Superando Você
1 Capítulo 1
Frank sentia o suor pingando do seu corpo todo. Tocava a guitarra com toda a sua energia, se concentrando para não ter sua atenção desviada.... por ele. Mas era inevitável. Gerard sempre vinha até ele como um gato, e insistia em se esfregar de qualquer maneira no guitarrista. Frank era profissional, mas apenas esse profissionalismo, junto a muita força de vontade, o impediam de errar todas as notas quando sentia a boca do vocalista no seu pescoço. Sua respiração ofegante na sua nuca, o tom de sua voz ecoando em sua cabeça, suas mãos percorrendo o corpo do mais novo, da forma mais sensual possível, era mais do que qualquer ser humano poderia aguentar.
Então ele olhava naqueles olhos verdes, sabendo que o seu próprio olhar exalava súplica, esperando que Gerard respondesse com algo mais que promessas silenciosas, mas então o vocalista apenas cantava, voltando a se concentrar no publico. E nessas horas, Frank odiava Gerard.
Eles estavam num balé macabro desde que se conheceram. A tensão sexual era óbvia, assim como a atração, mas os dois não agiam por uma simples e nobre razão: a amizade. Mesmo que não tenham admitido pra ninguém que se gostam, subconscientemente Frank e Gerard não tomavam o próximo passo por medo.
E Frank odiava essa situação. Odiava não ter a coragem de falar, odiava que Gerard também não falasse o que sentia. Não queria cobrar nada do outro, só queria poder tocá-lo fora dos palcos também. Ao o ver, sempre que conversavam, suas mãos se enrijeciam em suas próprias pernas, na tentativa de não atacar o corpo do outro, comprimia seu corpo para que seus lábios não colidissem, sentia dor por dentro de não poder tê-lo, mas sabia que não era o único a se sentir assim. Nada ficava exposto, mas ele sabia que Gerard sofria tanto quanto ele.
Então eles brincavam. Falavam que era apenas no palco, que era culpa da bebida, que não era sério. Mesmo que no fundo um esperava as palavras certas do outro. Se corroíam por dentro por ter que brincar assim com seus próprios sentimentos, mas o medo da rejeição de ambas as partes os assombravam. Frank sabia que não rejeitaria o outro, e Gerard sabia que nunca rejeitaria o guitarrista, mas só saber não mudava muito a situação, já que nenhum dos dois proferia o que sentiam.
Nesse dia, Frank se encontrou depois do show encarando Gerard, sem ter consciência disso. Observava e pensava. Estava cansado daquilo. Cansado daquele balé desgraçado, cansado da lerdeza de Gerard, e ainda mais da sua própria. Precisava falar com alguém, precisava desabafar, mas ninguém parecia ser certo o bastante, ninguém além de Mikey. Sempre que tinha algo em sua cabeça que o atormentava, procurava o guitarrista, e o outro o ouvia sempre que podia. Não era mais amigo de Mikey do que de Gerard, mas este era a ultima pessoa que queria conversar sobre esse assunto. O viu passando pela sua frente e o chamou:
— Mikey, eu vou ser direto.
— Tem que ser agora? – o outro falou, tirando o cabelo suado dos olhos.
— É, tem. Eu e o seu irmão...
— Ah.
— Poisé. Você acha que eu devo continuar esperando ele....
— Frankie, eu.....
— Seja honesto.
— Se você não fizer algo, ele não vai fazer. – o Way caçula falou um pouco rápido demais. Eles estavam conversando na lateral do palco, meio escondidos. Frank assentiu e abaixou a cabeça.
— Certo.
— Porque você não vai falar com ele? – Mikey falou, exasperado.
— Porque eu o conheço. Ele vai me rejeitar. – Frank falou de modo fatídico e foi embora para o camarim.
Ele tinha a seguinte lógica: Gerard acreditava piamente que se houvesse algo entre eles, a amizade estaria condenada automaticamente. Frank sabia disso porque o próprio Gerard já tinha deixado escapar algumas marcações sutis sobre perda de amizade, e experiências amorosas frustradas. Fora o suficiente para Frank saber que agir primeiro não era uma boa ideia. Mas esperar que o outro o fizesse estava se tornando cada vez mais difícil.
Depois que falou com Mikey, Frank não falou muito mais. Seguiu sozinho para o hotel, mudou de roupa, e foi direto para o bar mais próximo. Sabia que não era uma boa ideia, por causa de Gerard e tudo mais, mas francamente, ele estava cansado de viver em função dele. Pelo menos nesta noite.
O bar era sujo, fedido e desagradável, como ele se lembrava que bares eram. Mas nessa noite ele só tinha uma coisa em mente: deletar qualquer traço de Gerard da sua mente. Custasse o que custasse. Música brega invadia seus ouvidos, e uma névoa de fumaça pairava no ar o cegando levemente. Havia vários bêbados comuns, caipiras sujos e imundos, e até alguns roadies. Escaneou o lugar com os olhos até encontrar um rosto familiar: Brian, o empresário deles. Frank foi até ele.
— Você não devia estar aqui. – falou. Brian respondeu sem o olhar enquanto bebia cerveja.
— Nem você. – e então o encarou. Frank olhou os olhos azul-piscina do empresário e se perguntou como nunca tinha notado aqueles olhos. Talvez fosse porque passou tempo demais distraído com outros verde-mel.... Fugiu de seus pensamentos com a voz do outro.
— Algum motivo especial?
— A vida. – Frank suspirou pesadamente e Brian só riu.
— Então vamos brindar à vida, e no quanto ela é uma merda.
Frank sorriu e pediu uma cerveja. Eles brindaram e esvaziaram seus copos de uma vez. Aparentemente os dois estavam precisando de uma fuga da realidade. Então continuaram pedindo mais e mais álcool durante a noite.
Não conversavam muito enquanto se embebedavam. Algumas poucas palavras eram suficientes. E é claro, a voz que sempre pedia mais uma rodada de cerveja. Não a misturaram outras bebidas mais fortes. O prazer de se embebedar naquela noite, pelo menos para Frank, era apreciar cada segundo da fuga de sua própria mente. Cada segundo sem pensar em Gerard, e em quanto era frustrante não tê-lo, quase se igualava ao sentimento de poder tê-lo realmente. E a cada copo vazio que se enchia novamente, Frank se desprendia mais e mais de seus pensamentos absurdos e desejos inatingíveis.
Algumas horas se passaram, e o nível de álcool no sangue de Frank já era o suficiente para ele começar a encarar os olhos azuis a sua frente sem um pingo de remorso. Brian parecia não suspeitar que o guitarrista o encarava, até que se virou para perguntar se Frank estava inclinado a mais uma rodada. A pergunta lhe fugiu a mente ao notar que o mais novo nem piscava.
— Frank, você ta bem? – a voz do empresário ecoou em sua cabeça até que ele enfim acordou de seu transe.
— Uh... to sim... pensando só... – o guitarrista notou quanto tempo havia encarado Brian, então suas ultimas palavras foram direcionadas ao seu copo parcialmente vazio.
— Ah... sim... – o empresário olhou em volta como se procurasse por algo — Mais uma rodada? – Brian tentou mudar o assunto ao notar que Frank não conseguia mais lhe encarar.
— Sim, sim... – Frank respondeu um pouco rápido demais.
E assim ficaram por mais alguns minutos, até que Brian novamente quebrou o silencio.
— Frank... uh... me responde, você estava pensando no que?
— Já disse... na vida... – o mais novo respondeu, sem tirar os olhos do copo, já devidamente reabastecido.
— Mas... ah, esquece... – o empresário sacudiu a cabeça, tomando mais um gole de sua bebida.
Frank agradeceu silenciosamente por não ter que conversar sobre isso, já que o que pensava seria estranhamente embaraçoso de ser discutido. Levantou-se do balcão cambaleando até que tropeçou no próprio pé, tendo que se apoiar no ombro do empresário para não cair. O mais velho o olhou e riu.
— Acho que já ta bom por hoje pra você, Frank.
— Que nada, eu só ia ao banheiro... – Frank tentou se esquivar das mãos que seguravam seus ombros, e que lhe impediam de cair.
— Não vai beber mais porra nenhuma... vou te levar pro teu quarto agora.
Frank iria discutir, se sua cabeça não latejasse tanto, e se conseguisse se equilibrar em pé. As mãos em seus ombros desceram para a sua cintura e ele se arrepiou levemente pela fricção. Algo que o empresário não pôde deixar de notar, mas resolveu não comentar nada naquela hora, até porque pelo estado do outro, nada coerente sairia de sua boca. Iam apoiados um no outro, Frank praticamente debruçado no empresário, até que chegaram a porta de seu quarto.
— Frank, cadê a sua chave? – Brian falou, encostando Frank na parede para poder respirar um pouco. O guitarrista era pequeno, mas nem um pouco leve.
— Na... no... – Frank gaguejou. Ele não fazia ideia nem de onde ela estava.
O mais velho sacudiu a cabeça mais uma vez e esticou a mão para ir de encontro ao bolso da calça jeans do outro. Frank se surpreendeu com a atitude de Brian, que já procurava a sua chave dentro do seu bolso traseiro. A mão do empresário se encaixou firmemente no formato de sua bunda coberta pelos jeans, o que não faria muita diferença caso ela estivesse descoberta, devido à finura e o quão apertada a sua calça era. Seus corpos estavam separados por milímetros, as costas de Frank sendo levemente pressionadas contra a parede. Brian levantou o rosto a tempo de ver que o guitarrista novamente o encarava. Retirou as chaves do bolso do outro devagar, se afastando com a mesma velocidade. Abriu a porta enquanto Frank havia ficado na mesma posição, só que agora os olhos do guitarrista estavam perdidos em algum lugar que Brian não pôde descobrir.
— Frank?
Acordou novamente de seus pensamentos, com a voz do outro dentro de sua cabeça. Olhou para o empresário e sorriu. Se aproximou dele, novamente encarando seus olhos. Apoiou a sua mão direita na porta aberta atrás do empresário, seu braço ficando esticado paralelamente a cabeça do outro, e posicionou sua outra mão no pescoço do mais velho. Brian engoliu em seco, mas também encarava os olhos cor de mel de Frank. O guitarrista respirava pesadamente, fazendo com que seus corpos se encontrassem eventualmente, devido a pouca distancia entre eles. Frank brincava com a sua própria língua no canto de sua boca, seus olhos agora focalizando a boca de Brian. Este então se pegou levantando suas mãos até cintura do outro, o puxando mais para perto em seguida, fazendo seus corpos colidirem. Riu de lado, pegando a mão que se encontrava apoiada levemente em sua garganta, e puxando Frank para dentro do quarto, fechando a porta atrás de si.
Algo que não notaram foi um par de olhos verde-oliva lacrimejados encarando-os na escuridão do corredor à frente do quarto de Frank. Gerard secou os olhos rapidamente antes que qualquer lagrima caísse, e se transformasse em um choro por alguém que não valia a pena.
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