Super Onze: O Espírito do Futebol
1 Prólogo de uma Aventura
Ah, o não tão agradável ar paulista. Lar da maior concentração urbana encontrada no país, o berço dos times mais fortes do cenário futebolístico com alta concentração de investimento e público. Dito isso, é de se imaginar a facilidade que as jovens promessas têm para se destacar em meio a isso, correto? Na verdade, não é bem assim.
Neste exato momento, uma batalha incessante ocorre em campo com os olhares atentos dos avaliadores dos maiores times da região em esperançosas buscas para encontrar aquele que irá ser um futuro craque. Em um desses confrontos, se encontram dois times duelando, os de colete azul contra os de colete vermelho. Seria mais intenso caso o escaldante sol matinal resolvesse dar as caras no horizonte, estendendo seu brilho em faixas douradas pelo carpete verde do gramado e limitando as jogadas pela rápida exaustão física.
— Vamos, vamos. Não fica aí parado moscando, passa a bola, passa a bola! — instruiu o homem na beira de campo. Para as promessas, se referiam a ele como “professor”, a qual cuidava da preparação das crianças antes das partidas.
A bola se movimenta em ritmos variados. Em um momento, cortava o ar em grande velocidade e interceptada nos pés de habilidosos atacantes, outrora, era jogada rasteira para os pés de excelentes meio campistas. A movimentação variada não impede o fato de que as jogadas não envolvem quase nenhuma cooperação que se espera de um time, seja pelo nervosismo para se destacar ou ausência de entrosamento.
Jogadas elaboradas e individualismo se viu presente em uma das figuras participantes do time de azul. Um vulto de cabelos lisos marrons descendo uma franja única na testa tomou a posse de bola do meia rival, lhe fazendo momentaneamente perder o equilíbrio. Este ultrapassa a marcação dupla através de um toque adiantado rasteiro, inesperado. Ultrapassou o paredão duplo para alcançar a bola, não rápido o suficiente para ter sua posse roubada pelo próprio companheiro de equipe.
A oportunidade dada a ele, desperdiçou. Um chute fora de ângulo para atingir o canto superior esquerdo das redes, desengonçado demais em sua pegada, ou melhor, roubada. A bola beijou a trave em um som agudo reverberando pelo campo, a lançando de encontro com a linha de fora. Uma chance clara deixada de lado pela prepotência do próprio companheiro de time.
— Ei, ei! — O dono da jogada interviu, alcançando o companheiro em passos rápidos. — Por que fez isso? Eu não tinha terminado minha jogada!
A fúria presente no tom de voz do moreno foi habilmente recebida por um riso irônico do rapaz. Esbarrou no ombro do companheiro de colete com certa impaciência e foi embora, deixando o garoto ali com o sangue fervendo.
— Você faz um passe tão longe assim e não quer dar assistência? A gente tem que aproveitar cada oportunidade de tocar na bola — rebateu o rapaz.
Cada um dos integrantes dos coletes azuis busca confrontar os próprios companheiros e o time inimigo em busca da glória, de serem notados pelos representantes dos times profissionais. Cada um carrega dentro de si um sonho, uma meta de vida em ser revelado por algum clube. Qualquer oportunidade perdida significa o fim de uma futura carreira promissora. Cada um joga por si, contra tudo e todos, embora do mesmo time. A coletividade do futebol se respeita naquele espaço de maneira básica, como os passes e lembretes constantes de que você não deve dar um carrinho no participante que usa a mesma cor de colete que você.
Carlos percorreu grandes distâncias pelo campo. Disputou diversas bolas aéreas, não tendo espaço adequado para converter seu êxito com a posse. Marcou em contra ataques, sendo pouco efetivo em roubos, servindo como uma espécie de muro que rebate os chutes dos adversários em suas costas com as mãos entrelaçadas atrás da cintura. Chutou, e chutou muito. Invadiu o espaço adversário pela lateral direita, de onde partia a maioria dos lances que resultaram em ataque no time. Embora os cruzamentos fossem mais presentes, a bola muitas vezes foi vista subindo como um foguete pelos pés de Carlos, carimbando a trave ou voando por cima do gol.
Ao fim do confronto quase amistoso entre ambas as equipes, o resultado final ficou por conta do único gol marcado pelo time de colete azul. Lucas Renan, camisa nove, assistência de Carlos em um cruzamento. Um cabeceio certeiro que fez os representantes se erguerem dos assentos. Certamente receberia inúmeras propostas pelo seu desempenho.
Por fim, o professor reuniu todos os jovens em uma fila horizontal, percorrendo de um canto a outro em passos suaves.
— Um placar magro, mas o suficiente para mostrar para os representantes e olheiros que vocês aí não são pouca merda. Mas, tenho que ser sincero com vocês. Nem todo mundo aqui vai sair com uma oportunidade gigantesca. Alguns vão voltar pra casa e viver a mesma vida de antes e quem sabe se formar no ensino médio.
A lição dura, porém realista ecoa pelo campo agora sem ninguém presente nas arquibancadas. Foi ouvido o som breve da grama sintética esmagada entre os sapatos do professor durante as pausas para respiração.
— Quero parabenizar todos vocês por hoje. Mesmo sem coordenação adequada, jogaram com raça. Espero no futuro ver algum de vocês com a mão no peito e cantando o hino da seleção vestindo amarelo e azul! — concluiu o homem.
As palavras do professor invadiu os ouvidos de Carlos com fervor, reverberando em sua mente para jamais serem esquecidas. Pintou em seu consciente a prioridade do esforço para com o esporte. Naquele instante, Carlos se tornou um artista amador, pintando seu primeiro desenho, esperando pela aprovação dos especialistas, se irão considerar sua obra uma arte, ou simplesmente mais um rabisco entre tantos.
Figurando entre os jovens na saída do estádio, Carlos passou despercebido pela massa de promessas conversando entre si. As expectativas sobre as propostas a serem recebidas se tornou o assunto principal debatido entre eles.
Carlos não foi envolvido. Não desejou aquilo.
Talvez seja pelo fato de terem propositalmente feito entradas duras nele quando estava com a posse de bola anteriormente, ou os empurrões e puxadas de camisa que o levaram ao chão, sem falta. Todos os autores da barbárie agora se encontram rindo casualmente entre si no lado de fora do campo, e o garoto se questionou como as pessoas podem mudar tão rapidamente de personalidade pelo simples fato de pisar fora do campo.
De qualquer maneira, uma buzina foi o suficiente para trazê-lo de volta à realidade. Um carro branco, bem tratado, semi-novo, parado à beira da calçada. O vidro decaiu com som metálico, revelando uma figura adulta de cabelos cacheados caindo como cascata pelos ombros delicados.
— Filhão, eai. Bora pra casa?
A viagem de volta ao conforto do lar foi marcada pelo silêncio absoluto de Carlos. Glória, conhecendo seu amado filho, sabendo de seu falatório desenfreado quando recordava a ideia de participar da peneira, buscou ajustar o retrovisor, tendo a visão clara do rosto emburrado do filho deitado sobre o punho, contemplando a visão de fora do carro.
— Vem cá, correu tudo bem lá? As pessoas, elas te trataram bem? — perguntou Glória, fitando o olhar no retrovisor antes de voltar para frente.
Com temor em seus lábios, Carlos hesitou em falar. Notou como, tão distraído, parou de reparar no nome dos estabelecimentos diversos passando diante de seus olhos, como tinha costume de fazer. Envolto de pensamentos daquela manhã, tudo o que seus olhos enxergam era o cenário distorcido com o deslocamento do carro, um borrão sujo e indecifrável.
Decidiu cortar o silêncio e responder:
— O de sempre. Mas não é como se tivessem falado algo também, pelo menos — esclareceu, corrigindo sua postura.
— Sabe que eu te amo muito, não é? Cabeçudo. Eu não gosto quando você passa por esse tipo de coisa. Sempre te achei talentoso e promissor, sabia? — Glória notou um sorriso tímido se formando em Carlos, o que também lhe fez curvar os lábios. — Ah, qual é. Nem comecei a te puxar o saco. Ainda.
Ele sabia que não era capaz de resistir aos encantos de sua querida mãe, e decidiu se render de uma única vez ao rir baixinho, e o simples ato alegrou o dia da mulher.
— Não, não. A senhora não precisa ficar se preocupando com algo assim Tá tudo bem.
Odiava mentir para a própria mãe.
— Se você me diz, então confio em você. Esse carinha que tá sentado no carro comigo só me dá orgulho, sabia?
Como aquilo doeu no peito do moreno. Preferia ter sofrido mais cinquenta entradas duras ao invés de passar por isso. Estremeceu silenciosamente com a confiança dada de sua mãe, algo que o despedaçou inteiramente por dentro.
Ao fim da viagem, Carlos recolheu sua mochila esportiva e bateu a porta do carro, batendo em retirada para dentro da casa com pressa visível, completamente contra seus hábitos de acompanhar sua mãe no processo de estacionamento na garagem simples. Sua mãe, tadinha, teve que fazer tudo aquilo sozinha.
Quando adentrou a casa, Glória encontrou os meiões e chuteiras jogados sob a entrada da residência. Negou com a cabeça e juntou os calçados, deixou a chave do carro e da porta na mesa ao lado e subiu as escadas. Apesar de viverem em um lar de dois andares, a casa mantém uma arquitetura simplória. O andar de cima era, unicamente, para os quartos, e o restante dos cômodos importantes como cozinha, sala, tudo se encontrava abaixo, separados por arcos sem portas. Se não fosse pelo segundo andar, poderia ser confundido com um chalé velho de alguma senhora de classe média.
Ela alcançou o topo das escadas e andou pelo curto corredor, virando-se para a porta direita e batendo duas vezes com seu punho. Quatro portas, uma para o quarto de Carlos, outra para a Glória. Os outros dois restantes seriam para membros adicionais da família, mas, como são os únicos residentes, improvisaram os dois cômodos como armazém. Acharam melhor não formar um quarto de visitas, já que não eram de fazer amizades com a vizinhança, na realidade, não possuíam amizade com ninguém, e familiares residiam em outros estados com profundo desinteresse em visitas.
Glória adentrou o quarto do filho sem pressa, encontrando-o jogado de qualquer jeito em cima da cama de casal branca com o lençol amarrotado em um canto enquanto contempla o teto.
— Olha, você não pode tirar as chuteiras e jogar elas assim na porta, menino — reclamou. — Cansaço não é desculpa pra bagunça. Vê se arruma esse quarto aí depois, tá um chiqueiro!
A mulher se agachou ao lado do armário próximo da porta, deixando as chuteiras ao chão com as meias enfiadas dentro. Carlos se sentou, bocejando.
— Tá, tá, eu vou arrumar. Só preciso descansar um pouquinho, hoje foi duro — resmungou ele, coçando sua costa por debaixo do tecido da camisa.
Glória lançou um olhar compassivo para o filho. Se aproximou em passos largos e se jogou ao lado dele na cama, o fazendo saltar brevemente pela reverberação do colchão.
— Sabe que eu te amo muito, não é? Meu menininho tá forte e saudável e concorrendo a uma vaga em um time grande. Isso me enche de orgulho, sabia? — Glória conhece seu filho, sabe a insegurança gritando dele mesmo sem admitir.
— Concorrendo uma vírgula — rebateu. — Nem consegui tocar naquela porcaria de bola por mais de dois segundos sem que alguém me roube. Se eu chutei mais de duas vezes, foi um verdadeiro milagre!
Glória riu.
— Tá, tá, não precisa se estressar tanto. Você teve um dia cheio, melhor descansar esse corpinho.
A humildade de sua mãe arrancou um sorriso leve dos lábios do rapaz. Não importa o tamanho da fachada de tristeza e desânimo, sua mãe conseguia quebrar com maestria.
— Não fala corpinho, fica estranho — brincou ele.
Glória se levantou e esticou a coluna para os lados.
— Caraca, eu preciso me exercitar um pouco também. Pareço uma velha de noventa anos! — reclamou.
— A própria Rainha Elizabeth — ironizou Carlos.
Glória revirou os olhos para o filho, bufando.
— Engraçadinho. Mas vê se descansa, tá bom? Vou fazer uma janta para nós. Gosta de bife com feijão?
Se tem uma coisa que certamente espanta todo sentimento depressivo, isso era a janta da mãe. Carlos brilhou os olhos como uma criança pedindo doce, e jurou que babou de anseio.
***
Uma janta boa era o que levantava todo jogador para ter mais energia e continuar seus treinos. Entretanto, para Carlos, o treino em específico era totalmente intelectual: dever de casa. Nunca foi chamado de péssimo aluno e muito menos o exemplar a se seguir de alguém inteligente, entretanto, manter as notas consistentemente positivas alegrava sua mãe e lhe dava paz de espírito. Primeiro ano do ensino médio era uma escolaridade que indicava o teórico amadurecimento dos alunos, pois logo após o ensino fundamental, viriam povoações mais avançadas juntamente com vestibulares, o que era péssimo, na visão de Carlos. Mesmo que ele queira se transformar em um jogador profissional de futebol e se manter vivo com essa renda, ainda era obrigado a seguir os cronogramas de estudos vestibulares obrigatórios.
Uma hora e meia depois de bater cabeça com operações matemáticas avançadas envolvendo fatoriais, ele teve o tão sonhado descanso quando o alarme soou exatamente às 23:30. Guardou os livros de imediato em sua escrivaninha e se jogou na cama. Se encontrou tão exausto mentalmente que nem se atentou em desligar a televisão e simplesmente adormeceu. Sonhou que estava sendo perseguido por zumbis em uma rua sem saída, e, após acordar de solavanco no meio da madrugada, imaginou sua mãe de dois metros de altura o levando no colo em meio a uma estrada, mas no lugar dos carros, eram os jogadores de futebol de base atrapalhando o caminho com carrinhos.
***
Carlos abriu os olhos lentamente com o som do âncora de jornal anunciando o aumento do preço da gasolina. Reconheceu ser o programa da manhã, o que significava que acordou às 07h. Com ódio de si mesmo por não ter aproveitado uma manhã inteira de sono, se levantou da cama batendo os lençóis e andou desorientado para desligar a televisão. Xingou mentalmente quando passou pelo arco de sua porta e encaminhou para o andar de baixo.
O moreno saiu do banheiro alguns minutos depois, coçando os olhos ainda sentindo o gosto de creme dental na boca. Ele pouco se importou com o fato de estar trajando o pijama da seleção brasileira, estava com fome, e a escada sentiu sua ira com cada pisão forte que deu enquanto descia.
— Bom dia — cumprimentou ele para sua mãe com voz sonolenta. Se sentou na mesa e escapou um largo bocejo. Sua visão foi se endireitando aos poucos quando focou na sacola marrom de pão largada na mesa. — Mãe?
Procurou com os olhos perdidos pela cozinha e a localizou sentada na cadeira adiante com uma expressão de alguém que recebeu uma terrível notícia. Seu coração pulou uma batida quando identificou quatro cartas de envelopes coloridos largados à mesa de qualquer jeito. Glória tremia ao ler o papel do envelope amarelo em mãos, completamente abismada.
— Carlos, querido… — começou ela, enxugando uma lágrima solitária de seu olho esquerdo. — Eles não esperaram muito tempo e já foram mandando essas oportunidades para você. Olhe, olhe.
Ela afastou a sacola de pão e empurrou o emaranhado de cartas rasgadas para Carlos, sua expressão começando a transitar entre pura excitação e incredulidade enquanto foi analisando com os olhos cada uma. Ele esperou ansiosamente pelo dia em que seria notado, e justo hoje, quatro clubes o querem…que sorte!
Ele folheou carta por carta, proposta por proposta, e ao fim de sua avaliação, largou os papéis coloridos um do outro na mesa.
Apoiou então as mãos em seu queixo e começou a olhar um por um atentamente. Cada um dos papéis eram de cores próprias representando o time que designou as propostas para o alavancar — ou não — ao mundo esportivo.
São Paulo FC. O time dito como ser o mais forte da área juvenil da região. Conhecido por abrigar grandes talentos que logo sobem para o profissional, praticamente os catapultando para a glória sem muitos esforços. As cores preto, vermelho e branco foram chamativas demais. Não era atoa que eram conhecidos como tricolores.
Igualmente influente no ramo de futebol juvenil, viu a Nebulosa FC na correspondência seguinte. Uma organização esportiva conhecida por ser esnobe e abrigar os jogadores que possuem previamente uma renda alta, e que raramente convidam jovens em situações mais humildes para adentrar no time. Ou seja, era a chance de ouro de Carlos em ser um dos premiados para participar do time de roxo e preto sem a necessidade de ter um terno e gravata tão caros quanto um carro.
Se caso ele precisasse conhecer novos lugares de seu país, a carta de Manaus FC era uma opção tentadora. Embora o time principal dos adultos não fosse um dos mais fortes do país, sua base juvenil era de tirar o fôlego com toda a preparação especializada no desenvolvimento dos jovens jogadores e a tradição do jogo individual e o destaque de craques. Admitiu Carlos que gostou da ideia de viajar para outro estado, mas duvida seriamente se sua mãe teria condições suficientes para arcar com os custos. Enfim, um sonho.
Por último, mas não menos importante, veio uma correspondência simples sem muitos enfeites desnecessários no envelope e nem no papel dentro. Era o chamado time do povo, Arca Dourada FC. Já ouviu falar do time por conta de seu centro de treinamentos ser relativamente perto de onde mora, fazendo com que o nome não seja tão estranho aos seus ouvidos. Quando chegou pela primeira vez à região e fez os primeiros testes na peneira, acreditou que entraria logo de cara naquele clube de amarelo e preto, mas estava redondamente enganado. O time era amado pelo povo da região tanto pelo profissional dos adultos, quanto pelo juvenil devido sua capacidade de aceitar quase todos os tipos de promessas existentes na região. Bem que demoraram muito para notar a existência de Carlos.
De qualquer forma, todas as opções ofereceram algo único, mesmo que poucos detalhes fossem alterados de uma proposta para outra, mas o ânimo de ter enfim algum time interessado em suas habilidades preencheu Carlos por dentro, ainda mais agora que foram quatro de uma única vez, nem em seus melhores sonhos conseguiu pensar em algo tão maravilhoso. Era essa a palavra que define esse momento.
Maravilhoso.
Ele queria dizer o mesmo do rosto de sua mãe quando ela também começou a folhear as cartas uma a uma após ele terminar de ler. Seus olhos foram se movimentando de um lado para outro lendo as propostas descritas nos longos textos, e cada vez que continuava a ler, era como se uma parte de si fosse arrancada, já que sua expressão não era uma das melhores. Foi uma mistura de preocupação e raiva, a julgar pela testa franzida e os lábios finos como um risco tímido em um papel. Glória largou o ar pesado de suas narinas e relaxou na cadeira, jogando a carta do São Paulo FC na mesa.
— Filho, olha — começou ela docemente, mas sem olhar para Carlos. — Eu fico muito feliz que você finalmente está recebendo todo o destaque que merece, mas a gente precisa conversar sobre algo muito, muito importante.
Ela endireitou sua postura na cadeira, encarando o filho como se fosse dar uma notícia realmente trágica. O coração de Carlos palpitou intensamente quando sua mãe começou a encarar ele em segundos agonizantes e intermináveis. Sentiu um alívio quando ela parou de pensar e finalmente decidiu abrir o jogo.
— Acho que não vou poder arcar com os custos da sua carreira se você for entrar em algum desses times — disse ela com total sinceridade. O mundo de Carlos desabou na sua mente. — Eu pensei, de verdade, que alguns deles iam oferecer uma condição boa pra um jogador humilde entrar sem gastar muito, mas não. Teve um desses que deixou em tinta vermelha bem grande que todo o custo de transporte, material e afins seria completa responsabilidade da família do jogador.
Carlos tinha quase certeza de que esse time era a Nebulosa.
— Então… eu sinto muito, mas eu não tenho como tirar muito do meu bolso pra te ajudar. As coisas andam tão apertadas pra mim ultimamente com a mudança e a separação… ainda tenho que me endireitar e cuidar da sua escola, da reforma da casa, do pagamento do advogado. Tô sendo praticamente sugada — Glória baixou os olhos, tristonha. — Não fica bravo comigo, tá? Eu queria muito te ver lá em cima com os melhores fazendo o que você ama.
Se um dia a frustração existiu na mente de Carlos, ela foi devidamente apagada com todo o desabafo feito por sua mãe. Quem ele queria enganar? Os custos de se sustentar um jogador como ele eram caros demais para uma mãe solteira que trabalha meio período e ainda arranja tempo para acompanhar o filho na escola e nos treinos. Não podia culpar ela por ter passado por tantas mudanças na vida e escolher priorizar a sobrevivência neles no lugar de seu sonho, na verdade, não se achou com direito algum de fazer qualquer tipo de crítica sobre o ato dela.
Resignado, inclinou a cabeça, encarando os envelopes jogados de qualquer jeito na mesa. Os olhos estavam bem próximos de uma das cartas, aquela com estética mais simplória e com detalhes de faixas amarelas adornando os contornos do papel. Carlos prestou mais atenção no que havia sido escrito naquela folha, e, em silêncio, começou a ler:
Prezado jogador,
Nossa instituição valoriza profundamente o compromisso com o futebol, um esporte que desperta a paixão de todo o país. Buscamos identificar e desenvolver talentos promissores, ajudando a revelar o potencial de jovens como você.
Reconhecemos, contudo, que as dificuldades financeiras representam um dos maiores desafios para aqueles que aspiram a uma carreira no esporte. Todos os anos, milhares de crianças veem seus sonhos interrompidos por limitações econômicas, o que causa impactos significativos a longo prazo.
Diante do desempenho excepcional que você demonstrou nos testes em campo, temos a satisfação de informar que você foi selecionado para participar de nossa iniciativa especial, a Promoção Relâmpago.
Estamos ansiosos para acompanhar o seu progresso e apoiar o desenvolvimento do craque que existe dentro de você.
Atenciosamente,
Arca Dourada Clube de Futebol.
O que leu despertou um sorriso jamais antes visto no jovem. Ele ergueu o papel rapidamente na direção de sua mãe, que o pegou com suavidade.
— O que foi? — indagou, confusa.
— Só lê!
Os segundos a seguir foram o mais puro suco da ansiedade que o peito do rapaz podia suportar. O coração quase saiu pela boca quando a mãe desviou o olho para ele durante a leitura antes de começar nas letras miúdas. Ao fim daquilo, ela repousou o papel na mesa, apoiando-se nela logo em seguida.
— É um time bem mais humilde do que os outros, mas que de alguma forma tem instalações de alta tecnologia. Eles vão dar um vale transporte com um preço acessível e também um desconto nos seus materiais… sai bem mais em conta pro meu bolso — explicou Glória, temerosa. — Mas…
— Mas o quê? Mãe — Ele ergueu o olhar, encarando-a no fundo da alma. —É meu sonho, e eu não vou deixar isso passar batido!
— Mesmo assim. Não é nem de longe um lugar que você vai ter facilidade pras coisas. Time mais humilde assim costuma dificultar muito pros outros conseguirem crescer — explicou ela. — Esse pessoal da mídia gosta de falar que é assim que jogador novo começa, e é verdade, mas nem de longe é a mesma oportunidade que os outros times vão dar pra você.
Carlos sempre confiou em sua mãe acima de tudo, e pela primeira vez na vida, sentiu vontade de simplesmente passar por cima do conselho dela. Não era apenas uma garota ou um peixe pequeno que o quer, e sim um time inteiro!
— Dentre todos os times, eles me querem por acreditar que sou especial, não é? Poxa, mãe, eu entendo a senhora, mas eu batalhei muito pra conseguir essa oportunidade, e eu só preciso continuar me esforçando, não é? — declarou ele, forçando para não gaguejar. — É meu sonho, sempre foi, e…
Respirou fundo, reunindo toda a coragem do momento em seu pulmão.
— …Eu me garanto!
Talvez não fosse a melhor escolha de palavras, visto a maneira como ela ergueu uma sobrancelha com humor. Cruzando os braços, a mulher relaxou na cadeira, encarando o teto pensativa.
— Tem certeza?
— Ué, claro que sim! — confirmou Carlos, não conseguindo esconder o grande entusiasmo invadindo seu ser.
Mais uma vez a sobrancelha dela levantou. Inclinou o corpo para frente, apoiando as mãos entrelaçadas na mesa enquanto mastigava um chiclete invisível. Quando os olhos dela se encontraram com o filho, sorriu levemente.
— Prepara suas coisas para amanhã, Carlos.
Ele esboçou o maior sorriso de sua vida.
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