Meu celular toca. É o Vítor. Me lembro da promessa que fiz pro Vinny e atendo com o máximo de animação que consigo e então converso com ele até o sono aparecer.

Quando saio do quarto no dia seguinte já estou arrumada para o trabalho, o café está pronto mas não tem nem sombra do Vinny e do Rafael, por isso saio de casa mais rápido.

Chego no prédio e vejo a porta do elevador abrindo, dou uma corrida até ele e chego junto com a Milena na porta, eu sorrio mas ela não, estranho mas entramos juntas.

— Bom dia! — tento soar animada, porém não tanto, afinal é 8 horas da manhã de uma segunda feira.

— Bom dia — ao contrário de mim ela nem tenta parecer empolgada.

Depois a mal humorada sou eu.

— E aí, animada com o Festival? A gente deve fazer as reservas na próxima semana — ela me encara como se eu tivesse acabado de chamar ela pra matar e enterrar alguém.

— Ele não te contou?

— Contou o quê? — ela solta uma risadinha.

— É claro que não contou...

— Contou o quê? — repito começando a me irritar com esse jeitinho arrogante dela, então ela me libera um daqueles olhares mortais.

— A gente terminou! — o choque da notícia deve estar estampado no meu rosto e eu nem consigo dizer nada antes da porta do elevador se abrir de novo e ela sair batendo os saltos de um jeito meio forte demais. A porta se fecha e eu ainda estou absorvendo a notícia. Quando chego na minha mesa ele já está mexendo no computador dele, jogo minha bolsa na minha cadeira e vou até a mesa ao lado.

— Quando você ia me contar? — ele nem levanta os olhos da tela, apenas dá de ombros.

— Eu não sabia que tinha que te contar sobre tudo que acontece na minha vida — as palavras são secas e sinto como se tivesse levado um tapa, em outra ocasião eu teria retrucado e discutido com ele, mas ao invés disso, apenas engulo qualquer comentário e volto pra minha mesa.

Não nos falamos o resto do dia e na hora de ir embora ele sai na frente, quando chego no apartamento ele já está saindo pra ir pra academia, mas paro na frente da porta.

— Eu quero falar com você!

— Eu não quero falar com você — ele devolve simples assim e pega a chave dele que estava no móvel ao lado da porta, mas continuo parada de braços cruzados — Eu disse que não quero falar com você...

— Ok, então só escuta — ele balança a cabeça como se dissesse que é uma má ideia, mas não me importo — Olha só, você sabe o que quer dizer a palavra "amizade"? Quer dizer que quando nós temos um problema nós resolvemos conversando e não bancando o otário — ele dá um risinho meio debochado.

— Sério? Achei que resolvêssemos ignorando as mensagens do outro...

— O quê? Você tá com raiva de mim por causa disso? Por que não respondi as mensagens? — ele desvia os olhos de mim pra qualquer coisa atrás de mim, mesmo que só tenha a porta — Rafael! — quando o chamo pelo nome ele me olha contrariado — É por isso?

— Eu te mandei sei lá, umas 10 mensagens e você não respondeu nenhuma... Nem uma...

— Eu ia responder, mas aí o Vitor apare...

— Que se dane o Vitor! Eu mandei a mensagem pra você e não pra ele

— Eu sei, mas você queria o quê? Eu estava num encontro, você queria que eu ficasse no celular com você?

— Esquece! Faz o que você quiser, eu não vou perder meu horário na academia por causa disso — ele tenta alcançar a porta, mas eu impeço.

— A gente vai conversar, você querendo ou não — puxo ele pela camisa e saio arrastando-o comigo até o meio da sala — Agora vai, fala... Bota tudo pra fora... O que te irritou tanto? — ele me olha sem acreditar no que estou fazendo — A gente não sai daqui até você falar... – sinto-o respirando fundo e me preparo pra uma longa discussão.

— Você que foi a otária! — ele fala realmente irritado e resolvo que não vou interromper até que ele tenha dito tudo, então apenas concordo e ele parece confuso com isso, mas logo volta a falar — Eu te mandei um monte de mensagem querendo saber se tava tudo bem e você viu, mas não respondeu nenhuma, daí você chega no meio da madrugada e ainda aparece no meu quarto, pra quê? Pra me contar do jantar perfeito ou pra rir da minha cara? Por que eu realmente fiquei preocupado e você não tava nem aí... E agora quer vim me cobrar amizade? Você não tem esse direito, não quando me fez ter uma noite de merda... — ele para de falar, sua respiração é forte como se estivesse numa luta e ele não parece mais calmo, mas quando esfrega o rosto e o cabelo sei que ele espera que eu fale algo.

— Eu não sabia que você tava preocupado, achei que você só estivesse sendo você, o que significa ser um grande pé no saco e implicante que ia ficar me perturbando o encontro inteiro...

— É engraçado como você tem a facilidade de sempre pensar o pior de mim — ele realmente parece magoado.

— Eu não disse isso no sentido ruim... E sim no sentido que eu pensei que você saberia o quanto eu estava nervosa e ficaria tentando me acalmar com suas piadinhas e implicâncias, só isso, foi sobre isso que eu achei que se tratava, por isso não respondi na hora — seus olhos suavizam um pouco — Eu tava num encontro com Vítor, ele é seu amigo, achei que você saberia que ele não ia deixar nada acontecer comigo...

— Não se trata disso!

— Se trata do quê então? — ele me olha por alguns segundos.

— Você só tinha que ter respondido...

— Me desculpa ok? Não achei que fosse realmente importante — tento ser o mais sincera possível, já que isso o deixou tão irritado, ele solta o ar e esfrega a mão na nuca.

— Eu sei que eu tô parecendo um louco, ok? É só que... Eu nunca senti isso... Eu só... Sou péssimo nessa coisa de me importar...

— Você não é tão ruim assim — dou de ombros — Eu diria que você passou raspando — ele me olha confuso.

— Por que você não tá gritando comigo?

— Algumas coisas só precisam de conversa e não de grito... Você me contou o que tava te chateando, eu escutei, reconheci meu erro e então ficamos de bem, certo? — estico a mão e ele aperta, libero um sorriso e ele me puxa pra um abraço, deixo meu rosto afundar no seu peito – E eu não fui no seu quarto pra rir da sua cara, nem pra contar da noite perfeita, eu fui por que eu precisava de um amigo — confesso e ele me aperta um pouco mais.

— Desculpa!

— Tudo bem, quando você precisou eu também não estava lá né? — levanto a cabeça pra olhar pra ele — Era isso que você queria me contar quando chegou no meu quarto aquela hora?

— Na verdade não... A gente só terminou depois que você saiu...

— Você que terminou? — ele dá de ombros.

— Você tava certa, eu não tinha direito de prender ela...

— Você não deveria escutar meus conselhos, eles são uma merda, eu nem sei o que tô fazendo da minha vida — ele segura minha cabeça com as duas mãos e me olha com um sorriso divertido.

— E alguém sabe? — acabo sorrindo e ele me puxa pra junto dele enquanto afunda o rosto no meu cabelo.

— Eu não quero que você perca o treino e depois reclame que seu bíceps tá diminuindo por culpa minha — ele ri e eu também.

— Meus bíceps estão ótimos — ele garante e então faz uma pose ridícula contraindo eles.

— Idiota — ele abre um sorriso divertido.

— Agora me conta, como foi o super encontro? — ignoro a ironia.

— Foi legal! Ele mesmo fez o jantar, a gente conversou bastante, escutamos música, vimos um filme — não sei por que mas evito a parte dos amassos que nós demos — A casa dele é incrível! Nunca tinha entrado em uma casa tão grande assim...

— Bom, alguns meses atrás se a gente se conhecesse eu teria te levado na casa do meu avô, aí sim você veria o que é uma casa incrível — reviro os olhos pra tentativa de superioridade dele.

— Em primeiro lugar eu não suporto seu avô, em segundo você era um babaca completo até meses atrás e só levaria uma garota pra lá se fosse pra transar com ela e eu não seria essa garota — ele ri e dá de ombros.

— Não custa nada sonhar...

— Agora me fala então o que você ia me contar naquele dia — seus olhos se enchem de expectativa e ansiedade.

— É uma coisa que eu venho trabalhando

— Isso sim é surpreendente — ele faz uma careta.

— Vem — ele me puxa pela mão e vamos até o quarto dele, ele me deixa parada perto da cama, vai até a mesa que tem na lateral do quarto e pega uns papéis — Em primeiro lugar, antes de você ficar com raiva, eu quero que você saiba que não te contei antes por que era só uma ideia meio boba, eu não pensei que daria certo, até eu acabar comentando com o Vinny e ele se animar, então não fica com raiva dele, eu que pedi pra ele não contar nada até estar tudo certo...

— Você pode só contar logo o que é... Tá me deixando nervosa... E irritada... — ele ri.

— Tá — ele me estica as folhas e eu pego, são desenhos, viro eles pro lado certo e então fico meio confusa, é o desenho do que parecer ser um trailer, eu passo as folhas e o que era só um trailer começa a ganhar forma, ele tem alguns desenhos, ainda não entendo muito bem, até o ultimo desenho, esse parece ter sido feito por um profissional, o trailer agora está colorido, com grafites pintados, a abertura maior no que antes era só uma janela virou um balcão e então o nome em cima com letras grandes, chamativas e meio desenhadas.

FOOD TRUCK DO RAFA

— AI MEU DEUS!!! — nem espero ele me confirmar, apenas me jogo nos braços dele, ele ri e me tira do chão — VOCÊ VAI TER UM FOOD TRUCK!!!

— Resolvi acreditar nos seus elogios, então espero que não seja exagero...

— Claro que não é! Você arrasa! Vai arrasar mais ainda... Eu não acredito que você não me contou — dou vários tapas nele e ele me coloca no chão, mas continua rindo — Você tinha que ter me falado...

— Ai — ele esfrega a mão no braço onde eu dei um tapa — Eu só queria contar quando tivesse certo... Agora tá!

— Tá? — ele abre um sorriso empolgado.

— Vai ficar pronto essa semana...

— Eu não acredito que o Vinny não me contou...

— Eu pedi pra não contar... Agora nós somos sócios... Ele entrou com a grana — sorrio sem conseguir ficar brava.

— Eu tô muito feliz por você... Ainda quero te dar uns tapas mas tô muito orgulhosa — ele abre os braços e eu me jogo de novo — Eu vou poder comer de graça — comemoro e ele ri.

— Eu quero que você vá comigo no dia que ficar pronto...

— Você realmente achou que eu não fosse? Você já me excluiu demais, agora eu quero participar de tudo...

— Eu não te exclui, só não ia me sentir bem se desse errado...

— Esquece, o que importa é que você finalmente tá seguindo o que você quer e não o que seu avô queria... Isso é tão incrível, eu fico muito feliz por você...

— Isso é graças a você — eu nego — É sim — ele passa a mão pelo meu cabelo — Se você não tivesse gritado comigo naquele dia lá na cachoeira e todos os outros dias depois daquilo, eu já teria voltado e continuaria sendo o robô que ele queria...

— Mas não voltou! Olha só pra você agora... Começando seu próprio negócio e eu tenho certeza que vai ser o food truck mais famoso da cidade — ele ri — Mas eu já aviso logo não vou entrar na fila, eu quero atendimento VIP...

— Você sempre vai ser VIP! SEMPRE! — ele segura meu rosto e sorri, então me lembro de outra coisa.

— Você vai sair do escritório?

— E perder a chance de ficar sentado do seu lado o dia inteiro? Ahhh nem pensar... Eu só vou ficar no food fim de semana e ainda vou precisar do dinheiro extra do escritório, então não precisa ficar triste...

— Eu ainda não acredito — falo olhando pras folhas de novo e abro um sorriso orgulhoso — Você tá ficando responsável! E agora? Do que eu vou reclamar?

— Relaxa, eu encontro alguma coisa — ele ri, pega os papéis da minha mão e coloca na mesa de novo — Agora só falta você me ouvir e fazer o vestibular...

— Ah não, não, ainda não tô preparada pra sua fase tão responsável assim a ponto de me dá conselhos — ele ri, me aperta nos braços dele e saí me carregando pra fora do quarto.

— Vamos comemorar então – assim que alcançamos a sala a porta se abre.

— Seu filho da mãe, você não me contou nada – tento parecer brava com ele, mas Rafa continua me apertando e isso me faz rir.

— Eu sou só o cara da grana – Vinny levanta as mãos em inocência.

— Você tinha que ter falado – ele faz uma careta.

— Você já sabe, não sabe? Então, para de reclamar – essa é a minha vez de fazer careta e Rafa me solta.

— Achei que você fosse passar na Bianca...

— Tenho que encontrar o pessoal da banda. Reunião sobre o Festival, só preciso tomar um ducha e saio – ele me manda um beijo no ar e corre pro quarto.

— Falando nisso... – Rafa chama minha atenção enquanto abre a geladeira – Você e o Vítor vão ficar no mesmo quarto?

— QUÊ? Claro que não! – talvez o meu desespero na hora de responder tenha sido engraçado, por que ele abre um sorriso largo e levanta as mãos.

— Que tal você ser a primeira a experimentar uma das receitas do food? – eu esfrego as mãos ansiosa e ele começa a se organizar pela cozinha.

Vinte minutos depois estou sentada no sofá dando a segunda mordida exagerada no melhor hambúrguer do mundo. A carne recheada com cheddar combina perfeitamente com as cebolas roxas, o tomate, as fatias generosas de bacon, alface e um molho agridoce que me faz lamber os dedos.

— Eu me casaria com esse hambúrguer agora mesmo – fecho meus olhos sentindo o sabor e não me importo de parecer exagerada.

— E com o criador dele?

— Você não é tão gostoso assim – dispenso dando outra mordida.

— Você ainda não sabe...

— Ah sei sim... É impossível alguma coisa ser melhor que isso... – ele ri e me joga um pedaço de papel.

— Não fala de boca cheia, é falta de educação – como resposta eu abro a boca mostrando o conteúdo dela, ele ri e faz uma careta – Nojenta – ele me olha de um jeito engraçado, mas está tão bom que deixo ele falando sozinho e só me importo em devorar cada pedaço do lanche.

Na segunda nós vamos para o escritório juntos, ele passa cada passo do caminho me enchendo o saco, assim como durante toda a manhã em que ele fica da mesa dele me perturbando e mesmo que eu tenha mandado ele me deixar em paz, confesso que senti falta disso.

Depois do almoço, ele é chamado pelo Dr. Leones, demora quase 40 minutos e ele sai empolgado, vem até minha mesa e pega minha agenda e meu caderno de anotações.

— Você vem comigo.

— Pra onde? Eu tô trabalhando...

— Eu sei e você vai trabalhar comigo agora.

— Eu não trabalho pra você!

— Eu disse COMIGO e não PARA MIM... Meu Deus, será que você tem que problematizar tudo que eu falo? – ele tenta parecer irritado, mas vejo a sombra do sorriso dele e me levanto.

— E o que nós vamos fazer?

— Dr Leones tem uma reunião importante agora...

— Eu sei, eu que marquei – ele me encara.

— Você é um saco as vezes, sabia? — dou de ombros – Enfim, ele não pode desmarcar, mas o pessoal da livraria ligou e parece que receberam um acordo, nós temos que ir lá, ver o que é, passar por Dr. Leones e tentar não deixar eles pirarem, simples assim...

— Mas você nem é advogado, nem eu...

— A gente não vai assinar nada, é só ver o terreno, relaxa...

— Tá – como é simples não ligo muito, saímos do prédio e vamos até lá, a livraria fica a apenas um quarteirão de distância, enquanto isso dou uma olhada nos papéis que ele segurava, é um resumo do caso.

Basicamente a livraria perdeu muito dinheiro quando a editora mandou pedidos errados, em números muito menores do que eles pediram para uma exposição, depois disso, não acertavam o pedido, nem se pronunciaram e quando fizeram isso 2 meses depois, os livros que chegaram estavam com erro de edição, o que causou muitas reclamações, devoluções e prejuízos pra livraria, eles tentaram resolver entre eles, mas nada deu certo, até agora, quando entraram com o processo.

Realmente vai ser fácil, é praticamente uma causa ganha.

A mulher de no máximo uns 30 anos já estava nos esperando ao lado da sua assistente, uma garota mais nova e razoavelmente bonita, ignoro o olhar que ela dá pro Rafael e tento não revirar os olhos, somos levados para o escritório e assim como eu previ o acordo é num valor mínimo, cobrindo apenas o gasto que a livraria teve na devolução dos livros, eu já estava a ponto de rir da oferta quando Rafael fala.

— Aceitem! – eu o olho esperando ele começar a rir e dizer que é brincadeira, mas ao invés disso ele dá de ombros – Parece razoável, vocês cobrem os gastos e evitam toda essa enrolação do processo – eu seguro o braço dele e o olho indicando que precisamos conversar, mas ele me ignora – Eu digo que aceitem, já é melhor que nada, né Daniela? – eu tento todas as expressões faciais que consigo pra indicar que tem algo errado, mas ele parece não entender, a mulher está me olhando esperando uma resposta e eu não posso simplesmente concordar com ele, por que é loucura, nós ganharíamos de olhos fechados, até eu que não sou formada, então tomo coragem e falo o que penso.

— Sinceramente... Seria um erro aceitar isso. Não faz sentido nenhum recuar agora, nós estamos com uma vantagem muito grande em cima deles, temos tudo arquivado, cada prejuízo, não apenas os da devolução dos livros, mas podemos entrar com danos morais, pela imagem de livraria, pelas desistências, por qualquer dano ou imagem negativa que isso trouxe, nós podemos ganhar de diferentes maneiras... Basta pensar no por que eles ofereceram esse acordo justo agora... Vocês realmente acham que se eles tivessem o mínimo de confiança que ganhariam eles iriam oferecer um acordo? É claro que não! Olha, eu entendo que romper com uma editora importante pode prejudicar um pouco algum lado do negócio e que isso requer um bom plano, mas vocês escolheram o melhor lado, nós somos o escritório com maior índice de causas ganhas da cidade... Então vocês não precisam ter medo de perder ou de como vai ficar a situação de vocês, por que depois que eles perderem, são eles quem vão se arrepender... Agora, se vocês desistirem e aceitarem essa oferta então eu posso garantir que vocês que vão se arrepender. Confia em mim, já pegamos causas piores e ganhamos, você não precisa se preocupar...

Depois do meu desabafo Rafael não fala nada e a mulher sorri encorajada, pede que eu marque uma reunião com Dr Leones pra manter o processo e eu saio do escritório orgulhosa de mim mesma, mas ao mesmo tempo irritada com Rafael, mas espero estarmos na rua pra falar algo.

— Sério? Aceitar o acordo? Você só pode tá brincando né? – ele sorri.

— Você viu o que aconteceu lá dentro?

— O quê? Você com a cabeça na sua nova paquerinha e quase jogando um caso ganho pela janela? – ele parece confuso, mas balança a cabeça como se não tivesse importância.

— Não, eu tava falando sobre você bancando a advogada do diabo – só quando olho pro sorriso vitorioso dele que entendo.

— Você fez de propósito – ele sorri ainda mais quando eu falo – Ah seu filho da mãe... Eu achei que você tivesse surtado ou que estivesse tão concentrado naquelazinha que se distraiu...

— Eu não tava olhando pra mais ninguém além de você naquela sala...

— Aham!

— É sério, você tava incrível... Eu sabia que você ia acabar tomando a frente, só não imaginei que fosse parecer tão poderosa...

— Deixa de ser ridículo, não foi nada – ele passa os braços ao meu redor me apertando e me fazendo rir.

— Confessa, você adorou aquilo, eu vi você, vi seus olhos brilhando conforme falava, sua postura mudou, eu senti que você poderia fazer tudo e sei que você também sentiu isso, não sentiu? – como não posso negar, apenas dou uma cotovelada na barriga dele – Imagina só se você estivesse formada... Uma advogada pra valer, podendo botar todo esse seu mau humor e arrogância pra fora – faço uma cara de ofendida.

— Eu não sou arrogante!

— É sim, mas eu adoro isso, é parte do seu charme – ele me aperta de novo e como não posso negar me limito a acertar outra cotovelada na barriga dele, mesmo assim ele não me solta e sorri ainda mais.

— Você é tão idiota, mas tão idiota, mas tão idiota que...

— Você se apaixonou por mim? — ele faz uma cara ridícula, piscando os olhos varias vezes.

— Você não tem tanta sorte assim — ele ri e beija minha cabeça.

— Um homem ainda pode ter sonhos, não pode?

— Dani?! — a voz conhecida me faz virar rápido demais, Vitor está na mesma calçada que nós segurando um copo de café da Starbucks, Rafael também para, mas não libera o braço de trás do meu pescoço, apenas vira o corpo junto com o meu.

— Vítor — ele sorri e vem até nós, eu tento pensar no jeito certo de cumprimentar ele, mas o fato do Rafa não me soltar deixa tudo ainda mais complicado de se decidir e antes que eu pudesse pensar entre aperto de mão ou um abraço, ele me dá um beijo rápido nos lábios, o braço que estava ao meu redor me solta quase que como se eu tivesse uma doença contagiosa.

— Eu tava pensando em você agora mesmo, tenho um convite pra fazer — ele confessa e eu sorrio — Aliás pra vocês dois — ele olha pro Rafa.

— Eu não vou num jantar romântico com você — Rafa fala e eu acerto outra cotovelada.

— É uma festa! Sábado agora... De 10 anos da revista, eu não posso deixar de ir, mas geralmente é um tédio, mas tem boa comida e bebida...

— Você me convenceu no boa comida— ele ri.

— Se ela vai eu vou...

— Você não nasceu grudado comigo — ele dá um puxão no meu cabelo e eu dou um tapa na mão dele.

— Eu não vou deixar você sair pra uma festa sozinha

— Eu busco ela — Vitor fala com um sorriso divertido.

— Eu posso levar já que vamos pro mesmo lugar...

— Ah eu faço questão, acho que você entende por quê — ele me olha e sorri meio bobo antes de me dá outro beijo rápido nos lábios.

— Que seja! Eu já vou indo pro escritório, vê se não demora, não vou atender seu telefone — ele avisa, acena um adeus pro Vitor e segue o caminho.

— Eu pensei em chamar o restante do pessoal também...

— Eles vão adorar.

— Na verdade eu tive uma outra ideia... Sempre tem pequenos shows e DJs, pensei em falar com o Vinny e a banda aparecer por lá, o que você acha? Só não posso garantir um cachê muito alto — abro um sorriso animado.

— Acho que deve ter alguma coisa nesse café pra você ter ideias tão boas assim — ele ri, então me puxa pela cintura e me dá um beijo de verdade dessa vez.

— Eu tenho que ir pra uma reunião agora, mas com certeza meu dia ficou muito melhor — ele me rouba outro beijo.

— Fico feliz por ter ajudado

— Ajudado? Você que fez o dia ficar bom — reviro os olhos, mas sorrio.

— Boa reunião...

— Bom trabalho — nos despedimos com um beijo e vamos para lados opostos.

Entro no prédio e dou de cara com a Milena na recepção, ela tenta me ignorar, mas me aproximo dela na fila do elevador.

— Boa tarde — ela me lança um olhar meio irritado.

— Boa tarde — sua voz sai meio forçada.

— Olha, eu sei que você tá chateada por causa do lance com o Rafa, mas eu só queria dizer que eu sinto muito, a gente não precisa se odiar só por que eu sou amiga dele — ela solta uma risada meio irônica.

— E não é por que nós trabalhamos no mesmo prédio que eu preciso ser sua amiga, aliás, se você fizer o favor de nem falar comigo eu ficaria eternamente grata — eu ainda estou em choque pela atitude dela quando o elevador chega, ela entra apressada e aperta o botão então a porta simplesmente se fecha sem ela fazer um único movimento pra me esperar entrar.

— Filha da... — seguro o palavrão quando um homem de terno para ao meu lado.

Demora quase uns 5 minutos até o elevador descer de novo e eu entro quase explodindo de ódio.

— Sua ex namorada é uma babaca! — me jogo na minha cadeira ainda com a raiva engasgada.

— O que aconteceu?

— Eu fui falar com ela... Pro caso de ter ficado algum clima ruim, sei lá... E ela basicamente mandou eu me ferrar, disse que se eu não falasse mais com ela era um favor que eu fazia... Ahhh e ela entrou no elevador e fechou ele, ela não me esperou entrar e eu tava na fila... Ela é uma vaca!

— Ela me odeia, não é nada com você...

— Mas fui eu quem ficou lá que nem uma idiota...

— Pra ser justo, você é meio idiota as vezes – mostro o dedo do meio e me jogo na minha cadeira.

— Você oficialmente fez a melhor coisa da vida quando deu um pé na bunda dela...

— Não precisa ficar assim, eu vou falar com ela...

— Não precisa, agora eu que não quero você perto dela... — ele abre um sorriso divertido e empurra a cadeira até bater na minha.

— Você fica linda toda brava...

— Não me faça querer dar na sua cara também — ele ri mais ainda, então o telefone toca e eu o empurro de volta pra mesa dele antes de atender.

Quando desligo eu conto pra ele da ideia do Vítor de convidar a banda do Vinny e ele acha que realmente vai ser muito bom pra eles, já que esse tipo de evento tem um público mais influente e tal, então me dou conta de outra coisa.

— Eu não tenho roupa — falo já em desespero e ele revira os olhos voltando a olhar a tela do computador, pego meu celular e mando uma mensagem pra Lia contando do convite e do meu drama, ela responde quase que imediatamente.

"isso sim é uma emergência. COMPRAS NA SABADO saímos bem cedo, nem reclama"

Dou um sorriso aliviado por que ela sempre sabe o que fazer, então volto ao trabalho.

No sábado eu acordo as 7 horas da manhã com a Lia no meu quarto dizendo que se eu não acordar em 15 minutos ela sai as compras sozinha, mesmo sabendo que ela não teria coragem de fazer isso, saio da cama e me arrasto até o banheiro, depois de um banho gelado, eu me desperto o suficiente pra me lembrar que provavelmente ela vai me fazer andar o dia inteiro e só de imaginar isso já estou cansada, mesmo assim faço uma cara animada quando ela volta no meu quarto pra me chamar, no que ela garante ser a ultima vez.

Saímos do apartamento as 8 horas da manhã e ela já está lamentando ter perdido tanto tempo, mas quando chegamos as lojas seu mau humor desaparece enquanto ela olha cada vitrine e como eu tinha previsto, ela me faz andar praticamente o dia inteiro e experimentar pelo menos uma centena de vestidos, nunca ficando satisfeita com nenhum, sempre falta algo, ou mais cor ou tem cor demais ou está simples ou vulgar ou mais qualquer outra coisa que faz ela revirar os olhos e me apontar o provador de novo, por isso quando eu mostro um vestido que faz ela sorrir de orelha a orelha, eu apenas aceito sua escolha, mesmo achando ele meio exagerado, mas não arrisco dizer isso e acabar tendo que recomeçar toda a procura. Ela também encontrou o vestido perfeito na mesma loja que eu e então um pouco depois das duas da tarde eu me jogo no sofá do apartamento enquanto Rafa que está sentado na outra ponta me olha de um jeito engraçado.

— Você parece péssima. Tem certeza que vai aguentar sair hoje a noite? — tento acertar um tapa nele, mas estou tão cansada que não me esforço muito e não chego nem perto de encostar nele, ele ri.

— Ela me fez andar até agora. Eu não sei nem se ainda sinto minhas pernas, sem falar que eu tive que tirar e botar a roupa umas... Um milhão de vezes...

— Isso eu queria ter visto — olho pra ele e está com aquele sorrisinho provocante, dessa vez me inclino e lhe acerto o tapa no braço, mas quando ele segura minha mão e me puxa acabo caindo deitada, ele ri e eu acabo com a cabeça na perna dele.

— Você é um... — espero ele completar, ele abre um sorriso me olhando, mas não diz — Você sabe o que é...

— Eu gosto quando você diz — reviro os olhos e não apenas pra satisfazê-lo, mas por que realmente quero dizer, acabo completando.

— Idiota — o sorriso dele é o mesmo que o da Lia olhando aquelas vitrines.

— E o que você comprou? Depois de tanto sacrifício tem que ser um vestido e tanto — ele se inclina sobre mim pra pegar as sacolas do outro lado, mas eu o empurro e me sento antes de ser sufocada pelo corpo dele, seguro as sacolas e fico em pé.

— Você vai ver quando eu estiver pronta — dou de ombros e mando um beijo no ar antes de sair pro meu quarto, entro nele, jogo as sacolas de um lado da cama e me jogo no outro, penso em tomar um banho, mas fica apenas no pensamento mesmo por que quando abro os olhos já está escurecendo, procuro meu celular e tem mensagem da Lia perguntando se quero ajuda, respondo dizendo que está tudo sob controle, mesmo que eu ainda esteja deitada na cama, ainda são 18 horas e a festa só vai começar as 22 horas, mesmo assim tenho certeza que ela já deve estar deixando o Bruno louco enquanto começa a se arrumar, sorrio imaginando a cena e Bruno tentando manter ela calma, eu definitivamente não queria estar perto.

Pulo da cama e saio do quarto, vou até a cozinha, abro a porta da geladeira e fico encarando pensando no que quero, até que pego um danone de chocolate que não é meu mas que enche minha boca d'agua, puxo uma colher da gaveta e saio na direção dos quartos, ao invés de ir para o meu, vou pro do Rafa, a porta está aberta e eu entro assim como ele sempre faz no meu, ele está tão distraído mexendo no mural de fotos que nem me percebe, ele está só de calça jeans e fico parada apenas observando a forma em que seus músculos se movem, conforme levanta os braços a calça desce alguns centímetros, sua barriga e suas costas se tornam mais tensas e eu poderia facilmente passar um dia inteiro olhando isso, é esse pensamento que me faz parar e balançar a cabeça afastando qualquer ideia idiota semelhante a essa, então olho para o mural, as fotos que vi da última vez estão mais juntas e dividem lugar com novas fotos, uma delas é nossa, eu e ele em cima da cama elástica, no dia do aniversario dele, a foto não tem a qualidade das outras, mas é engraçada, nossas caretas me fazem rir e só então ele olha pra trás.

— Foi uma primeira festa e tanto — ele abre um sorriso e então o fecha.

— Esse danone é meu!

— Correção... Esse danone ERA seu — viro o potinho praticamente vazio, ele ainda tenta fazer uma cara de bravo mas nem de longe conseguiu — São ótimas fotos — aponto o mural e ele libera um sorriso enquanto volta a encarar o mural também — Parecem profissionais...

— É, a câmera ajuda — ele fala dando de ombros e pega a câmera de cima da mesinha, é uma daquelas profissionais mesmo e eu faço uma cara de impressionada.

— Eu nunca te vi com ela — ele dá de ombros novamente.

— Fotografar é um lance meu...

— Um hobbie secreto? — ele ri.

— Tipo isso...

— Bom, você leva jeito... Não basta ter uma câmera fodona, esse tipo de coisa... — me aproximo e aponto uma das minhas preferidas, é uma montanha que está parcialmente coberto de gelo, o sol está se pondo bem atrás dela e a mistura de cores e luzes que tem na foto faria qualquer um desejar estar lá naquele momento exato — Não é só bater uma foto...

— Foi no Peru, uns... 2 anos atrás — ele relembra e eu sorrio.

— Perfeito. Agora eu preciso conhecer esse lugar...

— Nós podemos sair agora — ele sugere e eu solto uma risada.

— Agora nós temos uma festa pra ir — dou as costas para o mural e olho pra ele.

— É, então... Eu acho que não vou...

— QUÊ? POR QUE NÃO? — minha voz sai quase desesperada, mas não me importo.

— Não to muito animado...

— Você tem que ir

— Na verdade não tenho não... Você sim, é a festa do seu namorado...

— Ele não é meu namorado — falo rápido e meio que irritada.

— Não é por que você não tá pronta pra usar esse título que ele não seja isso pra você — eu o encaro sem acreditar no que ele acabou de dizer.

— Ele NÃO É meu namorado — ele levanta as mãos.

— Ok! Ele não é!

— E você vai a essa festa!

— Não vou.

— Rafa, eu preciso de você lá, não quero ficar com cara de idiota ou segurando vela dos outros...

— Então eu posso ser o vela? Por que não sei se você fez as contas, mas vai tá todo mundo de casal, inclusive você — reviro os olhos.

— Eu arranjo uma colega pra você, eu prometo, ligo agora pra alguém...

— Eu não quero ir com ninguém – ele parece meio irritado.

— Eu tenho certeza que vai ter alguma solteira na festa ou talvez até alguma namorando... Isso nunca foi problema mesmo...

— Eu não sou mais assim!

— Esqueci que você tá tentando achar a pessoa certa...

— Eu só não quero ir, não acho que eu vou me divertir...

— Qual é, eu vou estar lá, vai ser super divertido — faço uma cara de animada, sacudindo os ombros dele.

— Mas você é um dos motivos pra eu não ir — tento fazer uma cara de ofendida, mas tenho outra ideia.

— Ela pode estar lá

— Quem?

— A mulher da sua vida, ue! A sua "pessoa certa", a futura senhora Rafael, aquela que vai te botar na linha e te domar, a que vai fazer você suspirar e dar saltinhos de alegria, a sua the one, a dona do guarda chuva amarelo, sua Lilly Aldrin... — ele dá uma risada, mas nega.

— As referências foram ótimas, mas... – ele respira fundo e me olha meio confuso – As vezes eu te acho extremamente inteligente e as vezes você é mais burra que uma porta...

— Ei, não precisa ofender... Eu tô tentando ajudar — falo cruzando os braços, mas quando ele balança a cabeça e se afasta eu vou até ele e assim como as vezes ele faz comigo eu o abraço por trás, preciso de quase toda abertura dos meu braços pra envolver ele mas consigo, ele parece tenso, talvez surpreso demais, mesmo assim não recuo, encosto minha cabeça nas costas nua dele e posso ouvir seu coração e sua respiração, os dois estão acelerados, provavelmente por que ele está irritado e quer me mandar a merda, então não enrolo muito e vou direto ao ponto — O Vinny vai tá entre a banda e a Bianca, a Lia com o Bruno... Se você não tiver lá, eu vou me sentir um peixe fora d'agua...

— Tenho certeza que o Vitor não vai te deixar sozinha — respiro fundo e penso em dizer a ele que é exatamente isso que vai me deixar perdida, que é exatamente por que o Vitor vai estar lá que eu sinto meu estomago se contorcer, não de um jeito bom, mas de um jeito que me deixa meio enjoada, não que o Vítor seja ruim, ele é maravilhoso, um cara incrível e eu realmente gosto dele, mas parece que a cada segundo que passa as coisas entre nós dois parecem exigir mais certeza e eu não tenho nenhuma e isso me deixa apavorada, mas isso não acontece quando ele está perto, quando o Rafa está por perto parece menos tenso, mais leve, mais suportável, ele sempre sabe a coisa certa a dizer que faz meu pânico diminuir ou apenas desaparecer, mesmo que seja pra ser substituído por uma vontade imensa de dar na cara dele, ainda assim ele consegue, mas as palavras não saem e eu me sinto estranha de pensar desse jeito, então eu o solto.

— Ok — me afasto e já estava saindo do quarto.

— Eu vou! — me viro rápido pra olhar pra ele e ele revira os olhos — Eu disse que ia ser seu padrinho mágico né? — sem me preocupar em parecer exagerada demais, eu volto os passos rápido e o abraço, ele não demora nem um segundo e me abraça forte.

— Obrigada!

— Agora vai se arrumar por que se você tiver com essa aparência eu nem chego perto de você nessa festa — eu acabo rindo e corro pro quarto mais animada, entro no banheiro e tomo banho, visto o roupão e depois de umas dez tentativas fracassadas de tentar algum penteado decente eu desisto, me jogo na cama e penso no escândalo que a Lia vai fazer se eu aparecer com um rabo de cavalo simples, afundo minha cara no travesseiro e então sei exatamente o que fazer, puxo meu celular, disco o número e ela atende.

— Mãe, preciso de ajuda!

Menos de vinte minutos depois eu estou abrindo a porta pra ela que entra trazendo uma mala de rodinhas, realmente uma mala, não é aquela grande, mas aquelas que ainda podem entrar com você no avião, ainda assim é uma mala.

— Eu não sabia o que você teria ou não, então resolvi trazer tudo que posso precisar — ao invés de reclamar acabo rindo e nós vamos pro meu quarto, ela pede pra ver o vestido antes e eu pego cabide onde ele já está pendurado, assim como a Lia o sorriso dela vai de um canto ao outro. Eu ainda acho exagerado, mas novamente não digo nada. Minha mãe não para de falar um minuto que seja, ela está tão empolgada que as vezes eu penso que é ela quem está indo para uma festa e não eu, por que com certeza ela está muito mais animada e a cada minuto que se passa eu fico ainda mais nervosa, eu nem sei ao certo o motivo de todo nervosismo, quer dizer, já saí com o Vitor outras vezes, já fui até num jantar romântico na casa dele e ainda assim eu sinto como se pudesse pular da janela a qualquer segundo, minha mãe não percebe e se percebe finge que não e continua mexendo no meu cabelo, jogando o ar quente do secador na minha cara, pegando coisas e mais coisas da mala que nunca parece ter fim e depois me fazendo fechar os olhos, abrir, fazer bico, olhar pra cima, pra baixo, virar a cabeça de todos os ângulos possíveis e eu tento fazer tudo sem reclamar, até que o que pareceu ser muitas horas depois ela me dá um tapinha nas costas.

— Perfeita! — ela me olha sorrindo orgulhosa como se tivesse acabado de olhar para sua obra prima, eu ando até o espelho e o que eu encontro é uma versão de alguma mulher linda, sexy e de tirar o fôlego, alguém muito diferente daquela garota que se enfia em jeans e moletom, alguém muito diferente de mim, mas ao mesmo tempo uma versão que eu não consigo desviar os olhos, eu achava o vestido exagerado, agora vendo-o junto com todo o resto da produção que minha mãe fez ele parece perfeito.

Ele é a mistura de um marrom claro com dourado, seu tecido é fino e desliza na pele, mas é todo forrado com brilho, nada muito escandaloso, mas lembra as escamas da cauda de uma sereia, é como se eu tivesse sido mergulhada em pote de ouro, as alças não são muito grossas mas nem muito finas, o decote dele deixa meus seios mais juntos e parecendo bem maiores, ele tem um rasgo na lateral que sobe até o meio da minha coxa, ele cobre os meus pés, porém quando me movo a sandália de salto agulha e tiras finas dourada aparece, meu cabelo está preso em um coque minimamente pensado, deixando apenas alguns fios estratégicos escaparem dele, os brincos são longos e quase tocam meu ombro, a maquiagem ressalta mais os meus olhos, deixando-os perfeitamente delineado, marcados com o lápis e os fazendo parecer ainda mais castanhos do que alguma outra vez, uma dose de blush exata apenas pra realçar minha pele e um batom discreto mas bem desenhado na minha boca.

Já estou me encarando a quase 10 minutos e ainda não sei o que dizer, é como ver uma outra pessoa incrivelmente melhor do que eu.

— Fala alguma coisa... — mamãe quase me sacode, desvio os olhos do espelho pra ela.

— Parece outra pessoa — ela sorri.

— Essa é você, tão linda quanto você sempre foi... — volto a encarar o espelho.

— Tá tudo... Perfeito! Só... — eu penso em algo pra explicar o que eu estou sentindo, mas não acho que ela consiga entender sem se ofender ou me tentar me convencer que essa sou eu, quer dizer, eu sei que sou eu e eu realmente estou impressionada com o que ela conseguiu fazer, mas ao mesmo tempo, não se parece em nada comigo, essa mulher no espelho é perfeita demais, linda demais, delicada demais, impressionante demais e eu sou só... A Dani.

— Você está linda, eu tenho certeza que será a mulher mais linda da festa e o Vitor mal vai desviar os olhos de você — sua animação é quase espantosa, mas forço meu melhor sorriso.

— Obrigada! — ela sorri emocionada e me abraça, mas não muito tempo e nem muito demorada.

— Não queremos que você se amarrote... Bom, pelo menos não agora — ela me dá uma piscada e então a campainha toca — É ele! — ela fala batendo palmas como uma adolescente enlouquecida — Vamos, vamos, vamos — ela sai na frente louca pra ver a reação do Vitor, mas meus pés desviam da direção da porta para o quarto ao lado — Onde você vai? É pra lá... — ignoro-a e abro a porta do quarto, a luz está apagada, entro e o lugar está vazio.

— Ele não tá— as palavras saem quase sem som e a frustração e o desespero começam a me atingir, não sei por que mas aparecem forte e levam todo resto de auto confiança que eu tinha.

— Dani, a porta... — mamãe fala me indicando com a cabeça o corredor, olho pra dentro do quarto outra vez e então fecho a porta do quarto e sigo minha mãe até a porta, ela me faz aquela cara animada, manda eu sorrir e abre a porta, parado na minha frente está o Vítor, ele está impecável num terno preto risca de giz e gravata azul escura, ele fica me olhando fixamente como se tivesse em choque, seus olhos descem e depois sobe pelo meu corpo e por mais que a intenção dele não seja essa me faz sentir como um objeto em exposição e isso faz meu estômago se revirar, ele dá um passo a frente e estica a mão pra mim, eu aceito e ele sorri.

— Eu sinto que posso usar todos os elogios que conheço e ainda assim não serão suficientes — sinto minha mãe quase se derretendo enquanto vê a cena e eu uso o meu sorriso mais agradecido e animado que consigo.

— Obrigada! Você também está muito bonito — ele sorri e faz uma leve mensura.

— Débora — ele sorri e cumprimenta minha mãe.

— Você está incrivelmente charmoso — ele agradece e então se vira pra mim.

— Vamos? — ele me oferece o braço, encaixo o meu nele e ele nos vira pra minha mãe.

— Se a senhora me der licença, tenho que deixar todos na festa mortos de inveja assim que eu chegar com a sua filha — ela sorri toda boba e nos deseja boa festa, ela diz que vai fechar tudo direitinho com a chave reserva que ela tem e nós saímos, o elevador logo chega e entramos, aqui dentro tudo parece ainda mais forte — Nervosa? — ele me olha quando eu troco o peso do corpo pela segunda vez.

— Um pouco — ele ri.

— Relaxa, eu não vou sair de perto de você — ele garante e eu forço o maior sorriso que consigo, mesmo que meu estômago ainda esteja revirado e eu queira sair correndo e me trancar no quarto.