Sunset.
8 Capítulo 8 - Shelter
Notas iniciais
“Você me tem”.
Marina não conseguia acreditar. Clara repetia essas palavras, mas elas não pareciam fazer sentido quando chegavam aos ouvidos da fotografa. “Você me tem”. Era tudo que queria ouvir por tanto tempo e agora lá estavam elas, as palavras, todas arranjadas e ditas tão roucamente por Clara; pronunciadas com uma leveza que só quem ama consegue dar a certas falas. Ela tinha Clara, a tão procurada pessoa no meio de tantas outras pessoas. Marina a tinha na ponta dos dedos e repetia para si mesma que aquilo era a realidade, que não estava sonhando, que aquela boca estava sendo beijada pela mulher que ela amava. E como amava. “Eu tenho você”. Click.
Clara fechava os olhos tão apertados, abraçava Marina tão perto, respirava tão rápido, tudo isso pra que se aquilo fosse um sonho, ela teria aproveitado tudo até ali. Mas não era, lá no fundo ela sabia que não era sonho nenhum. Marina estava ali tanto quanto a luz daquele sol que entrava pela janela iluminava aquela sala. Ela existia dentro do seu abraço, sua boca continuava existindo beijando seu pescoço e o amor... o amor existia nelas. “Você me tem”. Click.
A realidade, por fim, era doce. E quente.
Marina sabia que tinha que ir devagar, estava no meio da sala de aula, era a primeira vez que beijava Clara, alguém podia entrar, existiam centenas de motivos para que ela soltasse Clara naquele momento, mas nenhum deles era tão bom quanto ao beijo dela. Toda vez que tentava se afastar, mesmo que para tomar ar, deixar que existisse algum espaço entre os corpos, Clara a puxava de volta, quando era ao contrário, Marina quase que involuntariamente a puxava também. Não era mais uma questão de escolha, Marina e Clara se precisavam e não se ter, não era uma opção.
Marina passava as mãos pelas costas de Clara sem pressa alguma, diferente do beijo que aumentava de velocidade todas as vezes que havia ar para isso; deixava arranhões muito bem demarcados por traços vermelhos na pele de Clara, sem questionar se ao menos estaria doendo, mas sabia que não. E pra todo suspiro que saia da boca da outra, Marina tremia um pouco mais. Ela sentia todo seu corpo reagir ao de Clara como um imã; Ela se mexia, Marina se mexia. Ela respirava, Marina perdia o ar. Ela suspirava, Marina sentia as borboletas no estomago escaparem para seu corpo inteiro. Apertava e puxava pra si a cintura de Clara tentando desfazer as barreiras físicas que impediam suas peles de se tocarem, mas desistia toda vez ouvia Clara dizer seu nome em voz baixa, sussurrando... Marina se esquecia de tudo.
– Marina... – Clara mal conseguia falar. Sabia que “Marina” era um nome, mas saia quase como um pedido. Sentia as mãos da fotografa nas suas costas, passeando pela sua cintura, fazendo a curva na sua barriga, sem pedir arrancava suspiros que Clara também não sabia de onde vinham. Mas vinham e não paravam. Era impossível conter e chegou o momento que Clara não tentava mais. Marina mexia com ela de todas as maneiras possíveis, e existiam tantas! Sentia os dentes de Marina puxarem seu lábio inferior, provocando a dor mais gostosa que ela já sentira até ali. Mas não ficava longe por muito tempo, Clara voltava a beijar Marina como se não houvesse outra coisa pra se fazer no mundo. Com as mãos bagunçava os cabelos de Marina e sentia o carinho em sua nuca, feito pela fotografa tão intimamente, arrepiar os pelos de seu braço, pescoço... corpo. Puxava pelas raízes os cabelos de Marina e exercia todo o controle que tinha sobre ela, direcionando a fotografa pra direita e esquerda, ditando o ritmo do beijo, do movimento do corpo, da pressão sob a pele. Clara estava no comando e Marina não tinha forças pra toma-lo pra si. Ainda.
Marina tremia, sentindo seu corpo se mover conforme Clara pedia, mandava, tão sutilmente. Foi descendo a mão pelos braços da outra, começando pelos ombros e seguindo rumo a sua mão, entrelaçou seus dedos e liberou a boca por um segundo, beijou os nós dos dedos de Clara e viu a dona de casa morder a boca, respirando pesadamente, não conseguiu manter os olhos abertos.
– Se lembra quando eu beijei sua mão assim? – Marina ainda mantinha a boca na mão de Clara.
– E tem como esquecer? – Mordeu o lábio com mais força e tentou beijar a fotografa, que se esquivou do beijo rápido demais.
– Não vai tirar ela daqui dessa vez? – Marina levantou uma sobrancelha e olhou pra Clara de baixo pra cima. Ela provocava porque sabia que podia.
Clara parou tudo que estava fazendo, levou as mãos até o rosto de Marina e como num carinho passou os dedos pelas bochechas da fotografa. Respirou fundo, seu peito subiu e desceu vagarosamente e ela disse no sussurro mais baixo.
– Ei... Me mostra como pode ser bom. – A ultima palavra quase não saiu. Dizer aquela frase era tão excitante pra Clara, quanto pra Marina ouvir; e ela ouviu.
Foi a gota d’agua. Marina se esqueceu de onde estava, dos limites que impunha pra ela mesma... de tudo. Firmou o pé no chão, agarrou a cintura de Clara e a girou pra longe da parede. Clara não conseguia entender o que estava acontecendo, hora estava contra a parede e Marina pesava sob seu corpo, outra estava perdida indo em direção ao meio da sala. Marina não deixou que Clara se afastasse muito, fez o mesmo caminho que percorrera minutos antes, só que dessa vez andava em direção à mulher a sua frente como se fosse a ultima coisa a se fazer na vida. Marina não enxergava mais a sala ao seu redor, os móveis, a janela ou a luz que entrava por ela, Clara era a única coisa que seus olhos conseguiam focar; a única coisa que importava naquele momento.
Clara olhou pros olhos de Marina e soube que suas pernas não iriam aguentar. Dava passos pequenos pra trás, não tentava se afastar da fotografa, muito pelo contrário, deixava claro que aquilo era um convite pra ela. “Vem”. Marina era puxada na direção da outra sem qualquer resistência, deixava que suas pernas tomassem vida própria e só tentava manter o ar indo e vindo pra dentro e para fora do seu pulmão. A sala foi ficando pequena e Clara enfim encostou se na grande mesa de madeira que ficava do lado oposto da porta. Marina vinha andando em sua direção olhando pro corpo da dona de casa sem disfarçar; fitou a calça jeans justa fazer jus as coxas da outra, umedeceu os lábios quando subiu o olhar para a blusa larga que caia tão perfeitamente sobre seu colo, fazendo a curva da cintura, deixando os ombros a mostra. Marina não pediu licença; com uma das mãos agarrou a cintura de Clara e com a outra sua coxa, logo acima do joelho. Clara entendeu o que a fotografa tentava fazer e com as mãos que estavam sob a mesa, impulsionou seu corpo pra cima fazendo com que se sentasse em cima do móvel; espalmou a mão sobre a madeira maciça e esbarrou em algumas apostilas ali, um porta canetas e um livro. Marina se encaixou no meio das pernas de Clara e trouxe o quadril da outra o mais próximo possível do seu, agarrando suas costas e mordendo seu pescoço. Era impossível pra Clara se manter sã daquele jeito. Marina não conseguia parar de beijar a outra, que por sua vez não conseguia manter o compasso da respiração. A dona de casa se agarrou na nuca da fotografa e sentiu o corpo todo desfalecer. Agradecendo por estar sentada, morria um pouquinho mais toda vez que Marina descia a mão pelo seu corpo ou sentia a respiração da outra falhar quando a beijava mais forte.
Marina vestia uma camisa azul marinho, aberta o suficiente pra deixa-la com um decote comportado. Clara sentiu que não havia mais como deixar seus corpos mais próximos, ela agarrava Marina de todas as maneiras possíveis, mas decidiu que precisava de mais. Soltou uma das mãos que estavam em volta de seu pescoço e desceu pelo seu peito, passando pelo seu ombro e fazendo o contorno da clavícula, abriu um sorriso malicioso demais quando seu dedo alcançou o primeiro botão da camisa da fotografa, que olhou pra baixo e respirou fundo ao perceber as intenções de Clara. Sem esforço algum, nem reclamações por parte de Marina, Clara liberou o primeiro botão deixando ainda mais amostra o colo da fotografa. Partiu para o segundo botão que ao abrir mostrou o sutiã preto que se escondia por de trás do tecido leve; agradeceu de novo por estar sentada.
Quando Marina alcançou os olhos de Clara, foi como se tudo sumisse. Todas as sensações que uma provocava no corpo da outra, por um instante, explodiram dentro delas. Todo a dor, todas as lagrimas, tudo que um dia foi um obstáculo para aquele momento, valeram a pena. Marina olhava pra Clara, sentia seu corpo pulsando em seus braços e alguma coisa dentro de si mudou. Click. Ela havia achado seu lugar no mundo.
A dona de casa viu Marina se aproximar de olhos fechados, com a boca entre aberta e sorrindo foi de encontro ao beijo. Clara já podia sentir o gosto da boca da outra quando ouviu a porta se abrir fazendo um barulho que pareceu o maior barulho que uma porta pode fazer. Marina em um reflexo se virou em direção à porta, ainda no meio das pernas de Clara.
– Profess... – A aluna entrou na sala olhando para o celular e quando subiu os olhos não conseguiu terminar a frase.
– Oi! – Marina tentava sufocar o riso quando sentiu Clara colocando a cara atrás de suas costas, tentando sem muito sucesso se esconder. – Posso ajudar? – Sorriu sem nenhuma vergonha.
– Ahn... não. – A menina estava visivelmente desconfortável com a situação – Eu vim perguntar... mas... deixa – Dava passos pra trás, com as mãos nas costas tentando achar a maçaneta da porta. – Próxima aula eu pergunto...
– Ok, então! Até a próxima aula – Marina ria descaradamente e sentia Clara cutucando suas costas como quem reprova o quanto ela estava se divertindo com a cena.
A aluna já não conseguia prender o riso e a um passo antes de sair da sala, colocou a cabeça entre a porta e o batendo.
– Professora!
– Oi!
– Ta aberto aqui ó. – A aluna apontou para o próprio peito, soltando uma gargalhada alta demais. Ela também estava se divertindo. Virou as costas e bateu a porta atrás de si.
Marina ficou vermelha! Virou-se pra Clara e olhou pra baixo, viu sua blusa metade aberta, metade fechada e fez um “O” com a boca, agora era Clara que não soube segurar o riso.
– Clara! – Fingia irritação enquanto começou a fechar os botões abertos, não acreditando que havia esquecido esse detalhe.
Clara num impulso agarrou as mãos da outra e quase sem querer falou baixo demais.
– Deixa... – Mordeu a boca – assim. – Abriu outro botão.
– Clara... – Marina não acreditou que estava fazendo aquilo, mas sabia que era o certo – Alguém pode entrar... de novo – riu, passando a mão no rosto da outra e já abotoando sua camisa – Então, vamos fazer isso direito? – Se afastou de Clara e ajeitou a roupa que se encontrava toda torta. Esticou a mão, fazendo menção de ajudar a outra a descer da mesa.
Clara pegou a mão de Marina e com a sua ajuda desceu da mesa sem maiores problemas. Passou a mão sob a blusa amarrotada e parou um segundo pra entender como elas haviam chegado até ali. Sorriu.
– Vamos! – Clara sorria de orelha a orelha, entrelaçou os dedos nos de Marina e a puxou pra dentro do abraço, deixando a boca perigosamente perto de seu pescoço – Como você quiser, Marina.
A fotografa percebeu que sair daquela sala ia ser mais difícil do que ela pensava, pelo simples fato de que quando se está feliz, é difícil demais soltar a causa dessa felicidade. Contra todas as vontades que viviam em seu corpo, se afastou de Clara, mas sem soltar sua mão tentou manter uma distancia segura.
– Então eu tenho um pedido pra te fazer. Um pedido que já foi feito, mas... – Marina deixou o olhar cair lembrando-se de todos os pedidos que já pedira e nunca foram realizados.
– Sim! – Clara percebeu o desanimo na voz da fotografa e se prontificou em responder, alto e claro. – Sim! – Segurando o rosto de Marina em suas mãos.
– Mas você nem sabe, Clarinha... – Foi surpreendida com um beijo. Quando Clara se afastou, ainda processava todas as informações, ficou meio sem chão, piscou algumas vezes. “Isso é real?” Parecia que não. – Passa a noite comigo? – Apertou mais forte a mão de Clara, como se aquilo fosse um “por favor”.
– Já disse que sim. – Encostou sua testa na de Marina, fechou os olhos e toda a urgência simplesmente passou. Clara sentiu o tempo parar enquanto respirava o ar que saia da boca de Marina, agora existia dentro dela uma calma que só se sente algumas vezes na vida; cada pedaço quebrado dentro de si ia, lentamente, se colando uns nos outros fazendo dela de novo... inteira.
Marina viu Clara sumir porta a fora quando se encostou na mesa que a dona de casa estava sentada minutos atrás. Passou as mãos pelos cabelos, deixando escapar sorrisos que nunca imaginou existir dentro de si. O perfume de Clara ainda existia sobre a sua pele, sua roupa ainda estava marcada pelos dedos da outra e o gosto do beijo não deixava a boca de Marina; ela fechava os olhos enquanto sentia todas as outras coisas do mundo perder a importância diante do amor que ia reparando meses de dores, limpando rastros de lágrimas secas e remediando, aquilo Marina achava ser irremediável.
Então ficou combinado assim: Clara iria buscar Ivan no judô e como aquele dia era a vez de Cadu ficar com o menino, o deixaria na casa do pai. Iria pra casa, se arrumaria e quando estivesse pronta, rumaria para o estúdio. Marina ainda tinha que resolver algumas pendencias no galpão com Veronica e depois também iria pra casa.
“A noite tem que ser perfeita.” Marina pensava enquanto fechava a porta do carro e passava pelo jardim da sua residência. Era fim de tarde e o sol já ia se pondo a sua esquerda, enquanto o céu mudava de tom, se viu parada ali, imóvel; vendo aquela cena que nunca fora tão bonita. Era como se, pela primeira vez, toda aquela beleza fizesse sentido pra ela; o mundo parecia um lugar melhor agora. Abriu a porta do estúdio sem preocupação alguma, entrou, colocou a bolsa em cima da mesinha ao lado de sua câmera e se jogou no sofá.
– Onde você tava? – Vanessa surgiu como um fantasma de frente para o sofá. Com as mãos na cintura e inconscientemente batendo o pé direito no chão – Você sabe quantas vezes eu te liguei, Marina? – Pegou a agenda que carregava a tira colo – Você tinha TANTA coisa pra fazer hoje e simplesmente resolver desaparecer?
Marina olhava aquela cena com um sorriso no rosto. Não era hoje que Vanessa acabaria com a paz que ela sentia naquele momento. Talvez, com sorte, nada mais faria Marina parar de sentir aquilo.
– Vanessinha! Calma? Por favor, o dia tá tão bom! – Mantinha a voz baixa e serena, cruzou as pernas e fez cara de quem estava pronta pra ouvir o maior sermão da vida com muito prazer, obrigada.
– Bom?! – Jogou a agenda em cima da mesa, passou as mãos pelos cabelos e respirou fundo umas três vezes. Talvez mais. – Ok. Vamos entender por que o dia está tão “bom”? – Levantou a mão em punho e subiu um dedo – Primero você some e não atende o celular por nada nesse mundo! – Levantou mais um dedo – Você perdeu todos seus compromissos da tarde e sabe lá Deus quando vou conseguir reunir todas as modelos aqui de novo – Mais um dedo – Eu conheço esse seu sorrisinho e eu tenho CERTEZA que tem dedo da Clara aí! – Fez o quatro com a mão – Nem se importou em me avisar que não chegaria para o ensaio! – fez menção de continuar, mas foi interrompida.
– OK! – disse levantando as mãos fazendo sinal de quem se rendia – Eu devia ter avisado, me desculpa! Não queria te trazer tantos problemas assim e juro que vou prestar mais atenção no celular e na minha agenda! Tudo bem? – Se levantou e deu um sorrisinho cafajeste, daqueles que ela sabia que Vanessa não conseguia ser imune – Tô perdoada? Voltou a me amar já? – Foi chegando perto de braços abertos – Por favooor?
Vanessa não entendia da onde vinha tanto bom humor. Abraçou Marina e a amaldiçoou por ter o poder de acalmar tudo com aquela voz, aquele abraço. Pensou se, algum dia, aquele super poder que ela tinha de deixa-la boba, passaria; quando respirou o perfume da fotografa chegou à conclusão que não.
– Isso é jogo baixo e você sabe! – Dizia cutucando as costelas de Marina a fazendo sorrir ainda mais, se isso fosse possível. – Mas você ainda não respondeu uma coisa...
Marina sabia o que vinha a seguir, mas nem isso tirou o sorriso do seu rosto.
– Ahh, vamos lá... – Se jogou no sofá de novo, enquanto Vanessa se apoiava na mesa.
– Tem dedo da Clara aí, né? Que que ela fez pra te deixar assim? Te jogou um olhar? – satirizou – deixou você carregar a bolsa dela?
– Há há – jogou a cabeça pro lado e a apoiou em uma das mãos – Em qualquer outro dia da minha vida, você estaria me irritando agora, sabia? – fechou os olhos e sorriu – Mas não hoje Vanessinha – respirou fundo – Hoje não...
Vanessa sentiu o coração apertar dentro do peito. “Não é possível”. Toda vez que Marina sorria de volta, a matava um pouquinho mais. Lentamente, mais.
– Marina, a gente vai entrar nessa de novo? – Apertou os punhos sobre a mesa – Essa mulher quase te matou! Você esqueceu? – Tentava mascarar o desespero na voz.
– A gente? – Marina fez cara de confusa – Por que a gente? Você também tá apaixonada pela Clara, Vanessa? – Colocou a mão sobre a boca. Foi irônico; talvez irônico demais.
Vanessa socou a mesa e começou a andar de um lado para o outro no estúdio. Tinha vontade de gritar com Marina como vinha fazendo todas as vezes que o assunto era a Clara, mas de repente, assim sem avisar, veio um cansaço que ela nunca sentira antes, como se todas aquelas discussões sem sentido tivessem, finalmente, chegado ao fim da linha. Marina assistia Vanessa se distanciar e ficar de costas, sem produzir um som sequer; descruzou as pernas.
– Quando que você vai largar de ser idiota, Marina? – Usou a voz mais calma que sabia fazer. Aquilo já não era mais uma discussão. – Pelo amor de Deus, quando?
– Vanessa, as coisas mudaram ago... – Tentava explicar, mas não conseguiu.
– Deixa eu adivinhar – bateu com o dedo no queixo – Ela se declarou, pediu desculpas, se jogou nos seus braços, prometeu amor eterno – Vanessa tentava controlar, mas a ironia vinha sem que ela pudesse conter – Vocês vão viver felizes para sempre, adotar uma chinesinha, o Ivan vai te chamar de mamãe...
– EI! – Se levantou num pulo – Olha lá como você fala da Clara! Já deu com essa implicância com ela, né? Que isso!
– EI VOCÊ! – Apontou o dedo na direção da fotografa, respirou fundo e baixou a voz – Ei, você Marina. Você já pensou até quando isso vai durar? Já parou, pelo menos por um segundo, pra pensar se amanhã ela vai estar te amando ainda?
– Eu espero que sim! – Respondeu num reflexo, enchendo o peito pra dizer – Eu torço, com todas as minhas forças, que sim.
Vanessa jogou as mãos para o alto, gesticulava toda a frustração que sentia, mas nada fazia passar a vontade de gritar até que pudesse voltar no tempo e encontrar a Marina que ela conhecia tão bem; e amava tanto. Mas enquanto não conseguia voltar no tempo, teria que lidar com essa Marina, essa pessoa que ela não sabia entender, ou conversar.
– Ahh, você ESPERA? – fez cara de surpresa – Sabe por que você “espera”... Sabe? Pelo simples fato de que você não pode ter certeza disso, Marina!
– E do que que a gente pode ter certeza nessa vida, Vanessa?! – A paciência já tinha ido embora e Marina batia forte com a palma da mão na coxa. – Do que?!
Vanessa deixou sua cabeça pender pra frente, abaixou os ombros e naquele momento sentiu todas suas armaduras caírem por terra. Era cansativo demais, pesado demais, doía demais.
– Do meu amor?! – Ainda de cabeça baixa, deixou a mão cair sob o peito e esperou aquela pergunta viajar alguns segundos pelo ar – Do amor que eu carrego por você há tantos anos?! – Viu uma lágrima se jogar do seu olho pra ponta de seu pé; como se até mesmo ela desistisse de Vanessa – Você me tem como certeza há tanto tempo, Marina.
– Vanessa... – Marina pôde sentir o peso daquelas palavras. Levantou um dos braços e foi em direção a Vanessa, mas pela primeira vez na vida ela se esquivou do carinho.
– Você nem ouse dizer que é mentir. – Se afastou devagar – E não vem com esses abraços tão... tão... frouxos. – Bateu na mão de Marina a empurrando pra longe e cruzou os braços sob o peito. “Hoje não”.
– Van... não to falando que é mentira. Mas... – Não existiam muitas palavras disponíveis no vocabulário de Marina nesse momento, nem muitos argumentos. Marina via a dor que qualquer palavra que saísse de sua boca poderia causar.
– Ou essas frases tão vazias. – Fechou os olhos, só pra não ter que olhar para o rosto de Marina. Soltou o ar pesado. Doía. – Tão... vazias. – Chorou pequeno.
– Van, não faz assim. – Sabia pra onde aquela conversa estava rumando. O coração apertou.
– Fazer o que, Marina? Falar do elefante branco dentro da sala? – Abriu os braços – Falar que Eu, Vanessa, estive... estou... e aparentemente sempre estarei... a sua disposição? – Levou a mão à testa e fez uma reverencia, inclinando levemente o corpo pra frente; Se manteve assim, como quem espera pelas palmas no final de um espetáculo. Outra lágrima se jogou ao chão.
– Para! – Marina agarrou a outra pelos ombros, fazendo Vanessa a olhar nos olhos – Para com isso, Van – Podia sentir que doía.
Vanessa agarrou a mão de Marina e apertou, olhou pros pés da fotografa e disse baixinho. – A gente sabe que sim. Eu nunca tentei esconder e você... não tentou fingir que não sabia.
– Eu sei – Tinha vergonha na voz, mas um punhado de verdades também – Mas agora mudou aqui dentro – Colocou a mão da outra sobre seu peito – Realmente mudou, Van. E... – Deixou que o silencio preenchesse as lacunas da frase.
Vanessa deixou que o tempo passasse pra sentir o coração de Marina pulsar entre seus dedos. Respirou algumas vezes, sem sucesso, pois seus pulmões ainda pediam por ar, por algo mais. Entre as batidas que vinham ritmadas, incansáveis, ela buscava dentro de si todos os motivos pra amar tanto aquela mulher a sua frente; queria entender o porquê do amor ser tão grande, tão imensamente grande dentro do peito. Olhando pros olhos de Marina pensou em quantas vezes havia mergulhado naquele castanho; sentia sua pele e deu saudade.
Vanessa não sabia explicar, desde muito nova não havia sido uma criança fácil. Era esperta demais pra sua idade e quando alcançou a idade, já estava cansada demais de ser esperta. Quando encontrou Marina, tinha certeza que conhecera o amor e já concluía que não tinha talento para tal. E como se fosse simples assim Marina desmontou Vanessa com apenas uma mão, olhou por de trás da camada de grosseria e amargura que ela carregava por cima da pele por puro costume; Marina tinha esse efeito nas pessoas. Especialmente em Vanessa.
Doía tanto, nela também.
Vanessa se afastou de Marina e deixou os braços caírem na altura da sua cintura. Olhou ao seu redor, focando tudo menos a fotografa que permanecia imóvel. Marina não fazia ideia do que se passava pela cabeça da outra.
– Que bom – Disse sem entonação alguma na voz – Eu fico muito feliz, por você – Dava passos pra trás, transtornada – Muito, muito feliz. Por você.
Marina tentou abrir a boca, se aproximar, dizer algo. Nada.
– Eu sempre achei que você voltaria, sabia? – Sorria um sorriso triste – Eu realmente acreditei que você voltaria pra mim no fim das contas – Ainda não conseguia olhar pra fotografa – Acreditei que ia chegar o dia que você ia perceber que quem sempre esteve aqui... – Não conseguiu terminar – Achei que... você só precisava de tempo pra perceber que era eu... sempre fui eu.
– Mas... mas eu sempre fui sincera com você, Van. – Disse quase como uma desculpa – Não fui?
Vanessa gargalhou. Alto. A armadura voltou.
– Depende, Marina... Vamos ver – fez sua melhor cara de confusão – O que é sinceridade pra você? – Ainda ria — Sinceridade é me chamar pra esquentar a sua cama sempre que ela preferia o marido?
Vanessa chutou o balde e Marina se encolhia em seu próprio espaço.
– Me diz, Marina! Ser sincera é viver sabendo que me tem aqui, esperando por você?! – Vanessa vomitava cada palavra que saia de sua boca. Explodiu – E você me mantem, né?! Que porra de sinceridade é essa?! – Vanessa esperou a resposta que não veio e então decidiu continuar – Você viu doer em mim, toda vez que amanheceu na cama de outra mulher! – Apontou o dedo indicador pra cara da fotografa – E como amanheceu... e como houve outras mulheres, Marina! E como houve outros amores, outras paixões – Engoliu um gosto amargo – E eu continuava aqui, esperando você se cansar de todas elas, pra vir se cansar de mim também...
A cabeça de Marina rodava, não sabia o que falar e francamente, não sabia se tinha esse direito. As coisas que Vanessa dizia estavam guardadas por tanto tempo que mereciam sim, ser escutadas em silêncio.
– Momentos roubados – Vanessa subitamente disse baixinho, como quem fala sozinho. Marina, que não escutou e já ia perguntar quando Vanessa repetiu – Momentos roubados! – Disse calmamente, como se estivesse resolvido um problema – É isso que eu tenho de você, Marina. Não é? Só um punhado de momentos roubados da sua vida pra minha. Um monte de momentos curtos demais pra se tornarem histórias de verdades. Eu não fui um amor, não é? – Perguntas retóricas – Eu fui a fuga pra uma ilha deserta há dois anos. Eu fui a viagem pro Caribe quando você havia se cansado do frio. Eu fui as férias na Europa. O festival de musica que você gosta. A praia deserta de areia branca. A carência que te batia antes de dormir... – Seus olhos encheram-se d’agua. – Eu fui todos esses momentos roubados... menos o seu amor. – Fez sinal com a mão para que a outra não a interrompesse – E adivinha? – Enxugou o rosto com o peito da mão e tentou sorrir – Eles não são reais! Eu fico repetindo pra mim mesma que eles são... porque eu preciso deles pra viver, pra me agarrar em algo que lembre a gente... Mas não dá pra viver de momentos roubados... dá? – Era uma pergunta válida.
– Eu... Van... – A garganta fechou antes de tentar continuar.
– Não – Levantou a mão em sinal de pare novamente. “Não dá” – Eu não preciso mais disso. – Virou de costas pra Marina e cogitou sair porta a fora. Mas deixou que uma ultima frase escapasse por entre os lábios – Você dizia que a Clara te usava, te fazia de porto seguro... de estepe. E você fez, exatamente, a mesma coisa comigo. Então eu não preciso te contar como eu to me sentindo agora – Foi dando os primeiros passos na direção da porta.
– PARA! — O grito saiu sem querer. Marina assistiu Vanessa tremer. – Para que não é assim também!
Vanessa sentiu tudo explodir dentro de si. “É exatamente assim!”. Ainda de costas gritou de volta.
– PARA O QUE?! Ouse dizer que é mentira, Marina! Vai! Eu te desafio a dizer que é mentira! – Cerrou os punhos.
– NÃO! Não vou dizer que é mentira! Eu assumo a minha culpa nisso tudo. – Deu alguns passos pra frente – Essa sou eu assumindo a parcela de culpa na dor que você ta sentindo agora, Vanessa. E agora você vai me olhar nos olhos e assumir a sua!
– Oi? – Virou-se e encarou os olhos da outra como pedida — A minha parte de culpa na dor que eu to sentindo por SUA causa? – Vanessa deixou o queixo cair.
– É! Eu errei... eu sei! Eu te tinha como certeza e usar isso sem considerar seus sentimentos foi baixo da minha parte! Mas você também permitiu ser usada por mim! Você também se esquentava quando eu pedia calor!
– Como... Como você tem coragem?!
– Eu não te amarrei a mim, Vanessa. Eu não pedi pra você me esperar... Mas também não disse pra você seguir em frente e isso foi outro erro meu!
– Lógico que você não nunca pediu! Você nunca precisou! Eu te esperaria de qualquer forma, Marina! Isso se chama amor! – Bateu no peito pra mostrar onde guardava seu amor.
– NÃO! Amor não é isso, Vanessa! E eu não to falando que não te amei... muito pelo contrário, eu te amei muito! – Tentou baixar a voz, tentou puxar o ar, medir as palavras – E eu ainda te amo. Você sempre será parte da minha vida e minha melhor amiga! Talvez ter te mantido, onde você diz que eu te mantive, foi puro egoísmo meu, mas você também escolheu ficar!
– EU ESCOLHI FICAR? – Vanessa foi caminhando na direção de Marina, ainda com os punhos cerrados, batendo o pé no chão – Você acha que eu escolheria viver desse jeito? Você acha que eu ESCOLHI sentir esse vazio no peito, todos os dias, por saber que seria mais um dia que eu não seria feliz?
– Você decidiu que sua felicidade iria depender de mim, Vanessa! – Apontou o dedo indicador para o peito de Vanessa — Você!
Vanessa deixou que a palma de sua mão se chocasse com o rosto de Marina de uma maneira que ela nunca havia feito antes. Não foi pensado; Foi um reflexo, mas mais que isso... foi um insulto. Um insulto ao seu amor; tão grande, tão exageradamente grande, amor. Vanessa havia vivido por Marina por tantos anos, que já não tinha lembranças da vida antes dela. Ela acreditava que aquele amor era a força motriz que impulsionava seu coração a bombear sangue pra todas suas artérias e veias, que aquele sentimento fosse a razão do céu ser azul, do ar ser fresco, o mar salgado.
Quando tudo ainda era recíproco, a vida nunca fora tão boa pra Vanessa. Ela aprendeu a olhar o mundo que achava tão chato, feio e entediante, pelas lentes da maquina de Marina e simplesmente não soube aprecia-lo mais sem elas. Dentro da câmera (e vida) daquela fotografa, as cores viviam, dançavam, faziam sentido; até na tristeza havia beleza, Marina achava sorrisos escondidos por de trás de olhos inundados d’agua. Vanessa se encontrou e se perdeu em Marina. Quando o tempo passou o seu amor cresceu, cresceu também a vontade natural de querer sua vida entrelaçada na de Marina de todas as maneiras possíveis, cresceu os ciúmes, a posse. Vanessa sofreu quando teve de aprender a se desapegar dos títulos tão desprezados pela fotografa, dos pronomes de posse que antecediam seu nome, do relacionamento sério... Sofreu sim, mas aprendeu também. Mudara tanto pra ser, exatamente, o que Marina precisava que ela fosse que hoje, já não passava de um molde quebrado.
Poucas coisas no mundo poderiam quebrar Vanessa ao meio. Marina dizer aquelas palavras, quebrou.
A fotografa assistiu a mão de Vanessa ir de encontro a sua face e não tentou esquivar, nem desviar do contato. Aceitou a dor física sabendo que existia dor maior no mundo. Passou a mão sobre a bochecha esquerda e pôde sentir o vermelho pulsar vivo.
Vanessa ainda sentia a adrenalina correr e se espalhar pelo corpo, fechou os dedos da mão que atingiu Marina e disse com o dobro de raiva.
– Eu não decidi NADA! Você acha que eu não quero sair por essa porta e não olhar pra trás? Acha mesmo que eu quero ficar aqui, vendo você seguir com a vida e me deixando pra trás pra viver de momentos?!
– Eu acho que é fácil viver no passado, Vanessa! – Ainda mantinha a mão no rosto — Eu acho que é fácil colocar a culpa da sua não felicidade em mim! Eu acho que a gente se acostuma com certas dores... que a gente prefere viver com elas, por serem tão conhecidas, ao invés de procurar outras... outras dores, amores, pessoas...
Vanessa se aproximou de Marina lentamente e a fotografa por um segundo achou que levaria outro tapa, mas a ruiva colocou as mãos para trás em sinal de não violência e Inclinou-se para dizer ao pé do ouvido de Marina.
– Eu daria tudo no mundo pra não sentir o que eu sinto por você hoje. – sussurrou – Tudo.
Marina foi incapaz de se mexer, ou esboçar uma reação, ou respirar, podia jurar que o ar que saia da boca da outra era gelado, podia sentir a frieza abaixando sua temperatura corporal... era o amor morrendo pouco a pouco dentro de alguém. Ainda sem se mover assistiu Vanessa marchar em direção a porta sem pretensão de voltar. Era o fim. Sentou na enorme carta de baralho dobrada e passou a mão de novo sobre o mais novo machucado tentando sentir raiva, ódio, qualquer coisa que não fosse... dor. Acabara de ver a melhor amiga, sua companheira de anos, dar passos pra longe sem olhar pra trás e talvez nunca voltar... essa dor era maior do que uma bochecha inchada e um ego ferido.
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Vanessa saiu do estúdio e chegou ao seu quarto em tempo recorde. Abriu a porta do guarda roupa com uma força desnecessária e começou a puxar tudo lá de dentro: roupas, sapatos, perfumes. Tudo foi se empilhando no chão como roupa suja e sem nenhuma organização. As lágrimas percorriam seu rosto e pescoço até morrerem secas em seu colo. A dor lhe apertava tanto o peito que Vanessa por vezes segurava a respiração, só pra não ter que movimentar as costelas, encher o pulmão, elevar o diafragma. Quase tudo que ela possuía estava pelo chão daquele cômodo; algumas peças frágeis não sobreviveram a viagem até o tapete e desfaleceram, mas nada disso importava agora.
– Que isso Vanessa? – Flavinha deixou o queixo cair e colocou as mãos na cintura – Redecorando o quarto? – Observando que não existia uma coisa em seu devido lugar.
– O que que isso digo eu, Flavia! Tá morando aqui também, e eu não to sabendo? – A armadura estava de volta, mais do que nunca, Vanessa foi extremamente grossa – Olha que a chefe não paga hora extra, viu? Experiência própria! – Ainda jogava os cabides para todos os lados.
– Acredita que eu esqueci meu notebook de novo? – Olhava fixamente para a bagunça do quarto.
– Já pensou em usar uma cordinha? Colocar lembrete no celular? Ativar um alarme? – Sorriu falso.
Flavia passou pelo portal da porta e se sentiu em território inimigo, claramente, ninguém a queria ali.
– Van... Para... – Foi quase pedido, quase ordem. Mas Vanessa, deliberadamente, ignorou por completo. – Por favor, senta aqui. – Foi em direção à cama.
– Flavia, faz um favor? Por favorzinho mesmo? – Juntou as mãos numa prece – Sai do meu quarto? Pelo amor de Deus, me dá sossego, me dá paz. – Segurou a urgência de deixar toda aquela mascara de durona cair – Eu to tão cansada, por favor.
Flavinha ficou tentada em ceder ao pedido da ruiva, mas não o fez. Vanessa ainda era orgulhosa demais pra admitir que precisasse de alguém naquele momento. Tem lágrimas que só caem nos ombros dos outros.
– Não! – Andou até Vanessa. Ela não iria desistir.
Vanessa respirou fundo. Uma, duas, três vezes. Deixou os olhos se encherem d’agua. Olhou nos olhos de Flavinha esperando que não tivesse que abrir a boca pra repetir o que vivera logo menos. Queria que ela entendesse a dimensão do ferimento que agora, estava aberto e latente, dentro de si.
– Eu ouvi tudo. Me desculpa... – Como se lesse os pensamentos da outra – Fui entrar no estúdio, porque eu realmente esqueci meu computador de novo, e vocês estavam começando a brigar.
– Que bom que ouviu! Pelo menos eu tenho alguma prova das coisas incabíveis que ela me disse! – Se esquivou quando Flavia tentou relar no seu ombro.
– Vanessa – Mediu as palavras – Marina foi extremamente dura com você! Realmente, eu tenho que admitir... mas o tapa foi realmente necessário? – Pensou se devia ter medido mais as palavras.
– Não... sei... Talvez. Você ouviu, Flavinha! Ela desrespeitou tudo... meu... – não se deixou dizer “amor” – TUDO!
– Ok. Mas você sabe, lá no fundo, que ela não tá de todo errada, né? – Disse cautelosamente.
– Você... também? Sério? – Arregalou os olhos – Acha que eu escolhi isso? Olha pra mim, Flavia. Quem que escolhe isso?! – Olhou para o espelho que refletia a cara cansada, o corpo torto, as roupas amaçadas que só uma dor de amor pode proporcionar.
– Eu não acho nada, Van. Mas – fez uma pausa – eu sei que ninguém, além de nós mesmos, somos responsáveis pela nossa felicidade. – Finalmente conseguiu passar as mãos nos ombros da outra e chegou mais perto – Ser feliz é uma tarefa nossa, Vanessa, colocar essa responsabilidade nos ombros de outras pessoas não é justo! E certamente não se chama amor. – Apertou seu antebraço – E você... – levantou o queixo de Vanessa com um dedo – Você é muito mais do que simplesmente alguém que Ama a Marina. Você só precisa lembrar de como é... viver pra você mesma.
Flavia lentamente passou os braços em volta da outra e sentiu toda a resistência do mundo. Vanessa tentava afastar Flavinha a todo custo, abria os braços pra se soltar do abraço, afastava a produtora com a palma das mãos, deixando as lágrimas caírem sem vergonha alguma. Flavia se manteve ali, tão maior que Vanessa parada no mesmo lugar até que a sentiu pesou nos seus braços, caindo tão lentamente quanto possível. Vanessa já soluçava baixo quando as duas chegaram ao chão depois da queda controlada e Flavinha passou a mão nos cabelos vermelhos da outra, pensando em voz alta “Vai passar”.
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Clara deixou Ivan no seu apartamento que ainda era o lugar onde Cadu dormia e subiu um andar para o apartamento de Helena. Era fim de tarde e todos estavam chegando dos seus respectivos compromissos. Conversou animada com a família na sala de estar e sem mais delongas foi se arrumar. Ainda não tinha pensado na roupa, nos sapatos, no tom do batom e, de uma hora pra outra, todos esses pequenos detalhes tomaram uma proporção imensa. Deixou que as roupas que vestia caíssem no chão do quarto sem muito cuidado, apanhou uma toalha branca e fofa no armário e parou em frente ao espelho; percebeu que ria sem esforço. Aquele riso tinha nome. Passou a mão pelos braços que foram abraçados por Marina a não tantas horas atrás, ainda existia um pouco do cheiro da fotografa ali e isso fez seu coração acelerar. Passou os olhos pelo contorno de sua cintura e os pequenos arranhões tão cuidadosamente feitos por Marina ainda não haviam sido apagados, Clara encostou o dedo por eles e pensou em como queria esses pequenos machucados pra sempre ali, em sua pele. Piscou algumas vezes e sorriu outras, olhou pra tela do celular e se viu ligeiramente atrasada. Então se desenrolou da toalha, a jogou em cima da pia e foi aí que sentiu doer. Aguda. O ombro latejou a dor de um dia inteiro. Ela soltou um gemido baixo, muito mais por lembrar se do que isso significava do que pela dor. Agarrou o ombro num reflexo e como se falasse com ele pensou em voz alta “Para”. Olhou o antebraço pelo reflexo do espelho e viu as pequenas, mas existentes, cicatrizes do vidro que um dia rompeu sua pele. Eram pequenas, quase que imperceptíveis para quem olhasse rápido demais; mas estava lá, como lembrança das coisas que não podem ser simplesmente apagadas por Clara, por mais que ela quisesse. Ponderou se contaria pra Marina sobre tudo que aconteceu enquanto estava fora e sim, claro que ela contaria, só não agora. Não naquela noite. Não estragaria o momento que ela tanto sonhou, por erros dos outros, por erro dele. Chacoalhou a cabeça pra dissipar as preocupações, passou a mão nas irregularidades da pele como se fossem sumir assim, apenas com um toque. “Ela não vai perceber” É. Provavelmente não vai.
Deixou os pensamentos ruins serem levados pela agua morna que descia pelos seus cabelos até seu pé; deixou que tudo de ruim até ali, fosse embora com a espuma do sabonete que limpava seu corpo. Respirou o vapor quente que vinha subindo e pensou no beijo que tanto ansiava, e em como ele foi muito melhor do que um dia pôde imaginar. Pensou na pele macia, na respiração sobre a pele, na felicidade que explodiu como uma bomba em seu peito. Felicidade alegre... é, Clara também achara seu lugar no mundo.
Saiu do banho e se arrumou sem pressa alguma. Passou todos os cremes em cada centímetro de pele, secou o cabelo da melhor maneira possível e dispôs sobre a cama as peças de roupas que estavam disputando para quem iria ser vestida naquela noite. “A noite tem que ser perfeita” ia repetindo esse mantra em voz baixa, enquanto decidia entre o body azul escuro e calça a uma blusa preta básica de tecido leve. Optou pela blusa e sua calça jeans preferida. Nem se esforçou na maquiagem, só retocou com pó e caprichou no batom, exagerando no perfume e pronto. Olhou-se no espelho uma ultima vez antes de sair do quarto, seu coração tamborilava no peito “Respira”!
Clara não prestou atenção no caminho até a casa de Marina. Apertou o automático e deixou a força do hábito a levar até os portões da mansão que ficava tão alta em Santa teresa. Antes de fazer sinal para o porteiro, viu sua passagem ser liberada pra dentro do jardim que estava estranhamente escuro; A casa inteira parecia estar vazia. As luzes da piscina estavam apagadas, um breu que não dava pra ver um palmo se quer de distancia. Clara desceu do carro meio desorientada, deixando os faróis ligados. Será que Marina havia saído? Será que ela esqueceu do compromisso? Olhou pra trás a procura de Ricardo, o motorista de Marina que ficava fazendo companhia para o segurança nas noites e madrugadas, mas não encontrou ninguém. Pensou em dar meia volta e ir embora até que ouviu o som da porta da frente se destrancar; lá dentro uma luz fraca e amarela brilhava tímida. Clara sentiu que não havia perigoso algum e alguma coisa a dizia que tudo aquilo tinha o dedo de Marina, então resolveu entrar na brincadeira.
Quando empurrou lentamente a pesada porta de madeira, seu coração acelerou no peito. A sala estava escura e seus olhos demoraram algum tempo para se ajustar a ausência de luz. Aquela luminosidade que vira antes era uma velinha que boiava em água sob a mesinha ao lado da porta. Clara olhou sem querer para o chão e viu várias daquelas florzinhas da vizinha de Marina, que ela conhecia tão bem, jogadas pelo tapete; Não teve tempo de processar essa informação porque viu que em baixo da vela havia um bilhete que dizia em letras caligrafadas tão delicadamente...
“Siga as flores...
sua Marina”.
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