Acordo com o despertador, levanto da cama rápido e vou direto pro banheiro, quando saio do quarto já estou arrumada e pronta pra sair, encontro Rafael tomando café, pego uma caneca e me sirvo.
— Viu o Vinny? – pergunto estranhando que ele não esteja na correria ainda.
— Bom dia pra você também, minha noite foi ótima, obrigada por perguntar, muito gentil da sua parte – eu o encaro e ele morde o pedaço da torrada demoradamente – Ele não dormiu em casa
— Como assim não dormiu em casa? Ele não me avisou nada.
— Bom, talvez, agora ele não deva mais satisfação pra você – ele dá de ombros e isso consegue acabar com o meu bom humor, puxo minha bolsa do chão e saio do apartamento batendo a porta, já estava atravessando a rua quando ele me alcança.
— Era só uma brincadeira, tenho certeza que ele tem um ótimo motivo pra não ter te avisado
— Por que você não vai se ferrar? – apresso meu passo e entro na estação do metrô, ele entende o recado e só volta a falar comigo quando chegamos ao escritório e apenas pra avisar que teria que ir pro fórum cedo e se eu precisava de alguma coisa, digo que não e ele sai sem mais piadas.
O trabalho foi bem agitado, por isso acabo apenas comendo um sanduiche na hora do almoço e quando o meu expediente acaba eu quase comemoro, Rafael já foi embora então vou pro apartamento sozinha, troco de roupa e logo saio de novo, vou direto pra academia, vejo Vinny conversando com um cara na musculação, mas passo pelo outro corredor, faço um aquecimento rápido e vou pra esteira, coloco meus fones e encaro a televisão a frente, depois começo toda minha série de exercícios, já estava no final quando ele aparece na minha frente.
— Bem que você falou, aquele cara amigo do Lucas é um saco – ele fala parecendo meio de saco cheio, mas eu o ignoro e continuo minha sequência – Falta muito? – eu o ignoro novamente, até que acabo o exercício – Bora tomar açaí? Eu pago!
— Vou pra casa – passo por ele, indo pegar minha mochila no armário, ele me segue e para atrás de mim.
— Tá tudo bem?
— Tudo ótimo e você? – viro de frente pra ele já jogando a mochila nas costas e ele me encara confuso.
— Eu sinto que tem algo errado que eu preciso saber, mas não sei o que é – eu passo por ele, mas ele segura meu braço – Aconteceu alguma coisa?
— Muito trabalho, minha cabeça está explodindo, não tive tempo pra almoçar hoje e ainda não jantei.
— Eu pago o jantar então
— Eu vou pra casa
— Tem certeza que é só isso? – ele me olha com aquele jeito todo preocupado e nervoso, então mesmo chateada, com raiva e magoada, eu odeio ver ele assim por minha culpa.
— Eu só tô mau humorada – ele sorri e beija minha testa.
— Eu posso lidar com isso – ele fala e me dá uma piscada, então me lembro por que amo tanto ele, já estava a ponto de abraçar ele quando ele completa – Então já que você tá bem e ficar perto de você de mau humor é prejudicial a saúde, acho que vou passar lá na Bianca – eu fecho o sorriso e me afasto dele – Mas quer carona até em casa?
— Eu acho que consigo achar o caminho de casa sozinha – ando rápido e ele não vem atrás de mim.
Chego no apartamento e encontro Rafael com uma loira no sofá, ela sentada no colo dele e ele sem camisa, a garota parece assustada e me olha esperando que eu comece a gritar ou algo assim, ao invés disso, vou até a cozinha, abro a geladeira, pego uma garrafa de agua e uma maça no balcão e vou pro meu quarto sem falar nada, coloco a garrafa na mesinha, jogo a bolsa e a maçã na cama e já tinha tirado minha calça quando a porta do quarto abre, me viro rápido e Rafael está me olhando preocupado.
— Você tá legal? – vou até a porta e empurro ele pra fora, novamente sem dizer nada, passo a chave e termino de tirar minha roupa, fico só de calcinha e sutiã, ligo o ar condicionado e me enfio embaixo do meu edredom enquanto como a maçã, o ar já está bem gelado e eu puxo um lençol extra me encolho na cama, meu celular toca, olho o visor e vejo o nome da Lia, mas como não estou afim de falar com ninguém, coloco no silenciador e o deixo no criado mudo, volto a me encolher e acabo dormindo.
Saio do quarto e dessa vez a cozinha está vazia e a garrafa de café também, pego um iogurte na geladeira e saio do apartamento, chego no escritório e já tenho que organizar a sala de reuniões, depois preciso ligar pra adiantar alguns compromissos e já estava ligando pra cobrar uns documentos pro Rafael que deveria ter sido pegos no cartório ontem, quando o casal que entra me faz parar tudo que estava fazendo, a mulher já está me olhando com um sorriso arrogante e vitorioso, a barriga já pode ser vista e mesmo se não pudesse, com o vestido tão apertado que ela está conseguiria chamar atenção, ao lado dela está o pai do Vinny, ele me olha um pouco sem graça e se aproxima.
— Nós temos um horário marcado diretamente com o Dr. Leones – pego o telefone e disco pra sala dele, a entrada deles é autorizada, então me levanto e os acompanho até a porta, abro e espero eles entrarem.
— Obrigada, querida – ela me dá um daqueles sorrisos venenosos, eu saio xingando ela mentalmente, quando alcanço minha mesa Rafael está colocando o envelope em cima dela.
— Antes que você me dê uma bronca, a culpa da demora não foi minha – ele avisa e eu puxo o envelope conferindo, está tudo certo então me acalmo um pouco – Vai almoçar agora?
— Tenho que esperar esses dois saírem – ele puxa a cadeira a frente e se senta, eu o olho esperando ele se levantar, mas isso não acontece.
— Tá sabendo da festa que vai ter no final do mês?
— É, eu estou! E por que você está? – ele ri.
— Me convidaram
— Você é só o motoboy
— Assim você me magoa – ele fala e coloca a mão na direção do coração.
— Se você estiver dando em cima de alguma...
— Ei relaxa, elas não fazem meu tipo
— Então quem te convidou? – ele sorri orgulhoso.
— Opa, hora do almoço – ele fala e se levanta rindo, então sai.
Volto a trabalhar, até que quase uma hora depois os dois saem do escritório, o pai do Vinny se aproxima da mesa e mesmo parecendo sem jeito arrisca perguntar.
— Como ele está?
— Ótimo! Melhor impossível – falo com o sorriso mais simpático que consigo, ele concorda com um sorriso fraco.
— Eu pensei em marcar um jantar ou um almoço... – eu solto uma risada desacreditada.
— Só por cima do meu cadáver ele entra naquela casa de novo – falo com a maior naturalidade e calma do mundo.
— Diga a ele que perguntei por ele
— Não conte com isso – aviso já mexendo nos papéis que estavam na mesa, não volto a olhar pra eles e então eles se vão.
Quando chego no apartamento dessa vez não tem nenhum casal se pegando no sofá e estou sozinha, desisto de ir na academia, tiro minha roupa, coloco uma calça de moletom e uma camiseta, vou pra cozinha e coloco uma lasanha no micro-ondas, levo pro quarto e janto assistindo um filme que passava em um canal qualquer, lavo minha louça e volto pro quarto, encontro o celular tocando, como já ignorei ela ontem, sei que não posso fazer isso hoje, por isso respiro fundo e atendo com a melhor voz que consigo.
— O Vinny está preocupado! O Rafael está preocupado e agora eu estou preocupada – ela anuncia nervosa.
— Que tal se a gente sair no sábado, assim você confere com seus próprios olhos que eles são dois exagerados...
— Por que não pode ser hoje?
— Por que pelo que eu me lembre ainda não ganhamos na loteria então temos que trabalhar amanhã cedo, certo?
— Sábado! E se você desmarcar eu terei que usar o arsenal de guerra.
— Estarei pronta e em posição – falo com o máximo de humor que consigo.
— Perfeito! Te amo
— Também te amo – desligo e me jogo na cama.
Encaro o teto e me sinto um pouco egoísta, eles estão bem, todos estão, Lia e Bruno e agora Vinny e Bianca, eles merecem ser feliz e eu não deveria me sentir como estou me sentindo, por que isso me faz uma amiga horrível, daquelas que eu sempre detestei, eu sei disso, é só que de alguma maneira me sinto sobrando no meio deles, quer dizer, nada pode abalar nossa amizade sei disso também, mas sempre fui acostumada a ter eles dois por perto sempre que eu quisesse e agora Lia está casada, trabalhando, se mudou e Vinny pela primeira vez na vida está apaixonado, namorando e tendo outras prioridades além de bancar meu guardião, sinto que estou perdendo um pouco eles e isso é realmente estranho pra mim, mas preciso aprender a lidar com esses sentimentos, por isso digo a mim mesma que irei superar isso e encarar como uma adulta.
A semana passa rápido e mal vejo Vinny e quando nos vemos é sempre rápido e sem muita conversa, ou ele está indo encontrar a Bianca ou está atrasado pra alguma coisa, por mais que eu tenha jurado a mim mesma que ia aceitar essa nova fase da vida dele, confesso que é realmente irritante. Por isso mesmo sendo sexta feira, saio do escritório já desanimada, passo no mercado e compro um pote de sorvete de creme, vou pro apartamento e assim como eu já desconfiava, está vazio, vou até a cozinha, pego uma colher e vou pro quarto, assim que giro a maçaneta sinto que tem algo errado, abro a porta e encontro Lia e Vinny em cima da minha cama, discutindo baixo.
— O que vocês estão fazendo aqui? – pergunto realmente confusa, então eles se viram pra mim e saltam da cama.
— SURPRESA! – eles gritam juntos e vem os dois me abraçar, eu acabo rindo mesmo sem entender nada.
— O que é isso? – olho pra minha cama e vejo vários pacotes de biscoitos salgados e doces.
— A nossa noite! Acho que nós três concordamos que estamos precisando disso – Lia fala sorrindo animada.
— Eu achei que vocês fossem sair, é sexta a noite
— E isso é sorvete de creme? – Vinny pergunta já pegando o pote da minha mão e abrindo.
— Usa a colher – antes que eu entregue, ele já enfiou o dedo no pote e leva a boca enquanto fecha os olhos saboreando, eu acabo rindo.
— Anda, eu programei a noite inteira e o filme já vai começar – Lia avisa já me puxando pra cama.
— Eu tenho que tirar essa roupa – falo rindo e ela me solta, pega meu pijama que já estava separado e me entrega.
— É noite do pijama, você tem dois minutos – ela fala e só então percebo que ela está com o pijama da gata Marie que ela tanto ama, Vinny está com uma calça preta de moletom e uma camiseta do super man, eu sorrio olhando eles e corro pro banheiro, troco de roupa o mais rápido que consigo e saio com meu pijama dos minnions, o ar do quarto já está gelado e Vinny está sozinho na cama, antes que eu pergunte Lia entra trazendo mais duas colheres, nós duas nos jogamos na cama juntas e Vinny fica no nosso meio, a TV já está pronta e então Lia dá o player no filme.
— Vocês estão me zoando né? – eles riem alto – A maldição do pântano? – olho pra eles dois que continuam rindo e Vinny esconde o controle.
— Nem adianta, dois votos vencem um – Lia fala dando de ombros.
— Isso não é justo
— Nem é de terror
— A última vez que ouvi isso, um cara teve a cara derretida com cera quente! E só pra constar até hoje eu tenho pesadelos cada vez que ouço a palavra cera
— É, aquele era de terror – Vinny fala olhando pra Lia e eles riem.
— Mas esse não é! É quase uma comédia – ela fala o mais séria que consegue.
— Você não é tão boa atriz quanto pensa
— É, você meio que é péssima mentindo – Vinny concorda e ela mostra o dedo do meio pra gente. Como não tenho escolha e sou um voto claramente vencido, passo por cima do Vinny e me enfio no meio deles dois quando o filme começa.
— Sério, eu odeio vocês! De verdade – falo quando o filme acaba e eles continuam rindo dos meus gritos.
— Ah foi bem tranquilo
— Tranquilo? Vocês estavam assistindo o mesmo filme que eu? Por que no que eu vi o cara teve o olho arrancado enquanto estava amarrado com arame farpado em uma cabana abandonada onde a mulher dele estava possuída e conversava com demônios que sobrevoavam o lugar
— É, essa parte foi um pouco forte – Lia fala e Vinny faz um mais ou menos com a mão.
— Eu nunca mais assisto nem um filme com vocês – eu garanto apontando para os dois, mas eles se olham e me abraçam ao mesmo tempo e mesmo querendo bater nos dois por ter me feito assistir isso e sabendo que terei pelo menos uma semana de pesadelos, ainda assim me sinto feliz por estar com eles como nos velhos tempos.
— E agora você pode contar por que estava tão estranha essa semana? – Lia pergunta me olhando curiosa, eu dou de ombros mas eles continuam me olhando e sei que não tenho como enrolar eles e muito menos mentir, por que primeiro eles iriam perceber e segundo, eles são meus melhores amigos, não mentimos uns pros outros, por isso mesmo envergonhada eu respiro fundo.
— É só que... Eu acho que não estou preparada pra viver sem vocês dois – assim que falo os dois me encaram como se eu tivesse acabado de dar um tiro em alguém.
— Do que você tá falando? – Vinny pergunta parecendo realmente chocado.
— Eu amo vocês dois e eu quero que vocês sejam muito, muito felizes, de verdade, do fundo do meu coração isso é o que eu mais quero. A felicidade de vocês. Por que vocês merecem... Só que... Sabe, até outro dia a Lia morava aqui... Seu quarto era do lado do meu, não importava o quanto o dia tivesse sido corrido ou estressante, se eu abrisse a porta do lado você estava lá e agora... Agora você casou, você tem sua casa, seu trabalho e todas as responsabilidades e correria dessa nova vida... E você, só tem olhos pra Bianca, é Bianca pra cá, Bianca pra lá, por que a Bianca fez isso, faz aquilo... Vinny, você dormiu fora praticamente a semana inteira e por duas vezes. DUAS VEZES, não me avisou! Eu soube pelo Rafael ou por que simplesmente quando fui no seu quarto de madrugada você não estava lá... E eu sei que você não me deve satisfação nenhuma e que agora ela é sua namorada e tem que ser sua prioridade, mas poxa... Eu não sei como é não ter vocês o tempo todo na minha vida, não sabia como era tomar café da manhã sozinha, nem jantar sozinha, não sabia como era chegar no apartamento e ele está vazio, não sabia como era não ter que ouvir a Lia reclamando sobre o quanto a Jessica é irritante e gosta de aparecer ou ouvir você contar sobre algum exercício magnifico e que rende muito mais do que o exercício antigo, mesmo que eu não me importasse com isso, entende? É um saco! É realmente um saco ter que dividir vocês dois e podem me chamar de egoísta ou achar que eu sou a pior amiga do mundo, por que eu acho que realmente sou, eu sou uma péssima amiga, egoísta, mesquinha e horrível, mas eu odeio estar sobrando – desabafo enxugando com força as lagrimas que descem e então tem um segundo de extremo silêncio até que Vinny se arrasta na cama e para quase na minha frente me fazendo olhar pra ele.
— Você tá falando sério? – meus olhos enchem de lagrima assim que tento olhar pro seu rosto, por isso disfarço olhando pra cima, na tentativa de impedir que as lágrimas escorram novamente, mas ele segura meu queixo e me faz olhar pra ele de novo, então elas escorrem e ele as seca – Eu não achei que era assim que você estava se sentindo
— Nem eu – Lia fala me olhando de um jeito surpreso.
— Eu sei, é idiota, é bobeira, egoísta e completamente infantil...
— Não, não, não... – Vinny me interrompe e continua segurando meu rosto – Não é nada disso
— Eu quero ver vocês felizes! Eu juro que eu quero, mais do que qualquer coisa no mundo, eu quero a felicidade de vocês, só que... Eu não sei... – mais lagrimas descem e dessa vez com mais força ainda e minha garganta começa a querer fechar, eu tampo meu rosto com as mãos – Desculpa! Me desculpa – peço e começo a chorar, então Vinny me puxa para os braços dele e me embala junto com seu corpo – É só que eu amo muito vocês, muito, mais do que eu achei que amasse – falo e ouço Lia soltar um som que parece um soluço, ou talvez tenha sido eu mesma, mas logo ela está me abraçando também junto com o Vinny, ela beija minha bochecha e acaricia meu cabelo.
— Presta atenção... – Vinny exige e me segura pelos ombros me fazendo olhar pra ele, consigo parar de chorar e o olho – Você NUNCA vai ser deixada de lado, nunca vai sobrar e eu nunca vou trocar você por nada nesse mundo... Essa semana eu me mantive mais afastado sim, mas por que você apareceu mal humorada e eu achei que fosse sobre o lance com o Vítor e que você queria um tempo pra pensar sozinha, por isso eu evitei ficar em cima, eu achei que esse fosse o problema, nunca pensei que era assim que você estava se sentindo. Se eu soubesse que era isso, eu teria dito pra você o mesmo que eu disse pra Bianca assim que começamos a sair mais sério... Que você é mais do que minha melhor amiga, mais do que uma irmã, você é a pessoa mais importante da minha vida! Eu nunca, por motivo nenhum vou abrir mão de estar do seu lado em todos os momentos da sua vida e se a pessoa que estiver comigo não puder entender isso, então eu sinto muito, mas eu já tenho minha escolha e ela não vai mudar nunca... Eu escolhi você, eu escolho você e vou continuar escolhendo cada dia que for preciso – ele garante, sem desviar os olhos do meu e consigo ver a sinceridade em cada palavra, o que me deixa ainda mais emocionada.
— Você é minha melhor amiga, é meu porto seguro sempre que eu tô louca ou descontrolada, você sabe de todos os meus segredos, é a única pessoa que consegue avaliar meu humor sem eu precisar nem abrir a boca e não importa se eu estou casada ou solteira ou divorciada ou se eu vire bígama, ninguém vai conseguir superar ou abalar tudo que nós já vivemos, eu conheço você praticamente minha vida inteira, então acredite, eu não faço ideia de como é viver sem você – Lia fala e me puxa pra abraçar ela – Eu até te chamei pra morar comigo
— Você o quê? – Vinny pergunta nos afastando.
— Chamei ela pra morar comigo! Lá é maior, tem mais espaço, já tem um quarto pra ela e tem piscina
— Tem piscina? O quê? Agora você vai querer comprar ela com uma piscina?
— Eu não estou comprando ela, só estou dando outra opção
— Eu não acredito que você convidou ela pra morar com você! Você aceitou? – ele pergunta me olhando.
— Eu estou aqui, não estou? – ele parece mais aliviado.
— Mas o convite ainda está de pé
— Ah não está não
— Tá sim! – eu acabo rindo e abraço os dois ao mesmo tempo.
— Eu amo vocês! – nós caímos deitados e abraçados na cama, mas Vinny me puxa mais pra ele.
— Não já tá na hora de você ir embora não? – ele pergunta pra Lia e ela mostra o dedo do meio pra ele, então ficamos os três jogados na cama, Lia e eu lado a lado e Vinny do outro lado implicando com a Lia colocando o pé no rosto dela, eles brigam, mandam um ao outro se ferrar mas logo estamos rindo, eles contam as novidades do trabalho e das novas vidas de casal.
— Seu pai esteve lá no escritório essa semana – conto quando chega a minha vez.
— Ele tentou me ligar algumas vezes
— Você tá proibido de atender ou de ver ele...
— A menos que seja pra buscar outro cheque daqueles – Lia completa com um sorriso malicioso, eu sorrio e concordo com ela.
— E o Vítor? Tem falado com ele? – Vinny pergunta mudando radicalmente de assunto.
— Não! Não falo com ele desde aquele dia – dou de ombros tentando soar o mais natural possível.
— E o que houve naquele dia? – Lia que pergunta me olhando daquele jeito como quem diz que já esperou tempo demais e agora exige resposta, por isso sei que não conseguirei enrolar ela mais tempo do que isso.
— A gente se beijou
— Isso nós vimos
— Os pais dele, eles que estavam no outro carro, do dia do acidente – confesso e Vinny me olha confuso, porém Lia com certeza já devia saber dessa parte, por isso apenas concorda.
— Ele te disse isso?
— Foi!
— Ele sabe quem é você? – Vinny pergunta me olhando curioso, eu nego.
— Ele comentou sobre os pais, não falamos mais disso e depois eu procurei sobre o acidente e confirmei a história – eles se olham e voltam a atenção pra mim.
— E o que você tá pensando disso tudo? – Vinny pergunta me olhando nos olhos, daquele jeito que tenta me desvendar, só que dessa vez nem eu mesma sei o que dizer, por isso solto o ar e me afundo na cama, cobrindo o rosto com meu braço.
— Eu não faço a menor ideia do que tudo isso significa, se é que significa alguma coisa – ele afasta meu braço do rosto e os dois estão me olhando.
— Isso significa que é preciso deixar as coisas acontecerem pra então as respostas aparecerem – ele olha pra Lia que concorda fielmente.
— E enquanto isso... – ela se joga em cima de mim – Eu tava morrendo de saudade de ficar com vocês – ela puxa Vinny e então voltamos a nossa bagunça.
As coisas voltam a se acertar entre nós três, eu visito meus pais e preciso aguentar minha mãe dizendo que eu só me importo com meu pai por que ele foi passar a tarde comigo no apartamento e eu nunca a convidei, por isso gasto toda minha energia puxando saco dela e ela acaba ficando menos magoada, Vinny foi conhecer os pais da Bianca e sim, eu ainda sinto um leve ciúme, mas é tão bom ver ele feliz, se sentindo completo ao lado de alguém que o meu ciúme cada dia perde força, basta eu ver os olhos dele brilhando quando falam ou veem ela e então só desejo que eles sejam felizes. Lia e Bruno estão vivendo toda rotina de casados e parecem ainda mais felizes que antes, eu também adoro ver eles assim, quanto ao Rafael, bem, ele ainda é o Rafael então dorme fora alguns fim de semana inteiro e só o vejo de novo no escritório quando ele chega com um sorriso gigante mas uma cara de sono assustadora, mesmo assim sempre parece satisfeito com o motivo, seja a Andressa, Vanessa, Alice, ou sei lá qual o nome da garota da vez.
Hoje por exemplo a escolhida da noite foi uma tal de Gabriela, ele saiu do apartamento quando eu estava chegando, como estou sozinha faço uma panela de brigadeiro, vou pro quarto e começo a assistir o filme dos Vingadores 2, quando termina assisto um programa de humor até que minha porta abre sem cerimônias, Rafael entra no quarto como se fosse o dele.
— EI! Cai fora – ele finge me ignorar, tira os sapatos e se joga na cama, então levanta uma embalagem de DVD da locadora, eu nem sabia que ainda existiam locadoras – Quê isso? – ele me entrega e eu não consigo evitar o riso quando vejo o nome “Baby, o porquinho atrapalhado na cidade”.
— Esse filme não sai da minha cabeça, desde que você falou dele...
— Sério? – ele faz a melhor cara de sério que consegue – E a Gabriela? – ele dá de ombros, pega o dvd da minha mão, vai até o aparelho embaixo da tv e coloca, eu mudo o canal e ele volta pra cama e se joga ao meu lado – Ela era tão ruim de cama assim?
— Não sei!
— Não sabe? – olho pra ele e ele está tentando não me olhar – Rafael? – ele revira os olhos.
— Nós não chegamos muito longe...
— Por que não? Ah meu Deus, você... – faço sinal com polegar pra baixo, ele me olha meio irritado.
— Claro que não!
— Aham, sei, isso nunca aconteceu com você né?
— Já, 4 vezes – eu o olho impressionada pela sinceridade, os homens geralmente não admitem isso, só fico ainda mais curiosa.
— Se não foi isso, o que foi? – ele solta o ar.
— Tô de saco cheio!
— De quê? De sexo? – fico realmente surpresa.
— De só fazer sexo – sua resposta me deixa ainda mais surpresa, eu o olho e ele desvia os olhos da tela pra mim – Elas são vazias! Era legal antes, por que eu também era, mas agora... Sei lá... – eu sorrio.
— E o menino de madeira virou um ser humano – ele força um sorriso e me arrependo de ter falado, ele realmente parece sincero, então tento me redimir – Você vai acabar encontrando alguém legal...
— Ou talvez já tenha encontrado – ele me olha e abre um sorriso.
— E eu achando que você tinha mudado – reviro os olhos e ele se arrasta pra mais perto, encosta ao meu lado e me puxa pra ele.
— Dá logo o play nessa merda que eu quero ver os tais ratinhos irritantes... – eu acabo rindo e dou play.
Quando o filme acaba ele ri.
— Um filme e tanto – ele fala com ironia.
— Você que quis ver...
— Pelo menos a companhia foi boa
— Nem começa ein – ele sorri e se deita ocupando mais espaço do que deveria, eu lhe dou um empurrão mas ele não liga, então me lembro de outra coisa – Seu aniversário é em duas semanas – ele força um sorriso – Já sabe o que quer fazer?
— Qualquer coisa!
— Nossa assim você me deixa tonta com tanta animação... – ele ri.
— Eu só nunca comemoro meu aniversário – isso me pega de surpresa.
— Nunca?
— Nunca!
— Nem quando você era criança? – ele ri.
— Minha mãe mal tinha tempo de lembrar o endereço do lugar novo, meu aniversário não era uma prioridade – fico um pouco chocada com isso.
— Você nunca teve uma festa de aniversário? – ele nega – Balões coloridos? Bexigas? Pula pula? – ele nega tudo.
— Mas ganhei uma réplica em miniatura exata de uma Ferrari uma vez – ele tenta sorrir e então eu sinto um desejo imenso de apagar todos os aniversários anteriores dele, só pra fazer com que ele esqueça essa mágoa que eu vejo em seus olhos – Isso não é o fim do mundo – ele me olha dando de ombros e tentando parecer inabalável.
— Eu sei que não! Fim do mundo é você estar no apartamento e eu ainda estar com fome – ele abre um sorriso largo e então pula pra fora da cama.
— O que você quer comer? – sua animação é meio estranha mas me aproveito disso.
— Crepe? – ele me dá uma piscada e sai do quarto, assim que ele sai eu me inclino sobre a cama, puxo minha agenda e procuro pela data do aniversário dele, sorrio quando vejo que cai num sábado, puxo meu celular e mando uma mensagem pra Lia.
“Preciso da casa liberada dia 21 — sábado, é uma surpresa pro Rafael, te explico amanhã”
Já tenho tudo planejado na minha cabeça quando saio do quarto e vou correndo até a cozinha.
— Resolvi ser legal e te ajudar...
— Não sei com qual das duas coisas me assusto mais... Você sendo legal ou me ajudando – faço uma cara de magoada, ele ri, vem até a mim e passa o braço pelos meus ombros me chacoalhando – Não finja que é mentira – eu dou de ombros e sorrio, não pela piada dele, mas que ele nem imagina o que eu vou fazer, meu humor subitamente melhora e eu me sinto animada como a muito tempo não me sentia.

Acordo com o sol invadindo o quarto, abro os olhos e procuro o relógio, quase me xingo quando vejo que ainda são 6:30 de um sábado, me recuso a levantar, puxo o edredom tampando meu rosto e tento voltar a dormir, mas o barulho que vem do lado de fora do quarto me desperta e a curiosidade me faz levantar, saio do quarto pronta pra agarrar o pescoço do Rafael, já que o barulho vem da cozinha, quando ouço as risadas, então me preparo pra ter que acabar com ele e o Vinny juntos.
— São 7 horas da manhã de um sábado, não é possível que vocês não tem... – eu paro a frase quando alcanço a metade da sala e olho as duas figuras na cozinha, viradas pra mim – Eu... Achei que... Eu não sabia que você estava aqui – falo morrendo de vergonha, enquanto Rafael me olha rindo e ao lado dele Vítor me olha com um pequeno sorriso.
— Eu disse que ela tem um péssimo humor de manhã – Rafael fala e aponta pra mim, depois vira as costas e religa o liquidificador, Vítor se afasta dele e vem na minha direção.
— Desculpa, eu... Ele me chamou e disse que não teria problema – ele aponta pra trás como se tirasse a culpa dele mesmo.
— Tudo bem, é só que eu não esperava te ver aqui – falo quase tendo um ataque de vergonha.
— Isso ele percebeu – Rafael fala e desliga o liquidificador – Aliás, ótima escolha – ele fala e aponta com a cabeça pra mim, só então olho pra baixo e percebo como estou, vestindo uma camiseta, ela fica bem justa em mim, deixando a calcinha preta totalmente a vista, e a queimação que aparece no meu rosto parece que vai me derreter, devo estar mais vermelha que a camiseta.
— Droga, eu... Eu já volto – praticamente corro de volta pro quarto, ouço a risada do Rafael mas apenas entro e fecho a porta me encostando nela enquanto bato a cabeça pra trás algumas vezes, morta de vergonha e de raiva, porém muito mais vergonha – Eu vou matar o Rafael— falo pra mim mesma, então vou até minha gaveta, pego um short, visto, vou até o banheiro, me olho no espelho e como se não fosse suficiente ainda estou descabelada e com a cara inchada – MARAVILHA!— eu jogo as mãos pra cima e decido que com certeza essa foi a pior aparição da minha vida, começo lavar meu rosto, escovo os dentes, passo o pente no cabelo, mas ele fica mais parecendo uma juba de leão então pego meu elástico e o penteio mais decentemente, amarrando um rabo de cavalo, amasso um pouco ele pra ficar mais ondulado, olho no espelho e meu rosto ainda parece inchado e com certeza isso embaixo do meu olho é uma olheira, por isso abro a gaveta e pego meu corretor, já estava começando a passar quando paro e me encaro no espelho tentando entender por que estou fazendo isso, é só um cara, o Vítor, ok, a gente se beijou duas semanas atrás, mas acabou, eu já tinha decidido que aquilo foi um erro, não vai mais acontecer nada entre a gente então não tem necessidade desse desespero todo, me convenço disso, guardo a maquiagem, saio do banheiro sem me olhar no espelho outra vez e volto pra sala, quando chego os dois estão cochichando alguma coisa no balcão da cozinha, mas assim que me vê Vítor para de falar, se levanta do banco e vem na minha direção.
— Eu devo desculpas, não deveria ter vindo sem avisar e... Se isso for um problema posso ir embora agora – ele fala me olhando parecendo sincero e um pouco tímido.
— E me deixar sozinha com aquele troço? – aponto pro Rafael que sorri sem me olhar – Nem pensar, você fica e toma café. Depois vocês podem sair e fazer o que quer que tenham planejado – ele abre um sorriso ansioso.
— Na verdade eu vim te fazer um convite
— Achei que você tinha dito que veio por que o Rafael te chamou...
— Sim, me chamou depois que eu contei que queria te fazer um convite – ele dá de ombros e me olha na expectativa.
— Que seria?
— Aí no caso, é meio que uma surpresa! Mas nós teríamos que sair agora e bom... A hora pra voltar depende do quanto você odiar o lugar – ele fala com um sorriso meio nervoso.
— Então você basicamente quer me levar pra um lugar que eu não sei onde é e sem um horário pra volta?
— Relaxa, marrentinha, eu sei qual é o lugar, qualquer coisa mando alguém atrás de vocês – Rafael fala se intrometendo na conversa.
— Uau, você sabe? Ufa, agora sim estou bem mais aliviada – falo com ironia.
— Quer saber, tomara que ele seja um serial killer
— Eu não sou um serial killer! E qual é cara? Você disse que ia me ajudar e não acabar com todas as minhas chances – Vítor reclama, mas está se divertindo – Juro que te trago de volta inteira, sem nenhum arranhão – ele sorri mostrando aquele furinho no queixo e alguma coisa me faz realmente acreditar, por isso reviro os olhos, mas acabo sorrindo quando falo.
— Só preciso tomar um banho e trocar de roupa – o sorriso que ele abre é tão grande que parece que ganhou na loteria, eu sorrio e já estava entrando no corredor do quarto quando ele avisa.
— Eu aconselho uma roupa confortável e tênis – eu o olho curiosa e ele sorri dando de ombros, volto pro corredor e entro no meu quarto ainda tentando entender por que eu aceitei sair com ele se há alguns minutos atrás eu concordei em manter isso em outro nível, eu não vou me envolver com ele, nem com ninguém, aceitar esse convite pode ter sido um erro, mas agora está aceito então talvez seja uma ótima chance que eu terei de fazer ele entender que não tem chance nenhuma de acontecer alguma coisa entre nós dois.
— É isso! – eu digo em voz alta e então depois de tomar uma respiração profunda abro o guarda roupa, depois tomo um banho e me visto em poucos minutos, sigo o conselho dele e coloco um short curto branco e uma regata cavada preta do Jack Daniel’s, calço meu tênis que uso na academia e saio do quarto com o celular e a carteira na mão.
— Não tô afim de levar bolsa, então, você tem onde colocar isso – balanço a carteira no ar, ele sorri, se aproxima de mim e pega da minha mão, mas ao invés de guardar ele a joga no sofá.
— Você não vai precisar dela – ele garante e me dá uma piscada – Pronta? – ele pergunta ansioso.
— Pronta – pego a chave e abro a porta.
— Juízo... Ou não – Rafael fala e me manda uma piscada com um beijo assim que eu o encaro, desisto de brigar com ele e saímos do apartamento, o elevador chega rapidamente e nós entramos.
— Você tá muito bonita – eu reviro os olhos – É sério! Eu não minto – ele levanta as mãos mostrando inocência e eu acabo rindo, logo estamos na portaria, Seu João está no telefone, mas abre um sorriso quando me vê, já ia saindo do prédio quando Vítor desvia até o canto e pega dois capacetes que estavam ao lado do vaso de flores, eu o olho curiosa e ele abre um sorriso misterioso, então me deixa sair primeiro, parado na calçada a frente tem uma moto branca com azul, uma Yamaha YZF-R3, sei disso por que Vinny é um fã de motos e ser melhor amiga dele inclui ouvir coisas sobre isso, ele se apressa e para a minha frente ao lado da moto e me estica um dos capacetes.
— É linda – aponto pra moto e ele sorri orgulhoso, enquanto desliza a mão no banco dela.
— Também acho – ele coloca o capacete, mas sem cobrir totalmente o rosto ainda – E você é a primeira a subir nela
— É nova?
— E eu só sou bastante ciumento com ela – ele dá de ombros.
— Ok, antes da gente ir preciso esclarecer uma coisa – ele me olha com atenção – Isso não é um encontro, ok? Eu, você... Nós, estamos apenas indo pra algum lugar que eu ainda não sei onde é, porém, como amigos, só isso, nada romântico – esclareço e ele solta uma leve risada.
— 100% amigos – ele concorda e então abaixa o capacete – Podemos ir? – eu o encaro por alguns segundos, mas coloco meu capacete e logo após ele montar, eu me sento atrás dele, nossos corpos tem que ficar bem colados e eu passo meus braços nele, sinto seus músculos um pouco tensos, mas sua mão vai pra cima das minhas – Segura firme – ele avisa e então saímos, um frio na minha barriga me deixa mais ansiosa que o normal, não sou acostumada a andar de moto mas sempre gostei dessa sensação, ele segue a estrada principal e depois pega uma das rodovias, ele aumenta a velocidade e o vento batendo no meu rosto enquanto a paisagem vai ficando pra trás me faz sorrir, demoramos cerca de 20 minutos até que ele entra em um caminho de terra, mais alguns minutos e então chegamos a uma espécie de pousada, a nossa direita tem um grande casarão que fica entre o moderno e o rústico, fica na subida de um pequeno morro, atrás dele tem uma alta serra tão verde que parece de mentira, a esquerda tem um campo com bancos de madeira espalhados estrategicamente debaixo das arvores que estão carregadas de frutas, canteiros com flores também estão espalhados por todo lugar que é absolutamente lindo, ele avança até um estacionamento, não muito grande, mas quase lotado, ele escolhe uma vaga mais pro começo e então para a moto, pulo e tiro o capacete olhando em volta, o som dos pássaros, das folhas e de risadas de um pequeno grupo que está sentado em uma roda no meio do gramado me faz sorrir.
— Isso é... Incrível – ele também olha em volta com um sorriso sincero.
— É, é realmente incrível
— Eu nunca tinha vindo aqui
— Essa era a intenção – ele sorri e pega meu capacete, ele encaixa os dois na moto e me guia pra sairmos do estacionamento, alcançamos um caminho de pedras que leva até o casarão, as risadas e vozes aumentam, um casal passa por nós rindo animadamente, perto de uma arvore tem dois garotinhos brincando com um gato enquanto uma mulher tira dezenas de fotos deles dois.
— Achei que você fosse gostar daqui – ele fala me distraindo, eu concordo voltando minha atenção pra ele.
— Acho que não tem como não gostar daqui né? – ele ri, então já estávamos a poucos passos de alcançar a porta do casarão quando o cara sai e nos vê, ele parece mais novo que o Vítor, ele é loiro, usa óculos, não muito alto, magro, está com uma roupa de malhar, que inclui short preto e camisa branca e abre um sorriso grande.
— NÃO ACREDITO! – ele fala e já abre os braços enquanto se apressa em nos alcançar, ele abraça o Vítor forte, dando tapas nas suas costas como se não se vissem a muito tempo, ele até dá uma volta enquanto ainda estão abraçados e é engraçado ver a cena, já que Vítor revira os olhos me fazendo uma careta, eu acabo rindo enquanto espero parada no mesmo lugar, o abraço termina e o cara ainda segura o rosto dele com as duas mãos – Eu ainda não acredito que você veio – Vítor sorri e afasta a mão do seu rosto.
— Eu disse que vinha
— Sim, e você diz isso há sei lá... Três anos? – Vítor balança a cabeça parecendo incomodado e só então o cara me olha e parece surpreso, porém logo sorri e se vira pra mim – Então você é o motivo dessa reviravolta?
— Essa é a Dani! Dani, esse é o Lucas, um amigo exagerado – Vítor nos apresenta e ele aperta minha mão sorrindo – Então, será que você pode nos mostrar o lugar? – Vítor o encara como se pedisse pra ele simplesmente mudar de assunto.
— Claro que posso! É só que... Eu fui pego de surpresa – ele fala e olha pra mim – Eu espero por essa visita a muito, muito tempo, mas parece que ele é ótimo em inventar desculpas
— E você em não saber ficar quieto – Vítor dá um leve um empurrão nele que ri e volta o caminho pra dentro do casarão, passamos por uma larga porta de madeira, um balcão cheio de objetos de decoração em cima nos recebe, a placa acima anuncia “recepção”, a garota loira, bonita e sorridente do outro lado do balcão, levanta a mão pra chamar atenção do tal Lucas, mas ele levanta o dedo pedindo pra que ela aguarde e avisa que logo voltará, todo o casarão é de madeira, o chão, o teto, as paredes, porém não é de todo rústico, uma TV de plasma está pendurada na parede enquanto passa o jornal local, mesmo que ninguém esteja parando pra assistir, poltronas coloridas e modernas, cadeiras confortáveis e grandes puf’s estão espalhados por uma larga sala, o aparelho de som toca Beyonce e um grupo está dançando e rindo, a alguns passos tem um canto equipado com 5 computadores, todos ocupados, pessoas passam por nós a toda hora pelos corredores.
— Lá em cima ficam os quartos, ainda temos um sobrando, pro caso de vocês realmente gostarem do lugar e quiserem aproveitar mais – Lucas fala com um sorriso malicioso.
— Oh não, não – falo rápido demais e ele me olha – Quer dizer, o lugar é lindo e tal, mas eu tenho que voltar pra casa – Vítor solta uma risada divertida.
— Eu não vou te sequestrar, relaxa – ele me dá um daqueles sorrisos que estranhamente me faz sorrir junto com ele, continuamos o caminho e uma garotinha passa correndo por nós enquanto carrega um coelho.
— Nós temos um espaço lá atrás com alguns animais, é como um mini zoológico, acho que você vai gostar – Lucas fala quando me vê olhando pro bichinho na mão da menina – Vocês deviam ir lá depois – nós concordamos enquanto passamos pelo corredor, quadros de paisagens perfeitamente pintados chama minha atenção, mas seguimos até que entramos em um salão cheio de mesas – O café começou a uma hora atrás, mas vocês ainda tem... – ele olha no relógio – 40 minutos! Peguem o que quiserem, tem cardápio na mesa, caso queiram algo especial e qualquer coisa só precisam me chamar, eu estarei por perto, só preciso resolver algumas coisas – ele coloca a mão no ombro do Vítor – Eu tô feliz que você veio – Vítor revira os olhos e ele ri – Ok, vou deixar vocês a vontade! E se aceitam uma sugestão a mesa daquele canto é a melhor, a visão é realmente de tirar o fôlego – ele aponta e sai sorrindo, Vítor me olha e também sorri dando de ombros, nós caminhos até o canto que ele disse, a mesa pra duas pessoas está ao lado de uma parede de vidro que nos oferece uma vista maravilhosa da serra, o céu está absolutamente azul, o sol iluminando parte de todo aquele verde, o campo florido ao fundo, onde podemos ver algumas pessoas rindo ou apenas deitadas sobre uma canga na grama, eu me sento e me perco olhando o lugar.
— Dani? – a mão passa a frente do meu rosto e eu levo um susto – Você quer pedir alguma coisa especial ou quer se servir lá?
— Acho que podemos ir até lá – ele concorda e saímos em direção a mesa do café, ainda tem algumas pessoas mas a mesa está lotada de coisas, vários tipos de bolo, pães, frios, frutas, suco e vitaminas, me perco em tantas opções e volto pra mesa com um prato cheio – Acho que exagerei – mas assim que Vítor coloca o prato dele a frente do meu nós dois rimos.
— O café da manhã é a refeição mais importante – ele dá de ombros, nós tomamos café olhando as pessoas em volta, a maioria está em grupos, também tem alguns casais apaixonados e algumas crianças que não se cansam de correr entre as mesas – Parece um ótimo negócio – falo olhando em volta.
— E é! Ele já ganhou dois anos seguidos o prêmio de turismo local, considerando que o lugar tem três anos, isso é mais do que excelente – ele fala parecendo orgulhoso.
— E nesses três anos você ainda não tinha vindo aqui? – pergunto observando a reação dele, ele força um sorriso e olha pra parede de vidro parecendo pensativo.
— Qual sua intimidade com trilhas? – ele pergunta numa animação suspeita.
— Já fiz algumas – dou de ombros e ele sorri.
— Perfeito! Nós faremos uma hoje – ele joga um morango na boca e morde me olhando com certo mistério.
Terminamos de tomar café e saímos do salão, seguimos para os fundos do casarão, a varanda larga tem redes e cadeiras de balanço, descemos a escada e então vejo realmente a dimensão do lugar, é no mínimo gigante, está bem movimentado, uma mesa de sinuca está em um espaço coberto, junto com uma mesa de totó, um grupo está jogando futebol, garotas passam correndo de biquíni e se jogam na grande piscina, outros estão reunidos recebendo instrução para algo realmente importante, já que estão bem concentrados.
— Só preciso tirar uma dúvida rápida, me espera aqui – ele sai indo até um homem que está com o uniforme, que na verdade é a mesma blusa que o Lucas, porém com o símbolo que está na frente da pousada bem grande nas costas, eu me sento em um balanço pendurado na arvore e olho a alegria das pessoas em volta.
— E então? – a voz me assusta um pouco, olho pra trás e Lucas sorri enquanto se aproxima mais um pouco.
— Meus parabéns, o lugar é perfeito – ele sorri orgulhoso e se senta no balanço a lado do meu.
— É, eu não posso reclamar, acho que saiu melhor do que eu imaginei
— Eu com certeza não imaginaria nada tão bom – ele sorri agradecido e então me olha como se quisesse desvendar algum segredo.
— Ele deve gostar mesmo de você – eu o olho confusa e ele sorri – Ele que me ajudou a pensar em tudo isso – ele confessa e agora sim estou surpresa, ele desvia os olhos de mim e olha em volta – Eu com certeza não teria levado adiante sem ele bancando o cérebro por trás de tudo...
— Vocês fazem uma bela dupla então – ele solta uma risada fraca.
— Acho que fazíamos – ele me olha como se decidisse se deve ou não falar, eu o olho diretamente nos olhos tentando convencer ele a contar toda história – Ele se afastou bastante e... Acho que não posso culpa-lo por isso – ele olha para os pés enquanto chuta uma pequena pedra.
— Por causa do que aconteceu com os pais dele?
— Ele te contou? – a surpresa na voz e no olhar dele me mostram que esse não é um tipo de assunto muito comentado, confirmo que sim e ele volta a me olhar com ainda mais curiosidade.
— Se estiverem falando mal de mim, eu juro que corto esses galhos – Vítor fala já segurando na corda do meu balanço, Lucas ri e se levanta.
— Eu só estava dizendo o quanto ela vai adorar o orquidário
— Bom, você vai ter que esperar, por que agora quero te mostrar uma coisa – Vítor me olha sorrindo e me oferece sua mão, eu aceito e me levanto, mas antes ele se vira pro Lucas – Parece que seu pessoal não conhece todas as trilhas – Lucas sorri e coloca a mão no rosto do Vítor.
— Eu sempre mantenho minhas promessas – ele encosta a testa na do Vítor, cochicha algo e então sai, Vítor sorri e me olha oferecendo a mão novamente, eu aceito e seu sorriso aumenta, nós atravessamos o campo na direção da mata, mas o grupo que está iniciando a trilha foi para o lado oposto, por isso eu paro no caminho.
— Eu acho que nós tínhamos que seguir eles – eu aponto pro grupo que está a vários metros de distância, ele ri.
— Se você quer ver algo bonito, então sim! Se quer ver algo de tirar o fôlego, então é por aqui – ele levanta alguns galhos esperando eu passar, avalio por um segundo e então passo, sinto ele sorrir antes de passar e parar ao meu lado, ele vai na minha frente e por alguns passos começo a achar que não foi uma boa ideia, as arvores e galhos são como de mata fechada e o risco de nos perdermos é muito grande.
— Olha, não que eu duvide de você mas passar o sábado perdida na mata não é algo que eu esperava num encontro – ele ri e para me olhando.
— Então isso é um encontro?
— Não! – falo rápido, mas acabo rindo e ele levanta as mãos em inocência – Um encontro de amigos
— Claro, de amigos! E não precisa se preocupar, eu conheço esse caminho como a palma da minha mão
— Vocês vinham muito aqui? Por isso ajudou a pensar em tudo isso? – ele para e me olha.
— O que aquele linguarudo falou?
— Que sem suas ideias esse lugar não existiria! Isso é verdade?
— Ele gosta de exagerar, não acredite em tudo que ele diz – continuamos o caminho, abaixando entre galhos e passando por cima de troncos tombados.
— Então não devo acreditar quando ele diz que você é um cara legal, divertido e que eu deveria querer por perto? – ele ri.
— Nisso você pode acreditar
— Será? – ele sorri e então me mostra a trilha limpa que se forma a nossa frente, o caminho é largo o suficiente pra nós dois andarmos lado a lado sem galhos nos furando ou folhas batendo na nossa cara, eu finjo indiferença e ele ri, o som de pássaros, do vento nas folhas e de agua, é ainda mais forte aqui e eu gosto disso.
— Posso perguntar uma coisa? – eu o olho avaliando e indico que ele pergunte – Quando a gente se conheceu, você disse que tinha um namorado... Depois disso eu vi você e o Vinny, mas acho que tá claro que vocês não namoram, certo?
— Certo!
— Então?
— Eu não tenho um namorado – afirmo claramente e ele me olha sorrindo – E nem tenho planos de ter um
— Nunca se sabe
— Eu sei
— Ok, sem namorado – ele concorda mas não está com aquele mesmo sorriso, continuamos andando por mais alguns minutos e então alcançamos uma pedra, ele sobe e me estica a mão.
— Essa é a hora que eu falo que sou meio desastrada? – pergunto enquanto continuo escorregando sem conseguir escalar a pedra, ele ri, então pula e para ao meu lado, ele passa os braços ao redor de mim e me ajuda dando impulso, eu alcanço o topo da pedra e ele já está subindo ao meu lado, quando olho pra frente perco o fôlego, um lago cristalino reflete o raio do sol, permitindo a visão de alguns peixes coloridos, o lugar é fechado, as arvores e mata em volta parecem esconder esse pequeno paraíso e eu fico sem palavras, Vítor para ao meu lado e eu o olho sem saber o que dizer.
— É, foi minha primeira reação também – ele fala sorrindo e me faz chegar mais perto da ponta da pedra, ele abre os braços, joga a cabeça pra trás e fecha os olhos sorrindo – Sente isso? Nenhum lugar do mundo me faz sentir isso
— Então você já foi em todos os lugares do mundo? – ele ri.
— Nem todos, mas eu já andei por aí e esse ainda é o meu lugar preferido – ele abre os olhos e me olha, eu sorrio e me sento.
— Eu posso entender o porquê – observo o lugar, ele se senta ao meu lado e ficamos apenas absorvendo o som da natureza e apreciando a paisagem.
— Primeira vez que eu vim aqui eu tinha uns 15 anos! Eu e o Lucas íamos direto pra cachoeira que tem do outro lado, onde o pessoal tá indo fazer a trilha, até que um dia, andando por aqui, descobrimos esse lugar – ele relembra com um sorriso nostálgico – Nós combinamos de só mostrar esse lugar pra quem merecesse
— Então eu sou uma merecedora? – ele me olha por alguns segundos.
— Você ficaria surpresa com o quanto – ele fala e então num movimento rápido está em pé na minha frente me oferecendo a mão – Quer descer? – ele aponta pra uma pedra mais baixa que fica bem próxima a agua, aceito sua mão e ele me ajuda a descer sem acabar caindo – Que tal um mergulho? – ele pergunta animado.
— Eu acho que não vim preparada pra isso – abro ligeiramente os braços.
— Isso é uma pena por que vim num lugar assim e não entrar é realmente um desperdício – eu já ia responder quando ele simplesmente tira a camisa e joga em outra pedra próxima a nós, então tira o tênis e a bermuda, ficando apenas com uma sunga preta – É uma pena mesmo – então se joga na agua, espirrando um pouco de agua em mim, eu fico parada olhando pra ele que mergulha fundo, como a agua é transparente consigo ver perfeitamente, ele se afasta um pouco e então submerge com um sorriso – A água tá ótima – ele sorri e afunda novamente, eu avalio alguns segundos e então tiro meu tênis, em seguida tiro o short, ele já me viu de calcinha hoje então não é novidade nenhuma, além do mais seria como eu estar de biquíni, por isso tiro a regata e deixo junto com minhas coisas antes de pular na agua também, no fundo abro os olhos e os peixes coloridos estão passando por mim, eu submerjo próxima a ele que está sorrindo satisfeito.
— É, seria um desperdício – ele sorri e mergulha, nós ficamos um tempo na agua, ele me mostra alguns dos peixes que ele conhece, fazemos uma pequena aposta de quem consegue ficar mais tempo debaixo da agua, rimos por que eu me assusto toda hora que alguma coisa encosta em mim e então concordamos em pegar um pouco de sol, ele me ajuda a subir em uma pedra, eu me sento e espero ele, então ele sobe na minha frente, o corpo molhado e malhado, não tanto quanto o do Vinny, mas um belo corpo, ele tem uma cicatriz no peito, como de um corte.
— Isso é uma boa história – ele fala apontando pra cicatriz – Eu tinha uns 11 anos e tinha uma garota na minha sala que eu era completamente louco, tipo, eu tinha certeza que ela era o amor da minha vida, mas claro que ela nem olhava na minha cara, por isso tudo que eu podia fazer pra chamar a atenção dela eu fazia... Então um dia nós estávamos no parque que tinha na escola, ela queria ir no balanço e estava com as amigas dela mas todas se recusaram a empurrar ela, então óbvio que eu me ofereci, ela aceitou sorrindo e eu fui todo bobo empurrar ela, estava tudo indo muito bem, até que ela pediu pra ir mais alto e mais alto e eu me empenhei o máximo que pude, consegui e ela estava lá rindo toda animada, quando eu simplesmente me distrai por dois segundos e quando percebi estava deitado no chão, com todo mundo em volta de mim e meu peito sangrando, a professora veio e então levantou minha blusa... Na hora que o balanço voltou bateu no meu peito e deu um corte, eu tive que ser levado pra enfermaria, depois minha mãe chegou totalmente desesperada e eu fui pra emergência do Hospital, levei dois pontos, mas... Ganhei um beijo da garota – ele sorri orgulhoso.
— Então literalmente ela deixou uma marca em você – ele solta uma risada alta e eu acabo rindo junto com ele.
— Parece que sim! E você? Aposto que essa aí é uma história melhor que a minha – ele pergunta com um sorriso curioso, enquanto aponta para a cicatriz na altura das minhas costelas.
— Com certeza sua história é melhor – falo tentando soar o mais natural possível.
— Bom, eu adoraria ouvir pra poder julgar – ele abraça as pernas e me olha curioso, eu penso em mudar de assunto, em fazer alguma piada ou simplesmente dizer que não quero falar sobre isso, mas eu preciso falar, preciso que ele saiba exatamente o que está acontecendo aqui e se quero mesmo deixar claro que não posso entrar em relacionamento talvez a verdade o faça entender o por quê, por isso mesmo correndo o risco de estragar o dia dele decido contar a verdade.
— Foi um acidente de carro – ele me olha parecendo impressionado – Eu estava indo pra uma festa, comemoração da aprovação na Universidade... Eu estava com meu namorado voltando da casa dos avós dele e um carro bateu na gente... O outro cara tava fazendo um racha e nos acertou... Ele já tinha acertado um carro antes...
— Quando foi isso? – eu respiro fundo, olho mais uma vez em volta, mas quando olho novamente pra ele, sei que ele já sabe a resposta, mesmo assim me obrigo a falar.
— 4 de janeiro de 2013 – a resposta tem efeito imediato, seus olhos se arregalam e ele parece ter ouvido algo surreal, me olha como se nada disso fizesse sentido e eu sei exatamente como é sentir isso – Eu também não sabia, só quando você me contou naquele dia que eu soube...
— Isso é...
— Inacreditável, eu sei – falo e ele mal consegue fazer um aceno com a cabeça – Na época eu não procurei por nenhuma outra notícia
— Ele morreu, não morreu? Seu namorado! O garoto do segundo carro, ele também está morto, não está? – eu concordo com a cabeça.
— Ele morreu três dias depois, no hospital.
— Eu sinto muito – ele estica a mão e toca meu ombro, numa reação que deveria ser reconfortante, mas acaba parecendo estranha demais, mesmo assim agradeço.
— E eu sinto muito pelos seus pais – ficamos alguns segundos apenas nos olhando sem dizer nada – Eu não queria estragar seu dia nem nada, eu só... Eu não podia esconder isso ou mentir pra você, sinto muito
— Isso não é culpa sua e... – ele respira fundo e olha pra mim – Obrigado por ter contado
— É parte da sua história também, eu não podia te esconder algo assim – eu falo e estranhamente ele sorri.
— Eu tinha esquecido como é isso...
— Isso o quê?
— Alguém não me esconder algo por que acha que eu vou pirar ou fazer alguma besteira, sei lá – ele fala e eu acabo sorrindo.
— É, eu sei bem como é isso, perdi a conta de quantas vezes fizeram isso comigo... É como se tivessem me colocado num quarto escuro pra me proteger ou talvez estivessem com medo que eu me machucasse...
— Só que o que eles não entendem é que é no escuro que você mais se machuca, por que você simplesmente não sabe pra onde ir e acaba batendo em tudo – as palavras dele completam exatamente o que eu estava pensando e como eu me sentia, é quase como se ele tivesse lido meus pensamentos, por um segundo realmente considero essa opção mas balanço a cabeça me chamando pra realidade – Eu também não sabia que você... Era você! Quer dizer, eu sabia do acidente, do outro carro... Do seu carro – ele se conserta – Só não sabia que a garota que sobreviveu era você.
— É, eu... Sobrevivi – levanto os ombros sem ânimo nenhum, ele percebe e então sua mão encontra a minha.
— Eu fico feliz que sim – por mais que eu goste dele ou que a conversa esteja me fazendo bem, eu puxo minha mão, tirando-a debaixo da dele.
— O outro motivo pra eu ter te contado é por que eu preciso que você entenda que isso não vai dar certo, não tem como – eu dou de ombros – Eu não quero ter um relacionamento agora, eu... Eu nem sei se ainda consigo ter um algum dia.
— Eu entendo, mas...
— Eu realmente não posso fazer isso, eu sinto muito, eu nunca quis te dar nenhuma esperança ou brincar com você, aquele beijo, ele foi...
— Um erro? – ele pergunta e percebo que está um pouco magoado.
— Não foi um erro, eu só não estava pensando direito e isso não vai acontecer de novo
— Por que não?
— Por que eu não posso, eu não consigo olhar pra ninguém desse jeito... Eu ainda amo o Felipe e eu vou amar pro resto da minha vida, não importa o quanto ela ainda dure.
— Eu nunca te pediria pra deixar de amá-lo, mesmo se isso fosse possível – ele me olha de forma compreensiva – Dani, nós temos uma história, temos um passado e algumas coisas nunca se vão, eu sei disso, eu entendo, de verdade, só que eu estou disposto a tentar, a correr o risco... – eu fecho os olhos querendo sumir, simplesmente desaparecer agora, eu não quero estar aqui, não quero ouvir o que ele quer dizer, não quero sentir o que estou sentindo agora, não quero abrir os olhos e olhar pra ele de novo, só quero que tudo isso acabe, mas ao invés disso sinto o toque no meu rosto, meu corpo se congela, como se tivesse entrado em modo de economia de energia minha respiração diminui, meus batimentos parecem se embaralhar e o som ecoa nos meus ouvidos, eu sinto o sangue correndo nas minhas veias e então sinto o calor dele tão próximo a mim que faz meus pêlos se arrepiarem – Por que eu já estou apaixonado por você – a voz é rouca, baixa e quando abro os olhos ele está a poucos centímetros do meu rosto, sua boca na direção da minha, seu olhar esperando pelo meu e antes que eu pudesse formar qualquer resposta ele junta nossas bocas, o que parecia impossível acontece, meu coração dispara ainda mais, como se estivesse a ponto de escapar pela minha boca, mas ela está ocupada com os lábios dele, eles se movem sentindo minha boca, o toque nas minhas costas me faz arrepiar novamente, os dedos escorregam por ela e apertam minha cintura, enquanto a outra mão se encaixa na minha nuca, meus lábios se entreabrem e os dele tomam posição, sua língua invade minha boca e enquanto minha mente grita com toda força pra que eu o empurre, que eu desvie ou que eu faça qualquer coisa que pare isso, cada célula do meu corpo pede por isso, pede por mais dele, por mais de todas essas sensações que estão aumentando, então quando eu percebo já estou com minha mão na nuca dele e o beijo tentando saciar todo esse desejo que meu corpo está, a boca dele é quase que um complemento da minha mesma, sinto seus dedos se enrolando no meu cabelo e isso me faz sorrir, sinto o sorriso dele também e o beijo fica ainda mais forte, como se já não fosse mais o suficiente, as mãos dele vão pra minha cintura e me puxam ainda mais pra ele, eu me sento no colo dele e seguro o rosto dele com as minhas duas mãos, enquanto sinto suas mãos subindo e descendo pela minha coxa, os dentes dele seguram meu lábio e novamente sinto o sorriso na sua boca e é então que eu abro os olhos e quando eu o vejo sinto o quanto isso é errado, ele sorri, mas logo fecha o sorriso quando saio do colo dele, eu esfrego meu rosto tentando entender o que acabou de acontecer, meu coração agora está disparado mas eu puxo minhas roupas que estão na pedra e escorrego quando tento sair rápido, me recupero e saio correndo.