SuperHero
15 Capítulo 14 - Acorda, pequena
Notas iniciais
Elsa abre seus olhos bem lentamente. A luz os machuca, mas nada muito forte. Ela não se lembrava muito bem do que havia acontecido. As últimas horas eram um borrão indistinguível. Ela se lembrava de dor. E da urgência de um assunto...
—acho que ela está acordando... – ela ouve uma voz um tanto familiar dizendo.
Ela então abre os olhos de uma única vez, assustada, se lembrando de tudo. A câmara, Fada sendo atacada, a luz! Ela poderia ter se machucado!
—Fada! – Elsa grita. –Fada, não! – ela tenta se levantar, mas algo a impede.
Ela se vê presa.
A cama onde estava deitada era confortável, macia, quente, todo o ambiente onde ela estava era quente, mas por algum motivo o calor estava a enojando, ela estava passando mal, zonza, com vontade de vomitar, e sua intuição – normalmente correta – lhe dizia que era por causa do calor. Não deveria passar de vinte e cinco graus ali, mas ela sentia como se fossem sessenta. E pior, suas mãos estavam amarradas. Não, não amarradas, estavam presas dentro de luvas de ferro, acorrentadas à cama para impedi-la de e levantar.
—senhorita Elsa? – um velhinho grandalhão e de olhos gentis entrou no quarto onde ela estava.
—Fada! Ela vai se ferir! A sombra, e a luz! E-eu me queimei em algum lugar, não posso mais esperar! Me deixa sair! Eu quero sair! – ela se debatia, tentando se libertar. – POR QUE ESTÁ TÃO QUENTE AQUI?!
—acalme-se, por favor, acalme-se! – o velhinho pôs uma mão na testa dela, ação que a acalmou imediatamente.
—Fada... Ela vai...
—eu estou bem, Elsa. – Fada disse, entrando no quarto.
—Fada! – Elsa sorriu, aliviada.
Mas a mulher que entrou no quarto não era uma super-heroína. Ela era meramente uma menina, não deveria ter mais de 23 anos, assim como ela. Era baixinha com seus um metro e cinquenta e três, tinha cabelos coloridos, rebeldes e curtíssimos, pele terracota como a dos povos árabes, olhos castanhos discretamente rosados e usava um vestido colado ao corpo e curtíssimo por baixo de um jaleco de dentista branco, além de estar andando normalmente em cima de saltos scarpan vermelhos e provocativos. Ela sorria de maneira tristonha e preocupada.
—Fada...?
—Tathiana. – ela disse, fitando o chão. – se quiser, me chama de Tati. Eu gosto. – ela olha para as correntes, e seu sorriso evapora. – isso é realmente necessário?
Elsa olha para as correntes também, e uma voz de fora responde, uma voz que por algum motivo lhe dá uma raiva imensa e primordial de ouvir.
—mas é claro. – um homem de seus trinta e cinco anos entra, seus cabelos cinzentos, que à distância podiam ser confundidos com grisalhos, usando um terno cinza-creme da mesma cor de seus cabelos e com olhos alaranjados. – para nossa proteção, mas principalmente pela dela! Não queremos espetinho de blogueira, queremos? – ele disse, um sorriso maldoso surgindo no canto de sua boca.
Elsa se sentiu confusa e irritada com o homem, e sequer sabia o porquê.
—quem são vocês? O que estou fazendo aqui? – ela pergunta, à beira das lágrimas. – por que diabos está tão quente? NÃO DÁ PRA DESLIGAR A PORRA DO AQUECEDOR? TÁ FAZENDO UM CALOR DE SETENTA GRAUS!
—Elsa... – Tathiana mostra o termostato. – está ajustado pra vinte graus.
Elsa entra em pânico internamente.
—o que... O que está acontecendo? – ela pergunta, extremamente assustada.
—escute, minha criança. – o velhinho diz, segurando uma chave. – eu vou te soltar, mas você precisa jurar que não vai entrar em pânico.
Elsa não entendeu por que entraria em pânico, mas concordou. Ele soltou as correntes e abriu a fechadura das luvas de ferro. E o que ela viu certamente a deixou em pânico.
Suas mãos estavam completamente congeladas. Estavam pálidas, mais brancas do que o normal, e seus dedos estavam todos azuis. Elsa podia ver os pequenos flocos e ramificações do gelo onde suas unhas se tornaram transparentes. Havia uma névoa de frio saindo delas, indicando baixíssima temperatura. Ainda congeladas, sua sensibilidade não havia sido afetada. Era como se tivessem aplicado uma textura em suas mãos – tudo continuasse o mesmo, menos a aparência. Ela tocou as próprias mãos. Estavam, para ela, na temperatura normal.
—e não toque em nada. Já temos gelo o bastante por aqui. – o homem de cabelos cinzentos diz, sarcástico.
Elsa perde a paciência com ele. Suas mãos começam a formigar, a raiva tomando conta dela. Ela, mesmo sendo uma moça educada e com suas emoções sob controle, perdeu o controle. Levantou determinada, e ninguém conseguiu pará-la.
—escute aqui, seu merdinha...— ela diz, agitando suas mãos congeladas na frente dela, na direção dele.
Então, o impossível aconteceu. Foi como se sua raiva tivesse, literalmente, escorrido por seus dedos como água, e se materializado em sua frente como gelo. Estacas da grossura de troncos de árvores, afiadas como agulhas nas pontas, por pouco não empalam o homem de cabelos cinzentos, que, como quem espera aquela reação, desviou por muito pouco, e quando viu que estava seguro, sorriu abertamente.
—perfeito.— ele diz, misteriosamente.
—Edmund! Isso não era necessário! – Tathiana diz, correndo e se prostrando na frente de Elsa, como se ela fosse aquela que precisasse de proteção.
Por algum motivo, Elsa não estava em pânico com o que acabara de fazer. Na verdade, estava aliviada, como se estivesse prendendo aquilo por... Quatorze anos.
—tá brincando?! – ele se levanta, ajeitando a gravata. – acha mesmo que teria o mesmo efeito se eu a fizesse rir?! Elsa é uma Rainha, Tati. Isso é inegável. Uma natural! Há quanto tempo nós não ouvimos de algo assim?!
—se ela estava selada, havia um bom motivo! Ela merece ter uma vida normal! – Tathiana diz, examinando Elsa como se ela fosse de porcelana. – Homem na Lua me deu uma missão, e eu não vou falhar. Mas essa missão seria bem mais fácil se você parasse de PRESSIONAR O MALDITO DOM!
—wow, ela está irritadinha. – Edmund disse, o sorriso malicioso de canto de boca se transformando em um sorriso torto que lhe caía muito bem, dando-lhe um ar maduro e sedutor. – calma, fadinha. Não é como se ela fosse feita de vidro. Sabe que se ela quisesse, poderia transformar a todos nós em marionetes de gelo. Subjugar a cidade inteira em uma noite, quem dirá com ajuda!
—o que querem dizer? – Elsa finalmente sai da mudez.
Todos, subitamente, se viram para ela, como se tivessem esquecido que ela estava ali. Tati suspira.
—e agora? – ela pergunta, temendo por Elsa.
—agora? – Edmund diz, aproximando-se dela com muito cuidado, como se a temesse profundamente. – agora você luta.
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—COMO ASSIM VOCÊ NÃO SABE ONDE ELA TÁ?!
—ai, não grita, mala sem alça! – Anna diz, tapando os ouvidos com as mãos. – por que você tem mania de repetir em gritos tudo o que eu acabo de dizer?
Os quatro amigos se reuniram no café onde Anna trabalha um pouco depois do expediente, Kristoff na cozinha, apenas observando à distância, pronto para proteger Anna se necessário.
—escuta, a Fada do Dente apareceu com ela no colo, dormindo. Ela tava meio alucinando com gelo e luzes, e tava parecendo meio drogada, mas tava bem. Tinha umas manchinhas estanhas na pele, mas sumiram depois de um tempo. O ar em volta dela tava meio gelado, como com você, tá? Fada disse que ela precisava de proteção porque agora todo mundo iria atrás dela, eu não entendi metade do que ela disse. Mas o que eu entendi foi: ela está em um lugar seguro agora.
Jack está à beira do desespero.
—eu deveria ter tomado conta dela, se não fosse por mim...
—ow. Para. – Punzie diz, pondo uma mão no braço dele, tirando as mãos frias dele de sua cabeça e tomando-as em suas próprias, quentes e confortáveis. – não é culpa sua. Escuta: nós vamos achar a Elsa, e quando acharmos, nós vamos leva-la pra casa. – ela se vira para Anna. – e você vai junto.
Jack apenas encara suas mãos dadas com olhos mortos.
—como assim? – Anna diz. – minha casa fica a um quarteirão daqui. Literalmente.
—não Anna. – Jack diz, fechando os olhos, apoiando a testa no ombro de Punzie, tentando não chorar. – sua casa fica a um oceano de distância daqui. Seu lugar é na Noruega, de onde nenhuma de vocês duas jamais deveriam ter saído.
—como?! Não! – Anna diz, batendo com ambas as mãos na mesa. – eu não vou sair de Guardian City, e Elsa não vai a lugar nenhum também!
—Anna, é para o seu próprio bem. – Mérida diz, acariciando as próprias asas, doloridas de tanto procurar por Elsa pela cidade. – você e Elsa nunca estarão seguras enquanto a Gangue do Pesadelo não for varrida da cidade. Depois disso, ainda vão sobrar os Guardiões, que por mais que tenham intenções nobres, ainda estão a mando do Homem na Lua, que só quer ver o circo pegar fogo!
—e como vocês podem saber?! – Anna diz, à beira das lágrimas, levantando-se. – não tem como vocês saberem.
—nós sabemos porque já ficamos a comando dele também, Anna. – Richard diz, a cabeça baixa. – passei doze anos escondido em uma oficina, e meu amigo também. Se agora eu posso sair de casa, é porque eu finalmente me libertei dele. Se banguela finalmente pode voar de novo, é porque nós estamos livres.
Anna nega com a cabeça.
—eu não... – ela olha para Kristoff, lavando a louça com fones de ouvido, só para fingir mesmo, pois ela sabia que ele estava prestando atenção a cada palavra dita. – não posso, não posso ir. Eu tenho uma vida aqui...
—então nos dê um prazo. – Jack diz, finalmente arranjando forças para se levantar do abraço silencioso de Punzie. – um prazo para limparmos esse lugar. Vamos ser vistos como os vilões, mas isso não importa. Nem você nem Elsa vão pôr os pés nesse lugar antes de ser seguro. Não no meu turno.
Anna desiste.
—te dou três meses. Depois de acharmos Elsa. Depois disso, nós vamos voltar, e vamos ajudar. Porque eu tenho certeza de que não dá pra acabar com tudo nesse prazo.
—mas dá pra melhorar. – Mérida diz, esticando as asas e derrubando algumas cadeiras e fazendo Kristoff gemer de decepção. – é o bastante.
Todos os seis se entreolham.
—você sabe que Elsa não arreda pé daqui, né? – Kristoff diz, ocupado com as cadeiras. – sabem o que as manchas significam, sabem o que aconteceu.
—Kristoff? – Anna indaga, confusa.
—sabe demais para um civil comum. – Jack diz, desconfiado do loiro grandalhão.
—talvez eu não seja comum. – ele diz, voltando à cozinha.
Anna olha para eles e depois para o amigo, e sai correndo atrás dele. Jack volta a abraçar Punzie, mesmo que o calor o queimasse. Ele precisava de contato, carinho.
—ela vai ficar bem, Jack. Sabe disso.
—eu sei. – ele diz, fechando os olhos, uma lágrima escapando do gesto. – mas ela nunca mais vai me olhar de novo, nem pintado de ouro.
Todos se calaram. O ar estava tenso. Algo estava prestes a acontecer.
Tudo o que bastava era acender o pavio.
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