram a roupa do corpo e as lembranças.
Georgia ouviu a descrição com pesar. Era verdade que eles foram do paraíso ao tártaro em algumas horas e que não era impossível de imaginar o que aconteceria, se Vânia não tivesse os avisado do tsunami. Lá no fundo, Georgia admirava a garra da empresária, não só por sua postura, independência e punhos de ferro; por sua força emocional e resiliência que estavam expostas durante o confinamento no vilarejo.
— Eu nunca te disse, mas sou uma grande admiradora do que você representa.
Vânia sentiu seu coração esquentar gradativamente. O brilho nos olhos de Georgia lembravam sua versão mais jovem e sonhadora. E aquela personalidade lhe trazia nostalgia, por mais que agora a sua não passasse de uma caixa de sentimentos frios e ligados quase o tempo todo no piloto automático. Querendo ou não, Vânia já aceitara o fato que tanto temia: se tornar a versão de si mesma que mais a assustou no início da carreira.
— Muito obrigada. Faz tempo que não ouço isso. — Agradeceu.
E então, Georgia olhou para Skylar, e em seguida, de volta para a mulher.
— Você faz ideia de quem seja o próximo? — A pergunta saiu difícil. Georgia teve que engolir em seco pelo motivo de não estar totalmente confortável em querer saber a resposta.
— Não, porque nada faz sentido ainda.
— Mas você viu todos morrerem, você recebeu sinais sabe-se lá de onde. Deve haver um padrão.
— Georgia, está tudo embaralhado. — Vânia retrucou, impaciente. — Na visão que tive, eu fui a última a morrer. Mas aqui, por pouco não fui a primeira e isso não ajuda em nada.
— Podemos traçar um mapa de mortes!
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Coincidentemente, o lugar onde esteve a armadilha para animais selvagens ficava há poucos metros do rio. Ao chegarem no local específico, Andreas se abaixou para verificar um pedaço da estrutura de metal que restara da armadilha e percebeu algo curioso: a distância até o barranco onde Nicholas caíra era praticamente a mesma.
O barbudo coçou o queixo.
— Você percebeu o mesmo que eu? — Indagou.
— Nós estamos dentro do perímetro onde os outros sofreram acidentes. — Sun olhou-o como se sua mente estalasse. — É possível que estejamos bem perto de encontrá-la.
Não deu tempo de Andreas perguntar a respeito do que a detetive estava caçando. Um rastro de fumaça se destacou acima da copa das árvores e Sun foi a primeira a notá-lo.
Sem precedentes, a loira correu na direção do provável foco e o terapeuta foi logo atrás, no seu encalço. Os dois se embrenharam na mata, enquanto galhos de plantas e arbustos eram ultrapassados com facilidade, graças às suas condições físicas. Foram poucos minutos de passadas calculadas dentro da densa vegetação.
Sun parou de maneira abrupta, forçando Andreas a fazer o mesmo.
— Vai com calma, Dora Aventureira. — O terapeuta sussurrou, ganhando um olhar de reprimenda da oriental.
— Seu lado bem-humorado até cairia bem pra situação, mas nós vamos estar ocupados demais explorando aquele lugar. — Sun apontou.
Andreas avistou uma construção surgir no seu campo de visão. Há poucos metros, sobre a terra batida e a grama rasteira, um casebre de dois andares feito do que parecia ser argila e teto coberto por palha, semelhante aos da vila. Porém, parecia acabada e abandonada por anos. Ou apenas o morador não se importava com sua aparência. Algumas madeiras descascadas e janelas pequenas escondiam seu interior e era difícil saber onde cada cômodo ficava.
Atrás, mais ao longe, uma parede de rochas se estendia, sendo amparada pelo brilho da manhã. Não precisou de muito para que eles percebessem que o casebre havia sido erguida à beira de um penhasco.
— Você vai-
— Sim. — Sun o cortou.
— Tem fumaça, deve ter alguém.
— É exatamente o que vamos fazer, descobrir quem mora lá. Não pretendo ficar aqui o dia todo.
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Dentro da cabeça de Georgia era tudo mórbido demais para ser levado a sério. Porém, ela acreditava que havia um propósito e que ele os levaria para o buraco, caso não fossem espertos o suficiente para entender o esquema por completo. E se dependesse dela, eles não teriam mais nenhum corpo para enterrar.
— Se você foi o primeiro alvo, e foi a última a morrer na sua premonição… Consegue lembrar qual de nós morreu antes de você? — Os olhos escuros da negra pareciam agitados e mais brilhantes.
Vânia começou a enxergar o objetivo da jovem. Então, fechou os olhos para se concentrar e resgatar todas as lembranças que possuía do acidente dentro de sua cabeça. Era complicado, suas têmporas começaram a latejar e sua garganta ameaçou se fechar. Vânia apertou os cílios e respirou fundo, antes dos primeiros flashs de memória aparecerem.
No início, borrões marrons, azuis e vermelhos. Uma aquarela de desespero seguindo gritos histéricos e estrondos assustadores. Muita água preencheu a mente da joalheira e Vânia envolveu os joelhos, apertando-os com força. Georgia acompanhou o gesto sem se aproximar muito. Ela não queria atrapalhá-la, mas também sentia vontade de ampará-la.
Alguns segundos depois, e Vânia pôde ordenar as mortes em seu pensamento. Ela precisava reviver tudo cronologicamente para que chegasse até sua própria morte sem esquecer-se de ninguém. A parede aquática se erguendo e avançando contra o resort, o quiosque sendo jogado contra o restaurante, a área das piscinas, os carros sendo arrastados, os andares superiores desmoronando, árvores sendo arrancadas do solo com fúria, o barco trazido do oceano… O barco! É isso!
Vânia abriu os olhos com furor, assustando Georgia.
— O que conseguiu? — Ela perguntou, eufórica.
— Nicholas, Milan, Victoria e eu fomos os últimos a morrer, respectivamente. E o Skylar antes de nós.
— Ao contrário? — Georgia se ajoelhou sobre seu tatami ao digerir a própria sugestão. — Estão morrendo ao contrário da ordem da sua visão? Por quê?
A empresária acenou positivamente com a cabeça, tentando unir as peças.
— É o que parece, mas não sei o motivo. Assim como todo o resto.
Georgia levantou num impulso e deu alguns pulinhos. Vânia fez uma careta e a negra percebeu que Skylar ainda dormia. Desculpou-se.
— Mas temos um problema com os próximos da lista. — Vânia balbuciou, antes de qualquer coisa.
— Qual? — A pergunta de Georgia saiu instantaneamente. No fundo, ela não estava pronta para ouvir outra resposta difícil.
Vânia queria ganhar tempo para pensar em como repassar a informação da maneira certa, mas se viu sem saída e tendo que contar a verdade à queima-roupa.
— Os próximos são você e Andreas. Na visão, vocês morreram juntos.
A vendedora franziu o cenho. A informação deixou-a abalada e em estado de êxtase por um momento. Terminou de mastigar as primeiras palavras que sairiam de sua boca e questionou de uma vez:
— Não é possível, não faz sentido morrermos juntos. Isso quebraria a ordem! Um de nós morreu primeiro, tem certeza que não lembra?
— Esse é o problema. Definitivamente um morreu antes do outro, pode ter sido questão de milésimos de segundos de diferença, mas não dá pra saber com exatidão. — Vânia respondeu, vendo uma nova expressão tomar conta do rosto de Georgia: medo.
Entretanto, ela não conseguiu deduzir o todo através daquele semblante em choque.
Georgia não estava com medo da morte propriamente dita, mas de morrer como alguém sem realizações. Agora, ela havia disparado um cronômetro e não tinha noção de quanto tempo lhe restava até que ele zerasse.
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Sun assumiu a frente no propósito de entrar na construção velha à beira do abismo. Andreas e a detetive caminharam pelas bordas da vegetação, cercando o terreno até que estivessem próximos o suficiente da entrada do casebre. Atrás das plantas, Sun tentava enxergar algo através das pequenas janelas, mas era impossível por conta do pequeno diâmetro de cada uma. Nem uma criança passaria por ali, de modo que eles teriam que tentar a única porta visível. A porta frontal.
Andreas começou a achar a ideia estúpida, mas queria se sentir útil. No segundo seguinte, Sun ouviu-o assobiando alto e surpreendeu o homem com um forte empurrão.
O terapeuta foi ao chão num baque surdo, sentindo o peso do corpo da mulher sobre o seu. Ela tapou sua boca e apenas sua respiração pesada foi ouvida.
— O que pensa que está fazendo, seu idiota?! — Sun cochichou com o rosto vermelho de raiva. — Devíamos ser sorrateiros!
Andreas levantou devagar, ignorando o movimento brusco da detetive e se escondeu atrás de um arbusto.
— Se houver alguém na casa, saberemos.
O silêncio tomou conta do ambiente por dois longos minutos. Os dois se entreolharam e Andreas obteve a resposta que queria. Agora sim, ele estava seguro de invadir a propriedade, pois aparentemente não havia ninguém em casa.
Desta vez, Sun assumiu a retaguarda, analisando cada centímetro de ambiente, pronta para intervir caso o plano desse errado. Ainda estava incerta sobre a presença de moradores, mas queria arriscar, eles não tinham muito tempo diante dos últimos acontecimentos. Eu nunca abandono minha intuição, não é agora que vou deixá-la de lado. Pensava consigo mesma.
Determinada a ir até o fim, Sun ultrapassou o colega, se esgueirou pela varanda e verificou se a porta estava destrancada. A sorte estava ao lado deles, de modo que apenas empurrou-a com um rangido e se inclinou para observar o primeiro cômodo. Andreas se saía melhor dando-a cobertura.
A dupla adentrou na casa e encontrou uma sala modesta, com poucos — e rústicos — móveis e inúmeros decorativos da cultura indonésia pelas paredes. Inclusive alguns deles pareciam delicados ao ponto de sequer serem tocados. O dono deveria ser bastante tradicional e aquilo deixou Sun extremamente interessada em descobrir sua identidade.
Os dois passaram a vasculhar os cômodos da moradia. Corriam o risco de encontrarem um ou mais habitantes, por isso todo cuidado era pouco. Havia um pequeno e estreito corredor, com duas portas velhas, uma de cada lado. Então, Sun tocou a maçaneta fria de uma delas, enquanto via Andreas se posicionar diante da segunda. Simultaneamente, eles entraram.
A coreana adentrou numa espécie de dispensa, com sacos de pano contendo frutas e caixas de madeira com alguns outros alimentos e utensílios domésticos empoeirados. Ali também jazia um lança-chamas velho, que ela não sabia dizer como fora parar ali ou se funcionava. Não era muita coisa, mas dada a quantidade de suprimentos, supôs que mais de uma pessoa vivia ali.
Já Andreas encontrou o que seria um quarto. Sua intuição lhe levou direto para o guarda-roupas marrom, que embora fosse pequeno, tomava quase todo o quarto e que ficava bem ao lado de uma cama rústica. Era como se os moradores daquele lugar tivessem parado no tempo no século passado. O terapeuta abriu as portas do móvel e se deparou com diferentes vestimentas femininas, sendo algumas delas claramente elegantes.
A julgar pela disparidade entre elas e as outras assustadoramente mais simples, concluiu que não pertenciam à mesma pessoa. Puxou um vestido amarelo entre os tecidos pendurados e lembrou de imediato de Vânia. Era o vestido que a mulher usava quando fora atacada na aldeia, ele não perderia aqueles detalhes de vista. Então era por essa pista que a detetive Sun procurava!
De repente, a atenção do homem se distanciou do vestido amarelo e se focou em um vestido de tecido mais grosso e colorido, como se pertencesse a uma criança. Uma menininha, talvez, e não conseguiu fugir das lembranças que apanharam sua mente.
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Dezembro de 1979
A árvore de natal estava decorada e ornamentada de acordo com o grau de detalhismo de Andreas e suas cinco irmãs mais velhas. Sob a supervisão da matriarca da família, todos haviam ajudado a montá-la e prepará-la para a cerimônia natalina. Sentados em volta da grande árvore brilhante, os jovens abriam seus respectivos presentes.
Mesmo empolgado em seus plenos treze anos, o rapaz abriu o presente deixado embaixo da árvore com delicadeza, assim como as cinco meninas ao lado faziam quase que ao mesmo tempo. Ele alternava o olhar entre sua embalagem e as delas, de modo que mal prestava atenção no conteúdo do pacote. Quando confirmou que sua embalagem escondia um aeroplano de metal, um artefato disputado entre os seus amigos, ficou desapontado.
Não pelo presente em si, já que não iria se desfazer por ter sido dado com carinho por sua mãe, mas por conta dos presentes de suas irmãs terem sido muito melhores. Todos os seus amigos poderiam querer aquele aeroplano, mas não ele. Suas irmãs, sem exceção, ganharam belíssimos vestidos que variavam entre os tons rosa, bege e branco. Reluziam de maneira tão bonita à luz dos piscas-piscas e o cheiro adocicado era uma das coisas mais agradáveis que Andreas já sentira em sua vida.
As cinco irmãs estavam com sorriso que não cabiam nos rostos corados de felicidade. Uma delas não esperou e experimentou o vestido. Ele havia caído bem, afinal, provavelmente teria feito sob medida. Martha, sua mãe, nunca esqueceria de dar às suas princesas o que fosse preciso para vê-las felizes, desde um vestido como aquele, até perfumaria, maquiagens, sapatos, bijous... Elas eram tão femininas e exalavam tanta delicadeza e pompa. Andreas amava aquele ambiente, a vaidade, a beleza; mas se sentia deixado de lado, como se não pudesse ter aquilo.
Era como se ele sempre estivesse um passo atrás e tentasse alcançá-las em seu mundo repleto de brilho e feminilidade. O menino queria caber naquele vestido, queria ter aquele sorriso no rosto.
— Mamãe, acho que o Andie não gostou do presente. — Comentou uma de suas irmãs com desdém. As outras gargalharam.
— Você sempre gostou de aviões, querido, seu sonho não é ser piloto? — A aproximação repentina de Martha o fez tremer da cabeça aos pés. — É o presente perfeito! Não acha?
Ele queria ser piloto, era verdade, mas um aeroplano de natal não era o primeiro item de sua lista de desejos. Ainda sim, Andreas não poderia contestar a figura de autoridade que sua mãe representava dentro daquele lar. Ela era a mulher mais incrível que ele conhecia, talvez a única que conhecera.
O jovem Andreas meneou positivamente a cabeça naquele momento, com o aeroplano no colo. Entretanto, Martha e nenhuma de suas irmãs souberam que naquela mesma noite, ele pegou as caixas de presente enquanto elas dormiam e experimentou todos os vestidos. Rodopiou no quarto, pulou em cima da cama, fez caretas para o espelho, mas era um momento só do garoto. Um momento onde ele poderia senti-las e buscar ser como as mulheres que amava e admirava.
Assim como Martha Pierson sempre dizia: “Bendito és entre as mulheres, pequeno príncipe”.
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— O que você está fazendo? — Indagou Sun num rompante. Sua face lutava entre permanecer séria e quebrar em um sorriso torto.
A oriental havia entrado no quarto e pegado Andreas agarrado aos vestidos. O homem tentou disfarçar, mas estava corado demais para tal, então jogou os tecidos sobre a cama e rebateu:
— O vestido da Vânia está aqui. A maioria dessas roupas não são da mesma pessoa, provavelmente todos itens roubados de turistas.
Os olhos de Sun brilharam. Eles tinham finalmente matado a charada e descoberto o esconderijo da ladra. Mas Andreas não foi o único a descobrir algo importante. Ao sair da despensa, a detetive encontrou uma estante e sobre ela um porta-retrato surrado, com uma foto desgastada. Mesmo com as manchas e o filtro amarelado pelo tempo, sua memória conseguiu reconhecer um dos rostos.
— Veja só o que encontrei. — Ela estendeu a fotografia para o terapeuta. — É aquele ancião estranho, e ele está ao lado de uma mulher que entra na descrição que a Vânia me fez da pessoa que a dopou.
— Eles se conhecem…
— Pelo jeito, é muito mais do que isso. — Uma lâmpada invisível acendeu no topo da cabeça da coreana. — Eles podem ter algum tipo de parentesco: pai e filha, irmãos, primos…?
Sun estava certa. Eles já sabiam que a moradia pertencia a mesma pessoa acusada de saquear os turistas e a antiga foto com o velho ancião provava que ambos tinham uma espécie de conexão.
— Espera! — Andreas interrompeu o pensamento da oriental e ela o encarou curiosa. — Se são eles, por que a foto parece ser tão antiga? Eu daria facilmente uns vinte anos pra ela, mas a aparência deles me faz pensar que poderia ter sido tirada hoje.
A expressão que Sun fez em seguida foi de completa confusão.
— Essa merda não faz sentido nenhum! — Ela chutou o pé da cama, frustrada. — Quanto mais a gente se aproxima, mais ficamos longe.
— Sun, talvez estejamos focando na pessoa errada.
— Seja mais claro, por favor.
— Agora que temos ciência dessa tal lista da morte, lembrei do que o velho falou a mim e ao Milan dias atrás. Era algo sobre estarmos cobertos por uma aura estranha e que “Ela” estava costurando, ponto por ponto, algo rasgado... Que não havíamos escapado e que ela faria o plano original retornar. — O homem coçou a barba. — A princípio, não entendemos nada, mas mudando a perspectiva, essas coisas se encaixam com a proposta da teoria.
— O plano original era morrermos naquele tsunami, e costurar os pontos significa tentar nos matar de novo, um por um. — Sun completou sua linha de raciocínio. — Ele também falou algo parecido para mim uma noite antes do Milan morrer. Afirmou que uma contagem havia começado e que uma mulher coberta de ouro nos arrastou para o fim.
— Mulher coberta de ouro… Vânia?
— Provável que sim.
— Se ele sabe tanto sobre nós, deve saber como acabarmos de vez com esses planos. — Andreas concluiu e a detetive assentiu. — É ele quem estamos procurando.
Um rangido baixo foi ouvido e os dois sobreviventes se entreolharam nervosos. Era o rangido da porta frontal.
— Droga, temos visita! Esconda-se, rápido! — Sun sussurrou.
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Dawn andava pelo corredor do hospital com duas bolsas de soro à tiracolo. Ela desviou de uma maca, onde um garotinho sentia dores e chorava na companhia de outra enfermeira e de uma assistente social. A mulher de branco tentava acalmá-lo, enquanto terminava de preparar a tipoia improvisada em seu braço roxo. Dawn percebera que eles estavam começando a ficar escassos de recursos para ajudar tanta gente. As bolsas de soro eram exemplos disso, foi difícil consegui-las.
Kevan guiava uma cadeira de rodas com outra paciente e pareceu não ter visto a amiga de resgate. E mesmo que tivesse visto e ignorado-a, Dawn não faria questão de cobrá-lo a atenção. Ele tinha acabado de perder o pai, e depois de consolar o rapaz, entendeu que ele precisaria de um tempo a mais para reorganizar sua mente e enfrentar o luto.
Uma das bolsas de soro, Dawn depositou no suporte de uma senhora idosa, que agradeceu com a voz entrecortada pela capacidade respiratória reduzida. Ela tinha hematomas pelo corpo e faixas de esparadrapos envolvendo sua cabeça.
— Não trouxeram sua cadeira de rodas ainda, Sra. Ellis?
A senhora de cabelos grisalhos negou e Dawn suspirou pesadamente.
— Vou tentar providenciá-la, mas não prometo nada, ok? — Disse a loira ao tocar o peito fundo da mulher. — Vejo que sua respiração está bastante afetada. A senhora está com sorte, tenho um aerosol disponível, só preciso de cinco minutos para buscá-lo. Não demoro.
— Tudo bem, querida, eu espero. — Tossiu.
Dawn assentiu e apressou o passo no corredor, procurando a vítima que receberia a segunda bolsa de soro. Foram dois minutos perambulando pelos corredores superlotados até encontrar o lugar em que deixara o respectivo paciente. Porém, para sua surpresa, a maca jazia sozinha no canto da parede. Será que foi removido desse setor? Eram inúmeras hipóteses. Então, a enfermeira apenas girou nos próprios calcanhares para alcançá-lo.
Deu de cara com ele parado atrás dela.
— Você me assustou! — Disse ela suspirando, mas recompôs-se rapidamente. — Te avisei para não fazer nenhum tipo de esforço. Seu peito tem uma sutura muito recente, se esses pontos arrebentarem, seu quadro vai complicar.
O homem ficou sem jeito e caminhou até a maca para sentar.
— Me desculpa, eu estava com muita sede e todos estavam ocupados demais para me notarem. — Frustrou-se.
— Entendo, Jon. As coisas estão muito caóticas por aqui, mas você não pode se dar o luxo de piorar. Precisa de total descanso, ok? — Dawn explicou.
Ela segurou os ombros do homenzarrão e o deitou na maca. Olhando nos olhos fundos de Jon, continuou:
— Estou responsável por você. Então tem que me esperar, e de preferência, quieto. Só saia daqui pra buscar ajuda em caso de emergência. E como pode ver, só temos emergências. — Um riso cansado escapou dos lábios da loira.
Jon entendeu o recado, assentindo.
— Obrigado por estar cuidando de mim.
— É o meu trabalho. Agora descanse.
A mulher fez menção de sair, mas o britânico tocou seu pulso.
— Você tem notícias do meu sobrinho, Sky?
— Não mantivemos contato durante as últimas horas, mas em breve teremos notícias. — Dawn falou com doçura em sua voz.
— Espero que sim. — O homem de cabelos compridos suspirou, soltando o pulso da enfermeira e olhando para o teto. — Estou preocupado, a vida dele pode estar em risco.
— Os moradores da montanha são pessoas generosas e de bom coração, eles estão cuidando dos nossos.
— Não é isso. — Jon retrucou. — Estou falando da mulher que teve uma premonição… Li sobre isso uma vez, mas não pude ligar os pontos a tempo. Aconteceu algo parecido enquanto estive nos EUA alguns meses atrás.
O britânico olhou para ela de volta com um claro pesar no olhar.
— Você já ouviu falar do atentado terrorista no aeroporto Amelia Earhart?
Dawn gelou, respondendo:
— Jon, e-eu preciso mesmo ir, tenho muitos pacientes a minha espera.
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Vânia balançou a cabeça algumas vezes, bagunçando os próprios cabelos contra o rosto e sentindo uma onda de calor invadir sua pele. Com uma gotícula de suor brotando na testa, ela sentiu a tenda se dissolver em um ambiente completamente verde e úmido. Uma densa floresta.
Georgia não estava mais ali na sua companhia, muito menos Skylar dormia como um anjo ao seu lado. Havia apenas ela, dentro de uma roupa leve e desgastada, e uma quantidade razoável de árvores cercando-a. Ela sabia que estava entrando em mais um de seus devaneios estranhos, de modo que começou a procurar detalhes que fizessem a diferença quando retornasse para seu estado normal. Desta vez, levara sua consciência consigo.
Sem esperar, seu corpo começou a correr, mas ela não respondia fisicamente. Era como se apenas sua consciência tivesse sido transportada e fosse a única sob suas ordens. O corpo era aparentemente seu: tinha a mesma estatura, a cor de sua pele, o tamanho compatível dos braços, mas sequer lhe obedecia.
— Dalia, não vá tão longe! — Uma voz masculina familiar soou atrás dela. — Estamos em território proibido!
Vânia já tinha sido chamada de Dalia antes, no seu primeiro sonho. Ela dançava rodeada de gente ao redor da grande fogueira quando a cavalaria real chegou e incendiou o acampamento montado. Ciganos! Eles eram ciganos, Vânia concluiu. As memórias do seu “eu” real e seu “eu” projetado começaram a se misturar e a empresária começou a se perguntar se não eram a mesma pessoa, mas em momentos diferentes da vida. A sensação era como se um pedaço dela tivesse sido deixado para trás, e agora, haviam se unido novamente.
Eu me chamo Dalia? Esse é meu nome?
De repente, Vânia enxergou uma movimentação. Um grupo de pessoas, incluindo um rosto extremamente reconhecível entre suas lembranças.
— Georgia! — Vânia berrou com a voz que vinha da consciência.
O som não saiu, por mais que a joalheira gritasse. A outra mulher não chegou a vê-la ou notar sua presença, mas tinha o rosto de Georgia, milimetricamente idêntico; ela estava logo há alguns metros, andando sobre uma trilha de pedras, acompanhada de outras pessoas e escoltada por dois guardas reluzentes em suas armaduras.
O corpo de Dalia foi puxado para trás com rapidez. Vânia se viu presa nos braços de três homens, todos com traços e feições familiares. Eram seus irmãos? Suas memórias diziam aquilo.
— O que você está tentando fazer? Se matar? Os guardas vão nos ver! — Um deles avisou. Johann.
— Era ela! — Vânia conseguiu despejar com alguma dificuldade.
— Ela quem? Do que está falando, Dalia? — Devill, seu outro irmão, indagou. Stefford, o terceiro, também encarou-a confuso.
Vânia parou de se mexer e seu olhar decolou aos céus, repousando na estrutura imponente de pedra que se erguia adiante na colina, para onde a possível personificação em carne e osso de Georgia havia seguido. O castelo dos Lothair, a família real. O paredão de pedra ficava próximo dali e eles já estavam imersos nas imediações da propriedade, escondidos. Os quatro haviam ido no encalço de um clérigo que se deslocou de seu mosteiro até ali, e tinham a oportunidade de invadir o lugar, para assim, tomar o que era deles de volta. A realeza destruíra tudo o que tinham e matara boa parte de seus familiares.
Agora, eles deviam aos ciganos.
X-X-X-X-X
— VÂNIA, PARA!
O berro de Georgia obrigou Vânia a abrir os olhos com furor, enquanto seu coração batia a mil por hora. A mulher tentou recuperar o fôlego, puxando o ar com força, mas demorou até que seus pulmões se acostumassem com o ar da tenda.
— O que está tentando fazer? Se matar? — Georgia perguntou, puxando a caixa de fósforos da mão da joalheira e largando seu braço.
Vânia não entendeu nada e recuou, atônita.
— O que aconteceu?
— Você riscou o fósforo e ameaçou queimar os próprios braços. — Skylar resmungou.
Só aí a joalheira percebeu que o rapaz estava acordado e olhando-a como se estivesse pronto para dar o veredito de um julgamento.
— Onde arrumou esses fósforos? — Georgia perguntou, guardando a caixa em seu bolso. — Você nos assustou.
As peças de mais um devaneio desconexo começaram a preencher as lacunas do seu pensamento e se encaixarem com os respectivos sonhos passados. Tudo indicava algo absurdo, mas para quem vivera a morte de perto, aquilo era pouco.
— Eu vi no meu sonho… Eu vi você, Georgia.
— Quê? — Os olhos da negra se arregalaram. — Eu sou a próxima? Vânia, me diz, eu morro antes do Andreas? — O nervosismo tomou conta de sua voz trêmula.
— Não. — A empresária cortou, incerta. — Não foi isso. Eu vi a gente, mas não era a gente de verdade. As roupas, as construções… Parecia mais que estávamos na idade média.
— Idade Média? Será que ainda existem resquícios de chá de cogumelo no seu organismo?
Vânia encarou a jovem de maneira séria, o olhar de dez facas afiadas prontas para fatiar a revendedora. Georgia percebeu a gravidade da situação e apenas concordou que ela falasse.
Vânia suspirou.
— Desde que eu tive a premonição do acidente, é como se tivesse acionado um mecanismo de resgate de memórias distantes. Das quais nunca vivi, mas sei que existem e vagam o tempo todo no fundo da minha mente, esperando o momento certo pra me levarem até uma época diferente. Nunca estive de verdade lá, mas de alguma forma é muito familiar. Eu me vi, vi você, o Milan… Eu era uma cigana, ele era uma espécie de monge… Podia sentir meu espírito entrar no meu corpo, mas ao mesmo tempo eram as ações de outra pessoa. Foi desesperador! — Explicou. — Acho que foi um sinal pra mostrar que tudo isso tem a ver com a tsunami e com o fato de estarmos aqui e agora, sobrevivendo a cada dia.
Ao término do monólogo, Georgia e Skylar se entreolharam. Era possível que Vânia estivesse piorando de seus delírios, mas não era a coisa mais extraordinária que aconteceria ao grupo. Georgia confiava na intuição da dama de ferro, mas ela chegara em um nível de desgaste emocional e físico que levantava dúvidas acerca de sua estabilidade.
— Pelo que sei, a ciência ainda não conseguiu transferir memórias de um indivíduo a outro, a menos que você seja uma inteligência artificial, e isso ainda levará alguns anos. As chances de você ter memórias vividas por outra pessoa são extremamente baixas. — Skylar mexeu os dedos inquietos, enquanto as informações vinham engatilhadas na ponta da língua.
— Desde que chegamos em Hadiah, estamos desafiando a ciência, Sky. — Vânia foi dura. — Conheço meus limites, tenho certeza do que estou falando. — Levantou e carregou uma expressão enraivecida até a porta da tenda. — As memórias são todas minhas, mas de uma época que só conhecemos dos livros de história.
— Tá sugerindo mesmo que são vidas passadas? — Georgia comentou com um riso precoce surgindo no canto da boca, mas se arrependeu. Foi atrás da joalheira. — Vânia, talvez esteja se precipitando...
Skylar permaneceu em silêncio, refletindo um pouco sobre certas palavras que saíram da boca do ancião. O Deus Sem Face vai nos levar para casa...
Alheia a tudo, Vânia continuava pensando em voz alta:
— E se de alguma forma, nos conhecíamos na vida passada e agora o destino resolveu nos juntar de novo? — Vânia andava lá e cá na tenda. — Faz sentido pra ti, não faz?
A negra quis dizer um “não” fácil, mas não ousaria enfraquecer o discurso.
— Qual seria o motivo?
— Podemos dar um jeito de descobrir. O que sabem sobre Regressão? Temos um terapeuta conosco, Andreas deve conhecer alguma técnica que possa ser útil. — Vânia respondeu, a voz se enchendo de esperança.
A empresária estava disposta a se apoiar naquela teoria com unhas e dentes, por mais maluca que soasse. Por mais desequilibrada que estivesse transparecendo.
Georgia não queria mais duvidar dela, não queria desacreditar da única pessoa que levava a capacidade da clarividência consigo. Vânia era uma pessoa completa, ainda sim, ameaçando desabar a qualquer momento. Fazia tempo que Georgia não convivia com alguém daquela estirpe. Até então, seu melhor amigo, Sebastian, era a única pessoa que se encaixava nessa característica, mas ela não o tinha por perto. Seth, você me paga por não estar aqui com suas piadas patéticas!
Entretanto, poder ver de perto pessoas inteiras como: Vânia, Skylar, Andreas, Sun e todos os outros que se foram; lhe dava a oportunidade de abdicar das superficialidades, dos jogos de interesses, dos relacionamentos como moedas de troca e tudo o que atrasava sua vida para sempre. Georgia passou muito tempo mantida dentro de sonhos impossíveis, de metas artificiais. Mas ali, provando do fruto proibido da morte ao lado de pessoas tão reais, sentiu-se viva e disposta a acreditar no que fosse, para se agarrar a alguma ponta de redenção existencial.
— Ok, Vandelli. Eu acredito em você. — Seu instinto foi abraçar a joalheira, que não resistiu.
No fundo, ficara contente pela jovem não ter contestado sua lucidez pela enésima vez. Um sorriso apareceu tão rápido quanto se foi.
Skylar pigarreou:
— Eu não sei se essa regressão vai dar certo, mas só vamos ter uma chance considerável se o mediador, ou seja, o doutor Andreas, estiver vivo. E estamos perdendo tempo.
As mulheres assentiram, ele estava coberto de razão. Para dar certo, os cinco deveriam estar juntos.
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