Sunshine
4 Eu cuido de suas costas
Notas iniciais
Estar ali trazia um mix de emoções. Era a escola que ela sonhava estudar afinal, a mesma que sua mãe e tia tinham estudados quando tinham sua idade. No final ela acabou por não estudar ali, sua tia decidiu que era melhor ela entrar em outra escola. No começo Poliana ficou triste, mas sabia que a tia dela só queria o bem para ela.
Bob se agitou enquanto recebia carinho, pelo menos a Tia Luísa permitiu ela continuar sendo amiga do Sr.P, conversar com ele e passear com Bob eram duas das coisas que ela mais gostava de fazer para passar o tempo.
Poliana observava os alunos saírem da Ruth Goulart, ela procurou até avistar quem procurava. Luigi andava distraído. Ela andou em direção a ele.
O fluxo de alunos atrapalhava um pouco, ela ainda estava com Bob, isso fez ela andar um pouco mais devagar.
Luigi estava parado em frente ao portão, dois garotos pararam ao lado dela. Ela conhecia os dois, infelizmente. Um era o sobrinho do namorado de sua tia, Hugo, o outro se chamava Eric. Os dois almoçaram na casa dela uma vez, junto com Afonso. Ela tinha tentado se tornar amiga dos dois, sem sucesso. Ele eram bem desagradáveis, pareciam duas criancinhas.
Por um momento ela achou que eram amigos de Luigi, ela até parou pensando em deixa para falar com ele depois. Mas não demorou muito para perceber que esse não era o caso.
Eles pegaram a câmera que Luigi levava na mochila e não queriam devolver.
Luigi gostava muito daquela câmera, ele tirou fotos de várias coisas da última vez que eles passearam.
Poliana se aproximou.
— Hey – ela falou mais alto que o normal – o que vocês pensam que estão fazendo?
Os dois garotos olharam para ela com uma cara de surpresa. Luigi estava surpreso também.
— Devolvam a câmera dele.
— O que você está fazendo aqui, Polichata? – Hugo começou.
— Eu vim ver ele – apontou para Luigi – devolvam a câmera, agora.
Isso só fez os dois rirem. Alguns alunos olhavam mas ninguém dizia nada. Ela tentava com todas as forças, mas não podia deixar de se sentir zangada com aqueles dois.
Poliana se aproximou e tomou a câmera da mão de Eric. Os dois pararam de rir.
— Hey! – Eric gritou – O tio do Hugo não está aqui para proteger você, Polichata.
Hugo pareceu entender, sempre que eles se vinham o tio dele insistia para que eles tratassem ela bem. Era um saco. Agora eles poderiam zoar com ela sem medo.
— Passa essa câmera pra cá – Hugo e Eric avançaram.
Poliana deu um passo pra trás, seu companheiro de passeio diário não fez o mesmo. Bob, que até aquele momento estava quieto, tomou a frente. Ficou entre Poliana e os dois, rosnando. Os valentões pararam seu avanço.
Poliana se abaixou e acariciou Bob.
— Calma, Bob – ela sussurrou, mas o cachorro ainda estava tenso – tudo bem, garoto.
Ele soltou um latido alto.
— V-vamos embora – Eric disse, se retirando.
— Eu vou contar isso a sua tia – Hugo seguiu seu colega.
A menina riu e se levantou.
— Toma – ela entregou a câmera de volta para Luigi.
— Valeu – ele sorriu, não sabia o que fazer se aquela câmera fosse danificada. Tinha sido presente de seu pai no natal, estava cheia de gravações na memória.
— Vem. Vamos dar uma volta.
Ela correu com o cachorro ao seu lado. Luigi a seguiu.
— Eles sempre pegam no seu pé? – ela disse entre mastigadas – Você deveria falar com alguém, aqueles dois são insuportáveis.
Os dois estavam de novo na padaria. Já tinha virado tradição. O lanche lá era ótimo.
— Não – Luigi disse depois de tomar um suco – isso sempre piora as coisas.
Poliana não entendia bem. Ela sempre estudo com os pais, já tinha ouvido falar sobre bully mas para ela imaginar que alguém se divertia dessa forma era fora de lógica. Ela queria poder ajudar Luigi.
— Não esquenta com isso não – ele disse com uma voz um pouco triste – isso um dia acaba.
Ela não tinha certeza se acreditava nele, mas decidiu mudar de assunto. Ele parecia triste falando sobre aquilo.
— Então – ela começou – como foi seu dia hoje? Aprendeu algo legal?
— O de sempre. Nada de novo na escola.
— Serio? Você não se empolga com suas aulas de arte e tudo mais? Eu queria estudar lá quando cheguei aqui em São Paulo, mas minha tia acabou não deixando – Ela acariciou Bob, que estava em baixo da mesa, com os pés – a minha escola é legal. Eu aprendo muito, mas eles não ligam para arte.
— Eu só gosto realmente de audiovisual – ele deu de ombros.
— A minha tia me ensina a pintar – ela mordeu o seu lanche mais uma vez – ela não gosta muito de sair, então é como a gente passa o tempo juntas.
Fazia sentido. Luigi não tinha ouvido sua mãe falar da tia de Poliana até pouco tempo atrás.
Seu pensamento foi interrompido quando duas meninas chegaram na padaria. Geralmente ele só ignorava aquelas duas, e torcia para elas fazerem o mesmo. Filipa e Yasmin. Ele não sabia como agir perto de Yasmin. Ele se sentia muito irritado com ela, a menina simplesmente queria dizer com quem ele deveria fazer amizade. Eles nem eram amigos! Os amigos dela fazem a vida escolar dele um inferno. Ele não queria nunca mais olhar para ela. Se eles não fossem vizinhos e suas mães fossem amigas de infância, ele diria algumas verdades.
As duas sentaram em uma mesa perto. Não dava para ouvir o que Filipa tagarelava daquela distancia, ele considerava isso uma sorte.
— Hey – uma ideia passou pela cabeça dele quando percebeu Yasmin olhando para eles – prova isso, é muito bom.
Ele estendeu a mão com o lanche para frente. Poliana se esticou um pouco mordendo o lanche. Ela fez uma cara de satisfeita.
— É verdade – ela disse com a boca um pouco cheia – é uma delícia.
Luigi sorriu. Sentiu um par de olhos queimando em suas costas, como se alguém estivesse emanando uma aura assassina. Olhou para trás a fim de confirmar. Yasmin parecia muito zangada. O sorriso dele se alargou e ele voltou a conversar com Poliana.
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