Sunshine and Butterflies
4 Last Minutes Before Midnight
A Princesa da Noite finalmente acordou, lentamente abrindo seus olhos enquanto sentia sua cauda tremular embaixo das cobertas, um sorrisinho tomando seus lábios quando sentiu seu rabo esfregar contra algo macio. Ela se virou na cama, encontrando a sua companheira ainda lá, descansando ao seu lado, seu peito subia e descia lentamente, uma expressão serena em sua bela face.
Luna se sentou e esticou suas pernas dianteiras, soltando um longo bocejo enquanto pensava na noite anterior, enfim satisfeita após ter passado tantos anos na seca superfície da Lua. Com um último suspiro, se inclinou para o lado, deixando um suave beijo na testa de Twilight antes de se levantar, a outra por sua vez sorriu com o beijo e virou para o outro lado puxando algumas das cobertas consigo.
Ela saiu da cama tomando cuidado para que o unicórnio não acordasse e foi ao banheiro. Cinco minutos e uma lavagem de rosto depois, já se sentia revigorada, retornando ao cômodo principal de seu quarto, apenas para ouvir alguém batendo na porta. Com passos leves, Luna foi até a porta e a abriu.
“Luna.” Celestia a chamou assim que abrira a porta, o alicórnio branco estava a olhando de cima para baixo com uma expressão preocupada. “Nós precisamos conversar, e onde está Twilight Sparkle?”
Com um sorrisinho, de certo modo orgulhoso, na cara, a égua azul abriu mais a porta para que assim Celestia visse o pônei púrpura deitado em sua cama, dormindo profundamente.
“Eu acho que ela não irá acordar tão cedo, irmãzinha.” Luna comentou, atravessando a porta e fechando-a logo em seguida.
A Princesa da Luz suspirou fundo enquanto seus olhos rolavam para trás. “Vamos até o meu quarto.”
Sua irmã menor assentiu com a cabeça, tendo dificuldades para esconder a satisfação em seu rosto e manter a seriedade perante a monarca alva.
“Okay irmãzinha, deixe-me tentar abordar esse assunto de uma maneira simples, Twilight Sparkle ainda é uma criança, é a minha aluna, minha protegida, você é uma égua muito mais velha e nem a conhece direito e-”
“Celestia.” Luna a interrompeu. “Você sabe que eu sou centena de anos mais velha do que qualquer pônei desse reino, você também! Eu não entendo o porquê desse discurso, eu achei que você ficaria feliz por mim!”
“Por ter relações com uma potra?” Ela rebateu de imediato.
“Ela não é uma potra! Ela é uma égua adulta, e eu sei disso muito melhor do que você. Minha querida irmã, Twilight cresceu sobre sua tutela, não há nada mais comum do que a ver como uma criança, mas ela não é uma.”
“Ela ainda é muito jovem, Luna.”
“Não! Celestia, o que há com você? Está com medo que eu tire a sua aluna de perto de você?” Outra vez o alicórnio branco poderia jurar que algo havia ocorrido, a pupila de Luna se estreitara novamente enquanto ela lançava suas perguntas à sua irmã. “É isso? Ciúmes? Medo que ela se afaste?!” Mas dessa vez havia algo a mais, a voz de sua amada irmãzinha estava levemente alterada, ela podia sentir como se Nightmare Moon estivesse pronta para tomar conta do corpo de Luna a qualquer momento.
“Pare!” Ela bradou, cerrando seus olhos enquanto seu chifre brilhava pronta para se defender.
Luna ficou em silêncio e recuou alguns passos, se perguntando o que levara Celestia a ficar tão defensiva, era possível ver o seu grande corpo até mesmo tremer. Lentamente, a monarca alva abriu um olho, e depois o outro, juntando-se à sua irmã em sua quietude.
“Irmã, o que aconteceu?” Ela perguntou enquanto Celestia ofegava à sua frente, evitando olhar para sua irmã.
“Nada, eu apenas estou com uma dor de cabeça, todo esse assunto me fez mal…”
A égua azul caminhou silenciosamente de costas até a porta.
“Celetia, seja lá o que aconteceu, me desculpe, eu não queria fazer você se sentir mal, eu só queria ter alguém depois de ter passado tantos anos sozinha.” Com suas orelhas rente à cabeça ela adicionou. “Conversaremos mais quando você se sentir melhor.” E deixou o quarto.
Horrível, tonta e perdida. Era assim que Celestia se sentia, sozinha em seu quarto afogada em sentimentos turvos. Estava confusa quanto à Twilight Sparkle, sempre gostara da menina como uma filha, e sabia que ela já estava crescida o suficiente. Perguntou-se por que lhe perturbava tanto vê-la na cama com sua irmã, estaria ela atraída pelo unicórnio? Não, era um sentimento diferente, talvez Luna estivesse certa. Seu medo era que Twilight trocasse o seu modelo de exemplo, que tomasse o outro alicórnio por tutora.
Aliás, Luna e medo eram palavras que povoavam os mesmos pensamentos da monarca, estava certa de que vira os olhos de Nightmare Moon em sua irmãzinha durante toda a saraivada de questionamentos, incluindo a distorção na voz. Algo estava errado, muito errado, porém fora tais relapsos, sua irmã agia como sempre, e ela parecia ser a única a notar alguma coisa, Twilight, Whiter, Spike e seus guardas, ninguém havia comentado nada sobre essas pequenas mudanças. Não gostava da ideia, mas alguém precisaria ficar de olho em Luna.
Já estava quase anoitecendo, quando Twilight Sparkle correu para seu quarto, seu pelo limpo e ainda aquecido do banho que recém tomara com a princesa antes de deixar seus aposentos. Ao entrar, se deparou com Spike andando em círculos.
“Twilight! Até que enfim, eu estava preocupado, te procurei em todo o lugar, o que aconteceu?” Ele disse espantado.
“Oh Spike, que bonito de sua parte, mas não se preocupe, eu estava segura.” Respondeu, fechando a porta atrás de si antes de caminhar até sua cama e se atirar nela.
“Okay…” Ele comentou, prestando atenção em como Twilight parecia muito mais relaxada e fora do ar do que o comum. “Bem, eu achei que você iria achar interessante, sabe aqueles dois dragões que conhecemos na festa? Elas irão se mudar para Canterlot em alguns dias, e irão abrir uma embaixada! Isso não é fantástico?!”
“É… é mesmo.” Twilight disse, virando-se na cama para abraçar seu travesseiro, soltando um longo suspiro.
Spike acariciou sua própria testa com uma de suas garras, o unicórnio ouviu o barulho da palmada, mas pouco se importou. Ele iria falar com ela depois, quando não estivesse no mundo da Lua.
No outro dia, Luna se dirigiu até a sala na qual Celestia trabalhava a maior parte do tempo.
“Tia? Podemos conversar?” Ela perguntou da porta, entrando assim que Celestia assentiu com a cabeça.
“Luna, se for sobre o que aconteceu ontem, eu gostaria de adiantar que eu sinto muito.” Ela disse, se levantando de sua cadeira e deixando os papéis de lado para que pudesse conversar face a face com sua irmã. “Você tinha razão, eu refleti por um tempo, e cheguei à conclusão de que eu temi que você fosse tirar a minha fiel aprendiz de mim. O que foi tolo de minha parte.”
O alicórnio azul sorriu, viera tratar de assuntos importantes, e esse era o que mais temia, a última coisa que gostaria seria entrar em conflito com sua irmã.
“Então, nós podemos dizer que esse assunto está morto e enterrado?”
“Sim. Não falaremos mais disso.”
“Eu sabia que você veria que não é necessário nenhum tipo de alarde para esse assunto, então, vamos falar sobre algo mais importante.” As orelhas de Celestia empinaram com a menção de algo mais importante, deixando-a curiosa.
“Prossiga.”
“Eu vou passar um mês inteiro fora, eu havia proposto uma agenda aos seus conselheiros, e eles aprovaram.” Ela falara com orgulho e confiança, um sorriso em seus lábios enquanto encarava sua surpresa irmã.
“Mas assim, de repente?” Celestia questionou, ter Luna longe de Canterlot por algum tempo seria uma ótima ideia, temia que as suas visões continuassem a assombra-la e causassem algum tipo de mal entendido. Mas isso também lhe preocupava, por um momento lhe ocorrera que se Nightmare Moon estivesse com ela, ela certamente iria tentar algo em um das cidades influentes do reino.
“Sim! Eu quero entrar em contato com o meu povo e ajuda-lo crescer! Esse é o meu dever afinal, não é mesmo irmãzinha?”
Celestia concordou com a cabeça, parando para refletir qual fora a última vez em que havia saído do conforto de Canterlot para fazer algo do mesmo.
“Irei começar pela periferia de Equestria, Stalliongrad é o primeiro lugar que me veio em mente.”
Perfeito, o alicórnio branco pensara. Uma cidade distante, sem muitos recursos ou qualquer tipo de influência, a violência era preocupante, porém tinha certeza que sua irmãzinha daria conta.
“E você pretende ir sozinha?”
“Eu posso cuidar da parte burocrática e financeira por cartas, porém eu gostaria de ter alguém comigo para documentar a viagem e a situação…” Ela disse com um de seus cascos roçando contra a parte inferior de seu queixo.
“Você poderia levar Whiter consigo, ele tem talento, mas precisa de experiência, tenho certeza que ele faria um ótimo trabalho em descrever sua viagem.”
“Whiter huh? Aquele cara afeminado? Tudo bem, eu devo falar com ele?” Disse Luna, levando o seu casco de volta para o chão.
“Pode deixar, ele será avisado sobre a situação.”
“Eu partirei amanhã ao anoitecer, levarei ele e dois de meus guardas comigo para puxarem a carruagem.” Com confiança em seu rosto, ela acenou para sua irmã, que retribuiu o gesto, as duas se abraçaram e se separaram para cuidar de seus afazeres.
No outro dia pela manhã Celestia e Whiter estavam na sala de trabalho da monarca, ela conversava com ele através de sua mesa cheia de papéis e alguns enfeites típicos de escritório.
“Whiter, você irá tomar nota de tudo o que acontecer na viagem e documentará tudo o que Luna fizer, esse será seu trabalho.”
“Sim, Vossa Alteza!” Ele respondeu, tentando fazer o possível para não mostrar o quão estava desconfortável com a situação, era um pônei fraco, e não podia ficar muito exposto ao Sol graças ao seu problema, sem falar que esperava ficar no conforto do castelo quando conseguiu o trabalho. “Quando eu irei começar?”
“Hoje à noite vocês irão partir, arrume sua mala e esteja no salão às 19 horas. Luna falou que vocês irão comer durante a viagem, então não se preocupe com o jantar.”
“Entendido, Vossa Alteza.” E se curvou imediatamente, Celestia fez um gesto de que ele estaria dispensado com sua pata, e ele se retirou.
Com passos lentos e arrastados, Whiter Penmanship foi até seu quarto, seu trabalho fácil iria se tornar uma jornada pelos confins de Equestria com a Princesa da Noite. Bem, pelo menos ela iria pagar o lanche, ele pensou, e foi arrumar suas coisas.
O tempo voou, e quando Whiter se deu conta, ele estava no salão principal com sua mala. Havia chegado meia hora antes já que não queria se atrasar e acabar prejudicando a princesa de algum modo. Cerca de quinze minutos depois, ele viu Twilight e Luna parando embaixo da grande porta que dava acesso ao salão, elas trocaram alguns carinhos com seus focinhos, um leve e rápido beijo de despedida e se separaram.
“Whiter Penmanship, não é mesmo?” Luna comentou enquanto se aproximava dele, atrás dela uma mala de rodinhas era puxada com sua magia. “Vejo que chegou adiantado, isso é ótimo, gosto de pôneis esforçados.” E o cumprimentou com um largo e alegre sorriso.
Ele de imediato ficou embaraçado com suas bochechas levemente coradas, como era possível a terrível Princesa da Noite, aquela que fora Nightmare Moon, ser uma criatura tão adorável? Então respondeu o melhor sorriso que poderia dar naquela ocasião, fazendo uma reverência.
“Sim, Vossa Alteza.”
“Então vamos, não temos tempo a perder, quanto antes chegarmos em Stalliongrad, antes podemos descansar. A Lua irá acompanhar nossa viagem, será divertido.”
E assim ela atravessou o salão, seu espírito alegre era contagiante, o pégaso não conseguia acreditar que duas semanas atrás esse alicórnio estava sozinho na Lua, pagando por seus crimes. Refletiu por um instante, porém logo a seguiu, não querendo ficar para trás.
Poucos minutos depois ambos estavam na carruagem, essa seria puxada por dois guardas reais que Whiter nunca vira antes, ambos possuíam pelo cinza, olhos amarelos com pupilas em fenda, suas crinas eram escondidas por uma leve armadura azul, um deles possuía uma cauda azul enquanto o outro tinha um tom escuro, quase negro, de púrpura, e pelo jeito não eram de muita conversa.
A Princesa da Noite trouxe com ela alguns salgados deliciosos que dividira com todos, or guardas iriam comer a parte deles assim que a viagem terminasse, enquanto ela e Whiter jantavam na carruagem.
“Whiter, agora que estamos longe do castelo, precisamos conversar.” Luna disse, apontando sua face na direção do garanhão, que ao encará-la de volta tinha uma imagem de tirar o fôlego, a Princesa Luna com sua enorme e brilhante Lua atrás dela, sua bela crina ao vento, suas constelações se unindo às do céu. “Se você quiser ficar ao meu lado durante a viagem, você deve jurar lealdade a mim.”
“Mas Vossa Alteza, eu jurei lealdade à Celestia...” Suas orelhas caíram, ficando rentes ao topo de sua cabeça.
“Não importa, você ainda responderá a ela, mas antes irá responder à mim. Eu sei que ela quer que você relate tudo o que acontece, mas antes esses relatórios irão passar por mim, entendido?” E ela sorriu com o luar em suas costas, Whiter notara algo que fizera seus joelhos fraquejarem, presas, a Princesa da Noite possuía um pelo par de presas em sua boca, que não estavam lá alguns minutos atrás.
“Sim, Vossa Alteza.” Ele disse sem pensar, porém sem um pingo de arrependimento, tinha certeza que essa noite sonharia com tais presas perfurando seu pescoço, manchando seu pelo alvo com o rubro de seu sangue, já podia sentir a dor pungente sendo rapidamente substituída pelo prazer. Enquanto sonhava acordado, Luna olhava para frente, sabendo que já havia ganho o coração do garanhão ao seu lado, sonhos eram poderosos, e lê-los era uma grande arma.
Dois dias depois, Luna estava no centro de Canterlot, uma multidão havia se reunido para vê-la discursar em um palanque, seu companheiro de viagem observava tudo atentamente lá de baixo, pronto para tomar notas.
“Povo de Stalliongrad! Eu venho de Canterlot até a sua terra, nossa terra, para trazer mudanças! Sua cidade foi esquecida, os índices de violência estão altíssimos, faltam escolas em lugares acessíveis, mas os ricos da parte central do reino não dão a mínima importância para isso!”
Gritos de concordância e revolta foram ouvidos da multidão, enquanto o acompanhante de Luna observava com certa admiração como o alicórnio azul falava exatamente o que o povo queria ouvir.
“Mas hoje, isso irá mudar! Trago comigo projetos para escolas e um novo hospital. E graças à prospecção feita, foi declarada viável a construção de uma extratora de minério e refinaria! Iremos gerar empregos, e transformaremos Stalliongrad em um exemplo a ser seguido! Traremos avanços para essa cidade e suas vizinhas!”
A multidão começou a gritar novamente, porém a princesa logo pediu silêncio para terminar sua fala.
“Eu, Princesa Luna, estarei envolvida nas construções diretamente! Usarei a magia que possuo para o bem de todos! Muito obrigado!”
Ao terminar, a princesa deixou o palanque sob assovios e o trovejar de cascos, todos pareciam animados com a presença dela, saber que finalmente alguém estava se importando com sua cidade era um alívio para os habitantes da cidade.
Assim que o discurso terminou, Whiter se dirigiu até a monarca, que estava conversando com o prefeito da cidade, chegou a tempo de ouvir algo sobre treinar os guardas da cidade ou algo do gênero, e logo se separaram depois de vários agradecimentos.
“O que achou do meu breve discurso?” Disse Luna ao notar que Whiter havia se aproximado.
“Você falou o que o povo queria ouvir, não é mesmo?” Ele a questionou, erguendo uma sobrancelha enquanto formava um sorriso em seus lábios.
Luna não pode conter uma gargalhada contente enquanto rodopiava em um de seus cascos.
“Sim! Foi tão óbvio assim? Bem, eu acho que não fará nenhum mal, já que não disse nenhuma mentira.”
“E isso é verdade.” Acrescentou o pégaso albino, olhando ao seu redor, como se procurasse por algo.
“O Sol está lhe incomodando, Whiter? Venha, vamos descansar no hotel. Amanhã eu começarei a trabalhar nos projetos, e você deverá escrever os relatórios para a minha irmã.”
“Luna... você irá mesmo trabalhar junto com esses...” E a monarca o cortou antes que terminasse a frase.
“Com toda certeza, eu preciso, além de adiantar muito as construções, isso irá mostrar a eles que eu sou diferente, que não estou aqui apenas para dizer-lhes o que eles querem, mas sim que estou aqui para trabalhar. Eu passei mais de novecentos anos na Lua, meu amigo, agora preciso reconquistar o meu povo. Venha, vamos sair desse Sol.”
Ele assentiu e a seguiu, adorava a determinação e cordialidade que o alicórnio esbanjava, mas ainda sentia que escondia algo, tal mistério lhe cativava ainda mais. Jurara ser leal à Celestia, porém a Princesa da Lua havia tomado tal lealdade para si, logo ele faria todos os relatórios que a égua alva havia pedido, mas do modo que Luna queria.
Um mês depois, Whiter estava novamente em pé no escritório de Celestia, ele e Luna haviam voltado de sua viagem depois de muito trabalho. Ele caminhou até a sua mesa, tirando alguns papéis de dentro de seus alforjes para coloca-los em à disposição do poderoso alicórnio.
“Os últimos relatórios, certo?” Ela perguntou, e o pégaso acenou que sim com a cabeça. “Vejo que foi muito profissional durante toda a sua jornada, caro Whiter, pôneis prestativos como você são difíceis de encontrar...” E com um sorriso no rosto, ela deu uma olhada superficial pelos relatórios.
“Muito obrigado, Vossa Alteza, é uma honra servi-la.”
“Mas, eu vejo que você não detalhou muito sobre o seu estado e o de Luna. Conte-me, aconteceu algo suspeito durante a viagem?” Celestia perguntou por trás dos papéis, sem erguer sua cabeça.
“Suspeito? Como assim?”
“O que eu vou lhe perguntar agora, não deverá sair dessas paredes, entende Whiter? Sombras estranhas, mudanças de voz, aparições, transformações, isso são coisas estranhas, notou alguma dessas ocorrer com alguém durante a viagem?” Dessa vez o alicórnio deixou os documentos em cima da mesa, encarando o pégaso de volta, e Whiter pode notar como seus olhos haviam perdido aquele brilho magnifico de quando se conheceram pela primeira vez. Não pode deixar de se perguntar o que teria acontecido com Celestia durante esse mês que passaram fora.
“Não, nada desse gênero aconteceu enquanto estivemos fora, pelo menos não notei isso com nenhum pônei próximo.”
“Você está certo disso? Tente se lembrar de um pequeno detalhe, qualquer coisa.”
Então suas bochechas ficaram levemente rubras quando se lembrou de que Luna havia lhe mostrado presas no início da viagem, depois nunca mais havia as visto, mas por um momento elas estavam lá. E pelo jeito Celestia havia notado que se lembrara de algo, já que o fitava com mais atenção agora.
“Agora me lembrei de algo...” Ele disse pausadamente. “Quando saímos de Canterlot, Luna sorriu para mim, e ela tinha um par de presas, nunca mais as vi, porém estavam lá naquela hora.”
Celestia cerrou os olhos e ficou em silêncio, até que finalmente dispensou o garanhão. “Muito obrigado, você fez o seu trabalho muito bem, pode sair agora.”
Com uma saudação, ele deixou a sala e foi até o seu quarto, ainda não era um frequentador assíduo do castelo, mas nunca vira a Princesa da Luz daquele modo, ela parecia perturbada.
E ela estava. Celestia lia os relatórios, usando sua magia para auxiliar na velocidade e não deixar detalhes escapar, Luna estivera trabalhando duro, e certamente suas ideias tinham fundamento, em cerca de seis meses tudo estaria pronto de acordo com os documentos, nada de anormal.
Com um longo e carregado suspiro, Celestia se reclinou para trás, desde que Luna deixara o castelo, podia jurar que uma sombra a perseguia, também notara que Twilight Sparkle passava menos tempo com ela do que antes, e seu interesse pelos estudos de sua irmã havia aumentado muito.
Agora que Luna havia voltado, sua dor de cabeça também retornara, iria precisar de ajuda. Depois de engavetar os relatórios, Celestia se levantou e deixou a sua sala.
Alguns minutos depois estava deitava sobre seu lado em sua cama, levando um casco até sua cabeça, se sentia febril e indisposta. Seu enorme corpo branco tinha certo destaque espalhado em cima da roupa de cama rosa
“Entre.” Ela disse quando ouviu alguém bater na porta, e logo sua fiel aluna e seu companheiro, Spike, entraram em seu quarto.
“Princesa Celestia.” Disse Sparkle ao se aproximar da monarca. “O que houve? Você está bem?” Ela perguntou enquanto sentia sua temperatura com uma de suas patas.
“Não, Twilight, temo que precisarei da sua ajuda, tenho sentido uma forte dor de cabeça.”
“Devo chamar um médico então, princesa?”
Ela acenou a cabeça negativamente de novo. “Por favor, não, minha saúde está boa, essa dor de cabeça é inexplicável, por favor, fique aqui comigo um pouco, a companhia de vocês seria muito bem-vinda.” Celestia sorria, e Twilight teve um momento para ela, passara o último mês ocupada com suas tarefas e estudos e não havia notado como ela havia perdido muito daquele brilho que sempre carregava consigo.
“Será um prazer fazer companhia para a Vossa Alteza, Spike, por favor, vá buscar um copo d’água.”
“Pode deixar comigo.” E o pequeno dragão saiu do quarto, sumindo pelo corredor.
“Venha, Twilight, vamos passar um tempo juntas e contar algumas histórias, nós fazíamos isso quando você era menor, lembra?”
O pônei ametista corou um pouco, estava prestes a contar para Celestia que estaria ocupada essa noite e não poderia ficar muito, mas tinha certeza que essa não era uma boa ocasião.
“Sim, mas é claro que eu me lembro.” Ela disse, subindo na cama e se aninhando com o alicórnio que sempre a tratara como uma filha. Sentia seu peito expandir e contrair contra suas costas, e de leve, podia também sentir os batimentos de seu coração, como sempre ficava longe de casa, Celestia havia tomado um posto materno para o pequeno unicórnio.
“Pois bem, era uma vez...” E a porta se abriu, Spike se apressou em entrar e levar o copo de água até a monarca. “Muito obrigado Spike, agora que tal se unir a nós?” E com a aura brilhante de seu chifre, ela levitou Spike e o copo de água, deixando Spike em cima de ambas as éguas, enquanto tomava alguns goles d’água. “Como eu estava dizendo, era uma vez...” E continuou a narrar sua história, era um antigo conto sobre Hlal, a deusa dracônica do humor e contos que se transformou em um pônei e viajou por seus reinos muito antes de Celestia e Luna existirem, levando alegria e risadas para todos, enquanto fazia tiranos e corruptos de bobos, muitas vezes os destronando, era uma criatura de bom coração, porém traiçoeira e escorregadia contra aqueles que seguiam o caminho do mal.
Spike ouvia os contos de seu povo com muita admiração, enquanto Twilight desfrutava tanto do conhecimento quando do conforto proporcionado pelo alicórnio. Celestia por sua vez mantinha as sombras que lhe atormentavam longe enquanto sua mente estava focada nas duas criaturinhas ao seu redor, ao terminar, sentia seu corpo pesado, sua visão demorava a focar nos pontos em que queria, não resistiu a descansar sua cabeça contra o seu travesseiro enquanto a sua aluna lhe fazia algumas perguntas, e se rendeu ao sono.
Twilight Sparkle notou que Celestia não a respondia, então com muito cuidado se retirou, levando Spike consigo em suas costas.
“Pelo jeito tudo o que a Princesa Celestia precisava para se sentir melhor era um pouco de atenção, não é mesmo Spike?” Twilight perguntou enquanto caminhava até seu quarto, onde deixaria o seu companheiro.
“Uma noite de sono irá deixa-la novinha em folha.” Ele disse após concordar com a cabeça.
“Spike, sabia que a princesa não dorme como nós? Ela usa uma magia que simula o sono toda vez que ela se esgota, assim ela pode se manter alerta no caso de algo importante acontecer, e recupera suas energias mais rapidamente.”
“Nossa, comandar o reino deve ser muito difícil se esse é tipo de coisa que você tem que fazer.” E coçou atrás de sua própria cabeça, pôneis e suas maluquices.
Os dois continuaram batendo um papo descontraído até chegarem na frente do quarte de Twilight, onde ela parou e esperou Spike descer.
“O que foi Twilight, não vai entrar?” Ele perguntou enquanto abria a porta, virando sua cabeça para encarar Sparkle.
“Uh, não Spike, eu vou conversar um pouco com a Princesa Luna, ouvi dizer que ela irá viajar amanhã cedo para concluir alguns projetos, parece que Stalliongrad foi um sucesso, e ela quer visitar outras cidades, portanto irá ficar alguns meses fora.”
“Conversar?” Com sua questão as bochechas de Twilight ficaram levemente coradas e ela acenou em afirmação. “Argh, tudo bem, te vejo amanhã.”
O pequeno dragão entrou e fechou a porta atrás de si, enquanto o unicórnio púrpura seguiu no corredor, procurando pelo quarto de Luna.
Na próxima manhã, Celestia se sentia tão aquecida e protegida em baixo de suas cobertas que pela primeira vez em muitos dias decidira que iria dormir aqueles famosos cinco minutinhos a mais, ou iria, já que Philomena soltou um longo guincho estridente, farfalhando suas asas, o barulho fez com que a monarca se sentasse de imediato, observando seus arredores assustada.
Seu coração estava acelerado, era extremamente incomum sua fênix fazer qualquer tipo de barulho enquanto estava dormindo, logo pensou que havia algo errado. Para seu alívio, tudo parecia estar em ordem no quarto escuro, ela e seu animal de estimação estavam sozinhos.
“Philomena, o que aconteceu?” Celestia perguntou enquanto se levantava de sua cama. O pássaro nada respondeu, apenas curvou sua cabeça para um lado, e então para o outro, parecendo tentar observar sua mestra por outros angulos. “Está com fome é?” E coçou o pescoço da criatura mítica, porém logo notou que a mesma ainda possuía incensos e ervas aromáticas, especiarias que tais animais adoram comer, assim como dragões amam ouro e gemas.
Ela ficou de pé mais um tempo, brincando com sua companheira, que mal parecia notar, enquanto refletia sobre o que poderia ter acontecido. Chegou à conclusão de que era nada importante, e ficou um pouco feliz ao notar que sua dor de cabeça havia desaparecido.
“Ah, pelo menos esse pesadelo terminou, Philomena. E Luna já deve ter partido para Neighcastle.”
Celestia então saiu do quarto com passos apressados, arrumando sua crina, cauda e pelo com magia enquanto trotava, hoje seria um dia cheio, e já estava atrasada. Philomena por sua vez ficou para trás, sozinha no quarto mal iluminado, encarando e chilreando para criatura flamejante que a encarava de volta no espelho.
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