Já tem uma semana que eu mal troco uma única frase inteira com o Rafael, felizmente ele também mal tem parado no apartamento então não parece que eu estou evitando ele nem nada assim, ele começou a treinar e malhar lá na academia e nos esbarramos muito por lá, mas nas vezes que isso acontece geralmente tem alguma garota por perto dele ou ele e Vinny estão empolgados falando da serie de exercícios mais eficaz pra determinado musculo e todo esse papo que eles adoram, então apenas fico na minha e não puxo assunto e assim vamos levando. Lia está cada dia mais louca com o casamento se aproximando, ela me faz dormir tarde e me manda mensagens quase o dia inteiro, querendo saber minha opinião sobre qualquer coisa que seja e mesmo que isso me custe alguns minutos de paciência eu fico feliz em fazer e ainda mais em ver os olhos dela brilhando de alegria e ansiedade, todo dia é um dia pra mais perto do sonho da vida dela e eu só quero que tudo saia absolutamente perfeito, por isso não me importo quando em plena quarta feira ela passa no escritório no fim do expediente e me arrasta pra confeitaria por que ela decidiu mudar a cor do laço que vai estar em cima dos bem-casados, depois de olhar uma nova paleta de cores e ficar indecisa entre 4 tons de roxo, ela finalmente se decide pelo mais escuro e nós saímos de lá com ela um pouco mais calma, quando entramos no apartamento Vinny quase nos recebe na porta.
— Adivinha quem vai abrir o show do Festival do Centro? – ele pergunta tão animado que nem precisa se pensar na resposta, eu pulo comemorando e abraçando ele, Lia também se empolga e ele ri a toa.
— Até que enfim depois de tanto mistério iremos ver vocês tocarem – eu falo com uma pontinha de ciúmes por que desde que eles começaram a se encontrar pra ensaiar ele nunca me deixou ir em um único ensaio que fosse.
— Agora você vai ver ao vivo – ele me levanta tirando meus pés do chão.
— Vocês vão arrasar, eu tenho certeza – ele parece tão ansioso quanto Lia está pelo casamento, Rafael chega enquanto ainda estamos comemorando e Vinny repassa a noticia, ele dá os parabéns e diz que fará um jantar de comemoração, eu aproveito a distração e vou pro quarto, já estava tirando minha roupa no banheiro quando Lia aparece atrás de mim no espelho.
— Ei, isso é invasão ein – falo mas já estamos acostumadas a entrar assim uma no quarto da outra, então não me preocupo, termino de tirar os sapatos e ela me olha de um jeito curioso – Vai, desembucha!
— O que aconteceu entre você e o Rafael? – quase tropeço quando a calça agarra na minha perna.
— Quê? Como assim? Do que você tá falando? – minha tentativa de parecer confusa foi quase um ato confesso.
— Você mal olha na cara do garoto e isso já tem uns dias... Tudo bem que você acha ele folgado, mas isso tá estranho – ela observa e eu passo por ela saindo do banheiro e indo na direção da cama.
— Impressão sua, não aconteceu nada.
— Aham, e eu nasci ontem. Anda, me conta...
— Não tem nada pra contar – viro as costas por que não sei mentir olhando nos olhos dela.
— É por que você se sente atraída por ele? – dessa vez me viro pra que ela possa ver o quanto é ridículo o que ela acaba de dizer.
— Você está se escutando?
— Sim, eu estou, perfeitamente! E você? Está se escutando? Tá escutando o que você realmente quer?
— O que eu quero? Eu só quero tomar um banho, só isso! – tento passar pro banheiro e ela entra na minha frente.
— Não, Dani, você quer se sentir viva, seu corpo quer isso, você quer isso, mas fica aí tentando se convencer do contrário...
— Lia, cala a boca!
— Calar a boca por que é verdade ? – eu cerro meus dentes tentando me controlar.
— Lia, sai do meu quarto agora – exijo apontando pra porta.
— Eu saio, mas você sabe que eu estou certa.
— SAI! – eu grito e ela não se intimida.
— Você não tá sentindo nada de errado, Dani, entende isso... Se você sente alguma coisa por ele mesmo que seja só atração, tesão, sei lá, você pode... – eu mesma vou até a porta do quarto e abro.
— Sai – repito e ela me olha dessa vez com certa dor nos olhos – Lia, sai! Não me faz te arrastar pra fora, por que eu vou fazer isso – ela solta o ar como se estivesse cansada e sai, assim que ela passa da porta eu a bato com toda força que consigo, o barulho é alto e eu não me importo com isso, tranco e vou pro banheiro, bato a porta do banheiro também e sinto meu corpo tremer, esfrego meu rosto, soco a parede, cerro os dentes e ainda assim não consigo me acalmar, entro debaixo do chuveiro e quando a agua começa a descer eu começo a chorar, não sei exatamente por que, mas choro sentindo uma dor tão grande, tão forte, tão inexplicável que chorar parece ser a única coisa que eu posso fazer, eu tento odiar ela, tento xingar ela em meus pensamentos, jurar que nunca mais falaria com ela mas eu sei que isso é um absurdo, sei que isso é errado, que mesmo odiando e não acreditando que ela teve coragem de me dizer o que disse, ainda assim ela é a Lia, a minha Lia de sempre e é impossível odiá-la, choro ainda mais por isso, choro por que não posso aceitar nada do que ela me disse, e continuo chorando.
Quando saio do banheiro sinto meus olhos inchados, meu nariz ainda está escorrendo e sinto como se eu carregasse o peso do mundo nas minhas costas, visto minha calcinha e uma camiseta e me jogo na cama, quando estou embaixo do edredom volto a chorar, as luzes estão apagadas e quando as batidas na porta aparecem, eu cubro minha cabeça com o travesseiro e choro em silencio até pegar no sono.
De manhã acordo com o rosto inchado, acabo passando um pouco mais de maquiagem pra disfarçar e só saio do quarto na hora exata de sair de casa, Lia, Vinny e Rafael estão tomando café e rindo sobre alguma coisa.
— Bom dia! – falo enquanto passo direto sem nem esperar uma resposta, ouço Vinny me chamar, mas aproveito que o elevador abriu e corro até ele, vou de metrô pro escritório e chego em cima da hora, o dia parece mais longo do que qualquer outro e eu procuro por trabalho a cada segundo, já estava quase na hora do fim do expediente quando meu pai me liga, ele quer que eu vá até em casa por que ele finalmente aceitou que eu não vou mais voltar pra lá e resolveu usar meu quarto pra fazer um escritório, mas pra isso ele precisa que eu veja o que eu quero do quarto antigo, eu digo que passo lá no dia seguinte por que hoje estou muito cansada e ele concorda, saio do escritório, passo num China in box que tem na esquina, compro meu jantar e vou pro apartamento, aproveito que não tem ninguém e vou direto pro meu quarto, tomo banho, janto e estava assistindo a novela quando a porta se abre, Vinny entra sem nenhuma cerimonia e se aproxima da cama, ele levanta as duas caixinhas onde antes estavam meu jantar e me olha com uma pergunta silenciosa.
— Eu tava com fome – respondo dando de ombros, ele muda o olhar pra TV.
— Desde quando você assiste novela? – ele sabe que eu odeio novelas, mesmo assim finjo não me abalar.
— Desde quando Cauã Reymond aparece sem camisa – tento fazer uma cara animada, mas acho que não convenceu muito, ele apoia um joelho na cama e me olha nos olhos, daquele jeito que parece vasculhar minha alma e justamente hoje isso é perigoso por isso desvio meu olhar pra TV.
— O que tá acontecendo? – sua voz é calma e preocupada e eu odeio deixar ele assim.
— Nada!
— Não me diz que não é nada! Você pode mentir pra quem quiser, mas pra mim não – volto a olhar pra ele e solto o ar.
— Eu e a Lia brigamos.
— Ela comentou alguma coisa, mas desconversou quando eu perguntei o motivo. Por que vocês brigaram? Vocês nem se falaram hoje.
— Eu não quero falar com ela agora – dou de ombros como se isso explicasse tudo.
— E comigo? Você fala? – ele se aproxima e eu preciso me segurar pra não me desmanchar na frente dele.
— Eu sempre falo com você, seu insuportável – falo usando toda minha força pra parecer animada, ele sorri um pouco desconfiado mas beija minha testa.
— Qualquer coisa...
— É só gritar, eu sei! – completo e ele sorri satisfeito, ainda me olha tentando me vasculhar, então como eu apenas sorrio e beijo sua bochecha, ele se levanta e sai do quarto, seguro as lagrimas o máximo que consigo, porém quando elas descem não param mais.
Não sei o que está acontecendo comigo mas parece que essa é a única coisa que consigo fazer e eu só me senti assim na época do acidente, esse vazio e esse sentimento sufocante, ainda me lembro da Lia repetindo todas aquelas coisas e não posso aceitar que seja verdade, não posso.
Acordo novamente com a cara inchada e dessa vez nem a maquiagem consegue disfarçar, chego no trabalho torcendo pra ir logo embora e quando o expediente acaba pego o ônibus e vou pra casa dos meus pais, assim que chego minha mãe me abraça e me aperta tanto que me sinto uma massa de pão, então me lembra pela milésima vez que eles me amam e que essa também é minha casa, com todo esse meu lado sensível acabo tendo que segurar minhas lagrimas, meu pai vem ao meu encontro fazendo aquelas caretas e me beijando, nós rimos e antes que eu suba pra ver minhas coisas ele faz aquele chocolate quente que só ele sabe fazer e mesmo no meio do verão eu tomo sorrindo e me sentindo aquela garotinha que chorava pra ele fazer todos os dias de manhã, minha mãe alerta dizendo que vai nos dar dor de barriga e que engorda, mas assim que ele enche uma caneca pra ela seus olhos também brilham, nós três ficamos pela cozinha tomando o chocolate com rosquinhas que ela mesma fez, depois disso subo as escadas e entro no meu antigo quarto, as paredes ainda estão como eu deixei, o papel de parede que eu mesma fiz imprimindo as folhas na impressora de casa parece quase um túnel do tempo, olho os pôsteres que eu costumava guardar jurando que um dia iria fazer molduras para todos eles e acabo me lembrando de quanto dinheiro gastei comprando eles, abro as gavetas e vejo aquelas roupas antigas que já não tem nada a ver comigo, sorrio um pouco aliviada mas um pouco nostálgica também, junto algumas coisas que quero guardar de lembrança, inclusive algumas roupas, encontro um vestido que a Lia me emprestou anos atrás e que eu jurava a ela que tinha devolvido, separo ele também, mas é a simples visão de uma velha caixa de sapatos customizada que me faz perder o chão, sinto todos os músculos do meu corpo se congelarem, minha respiração para, meu coração parece que não funciona mais, meu peito se aperta terrivelmente e em seguida minhas mãos começam a tremer, por que eu sei exatamente o que tem dentro dessa caixa, ela estava escondida entre o guarda roupa e minha penteadeira, me sento no chão e abro a caixa, lagrimas descem do meu rosto quando encontro todas as cartinhas, recados em folhas de caderno que eram trocados durante as aulas, também tem bilhetes de cinema, do circo que teve na cidade, e todos de um único remetente, Felipe, pego uma das cartinhas e a letra deitada e meio espaçosa demais faz meu peito se apertar ainda mais, enxugo as lagrimas com a minha camisa, sem me importar em sujar e mesmo com os olhos embargados consigo ler.
“
Não preciso de uma data especial pra dizer que você é a menina/mulher da minha vida, todo santo dia que eu vejo seu sorriso, olho pro céu e agradeço pela sorte que eu tenho, você entrou na minha vida e me fez ver que eu ainda não sabia o que era viver, por que você me trouxe a vida, me trouxe cor. Eu sei que vou te amar pra sempre, meu amor é seu, único e exclusivo, por que eu sei que não existe mais ninguém nesse mundo que irá conseguir me fazer tão feliz quanto você” Eu tento segurar minhas lagrimas mas é impossível, eu consigo me lembrar do sorriso dele quando me entregou esse envelope, lembro que realmente não era nenhuma data importante, era apenas uma segunda feira e ele apareceu com isso, abro um outro envelope e preciso enxugar as lagrimas novamente.
“
Acordei hoje e quando eu lembrei que nós estamos brigados tudo perdeu o sentido, me levantar da cama pareceu perda de tempo, escovar os dentes, tomar banho, passar aquele perfume que você adora, nada disso teve sentido, nada realmente importa quando não tenho você perto de mim e isso me fez perceber que eu não sei mais viver uma vida sem que você esteja nela, é impensável, eu enlouqueceria, eu morreria de solidão, por que é você que dá sentido as pequenas e as grandes coisas. Meu amor, me perdoa, do fundo do meu coração, não me obrigue a viver mais um segundo longe de você, por que eu juro, eu não suporto essa vida sem seu sorriso, sua voz, sua mania de brigar por tudo, seu humor azedo de manhã, seus beijos, seu toque, eu te amo tanto! Me deixa continuar te amando até o ultimo segundo da minha vida? Por favor?” Dessa vez os soluços aparecem, meu corpo treme enquanto eu me encolho entre os móveis, eu só queria que o mundo acabasse, exatamente agora, eu queria poder não sentir mais essa dor, nem esse vazio, queria que ele estivesse aqui comigo ou que eu estivesse em qualquer outro lugar com ele, do mesmo jeito que pra ele seria insuportável viver sem mim, meus dias são assim sem ele, tudo que eu queria era poder continuar amando e sendo amada por ele, por que nada me fazia tão completa quanto estar ao lado dele, olhar teu sorriso, sentir seu cheiro, ouvir a risada que ele dava sempre que eu dizia algo engraçado e mesmo que não fosse tão engraçado ele ria assim mesmo, eu sinto tanto a falta dele, tanto
.— Dani? – ouço meu pai me gritando e escuto os passos na escada, me levanto rapidamente e corro pro banheiro, tranco a porta e me apoio na pia tentando me controlar – Dani?
— Oi – é tudo que eu consigo dizer.
— Eu vou levar sua mãe no mercado, mas já voltamos – puxo o ar pra ter folego.
— Eu também já vou! Tenho que... encontrar a Lia – minto mas minha voz sai firme.
— Você vai demorar aí dentro?
— Um pouco!
— Então tranca a casa quando sair! Te amo.
— Te amo também – solto o ar e me encaro no espelho, os olhos borrados, a cara inchada e vermelha, lavo meu rosto, tiro toda maquiagem, prendo o cabelo e só quando ouço o carro saindo da garagem que saio do banheiro, jogo todo conteúdo da caixa dentro da minha bolsa, desço as escadas, tranco tudo e saio da casa, prefiro caminhar e pego o caminho mais longo e é então que vejo o bar, o mesmo bar que Felipe contava os dias pra ter 18 anos e poder entrar, lembro que no dia do aniversário dele, como ele era 4 meses mais velho que eu, eu disse que ele podia ir sem mim, mas ele não aceitou, contou cada segundo e no dia do meu aniversario, a meia noite exata, ele me trouxe pra cá e o que foi mais engraçado é que ele descobriu nesse dia que a tal ‘’tequila’’ que ele sempre quis experimentar tinha um gosto horrível, lembro que nós rimos por quase uma hora dessa decepção e isso foi um ano antes de eu perder ele.
Entro no bar e ando até o balcão, o lugar é bonito, rustico, todo em madeira talhadas, parecendo uma cabana antiga, já tem alguns grupos de amigos aqui, peço uma garrafa da mesma tequila que tomamos no dia, pago e vou pra mesa mais escondida que tem, assim que dou o primeiro gole me lembro de todas as risadas daquele dia, mas dessa vez ao invés de rir, eu choro, abro as cartas e a cada frase tudo se torna ainda mais difícil, eu as guardo na bolsa de novo, continuo bebendo e sinto minha mente ainda mais confusa, me lembro da Lia falando sobre eu querer estar viva, mas ela está errada, é exatamente o contrário, eu só queria que tudo isso acabasse, só queria não sentir mais nada, não importa o que tenha acontecido, eu sou dele e é assim que deve ser, eu não posso aceitar o que a Lia me disse por que simplesmente não é possível, eu não posso amar mais ninguém como eu amei e ainda amo o Felipe, assim como ele me prometeu, eu também prometi a ele que o amaria até ultimo segundo, não existe outra opção, eu só queria que não doesse tanto, por que as vezes é tão insuportável que sinto que não vou aguentar.
— Você precisa de ajuda? – um homem me pergunta, tento olhar pro seu rosto, mas está tudo turvo, mesmo assim eu nego – Mas menina, você precisa se acalmar – ele pede e só então percebo como estou tremendo.
— Eu... Tô bem – minha voz também treme, eu tento enxugar as lagrimas mas elas são muitas, então ele me estica um pano, eu aceito e enxugo meu rosto.
— Tem certeza que não precisa de nada? – concordo com a cabeça e tento me levantar, tropeço no ar e ele me ajuda a me equilibrar – Quer que eu chame alguém? – ele pergunta e eu tento abrir minha bolsa, ele me ajuda e eu pego meu celular.
— Eu tô bem – falo o mais firme que consigo, ele concorda – O banheiro? – ele me aponta um pequeno corredor atrás de mim, respiro fundo e me apoiando na parede me levantando, minha cabeça gira várias e várias voltas, respiro fundo e vou até o banheiro, está desocupado, entro e passo o trinco, me olho no espelho e está ainda mais turvo, meu equilíbrio está totalmente comprometido, me apoio na pia e meus dedos levam um bom tempo até conseguir achar o numero, no segundo toque ele atende, tem um barulho alto ao fundo ou talvez seja minha imaginação.
— Dani? – ele grita e parece estar rindo.
— Vinny! – assim que falo o nome dele volto a chorar, um choro alto e engasgado, ouço ele falar alguma coisa mas não consigo entender, meus olhos estão pesando, minha cabeça girando, ainda ouço a voz dele mas nada faz sentindo, meu celular escorrega da minha mão e cai no chão, escorrego tentando alcançar ele até também estar caída no chão, consigo recuperar o celular e então ele começa a tocar na minha mão, levo uns segundos até conseguir atender.
— O que tá acontecendo? – eu não consigo parar de chorar.
— Vinny, eu...eu...não...
— Onde você tá?
— No banheiro! Eu cai – eu olho meu joelhos que estão ardendo.
— Dani, presta atenção em mim... Onde é esse banheiro?
— BlueTrue – eu jogo a cabeça pra trás tentando me manter acordada, mesmo assim meus olhos insistem em se fechar.
Eu vejo Lipe. Ele está rindo por que eu não consigo virar o copo com a tequila, ele ri tanto que começa a chorar. Eu estou chorando. O carro está quebrado. Tem muita fumaça. De todos os lados. Tem sangue. Muito sangue. Eu grito por ele. Ele aparece sem camisa com o short vermelho que ele sempre usa pra jogar futebol, ele espirra a água da garrafa em mim. Eu brigo com ele. Ele me beija. Eu fechos os olhos e os abro. Não reconheço o lugar.— DANI! – ouço uma voz me gritando, longe e urgente – Abre essa porta – o barulho agora parece dentro da minha cabeça, são pancadas fortes e insistentes e então a porta se abre, ele entra e se vira pra mim, mas não é o Lipe.
— Vinny! – chamo assim que o vejo, os soluços retornam e meu choro continua, ele se abaixa, me pega no colo e eu passo meu braço pelo pescoço dele por que tudo está girando muito rápido, eu choro com o rosto encaixado em seu ombro.
— Engole esse choro! – ele fala com a voz séria e com raiva – Engole esse choro por que eu tô te odiando agora – quando o ouço dizer isso desisto de tentar lutar com a tontura, meu corpo continua tremendo e eu sinto muito frio, como se estivesse dentro de um balde de gelo, sou colocada em algum lugar macio, está mais quente só que não consigo enxergar as coisas nitidamente – NÃO! Não abaixa a cabeça – ele fala ainda com a voz estranha, arrastada e longa, esse não é o Vinny, não pode ser, ele não fala assim.
— Quem é você? – pergunto enquanto a mão me mantem encostada e com a cabeça reta, tento empurrar a mão e me afastar mas os giros começam a acontecer ainda mais forte então alguma coisa me prende e eu junto minhas pernas ao corpo tentando me proteger.
— Eu disse pra não abaixar a cabeça – a voz é distante e quando tento abrir os olhos uma luz muito forte me faz fechar de novo.
— ACORDA! – a voz é alta e faz minha cabeça latejar tão forte que acho que vai explodir – Acorda! – sinto um frio nas minhas pernas e abro os olhos, estreito os olhos e vejo Vinny, olho ao redor e estou no meu quarto, mas antes que eu diga alguma coisa meu estomago se retorce e eu quase me arrasto até o banheiro, levanto a tampa do vaso e coloco tudo pra fora, Vinny segura meus cabelos acima da cabeça e eu vomito mais uma vez, quando acabo me arrasto no chão para longe do vaso, apoio minha cabeça nos joelhos e respiro fundo – Era isso que você queria? Satisfeita? – ele pergunta e eu levanto meu rosto pra olhar pra ele – Que tipo de ideia imbecil passou na sua cabeça? – não respondo – EU TÔ FALANDO COM VOCÊ – ele grita e eu nunca o vi gritando assim comigo, meus olhos se enchem de lagrima – NÃO! Você não vai chorar de novo – ele aponta pra mim – Você tem noção de como me deixou ontem? De como eu levei um susto preocupado com você?
— Desculpa!
— Desculpa porra nenhuma! – ele parece realmente com raiva – Por que quando eu te perguntei se estava tudo bem você disse que estava? Você mentiu pra mim! Você não confia em mim? – ele pergunta irritado, eu nego com lagrimas escorrendo – Então por que mentiu? – eu abaixo a cabeça, encostando-a no joelho e apertando as mãos nela – Droga, Dani! Eu te amo! Eu te amo pra caralho, mas não me pede pra ver você assim, por que isso eu não posso fazer – ele se abaixa na minha frente e me faz olhar pra ele – Eu amo muito você pra te ver nesse estado... Não faz isso comigo, não faz isso com você... Eu sei que é horrível, sei que nem sempre eu sou suficiente pra você, mas eu tô aqui e sempre vou estar – dessa vez quando eu começo a chorar, ele vem até a mim e me abraça, ele acaricia minha cabeça e me balança no seu colo – É horrível, mas ele está morto! Ele se foi Dani, pra sempre, acabou. Mas você não, você está aqui, tá viva, tem a mim, tem pessoas que te amam e tem o resto da sua vida... Eu nunca menti pra você, então acredita em mim quando eu digo que não existe ninguém no mundo que merece ser feliz mais do que você.
— Você merece – ele me força um sorriso e beija minha testa.
— Eu sou feliz quando você está feliz – ele volta a me abraçar – Não faz mais isso! Por favor... Você não tem noção do medo que eu tive de te perder – ele pede e dessa vez eu me viro pra olhar pra ele.
— Desculpa! – eu peço sinceramente e ele nega.
— Não, eu não desculpo... Mas eu continuo te amando – eu encosto minha cabeça no peito dele – Promete que não faz mais isso?
— Prometo – ele me deixa ficar abraçada nele.
— Eu amo você e você nunca vai estar sozinha, nem se você se esforçar muito pra isso – ele garante e beija minha cabeça, me aninho no seus braços e me deixo ser amparada.
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