Supernatural Tears
15 My Last Sake (Parte I)
Enxuguei o rosto quando ouvi alguém se aproximando. Eu estava mesmo chorando, uma coisa que venho fazendo muito desde uma noite em que passei meu aniversário numa casa num lago. Como se não fosse o suficiente...
Bobby ligou para Dean dezenas de vezes perguntando qual era o motivo de Sam estar tão fechado e mal humorado ultimamente. Até Ellen quis saber o motivo. Eu por outro lado não falava com ninguém... Nem com Dean que, hora ou outra, tentava me fazer sorrir.
- Vai ficar aí chorando, de novo? – Dean perguntou.
Eu me levantei e passei as mãos na calça jeans, secando-as. Olhei para o Winchester mais velho sem brilho nos olhos, já que ele também sofria com a frieza do irmão.
Perdi as contas de quantas vezes me desculpei por ter sido o motivo da briga entre os dois. Eles acham que eu não escuto, mas quando saio eles brigam sempre sobre o mesmo assunto:
“Ela estava com você enquanto estava comigo, Dean!” Sam gritava quase que toda hora.
“E ela estava com você quando eu desejei que estivesse comigo, qual é a grande diferença nisso?” Dean argumentava.
E quando eu entrava os dois se calavam e cada um ia pra um lado. Quando eu pensei que nada afastaria os dois irmãos, eu tinha incluído mulheres na lista. Se mulheres não separam os dois, então eu sou o que?
- Vamos... Sammy pediu pizza! – Ele me puxou pela mão.
Há dias não dávamos risada da cara um do outro, não dizíamos bom-dia nem boa-noite. Eu voltei a dividir a cama com Dean e não com Sam. Eu estava morta por dentro e nem sabia.
O cheiro de queijo derretido me enjoava. Fiz uma cara de desgosto e me sentei na cama mais próxima, rejeitando a janta. Dean me olhou de cara fechada como um pai que repreende seu filho por não comer as verduras do jantar.
Então eu percebi que ele desviou o olhar pra Sam, que contra sua vontade olhou pra mim e dirigiu a primeira palavra do dia:
- Come. – Foi a única coisa que ele disse. O suficiente pra ele, não o bastante para mim.
Então eu decidi que sair dali seria o melhor pra mim. Levantei-me devagar e andei até a porta. Nenhum dos dois me impediu, nem queriam. Estava frio fora daquele quarto de motel. Meus braços congelavam mesmo que eu me abraçasse e me esfregasse.
A falta do meu Chevy 500 veio como uma lembrança sinistra em minha mente. Ser incapaz de pegar o carro e sair por aí, pela estrada. Então caminhar seria o suficiente.
Coloquei o gorro da jaqueta sobre meus cabelos, me encolhi e sai em direção às ruas da cidade. Os saltos da minha bota faziam barulhos fracos no chão de pedra e hora ou outra eu tinha vontade de olhar pra trás e descobrir que era tudo mentira.
Um vento gelado passou por mim levando os cabelos não cobertos pelo gorro. Um vento incomum, ou melhor... Típico de uma coisa que eu conhecia bem. Respirei fundo: então de fato os motivos que nos levaram àquela cidade eram reais.
Eu estava pronta para virar na próxima esquina e correr de volta pro motel, mas suspirei surpresa quando vi que não era uma esquina e sim um beco sem saída.
A coisa que apareceu logo depois tinha um rosto delicado e não aparentava ter mais de 20 anos. Os cabelos laranja escorriam lisos pelas costas e no rosto predominava aquele sorriso cretino, característico de qualquer demônio.
- Hey, Jill! Quanto tempo. – A moça em minha frente falou na sua nova voz, mais fina, porém mais charmosa. – Achou que sair por aí tornaria mais difícil te encontrar?
- Qual é o seu problema? – Eu disse deixando meus braços caírem em direção ao chão. – Já não basta o que você fez com a minha família e comigo no passado?
- Você sabe o que eu queria... Ou melhor, ainda quero. – Ela disse se aproximando de mim.
- Dríade, você sabe que eu não tenho mais o que você quer...
- Será? Será mesmo? – E então de repente meu pulso começou a coçar.
Arregacei um pouco a manga da jaqueta e pude ver a minha velha tatuagem. Era lá que coçava.
Eu olhei pra frente novamente e Dríade não estava mais lá. Voltei correndo para o motel. Dean e Sam ainda estavam acordados, mas dessa vez não discutiam... Apenas olhavam um pro outro com uma raiva que eu nunca vi no rosto de nenhum dos dois.
Eu abaixei a cabeça e fui até o banheiro, onde me troquei e em seguida deite na cama, onde não demorei pra dormir.
“Você sabe o que quer...” Uma voz que vinha do nada não cansava de repetir.
Eu olhava apara todos os cantos, com medo mas, por outro lado, querendo que o dono da voz se revelasse.
“E você sabe que eu posso lhe dar isso” Continuou “Não é o perdão que você quer?”
E então eu acordava. Minha respiração ofegante, minha pele suada e meu rosto molhado devido as lágrimas que eu derramava ainda dormindo. Dean quase sempre acordava e quase sempre perguntava qual era o problema, mas com o tempo passou de “Qual o problema?” para “Pesadelos de novo?”.
Eu tinha me tornado alvo de demônio... De novo. Como se já não bastasse como há oito anos.
Dessa vez eu não estava sozinha quando Dríade resolveu mandar um de seus capachos pra me açoitar. E por incrível coincidência, ou não, eu conhecia aquele capacho da vez.
Dean tirou logo a pistola á mostra e apontou para o homem em nossa frente. Sam fez o mesmo.
- Então são vocês? – A voz surpresa do homem ecoou pela rua vazia. – Confesso que fiquei curioso quando Dríade me mandou pra cá... Só não sabia que teria a honra de vê-los novamente.
Carl ainda usava aquele amuleto que trocou com Sam. Provavelmente aquilo o salvo de muitas coisas. Meus cabelos castanhos voavam com o vento e eu tinha vontade de correr dali...
- Olá Jill! – Ele olhou para mim – Sabe o que vim fazer aqui, certo?
Dean olhou pra mim na mesma hora, mas Sam não abaixou a guarda um segundo se quer.
- Eu já disse que não posso ajudar – eu suspirei, cansada.
- Oh! – Ele fingiu-se surpreso – Mas Dríade mandou dizer que dessa vez ela tem um acordo...
- Mas eu não tenho o que ela quer! – Eu gritei. Estava ficando cansativo.
Era sempre assim... Todo ano, em determinada época, Dríade me vinha com o mesmo pedido e todo ano eu não me cansava de repetir que eu não podia ajudar. E era verdade.
- Você tem certeza de que sabe o que ela quer? – Eu olhei pra Dean e Sam.
- Claro que tenho! – Eu respondi.
- Vai embora, Carl – Sam vociferou.
- Então... – Carl sorriu e, no tempo em que levei para piscar, ele havia sumido.
O olhar de Dean caiu novamente sobre mim. Ele queria saber o porque daquilo tudo e sabia que eu tinha a resposta, mas tinha medo de me perguntar... Ou talvez medo da resposta.
Eu estava prestes a chorar de novo. Meus lábios tremiam, confirmando tudo. Eu só queria me deitar e dormir e às vezes, não ter que acordar.
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