Superstition 2
1 Capítulo 01: Hadiah (Parte I)
Notas iniciais
Boston, Massachusetts, EUA — Janeiro de 2018
Vânia olhava de maneira concentrada para o tablet em suas mãos, exibindo uma paisagem tropical. Através de toques delicados na tela, conferia as últimas atualizações sobre seu voo e a reserva de hospedagem que fizera há alguns dias. Estava preparada para embarcar no dia seguinte para a Indonésia, onde teria a grande oportunidade de mudar seu futuro.
Sentada na cadeira giratória do pequeno escritório que montara em casa, ela também conseguia enxergar todas as malas reunidas em um canto do cômodo iluminado pela luz do sol. Arrumara tudo com antecedência, nada poderia dar errado.
Vânia Vandelli era um nome de prestígio no mercado joalheiro, a mulher era proprietária da Vandelli, uma companhia de joias consolidada com inúmeras lojas espalhadas pelo país, obtendo o protagonismo de vendas desde sua inauguração anos atrás, mas que seguia enfrentando alguns déficits financeiros. Finalmente ela se encontrava há um passo de expandir seus horizontes pela Ásia. Seria através daquela viagem, onde se reuniria com representantes de importantes empresas do continente para fechar o negócio que traria mais estabilidade financeira para sua companhia.
A mulher de cabelos escuros e lisos, na altura dos ombros, se mantinha confiante. Além de carregar fortes traços nativo-americanos, era alta e magra, exalando firmeza.
Até que um barulho assustou-a, desmanchando seu semblante sério.
Um skate deslizou pelo cômodo e bateu na base de uma das malas, chacoalhando-a. Vânia se recompôs, lançando um olhar fulminante para o adolescente que entrou no escritório completamente esbaforido e vermelho.
— Foi mal! — Ele disse, correndo até o skate, apressado em tirá-lo dali.
— Quantas vezes já falei sobre o skate dentro de casa, Steve? — Vânia indagou, repousando o tablet sobre o colo e cruzando os braços. — Não acha que está grandinho demais pra ouvir esse tipo de reclamação?
— Relaxa, mãe, estava indo guardar e ele escapou de mim. Não vai se repetir, ok? — Respondeu impaciente qualquer coisa que a mãe quisesse ouvir, saindo do cômodo em seguida.
— Querido. — Vânia proferiu e vendo o jovem olhar por cima dos ombros, prosseguiu: — Está com sorte, me pegou num dia bom. — Sorriu de lado.
Ele acenou positivamente, também sorrindo.
Nesse momento, o celular de Vânia apitou sobre a mesa repleta de papeis, pastas e esboços de modelos novos de joias. A mulher voltou sua completa atenção para o objeto e apressou-se em conferir a mensagem. Constatou ser de sua assistente, Chandra. Ela apenas soprou pesadamente e guardou o aparelho dentro da bolsa, se dirigindo para fora do escritório.
No caminho até a saída, passou pela sala, onde seu filho mais novo lia um livro deitado de maneira desajeitada no sofá, balançando as pernas no ar.
— David, se continuar desse jeito, vai poder escolher o problema de coluna que vai te afetar na terceira idade. — Disse sem manter contato visual, dando passos largos até a porta. — Pode evitar isso.
O garoto foi rápido em arrumar a posição no sofá, ficando de frente para a mãe. Ele sabia que ela não ficaria focada na porta por muito tempo, então apenas esperou. A resposta veio rápido, a mulher trajando um terno cinza deu meia-volta e depositou um beijo em sua testa. As bochechas do garoto coraram imediatamente. Parecia estar animado para dizer algo.
— Mãe e sobre a viagem, você já se decidiu? — Perguntou com a voz mais doce que Vânia já ouvira em toda sua vida. — Eu tenho que arrumar minhas coisas e…
Vânia queria adiar aquela conversa, mas sabia que não tinha como fugir dos filhos. A única coisa que não conseguia fazer, era enrolá-los.
— Dave eu… — A mulher interrompeu-o, mas se arrependeu por tê-lo feito. — Não posso te levar.
A empresária sentiu o pesar das palavras, ela pôde ver a tristeza modificando a expressão no rosto do garoto. Passou a mão por seus cabelos escuros e olhando nos fundo daqueles olhos cor-de-mel angelicais, explicou:
— Era tudo que eu queria, mas é uma viagem de negócios, não estou indo tirar férias. Vocês, mais do que ninguém, sabem que nunca tiro férias. — Piscou e torceu os lábios em um sorriso discreto, mas na verdade queria esconder sua frustração. — Mas prometo que assim que voltar com boas notícias, vamos pensar sobre isso.
— A senhora pode dar um jeito, sempre dá um jeito. — David protestou inconformado. — Não quero ficar aqui com aqueles irresponsáveis!
Vânia tivera três filhos em um intervalo de seis anos. Ela era muito nova. Além de David, de quatorze e Steve, que havia acabado de completar dezesseis, Vânia tinha um terceiro filho. Seu nome era John e ele já estava nos seus dezoito anos. Concluíra o high school com louvor há algum tempo, mas não conseguira ingressar em nenhuma faculdade. Ele trabalhava o dia inteiro em um supermercado para ajudar nas despesas, e mesmo que sua mãe tivesse oferecido um cargo na empresa várias vezes, sempre quis conseguir as coisas por seu próprio mérito. E Vânia admirava isso nele.
David era a parte sensível e gentil da família. Embora sendo o mais novo, era o prodígio, conseguindo se destacar em tudo que fazia. Em contrapartida, Steve conseguia títulos ruins por onde passava com sua imaturidade e seu jeito inconsequente de ver a sua volta. Porém, Vânia sempre esteve presente e continuava a dar tudo de si para criá-los sozinha, como deveria ter sido desde o início. Nem por um momento se arrependeu do último relacionamento tumultuado. Agora estou completa, não mudaria nada.
— Ei, não fale assim dos seus irmãos! — A mulher repeliu. — Eles se esforçam, ou pelo menos tentam. E já está decidido. Espero não ser necessário contratar uma babá para três marmanjos.
David negou com a cabeça e suspirou, reconhecendo que não conseguiria convencê-la. Ouviu-a continuar:
— Além disso, sei que não precisa que eles tomem conta de você. É você quem vai ficar de olho neles por mim, combinado? — A mulher estendeu o polegar, esperando que David fizesse o mesmo.
— E se eu tiver que chamar a polícia?
— Seja a polícia. — Ela sussurrou.
Assim que o garoto estendeu o polegar e sinalizou um sorriso satisfeito nos lábios, os dois fizeram um cumprimento para selar o acordo.
Vânia já estava de saída, tirando a chave do carro de dentro da bolsa, quando comentou:
— Foi bom negociar com você, querido. Agora deixa eu ir que aquela companhia não funciona sem a presença de um carrasco.
Ela afastou-se de David, encarando o livro que o garoto lia anteriormente, “A Menina Submersa”. Vânia sentiu-se estranha ao ler aquilo, mas logo estava do lado de fora, pronta para dar a partida no carro.
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Atlanta, Georgia, EUA
— Estamos fazendo um grande progresso. — Disse o Dr. Nicholas, enquanto pressionava com firmeza a perna de uma paciente para frente. — Lembre-se sempre que deve dar um passo de cada vez, não importa quanto demorar.
— Eu mal posso acreditar que estou andando de novo. Quer dizer, mais ou menos andando. — A voz da garota estava ofegante. Apoiando-se nas barras perpendiculares usando a força dos braços, a pequena morena fazia esforço para colocar um pé na frente do outro, auxiliado de perto por Nicholas Jaramillo.
Formado em fisioterapia, o médico exercia a profissão há mais de vinte anos. Nicholas vivia e respirava para o trabalho que amava, e a criação de seu único filho, Kevan. Mesmo depois de tanto anos, o divórcio com sua ex-mulher continuava fresco em sua cabeça, tanto que o homem ainda não se via pronto para um novo relacionamento tão cedo.
Após mais alguns conselhos e estímulos de esperança, a última paciente daquela noite foi embora, agradecendo mais uma vez ao fisioterapeuta. Para o médico, não havia pagamento maior do que a felicidade nos rostos daqueles, que acreditaram que a vida tinha acabado por estarem confinados numa cadeira de rodas.
Nicholas tirou o jaleco e o dobrou formalmente, para depois ajeitar a gravata azul que caía elegantemente sobre o conjunto social que vestia. De frente para o espelho do consultório, ele alisou para trás os curtos cabelos grisalhos e notou que novos fios brancos surgiam a cada dia, mas seus 55 anos não apagavam a beleza e o charme que o médico possuía.
Já havia passado muito tempo desde o término do horário de funcionamento da clínica, quando Nicholas decidiu dar o dia por encerrado e voltar para casa. Puxou o molho de chaves para trancar tudo quando, para sua surpresa, viu que Madeleine, sua secretária, ainda estava ali.
— O que ainda faz aqui, Maddie? Fazendo hora extra? — Brincou ele.
— Já faz uma semana que discutiu com o Kevan, senhor. — A mulher disse sem rodeios, de tal forma que Nicholas foi pego de surpresa. — Sei que não cabe a mim me interferir assim na sua vida, mas…
— Tem razão, Maddie. — Nicholas a cortou secamente. Apesar de Madeleine ter grande participação em sua vida, falar da recente questão sobre seu filho ainda era um tabu, que ele pretendia não discutir. — Não cabe.
— Mas eu o conheço e conheço aquele rapaz desde que usava fraldas, não posso mais ficar parada vendo tudo isso acontecer. — O encarou seriamente, sem mais leveza na fala. — Precisamos falar sobre o Kevan.
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San Diego, California, EUA
Vestida socialmente e com uma arma no coldre agarrado à sua cintura, a detetive Sun carregava um detento adentro da delegacia, com um sorriso de satisfação no rosto e um peso a menos nas costas. Foram meses de trabalho de investigação, outros procurando brechas e consolidando estratégias, mas enfim, o bandido que ela tanto procurava, estava atrás das grades.
— A general Sun conseguiu de novo! — Os policiais exaltaram em coro.
— Obrigada, pessoal. — As palavras saíram com um pouco de timidez, visto a grande comemoração que a cercava apenas por ela ter feito seu trabalho. — Mas ainda temos muito trabalho a fazer.
Após colocar o mafioso na cela especialmente reservada para ele, Lee Sun Yoo pode finalmente descansar.
Seu cabelo loiro estava preso num rabo-de-cavalo mal feito e a maquiagem ficara desbotada com o tempo em campo, mas sua beleza natural continuava intacta. Tinha 30 anos, mas seu rosto, que parecia ser feito de porcelana e o corpo próprio para uma modelo, a faziam parecer ter muito menos. Poucos que a viam, a levavam a sério como uma detetive com várias prisões famosas no currículo, mas Sun se fazia ser reconhecida com seu trabalho árduo, colocando para trás aqueles que a menosprezavam por ser mulher. Não era à toa que muitos do seu departamento a chamavam de “general”, um apelido que Sun passou a gostar cada vez mais.
A descendente de coreanos pousou a arma e o distintivo em sua mesa e sentou-se de frente para a papelada que teria de preencher, para oficializar a prisão daquele que se intitulava como o “quarto maior mafioso de NY”. Ver aquele homem na cadeia junto com seus parceiros do crime, e ter desmontado todo um sistema de tráfico, fazia Sun sentir que estava no caminho correto mesmo com a insatisfação dos pais distantes.
Ela ainda se lembrava das palavras duras que seu pai lhe dissera, de que uma mulher não devia fazer o serviço de um homem. Lembrava do choro da mãe, que depositara os antigos sonhos de modelagem na filha, e que os vira fracassar quando Sun quis seguir os passos do tio, iniciando a carreira na polícia.
Porém no fim, eles foram obrigados a aceitar que Sun escolhera proteger e servir, e nada poderia tirá-la do seu destino.
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Nicholas sentiu um pouco de irritação na voz dela. Madeleine sempre fora uma funcionária exemplar, e ele trabalhava com a pequena e gorda senhora há mais vinte anos e poucas vezes a vira tão alterada com estava naquela noite. Uma das únicas que Nicholas confiava inteiramente e com quem tinha um grande proximidade. Mesmo contrariado, achou melhor escutá-la por fim.
— Sou todo ouvidos. — Ele espanou as mãos ao ar.
— Eu já sabia sobre o Kevan... Sobre a sexualidade dele e tudo mais há bastante tempo e…
— E não me disse nada? — Cerrou os olhos.
— O que eu tinha para dizer, senhor? Que seu filho continua sendo um rapaz maravilhoso? Que continua sendo aquele, que lhe fez chorar de orgulho no dia da formatura? Ou que ele deixou de ser tudo isso só por gostar de garotos? Me diga, senhor.
Madeleine falava de forma tão branda e maternal, que mesmo visivelmente incomodado, Nicholas sentia a verdade e a preocupação nas palavras dela.
— Não é isso, Maddie. — Nicholas afrouxou o nó da gravata, o fisioterapeuta tentando não ficar irritado com aquele assunto. — E todas as namoradinhas que ele teve quando adolescente? E quando ele me ligou tarde da noite, desesperado por ter pensado que tinha engravidado aquela garota? Tudo isso foi mentira, Maddie. Como quer que eu me sinta sabendo que ele mentiu na minha cara esse tempo todo?
— Já faz uma semana, senhor. — Disse docemente. — Ficar ignorando e remoendo esse assunto com raiva não ajudar ninguém. Os dois estão sofrendo e posso ver isso muito bem, mas seu orgulho só está aumentando essa dor. Por favor, senhor Nicholas, fale com ele.
Nicholas voltou para sua sala, com Madeleine o seguindo. Parou em frente ao retrato e olhou com pesar para a foto. Kevan tinha herdado seus cabelos e o sorriso fácil, além de sua postura confiante. Uma lágrima emergiu e caiu sem permissão sobre a fotografia. Nicholas amava demais aquele menino, mas naquela última semana, parecia estar olhando para um desconhecido. Uma sombra do que já tinha sido o seu filho.
— Eu o amo, Maddie. Mas não consigo aceitar isso. Não é certo.
— E quem somos nós para dizer o que é certo? Meus pais também nunca aceitaram o meu casamento, passamos anos sem nos falarmos e digo com muita dor no coração, que não ter os meus por perto, foi a pior situação em que vivi. E espero que o Kevan nunca passe por isso.
Sem querer, Nicholas pensou na própria infância. Pensou que não tivera os pais para apoiá-lo quando iniciou o casamento e a vida adulta. Lembranças como aquela lhe doíam, mas por fim, pensou em Kevan e no que perderia por não estar ao lado dele.
— Ele me disse que está fazendo serviço comunitário numa cidadezinha chamada Hadiah, na Indonésia. — Madeleine quebrou o silêncio. — E também deixou o novo número de telefone. Pense nisso, senhor.
Madeleine saiu com seus passos pesados ressoando pelo piso, Nicholas não a encarou ou disse qualquer coisa, apenas continuou olhando indeciso para o garotinho sorridente da foto. Por fim, viu o bilhete deixado pela secretária e com as mãos trêmulas, o pegou com cautela.
— Maddie. — Ele a chamou quando passava pela porta. — Tem razão… Eu devo procurar o Kevan e tentar me acertar com ele.
— Eu sabia que ia dizer isso. — O rosto da senhora se iluminou. — Seu voo sai amanhã cedo e já fiz sua reserva no hotel mais próximo de Hadiah. E pode deixar que remarco suas próximas consultas.
— Você o quê? — O queixo do homem despencou com a surpresa. — Como sabia que eu ia…
Madeleine caminhou de volta até o médico sorrindo, com a gordura do corpo balançando suavemente. Na maioria das vezes, ela era mais figura materna para ambos, do que uma simples funcionária de longa data.
— Eu o conheço mais do que imagina, senhor Nicholas. E sei que mesmo bravo ou chateado com o Kevan, nada é mais importante para o senhor que o seu filho. Agora vá fazer as malas.
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Londres, Reino Unido
Seu cabelo castanho ultrapassava a altura dos ombros e uma parte cobria-lhe um dos olhos azuis do londrino de 16 anos, que vagavam por entre as diversas roupas espalhadas a sua frente, enquanto seus dedos inquietos tentavam dobrá-las com o máximo de precisão possível. Roupas coloridas não podiam ficar perto de roupas brancas, e Skylar tomava cuidado para que isso não acontecesse.
Ficou ali por um tempo que nem viu passar. Uma por uma, suas roupas eram colocadas na mala de mão, retiradas e recolocadas se necessário, até que Skylar ficasse satisfeito com o resultado final. Diagnosticado com autismo leve perto de completar 3 anos, Skylar Lancaster convivia diariamente com as limitações que sua condição lhe impusera, mas de seu próprio jeito, ele tentava se superar.
Mesmo que não fosse fácil.
— Skylar. — A voz de seu pai ressoou com um trovão. — Seu tio já está aqui. Por que ainda não arrumou sua mala?
— Estou arrumando. — Disse baixo, concentrado na tarefa que fazia.
— Não consegue entender que estamos com pressa? — Perguntou o homem alterado. Skylar se assustou quando o pai tomou a mala de sua mão e enfiou todas as suas roupas, antes perfeitamente arrumadas, de qualquer jeito dentro da mala. — Por que ainda pago um terapeuta para você, se parece que não adianta nada? Será que você não pode ser normal só por um dia.
Mas eu sou normal, é o que o terapeuta me diz o tempo todo. Skylar pensou, sem conseguir verbalizar. Só não consigo fazer isso o que está me pedindo.
O rosto do homem se fechou quando percebeu o que tinha dito. Uma súbita vergonha o abateu, mas ele nada fez além de soltar uma desculpa ao vento antes de sair do quarto. Skylar abaixou o olhar vago, agarrando sua mãos com força, como se estivesse lutando contra elas. Momentos como esses eram raros, mas não impossíveis de acontecer e quando o garoto se chateava por algo que não entendia, seu corpo reagia com o descontrole de suas mãos.
— Hey, campeão! — Seu tio, Jon Lancaster, apareceu na porta do quarto. — O que aconteceu?
— Eu só estava arrumando a mala. — Respondeu.
— Fica calmo, Sky. — Jon se agachou e tomou as mãos de seu sobrinho, segurando-as com firmeza. — Nós vamos arrumar isso do jeito certo. Está tudo bem, vê?
Eu queria poder te proteger de tudo para sempre, campeão. Pensou Jon. Mas não posso, infelizmente não posso.
Jon ajudou a Skylar a refazer sua bagagem, de modo que o adolescente se sentisse confortável com a disposição de suas roupas. Orientando-o e tentando acalmá-lo, falando de forma branda e amigável. Aos poucos, as mãos de Skylar pararam de tremer e sua respiração normalizou, mas o que fora dito por seu pai continuava a ressoar em sua mente.
— Nós já estamos atrasados. — Skylar disse com o olhar nervoso. — O papai está certo.
— E quem liga para o seu pai? Foda-se o seu pai. — Disse em tom de brincadeira. — Às vezes não acredito que aquele cara e eu saímos do mesmo útero.
Jonathan era o total oposto do seu irmão mais velho, mais paciente e gentil, que entendia os limites que o sobrinho possuía e o ajudava quando podia.
— Eu soube que está aprendendo robótica e mecânica na escola. Parece ser bem legal — Jon quis mudar de assunto. — Quer me contar?
Skylar levantou o olhar e emendou um sorriso com diversos significados. Caminhou apressado ao criado-mudo, pegou um caderno de desenho e mostrou ao tio, ainda com o nervosismo no rosto. Enquanto Skylar aguardava sentado na cama, com as costas eretas e as mãos suadas sobre os joelhos, Jon folheou as páginas do caderno com afinco.
— Você fez tudo isso? — Perguntou impressionado.
— São só alguns projetos. Eu já comecei a construir alguns, mas eles não estão prontos ainda. O que acha?
— Acho que são incríveis. — Ele não mentia. Skylar desenhou com grande riqueza de detalhes, os projeto que idealizara durante as aulas. Engrenagens, fios e diferentes tipos de sistemas eletrônicos, todos descritos de forma meticulosa. — Nem meus colegas de Oxford são tão bons assim.
— Esse aqui... — Skylar apontou para uma figura cilíndrica. — É uma lanterna sensível a temperatura, que funciona com o calor das mãos.
— E esse outro? — Jon apontou para o que pareciam ser várias bolinhas de gude.
— São nanobots, ou pelo menos deveriam ser. — Disse com chateação, sem conseguir olhar o tio nos olhos. — Está na fase de testes ainda.
Tio Jon continuou a folhear o caderno de ilustrações, enquanto Skylar apontava e descrevia o que cada projeto faria ou deveria fazer, sem nenhum dos dois estar se importando com o atraso para a viagem que fariam naquele mesmo dia. A cada palavra dita, Skylar sentia-se mais confortável para conversar, e até mesmo sorrir um pouco.
— Sky, eu ainda nem vi essas máquinas pessoalmente, mas… — Tio Jon apertou as mãos dele novamente, mas com delicadeza. Olhando profundamente para o azul dos olhos do garoto. — Acho que você tem um talento extraordinário, campeão.
X-X-X-X-X
Sun pôde escutar de longe as vozes de suas meninas brincando, enquanto se aproximava da casa onde morava com a família. Eram risos. Assim que abriu a porta da frente, Sun foi recebida por pequenas mãos que lhe agarravam freneticamente, acompanhadas por rostos alegres.
— Mamãe! — As garotas gritaram em uníssono assim que a viram.
— Meus amores! — Sun se agachou e com os braços abertos, foi recebida com alegria pelas duas meninas. Eun Bi de 2 anos e Kim Jo de 4 anos. Ambas com seus olhos seus olhos escuros como café. — Que saudades que eu estava de vocês.
Seu marido, Hwang, terminava de limpar a cozinha quando se aproximou e deu um selinho na esposa. Hwang trabalhava meio período como gerente no supermercado local, depois buscava as meninas na escola para passar o resto do dia com elas, limpando e cozinhando até Sun chegar.
— Vai querer jantar? — Hwang perguntou. — Fiz aquelas guiozas que você adora.
— Obrigada, amor, mas já comi muito hoje. — Apenas um sanduíche natural no almoço e duas barras de cereal no resto do dia. — Não tenho fome.
— Certeza? — Hwang forçou um olhar preocupado.
— Sim, eu vou colocar as meninas na cama e tomar um banho, o dia foi uma loucura hoje.
Com as garotas no colo, Sun as levou ao quarto no andar de cima, com as paredes pintadas de branco e com pequenas sakuras espalhados aleatoriamente. Mesmo cansada após o dia tumultuado, Sun fazia questão de colocar as garotas para dormir e contar histórias para elas. Hwang já tinha desistido da carreira na polícia para ter mais tempo com elas, dando mais tempo para Sun se dedicar à carreira de seus sonhos, por isso quando seu expediente terminava, Sun gostava de aproveitar cada minuto que podia com a família.
Quando ambas dormiram, Sun retornou para junto de seu marido, que a esperava com uma estranha inquietação que mal dava para disfarçar.
— Que cara é essa?
— Qual cara? — Fez se desentendido, mas ele era muito ruim nisso. — Não tem nada acontecendo.
— Cara de quem aprontou. — Ela estreitou os já estreitos olhos. — Hwang, o que está me escondendo?
Hwang tentou, mas não conseguiu mais se conter. Puxou um envelope pardo guardado na mesinha de cabeceira e entregou nas mãos de Sun.
— O que é isso? — A detetive olhou com desconfiança, mas de resposta conseguiu um irritante:
— Abra e descubra.
Sun tirou as mechas loiras que caíam na frente dos olhos e abriu o envelope. Transbordando impaciência e curiosidade, ela tirou de dentro dele duas passagens de avião e um papel impresso com as reservas feitas para um resort indonésio, marcadas para aquele fim de semana em que comemorariam cinco anos de casamento.
— Só eu, você, muito champanhe grátis e aquelas massagens com pedras quentes. — Ele se aproximou com um sorriso e a abraçou pela cintura. — O que me diz?
Poucas vezes na vida, Sun perdera a fala como perdera naquele momento.
— Eu nem sei o que dizer… — Sun estava totalmente tomada pela surpresa.
— Eu já cuidei de tudo. A minha mãe vai ficar com as meninas, e seu tio vai colocar alguém para cobrir você na delegacia.
Ela permaneceu rígida e atônita por um tempo, mas o calor dos braços fortes de Hwang a amoleceu, que logo depois era ela quem o estava abraçando.
— Você é incrível, sabia disso? — Foram as únicas palavras que conseguiu encontrar. E naquele momento, elas eram mais que perfeitas.
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Diferentemente do clima frio e calmo do Reino Unido, a Indonésia era quente, úmida e muito barulhenta. A mudança brusca de território, o barulho e a grande movimentação de pessoas ao seu redor, o incomodaram no início, mas graças à magia dos headfones abafando seus ouvidos e a farmacologia, ele podia aproveitar o que aquela viagem tinha para oferecer.
Skylar estava sentado debaixo de um sombreiro, estudando o dicionário Inglês-Indonésio, que comprara no dia que soubera da viagem. O corpo magro e pálido do britânico, contrastava com o bronze da maioria das pessoas que ocupavam a piscina do resort Pantai Mamba. Ele usava um calção de listras horizontais e tinha o corpo besuntado por muito protetor solar e repelente para insetos, já seu cabelo comprido estava solto e balançava livremente com o ar quente da Ásia.
— Aí, garoto! Bonito calção. — Uma voz ao seu redor chamou-lhe a atenção. Skylar se virou, deparando-se com uma garota de sotaque americano. — O meu bisavô também usava um parecido em 1950.
— Obrigado, a minha mãe que escolheu. — Skylar agradeceu com sinceridade, mas não entendeu quando a garota desatou a rir e se encaminhar para longe, ainda aos risos. — Passar bem!
Garota legal. Pensou enquanto via ela continuar seu caminho, cheirando a óleo de bronzear. Eu devia mostrar minhas nanobots à ela.
Longe dos pais e com Jon exigindo-se na piscina. Skylar voltou a colocar os headphones e tentar frear os pensamentos rápidos, que preenchiam sua cabeça e isolar-se do barulho externo, focando apenas na música e no dicionário em seu colo, mas mesmo num resort do outro lado do mundo, o garoto não conseguia.
She sees them walking in a straight line,
That's not really her style
And they all got the same heartbeat
But hers is falling behind
De onde estava sentado, ele podia ver um casal asiático que recebia massagens e comemorava algo com champanhe, sorrindo com ternura um para o outro. Skylar não pôde deixar de ter um pouco de inveja, ele já completara 16 anos e nunca tivera uma namorada.
E o beijo que dera na prima no quinto ano não contava. Sem querer, Skylar lembrou que agora ela tinha namorado e frequentava o grupo dos populares da escola, os que todos admiravam. Aquele no qual Skylar tinha um desejo antigo de estar, mas sempre era colocado para trás.
Nothing in this world could
Ever bring them down
Yeah, they're invincible, and she's just in the background
Do outro lado da piscina, um senhor vestido socialmente e destoando do visual praiano da maioria. Perto dele estava o Tio Jon, quase 15 anos mais velho que o sobrinho, o mesmo cabelo comprido castanho, mas o seu chegava apenas até a altura dos ombros. E além do marcante olhar verde, ele exibia uma tatuagem de uma estrela de cinco pontas dentro de um sol negro no peitoral, que dizia ser para proteção.
Skylar queria poder ser como ele, bonito, másculo e adorado por quem o conhecesse.
And he says
I wish that I could be like the cool kids
'Cause all the cool kids, they seem to fit in
I wish that I could be like the cool kids
Like the cool kids
Queria ser sorridente como a garota americana que o elogiara, queria que alguém o olhasse com ternura como o casal asiático olhava um para outro. Queria não ter tanta dependência e insegurança para falar, como seus pais cansavam de dizer que tinha.
Queria ser tão sociável como Tio Jon era e também como os jovens da sua idade, que lotavam e festejavam na piscina.
And they said
I wish that I could be like the cool kids
'Cause all the cool kids, they seem to fit in
I wish that I could be like the cool kids
Like the cool kids
Skylar desejava ser um dos garotos legais, mas bem no fundo, ele sabia que não podia. E isso o entristecia.
Like the cool kids
X-X-X-X-X
A leve brisa marítima que aumentava com a chegada do anoitecer entrava pela janela aberta do quarto de Milan. O homem estava apoiado no batente da mesma, observando o resort e como sua extensão, o belo Oceano Índico diante de si, totalmente absorto em seus pensamentos.
Mais tarde, naquela noite, estaria em um casamento que aconteceria exatamente nas imediações do resort, o de seu amigo Andreas. O terapeuta finalmente casaria com sua noiva, Dawn, seguindo o mesmo caminho que ele fez há vinte anos atrás.
Milan von Hassel nunca se considerou uma pessoa fácil de conviver. Sempre preferiu o silêncio e a solidão, do que estar com outras pessoas. Por vezes, se recolhia em seu próprio mundo e seus pensamentos, concentrado em seus devaneios.
Isso até conhecer Kamesh, por quem o seu coração bateu mais forte. Na época, Milan já era um dos principais bailarinos da Royal Ballet School de Londres, e aquela era até o momento a única verdadeira paixão de Milan. A dança sempre fez parte do seu ser, e foi o propulsor para correr atrás de seus sonhos. Era uma relação calcada unicamente no amor e na dedicação que o homem, na época com cerca de 20 anos, demonstrava.
Kamesh, assim como Milan, descendente de imigrantes que vieram tentar a vida em Londres, tinha ido assistir justamente uma apresentação de balé em que Milan era uma das figuras centrais e o resto foi sendo escrito pelo destino, culminando no casamento dos dois em alguns anos depois.
— Amor, tudo bem? – Kamesh se aproximou de Milan, encostando a mão no ombro do homem.
— Tudo bem, eu só estava pensando em algumas coisas...
— Como de costume, você não muda, Milan. – O ex-bailarino e agora coreógrafo, sorriu com a fala. – Mas precisamos nos agilizar, daqui a pouco é o casamento do Andreas. Somos padrinhos, temos que chegar bem antes.
— É, realmente, já ia me esquecendo. – Milan falou, quando sentiu seu celular vibrar. Logo o pegou, intrigado.
Assim que Milan desbloqueou o celular, viu que havia uma mensagem no Whatsapp de seu filho Athos.
— O que foi?
— O Athos disse que querem falar pelo Skype com a gente. Será que vai dar tempo? Nós precisamos nos arrumar pro casamento, como você mesmo disse.
— É… – Kamesh parou por um instante, e logo depois falou. – Acho que não terá problema, só precisamos pedir para que seja rápido.
Pouco depois, Milan acessava o Skype a partir do notebook que tinha levado para a viagem, e logo os trigêmeos de 16 anos, Athos, Porthos e Aramis, apareciam na tela do computador.
X-X-X-X-X
Enquanto o sol se punha, uma mulher caminhava lentamente pelo Pantai Mamba Resort observando a bela decoração do local, que era baseada nos costumes e tradições do país, dando um toque rústico que contrastava bem com a modernidade do Pantai Mamba, um verdadeiro resort de luxo, conhecido mundialmente. Ela continuava com sua caminhada tranquila, até que ouviu algo.
— Ei. Eu te conheço!
A mulher loira se virou repentinamente um tanto quanto assustada. Será que estavam falando comigo?, pensou.
— Você mesma! – Uma mulher que parecia ter cerca de 20 anos, segundo o que ela deduziu pelo rosto e pela vivacidade com que se apresentava, estava a chamando. – Eu conheço você! Você é atriz, não?
— Ah, sou sim. – Ela abriu um sorriso ao se ver sendo reconhecida. Mesmo que isso já tivesse se tornado comum, continuava a ser gratificante.
— Sabia! Eu lembrei de você de um filme… Você não era a protagonista daquele filme de comédia lá da... Facada?
— Era eu sim. – Ela passou a mão no cabelo, falando de forma resoluta. – Que bom que alguém ainda lembra desse filme.
— Marcou minha infância, óbvio que vou lembrar. – A turista parecia deveras animada. – Tira uma foto comigo?
— Que isso, claro! – Ela disse, receptiva.
Após a foto, a turista se despediu da atriz, que continuou seguindo seu caminho pensando no que tinha acabado de acontecer.
Victoria Martyn era seu nome. Atriz e diretora de certo sucesso, a mulher possuía uma pose de uma verdadeira dama, enquanto desfilava pelo resort, observando todo o belo local onde estava. O Pantai Mamba Resort era conhecido a um certo nível mundial, e Victoria sabia que aquele lugar era o certo para poder descansar um pouco sua mente do universo cinematográfico que estava inserida.
Ela realmente necessitava. Nos últimos anos, tinha dirigido o seu primeiro filme, além de agora ter sido contratada para ser uma das showrunners de um seriado de televisão, tentando salvá-lo do fracasso iminente, já que as temporadas anteriores não tinham sido satisfatórias o bastante. Além disso, precisava aproveitar aquele tempo ao máximo com a família: seu marido e seu filho de seis anos. Embora eles ainda não tivessem feito nenhum passeio grande por ali.
Até agora?
Quando deu por si, a bela mulher caminhava na direção da recepção em busca de informações sobre os passeios. Paralelamente a isso, lembrou-se do que tinha dito a turista momentos atrás, e percebeu que sem querer, a sua condição patológica se apresentava discretamente, e apenas balançou a cabeça.
Eu nunca fiz um filme de comédia sobre Facada.
Eu era a protagonista do Facada original.
X-X-X-X-X
A água escorria pelo cabelo de Milan, descendo por todo o seu corpo enquanto ele tomava banho. Do lado de dentro do banheiro, ele deixava algumas músicas tocando em seu celular, e agora a famosa música do Lago dos Cisnes ressoava bela no interior daquele lugar.
Aquela música trazia muitas lembranças para Milan, principalmente porque ela tinha sido a primeira apresentação que tinha realizado como um bailarino profissional. A apresentação que deu início a uma carreira promissora que se estendia até os tempos atuais.
Para Milan, não foi uma caminhada fácil. O garoto quando criança, olhava para a dança como algo vívido e inspirador, até finalmente decidir através de sua paixão, que gostaria de seguir tal caminho.
Vindo de uma família pobre nascida nos Países Baixos que migraram para a Inglaterra em busca de melhores condições de vida, Milan foi criado em um lar um tanto quanto duro e com disciplina extrema, o que contribuiu para a sua personalidade e desse modo, também para o seu caminhar em direção ao sucesso que obteve posteriormente.
Mas Milan sempre teve um convívio social mais recluso. Nunca foi de falar muito. Fechado em seu mundo, também não conseguia confiar nas pessoas facilmente. Nunca havia parado para pensar se era exatamente no medo de se decepcionar ou apenas sua personalidade. Mas a verdade era: conquistar a confiança de Milan era coisa que poucos conseguiam.
Uma das poucas pessoas que, justamente, havia conseguido isso tinha sido Andreas, além de: Kamesh, os seus filhos e outros conhecidos próximos. O terapeuta e o ex-bailarino acabaram se conhecendo há anos, por intermédio de Kamesh e Dawn, e desde então mantinham uma forte amizade. Então, quando Dawn chamou Milan e Kamesh para serem padrinhos, não foi nenhuma novidade para ele.
No fundo, Milan estava feliz. Pelo casamento do amigo acontecer, pelos três filhos estarem crescendo e adquirindo maturidade, pela sua vida com Kamesh e seu trabalho como coreógrafo. Ele não era muito de expressar os sentimentos, mas com um pouco de conversa com ele, as pessoas ao redor poderiam perceber que ele se sentia bem.
No dia seguinte, eles iriam com Andreas e a noiva em um passeio oferecido pelo resort para um templo próximo do local, que fora construído por nativos da região há séculos atrás. Não podia negar que no fundo estava interessado, mas algo dizia em seu interior que tinha algo muito errado e estranho.
Algo que Milan nunca conseguiu explicar direito era o fato de seu lado espiritual às vezes se tornar extremamente aflorado. Assim, podia sentir claramente quando o clima de um local estava ruim, ou com uma energia pesada, mesmo quando ninguém mais percebia. A questão é que ele sentia isso ao redor daquele resort.
Quando chegaram, cerca de dois dias atrás, Milan não sentira isso logo de cara. Mas com o passar dos dias, parecia que aquele estranho sentimento continuava a aflorar cada vez mais sem ele ao menos poder entender o que acontecia. Extremamente racional, demorou a crer que esse lado espiritual dele fosse tão aflorado, mas depois de algumas vezes passou a suspeitar levemente. Ele era racional, mas não era burro.
Então foi tirado dos seus pensamentos quando a música terminou de tocar e caiu em si, percebendo que já estavam atrasados demais para a cerimônia.
Tenho que me apressar. Não adianta ficar com esses pensamentos, não agora.
X-X-X-X-X
— É Hadiah o nome? – Um homem de aproximadamente 40 anos, sentado na cama de um quarto do resort, perguntou para Victoria. – Nome estranho.
— Amor, é óbvio que vai ser um nome diferente do que estamos acostumados. Estamos na Indonésia, não é mesmo?
— Ótimo ponto. – Paul Black, marido de Victoria, respondeu. – Não, espera. Victoria, a cidade que nós estamos é Hadiah. O templo tem outro nome.
— Claro que não, Paul. É Hadiah, eu tenho certeza absoluta. – Ela disse, sentando-se na cama do quarto.
— Victoria. Tá escrito que tem outro nome. – Paul mexeu com o folheto.
Victoria parou por um instante e respirou fundo, falando logo depois:
— Tudo bem. Assumo que eu errei.
— Errou mesmo? Ou você quis mentir propositalmente? – Paul perguntou intrigado.
— Paul, por favor. Não vamos falar sobre isso agora. – Victoria falou, fechando os olhos e levando a mão ao rosto. – Eu estou aqui pra descansar, assim como você. Não quero que essa condição atrapalhe mais uma vez nossa convivência e a do Jeremy.
— Mas você não pode continuar negando que…
— Negando o que, Paul? Negando que eu sei que eu tenho uma condição especial e que deveria cuidar dela? – Ela falou, alterando levemente a voz.
— Exatamente. Você continua fazendo isso, Victoria.
— Eu só não quero falar sobre isso. Por favor, me deixa em paz. Onde está o Jeremy?
— O Jeremy está com o amigo que fez aqui no resort. Até agora, provavelmente devem estar na sala de jogos.
— Está ficando tarde. – Ela disse, olhando no celular, e levantando em seguida. – Eu vou buscar ele, contar também sobre o passeio que faremos amanhã.
Victoria olhou para Paul, esperando que ele comentasse algo a respeito, mas ele apenas ligou a televisão do quarto e continuou sem reação qualquer.
— Você me ouviu, Paul?
— Sim, o passeio pro templo. Amanhã. – Ele disse, sem ao menos olhar na cara da mulher. Victoria respirou fundo, e saiu novamente do quarto, batendo forte a porta.
O passeio para o Pantai Mamba foi uma forma de Victoria espairecer sua mente depois de um período extenso de trabalhos, mas também para tentar fortalecer os laços de sua família, que ela via totalmente fragilizados. Ela não era o tipo de mulher trouxa por um cara. Inclusive, abominava isso completamente, mas sentia que Paul se afastava cada vez mais dela, e ela estava sendo claramente a mulher inocente e trouxa da história. Aquele mesmo tipo que faria ela revirar os olhos.
Porém, o pior de tudo isso, foi que ela tinha começado a perceber, exatamente nessa viagem, que os esforços estavam sendo cada vez mais inúteis e piores. Paul simplesmente não tinha mais nenhum interesse por ela.
Tenho certeza que aquele vagabundo só está comigo pelo dinheiro. Filho da puta!
Não tinha falado, mas claramente expressou o seu ódio quando ele tocou na ferida, que ultimamente usava para atingi-la em cheio. Sua condição patológica era algo que Victoria sempre teve vergonha e tentava esconder do grande mundo de Hollywood, e com relativo sucesso. Mesmo porque, se a verdade viesse à tona, muitas conquistas em sua vida viriam ao chão.
Victoria era portadora de um transtorno psicológico que por muitos anos a atormentou, visto que não sabia exatamente como cuidar de tal. Sua compulsão por mentir, também conhecida pelo famoso nome de mitomania começou muito cedo, ainda na escola, quando conseguia manipular as outras meninas a acreditar em suas mentiras. Isso foi crescendo de forma desenfreada, e Victoria já chegou a se meter em mentira atrás de mentira, uma bola de neve desenfreada que teria tudo para explodir se ela não tivesse o cuidado pra não ser desmentida.
A lábia também ajudou ela a entrar no ramo da atuação, junto com a facilidade de entrar em vários personagens e criar várias histórias. Tecnicamente a base de tudo onde ela chegara, diretora e atriz reconhecida de Hollywood, era a mitomania.
O que ela odiava, no fundo, mas aprendera a conviver com ela. Era difícil quando a mentira vinha mais plena e pura do que a verdade, saltando em suas frases como algo natural e ela mesma muitas vezes não percebia. Porém, o pior era assumir tal mentira, tão usada para esconder os verdadeiros sentimentos e angústias internas, principalmente sua baixa autoestima.
Obviamente, Victoria correu atrás de tratamento psicológico e psiquiátrico e isso a ajudou muito a controlar essa patologia. Mas às vezes simplesmente acontecia, e ela sentia como se nada tivesse sido resolvido.
Victoria respirou profundamente, tentando esquecer de tudo o que vinha acontecendo e focar na viagem, no bom descanso merecido que teria. E depois, resolveria a questão de Paul sem qualquer preocupação. Desceu algumas escadas próximas do saguão em direção a sala de jogos, onde observava à distância, os preparativos para alguma festa, identificada rapidamente por Victoria como um casamento ao ver a decoração.
Espero que eles tenham mais sorte no amor, porque olha... A situação está complicada.
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