Sunsets
1 Let Me Record This Moment
Notas iniciais
O acordo era, eu recebia uma foto (a da capa) e devia escrever algo inspirado nela.
— Ei! Cuidado! Anna você vai bater na guria!
Eu podia ouvir de longe que alguém estava gritando, mas não entendia exatamente o que dizia, estava com meus fones de ouvido e The Killers estava tocando no último volume. Estava com os olhos fechados sentada no mesmo banco de sempre, e apenas senti o impacto de um corpo caindo em cima do meu.
— Caralho! – gritei assustada.
— Merda, merda! Me desculpe eu sou tão desastrada, eu te machuquei? – a moça mais linda que já havia visto me perguntou. O susto que levei fora grande, meu coração ainda batia rápido e pareceu bater mais ainda quando eu ouvi a voz dela e olhei em seus olhos, o castanho era tão claro que parecia um tom mais puxado ao amarelo do que ao castanho mesmo.
— Não, tudo bem. – tentei acalma-la depois de perceber que ainda esperava uma resposta minha – Foi mais o susto mesmo, eu to bem.
— Ok, foi mal mesmo! Eu sabia que não devia ter subido nessa coisa – ela disse sorrindo nervosa e apontando para o skate, que foi parar debaixo do banco, ao mesmo tempo que se abaixava para recuperá-lo.
— Sem problemas, todo mundo leva pau do skate até pegar o jeito. – tentei sorrir sem parecer uma idiota perto dela, minhas mãos suavam, mas que porra era essa?
— Com a coordenação que eu tenho, quase certeza que vou passar por experiências piores até conseguir alguma coisa – ela terminou de falar rindo, mal se aguentando ao falar de si própria. E era um riso tão contagiante que era impossível não acompanhar ela. – Me desculpe por ter te dado esse susto, vou voltar pro babaca do meu amigo e bater nele com esse troço!
— Sem problemas – repeti mais uma vez, eu não queria que ela fosse. Mas acenei uma despedida para ela quando olhou para trás se afastando de onde eu estava.
Continuei sentada naquele banco e apesar de já se ter passado umas boas horas, ainda sentia meu coração bater um pouco mais forte quando lembrava do sorriso. Tudo bem que meu pai dizia que aos 19 anos todos os sentimentos eram efêmeros demais, mas eram tão fortes assim?
Aquele parque sempre fora o meu lugar preferido. Mesmo não saindo muito de casa, seja por não ter vontade ou por meu pai nunca me deixar tão solta, gostava de ir aquele parque, mas específico perto da clareira onde eles mantinham suas melhores flores. Nunca fui uma apreciadora de floricultura, ou paisagismo, ou qualquer coisa do tipo... era complicado explicar a conexão com o lugar para ser sincera.
Era agradável sentar num dos bancos ao redor e ler um pouco, ouvir música, escrever sobre o meu dia, sobre a vida, criar histórias sobre meus personagens favoritos. Ou simplesmente sentar lá, sem fazer nada e presenciar o dia dar espaço a noite, a maneira que as cores se misturavam era única, trazendo a cada dia uma tonalidade diferente e sempre arrancando o fôlego.
Observei a tarde começar a dar início à noite, com um pôr do sol muito lindo. Resolvi me levantar e ir um pouco mais para frente, ficando mais próxima das flores. O mês com chuvas regulares e sol forte durante o dia faziam que todas as flores do parque continuassem com cores mais vivas e com cheiro mais forte. Inspirei e olhei para o céu, ainda pensando naquele sorriso gostoso e nos olhos castanhos meio amarelados de.... qual era o nome dela mesmo? Fechei os olhos de novo, o quão idiota podia ser por não ter perguntando seu nome?
— É uma vista e tanto, não é? – abri os olhos imediatamente, aquela voz doce estava outra vez ao meu lado.
— Sim, realmente... quase não consigo descrever o quão linda – respondi me virando pra ela, a menina tinha um sorriso pequeno no rosto, que de uma forma estranha me fez sentir aquecida, mesmo sem estar frio. – Conseguiu algum avanço no skate? – perguntei não querendo ficar sem assunto e que por isso ela fosse embora outra vez.
— Nah, decidi que isso não foi feito pra mim. Foi a melhor decisão pra minha integridade física, sabe? E dos outros também... – ela disse de maneira brincalhona outra vez olhando para mim, não contive outro sorriso.
— Sim, sim... entendo. Realmente você pode ser um perigo dando mais sustos como deu em mim – brinquei com ela, mas com medo de que ela não aceitasse essa brincadeira. Graças a Deus, eu estava bem errada, porque ela gargalhou dessa vez.
— Ok, justo o bastante – disse quando conseguiu se controlar – Aliás, meu nome é Anna.
— Sophia – disse estendendo a minha mão, mas me arrependi pois estava tremendo tanto que ela deve ter sentindo quando apertou a minha de volta. Sua mão era quente e macia.
— É um lindo nome.
— Obrigada.
— Bem, Sophia, sei que foi eu quem lhe deu um susto. Mas será que posso pedir algo de você?
— Depende... – respondi meio nervosa.
— Não é nada demais eu juro, mas meu amigo babaca me abandonou e eu queria muito uma foto minha com esse pôr do sol, você pode tirar uma pra mim por favor?
— Claro, sem problema! – respondi e Anna me deu uma daqueles sorrisos iluminados, ela parecia querer competir com a luz do próprio pôr do sol. Não notei que ela trazia uma bolsa consigo e tirou de dentro dela uma câmera fotográfica.
— Nunca peguei numa dessas antes – achei melhor avisá-la não queria quebrar aquela câmera que parecia ter custado caro.
— Ah! Não, relaxa, ela vai focar sozinha e aparecer uma luz verde bem aqui. Aí você só aperta aqui em cima e pronto! – me explicou colocando o dispositivo nas minhas mãos e segurando elas junto com as suas, tremi mais um pouco quando ela retirou suas mãos, senti falta do toque. Anna se virou de costas para mim e pegou o celular abrindo a câmera do mesmo.
— “Cê” quer uma foto sua, de você tirando uma foto do pôr do sol? Isso é tão Tumblr.
— Eu gosto desse estilo de foto – ela respondeu sorrindo e se virando de costas para mim outra vez. Esperei a luz no canto inferior da câmera ficar verde para tirar a foto dela. Assim que o “clique” foi ouvido ela retornou para o meu lado para conferir o resultado.
— Olha só, pra quem nunca pegou numa dessas, você se saiu muito bem.
— Tive uma boa professora num curso rápido de 2 minutos – disse de maneira simples arrancando mais um sorriso dela.
— Obrigada.
— De boa.
— Posso tirar uma foto sua também? Como retribuição? – ela perguntou e me olhou de um jeito peculiar, não consegui dizer se era somente por retribuição mesmo.
— Claro, eu adoraria! – disse e me afastei também indo para o mesmo lugar que ela. Não imitei sua posição, fiquei de frente e coloquei minhas mãos dentro da jaqueta que eu usava.
— Solte o seu cabelo! O vento vai bagunçar todo o rabo de cavalo, vai ficar estranho – ela apontou ainda olhando através da lente da câmera.
— Ok... – puxei o laço que estava no meu cabelo e deixei o mesmo solto, estava grande passando do meio das minhas costas e coloquei as minhas mãos nos bolsos de novo.
— Uau! Seu cabelo é tão lindo – ela disse dessa vez olhando pra mim, fazendo eu ficar com as bochechas vermelhas.
— O seu também é.... na verdade são bem parecidos – e eram mesmo, nosso cabelo tinha a coloração castanha, mas o dela era liso à medida que o meu era ondulado e revolto. Joguei eles para um lado, pra que não ficasse na minha cara, pois assim como ela disse o vento que bateu fez com ele balançasse para o lado onde eu joguei, e neste exato momento eu ouvi o “clique” da sua câmera.
— Caramba!! Ficou linda Sophia! Vê só! – me posicionei perto dela no meio termo, nem totalmente atrás, mas também não totalmente do lado, mas definitivamente perto.
— Nossa, ficou mesmo! – meu rosto em si não aparecia muito, afinal tinha ficado meio longe, mas a foto pegou toda a paisagem do parque e o espetáculo do fim da tarde. Eu tinha saído com mais sombra, e meus cabelos voavam de um jeito único. Agora entendi porque ela demorou um pouco pra tirar a foto.
— Me passa seu número que eu te passo pelo whats assim que chegar em casa! – ela disse guardando sua máquina e tirando seu celular do bolso logo depois. Trocamos de aparelho e salvei meu número com o nome “Scared Sophia” e assim que ela viu, abriu mais um de seus sorrisos, quando recebi meu celular de volta, nele estava seu número com o nome “Tumblr Anna”, ri junto com ela.
— Você vai vir aqui no próximo fim de semana?
— Sim, sim e você?
— Definitivamente eu vou. – quando ela disse isso olhando nos meus olhos e mordendo o canto dos lábios eu quase enfartei, sério!
Despedimos uma da outra com um simples beijo no rosto. No caminho de volta para casa não consegui parar de pensar nela. Pensei em mandar uma mensagem assim que cheguei em casa, para saber dela, mas resolvi esperar. Durante o jantar com meu pai, contei para ele sobre Anna, o susto e as fotos, ele ouvia tudo atentamente com um sorriso de lado no rosto. Quando ia perguntar sobre o dito cujo, meu celular vibrou com uma notificação.
“Tumblr Anna: *foto*
Arriscar a minha vida no skate hoje nunca valeu tanto a pena. ”
Então era essa a sensação de sentir o coração quase sair pela boca... horrível. Eu queria mais, se fosse ela a fazer isso comigo, eu queria muito mais.
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