Super-Heróis?
35 Novos problemas
Notas iniciais
– Uma proposta? — seu olhar de tédio mudou para um de interesse.
– Garanto que não vai se arrepender de ouvir.
– Fala logo. — ele disse um pouco impaciente.
– É o seguinte, eu sei que você quer sair daqui mais que tudo e eu proponho a fazer com que isso seja possível e ainda te dar uma boa quantia em dinheiro para você ir embora dessa cidade se você contar toda a verdade sobre aquele roubo ao banco, sobre a sua armação. Eu te ajudo e você me ajuda.
Ele pareceu surpreso e ficou em silêncio por algum tempo, mas não demorou muito a falar. — E quem me garante que eu posso confiar em você?
– Bom, isso é um risco que você terá que correr Paulo. Lembre-se de que aqui você não é nada, seus aliados vão simplesmente ignorar a sua existência agora que tudo foi por água a baixo. Você não tem ninguém a quem recorrer ou confiar e essa a sua oportunidade, cabe a você concluir se vale a pena ou não. Não perca essa oportunidade de sei lá, ter a vida que você tanto desejou.
– É, você realmente não poupou as palavras. Fiz tanta coisa e parei aqui, mas eu quero que você saiba que eu não sou o monstro que vocês todos devem pensar que eu sou. Eu só fiz o que fiz por um questão de sobrevivência. Eu não escolhi isso Maria Joaquina, mas eu tive que fazer. Eu fui abandonado por todos, todos. Não houve alguém que se compadecesse de mim. Eu menti quando falei que meus pais morreram em um acidente. Na verdade meu pai descobriu a verdade. E a verdade é que ele não era o meu pai, minha havia traído ele e por isso que ele nunca gostou de mim de verdade, por mais que tentasse, ele nunca conseguiu me amar, me amar como um filho. Ele disse isso um dia com o ódio em seus olhos, e ele explodiu, ele havia suportado tudo, tudo, mas ele descobriu que minha mãe tinha um amante e ele trancou todos nós na casa onde estávamos morando e depois de dizer tudo, de jogar na minha cara que me odeia. Ele...
– Não precisa continuar, olha eu não sabia, sinceramente eu não sabia, eu sinto muito. — ele estava visivelmente abalado.
– Não, eu quero continuar. Eu preciso desabafar com alguém, eu já guardei isso demais e me sufoca. Mesmo com tudo de mal que eu fiz eu nunca consegui curar a dor, o ódio que eu sentia, que eu sinto. Ele me espancou, me bateu com toda a sua força e depois botou fogo na casa, mas por sorte a minha mãe e a Marcelina acharam uma saída e escaparam, eu fui ajudá-lo apesar de tudo, mas não deu, então eu saí sem rumo. É, ele morreu e foi aí que eu virei mendigo numa favela e conheci uns cara que me ajudaram. — algumas lágrimas escapavam do seu rosto — Eles me ofereceram um novo mundo, algo errado, mas tudo de errado que poderia acontecer, aconteceu na minha vida e porque eu não poderia tentar né, eu posso ter feito mal aos outros, mas nada foi comparado ao mal que me fizeram. A dor dos outros me agrada, porque me faz ficar ciente de que não só é eu que tenho uma vida de merda. — ele cuspia as palavras e eu estava chocada, sem saber o que dizer.
– Você sofreu muito sim, mas nem por isso você tem que querer e fazer com que os outros sofram também. Mas está aí a sua oportunidade, você ir pra outro país e tentar recomeçar sua vida, eu realmente te desejo muita sorte Paulo.
– Eu realmente não me importaria em ficar presos sabendo que eles também estariam, mas eu reconheço que vocês foram meus amigos, fizeram parte da minha infância e é justamente por isso que eu vou aceitar a sua proposta. Eu não vou pedir desculpas porque pra ser sincero eu não me arrependo de nada o que eu fiz. Mas em consideração a vocês, ao passado, eu vou fazer a única coisa boa durante esses anos.
Um policial entrou e anunciou que o tempo do Paulo tinha acabado.
– Trato feito Maria Joaquina. Ah e não perca a sua oportunidade de ser feliz, porque existem pessoas que não tem essa oportunidade e dariam tudo, tudo, tudo pra ter. — ele disse saindo junto com o policial.
Três semanas depois...
Terminei de me arrumar, fiz uma trança simples em meu cabelo e vestia um vestido lilás que ia um pouco abaixo do meu joelho. Usava uma maquiagem simples e uma corrente em meu pescoço. Desci as escadas e a Margarida já me esperava, combinei com ela de irmos juntas. Meus pais também iriam. Não demorou muito e minha mãe apareceu na sala acompanhada pelo meu pai. Fomos pro carro, meu pai dirigindo, minha mãe sentada no banco de carona e eu e Margarida no banco de trás conversando.
Chegamos ao tribunal em alguns minutos. Olhei a hora no celular a estávamos atrasados. Entramos na sala e o juiz já tinha dado início ao julgamento.
[...]
O Paulo já tinha revelado toda a verdade, o que causou espanto em alguns. No momento a sessão estava em recesso e o juiz estava conversando com o promotor e as pessoas que avaliavam o caso. Não estava roendo as unhas, apesar de estar muito nervosa, Margarida sim demonstrava estar perto de explodir de ansiedade.
O juiz voltou e sentou-se na cadeira que lhe correspondia. Havia alguns murmúrios das pessoas que ali estavam e então o juiz bateu seu martelo e pediu silêncio. Depois de olhar pra um papel (onde deveria estar a conclusão do caso) ele levantou a cabeça para revelar a sentença.
– Bom esse tribunal declaram os seguintes réus: Alícia Gusman, Carmen Carrilho, Cirilo Rivera, Daniel Zapata, Davi Rabinovich, Jaime Palillo, Jorge Cavalieri, Mário Ayala e Valéria Ferreira inocentes.
Um barulho rondou pelo local das pessoas, inclusive eu, comemorando. O juiz pediu silêncio para continuar a falar.
– Quanto ao réu Paulo Guerra, uma nova sessão será marcada para incluir ainda esse crime né Paulo? Sessão encerrada.
Todos vieram abraçar seus parentes, que eu convenci a vir assistir ao julgamento, mas depois foram levados de volta ao presídio, para que fosse resolvida toda a parte burocrática e eles serem finalmente soltos.
[...]
Estávamos eu, Margarida, Alícia, Carmen e Valéria do lado de fora de onde os meninos estavam presos esperando a hora deles serem soltos. As meninas foram soltas mais cedo e eu e Margarida fomos buscá-las. Passaram dois dias depois do julgamento.
– Eu sinceramente não aguentava mais aquele lugar. Era tudo tão nojento, apesar de que eu fiz algumas amigas.
– Valéria eu não acredito que você fez amizade com criminosas. — Margarida disse e nós rimos.
– Amorzinho lá na cadeia ninguém é criminosa, somos todas inocentes. — Valéria completou.
– Será que vai demorar muito pra abrir. Eu tô louca pra ver o Jaime.
– Só não trepem aqui mesmo quando ele aparecer tá Carmen? — Alícia disse e caímos na gargalhada.
– Ai meninas eu nem acredito que estamos juntas aqui de novo. — puxei-as para um abraço coletivo.
– Vamos parar de melação porque o portão tá abrindo. — Margarida disse, ela é a que mais tava apertada naquele abraço.
Os meninos saíram todos com sorrisos no rosto. As meninas correram para abraçar seus namorados, menos Margarida por questões óbvias, e eu também fui ao encontro do Daniel.
– Tava com saudades. — ele disse no meu ouvido, eu já estava pendurada nele.
– Desculpa por não ter ido de te visitar esses dias, mas eu estava resolvendo umas coisas e esse presídio é um pouco longe.
– Só desculpe se você me der o que eu quero.
– E o que você quer?
– O que eu quero é isso. — ele me puxou pra um beijo abraçando minha cintura, minhas mãos passearam pelo seu cabelo liso bagunçando um pouco.
– Acho que estou sobrando total. — Margarida falou, tínhamos esquecido dela.
– Pois é garotos, a Margarida voltou. — eu disse.
Os meninos cumprimentaram a Margarida e começamos a conversar.
– Eu ainda não entendi o que deu no Paulo pra ele confessar a verdade. — Cirilo falou.
– Eu ofereci a ele um dinheiro e também prometi que ia ajudá-lo a fugir da cadeia. — falei.
– Mas o que? Não acredito que você vai ajudá-lo a fugir e ainda mais dar dinheiro a ele. — Jaime disse indignado.
– Era isso ou vocês estariam presos. Bom, não vamos se chatear com isso, não é mesmo? A diretora Olívia liberou as chaves do antigo apartamento onde morávamos e depois ela quer falar com a gente. Acho que ela vai pedir pra voltarmos a agir na cidade.
– Agora aquela velha gorda quer a nossa ajuda né mesmo? Foda-se ela, como vamos voltar pra cidade? — Jorge perguntou.
– Eu vim dirigindo o carro do meu pai e a Margarida veio com o da mãe, vamos?
Se ajeitamos no carro. Daniel, Mário, Alícia, Cirilo e eu fomos no meu. Daniel conduzia. Jorge, Margarida, Valéria, Davi, Jaime e Carmen foram no outro.
– A Carmen foi no colo no Jaime, aposto que vai rolar ali mesmo.
– Alícia controla essa boca menina. — falei rindo.
– E o Rabito em? Ele está bem? — Mário perguntou.
– Não se preocupe Mário, no primeiro momento eu até me esqueci dele, mas depois lembrei e mandei ele pra um spa de animais onde ele está sendo muito bem tratado. Quando você quiser ir pegar ele é só me pedir o endereço.
Chegamos no apartamento e meu celular começou a tocar. Era Lucas quem estava ligando, atendi.
– Oi Lucas.
– Com quem estou falando? — uma voz estranha perguntou do outro lado da linha.
– Eu sou a Maria Joaquina, amiga do Lucas.
– Somos da polícia e nós estamos tentando localizar um parente ou amigo de Lucas Nogueira.
– O que aconteceu?
– Ele foi encontrado baleado do lado de fora da sua casa.
Fale com o autor