Sunset.

7 Capítulo 7 - Smother


Notas iniciais
ALÔ MEU POVO! Eu sei! Faz um mês que eu não posto, EU SEI GENTE. Mas deixa eu explicar... Eu fui viajar pra Buenos Aires e não tive tempo pra postar, mas agora voltei, entrei de férias da faculdade e tá lindo! Juro que não abandonei vocês e que não vai demorar mais um mês para serem postados! Então, relaxem e curtam esse que tá GIGANTE pra compensar, ok? Me amem! Dedicatórias: Primeiro eu tenho que dedicar esse cap a Aninha, uma das meninas da Gang das Escritoras, que fez aniversário a muito tempo atrás (desculpa a demora Aninha s2) e que é uma LINDA. Esse cap é pra você Aninha, por ser essa pessoa foda que faz toda a diferença na Gang, por ficar mandando o povo ler minha fic e ser uma das pessoas que mais gosta disso aqui. Você, é uma das pessoas que mais me inspiram e me dão vontade de vir aqui e passar horas escrevendo... quero que saiba que se não fosse por você e por todas as pessoas que me incentivam, eu já teria desistido disso aqui. Obrigada! Obrigada por ter entrado na minha vida, por ter entrado na Gang, por ter me dado o prazer de te ver surtar lindamente no twitter, por ser assim... foda! Feliz aniversário atrasadissimo e que você consiga tudo que já desejou nessa vida; por que você merece! Tamo junto! Obvio que tenho que mandar um beijo e vários corações pra Gang. Vocês, meninas que aguentam minhas brincadeiras sem noção, minhas melações... enfim, que me aguentam no geral. Vocês são uma parte importantissima na minha vida e espero que saibam disso! E por ultimo, mas não menos importante esse, e todos os outros que ainda viram, serão sempre dedicados a Nathalia! Por que sem ela não teria fic nenhuma e eu nunca vou ser capaz de agradecer o suficiente por tudo que ela já me proporcionou. Nathalia Marto, você é meu mozão, meu nenem e vai ser sempre uma parte de mim. Eu te amo, mozão! Obg pro tudo. #Nanyka (Todo mundo lendo a fic da mozão "Velvet Touch" obg.) PAROU A MELAÇÃO E VAMOS COM O CAP NÉ?! beijos suas lindas. Pra quem quiser me xingar pelo twitter. @k_okasaki

Já era tarde da noite e Marina ainda se encontrava perdida nos próprios pensamentos. Aquele “Minha professora” simplesmente não parava de se repetir em seus ouvidos. Clara mexia com Marina de uma maneira que não se pode colocar em palavras. Todo movimento que ela fazia, por mais bobo que fosse, era motivo pra que Marina se movesse também. Aquilo que era sentido por todo o corpo, quando a dona de casa sorria olhando em seus olhos, não era normal. Marina permanecia imóvel no meio do seu quarto repassando toda aquela cena em sua sala de aula. Clara deliberadamente jogando com a fotografa e aproveitando cada segundo. “Ela quer me deixar louca.” E estava conseguindo.

Tentava lembrar-se das noites frias, dos meses com aquela dor latente no peito, das lagrimas, que ela jurou respeitar; mas tudo foi perdendo o sentido. Doía cada vez menos agora que ela estava perto. As cicatrizes ainda estavam tão abertas tanto quanto no dia que ela decidiu seguir em frente, mas como num passe de mágica, elas se anestesiaram; Clara sempre foi o remédio que curaria Marina de todos os males do mundo.

Ainda que não entendesse o que realmente havia acontecido com aquele casamento de 10 anos, tinha medo de descobrir; nem todo o remédio nessa terra poderia deixar que ela esquecesse o que foi passar por toda a turbulência emocional que foram aqueles meses. O receio de que a bipolaridade de Clara mudasse o rumo da história de novo fazia com que um pé ficasse sempre atrás. Era o mínimo que Marina poderia fazer pelas suas lágrimas. “Vai com calma.”

~

Clara andava de um lado para o outro pela sala, a felicidade irradiava dela e fazia com que ficar parada fosse impossível. Estava lá, ela podia sentir mais do que nunca, teve certeza de que tinha uma chance de merecer Marina pra ela. De verdade, dessa vez. Pensava em todas as vezes que poderia simplesmente ter beijado a fotografa e dizer tudo aquilo que não havia sido dito, mas não seria assim. Marina havia passado semanas, meses, lentamente conquistando Clara. Pacientemente esperando pra que ela encontrasse seu próprio ritmo e respeitando todo o espaço da dona de casa; Clara iria fazer o mesmo. Não era novidade que Marina era uma jogadora, isso vinha quase que naturalmente pra ela. Clara não achou que seria fácil entrar no jogo que Marina sabia as regras tão bem, mas quando se pegou na posição de predador ao invés de presa, soube que não seria nada difícil.

Sorrio pra si mesma quando lembrou como descompassava Marina apenas com um toque.

Mordeu o lábio quando pensou como Marina destruía todas suas estruturas apenas com um olhar.

O telefone tirou Clara de todos seus devaneios e demorou um pouco pra que ela conseguisse voltar totalmente pra realidade. Pegou o aparelho nas mãos e subitamente deixou os ombros caírem, respirou fundo e fechou os olhos.

– Alô – Atendeu sem nenhuma animação.

– Alô, Clara? – Cadu sentia toda a falta de vontade na voz da ex-mulher e se encolhendo do outro lado da linha.

Clara respondia friamente, cortando todo tipo de tentativa que vinha de Cadu pra que aquela conversa fosse maior do que o necessário. Ele queria avisar que iria ao bistrô na tarde do outro dia, já que estava melhor e Silvia havia o liberado para fazer pequenas atividades físicas. Clara não se opôs e achou até bom, quanto mais rápido Cadu voltasse, mais rápido ela iria se desvencilhar do ex-marido totalmente. Desligou o telefone sem mais delongas e se jogou no sofá fofo, era incrível como depois de tanto tempo, ainda não conseguia esquecer-se das coisas que Cadu fez e se impressionava como aquilo ainda mexia com ela. Tocou no ombro machucado e não sentia melhora, Felipe dizia que poderia levar algum tempo, mas que se o quadro continuasse o mesmo seria necessário outro raio-x ou um exame que Clara não entendia pra que servia. Decidiu que isso não iria estragar o dia. O dia que tinha sido muito bom, obrigada.

~

Quando Flavinha entrou no estúdio já era madrugada. Havia esquecido seu computador em baixo dos books das modelos que estava escolhendo para o próximo ensaio e na correria do fim da tarde, não se lembrou de coloca-lo na bolsa.

No momento que desceu o primeiro degrau do estúdio viu Vanessa projetando antigas fotos no telão em frente ao projetor. Ela deduziu que eram fotos velhas por reconhecer Marina com o cabelo um pouco mais curto e Vanessa sorrindo. A ruiva parou os slides em uma imagem linda. Marina não vestia a parte de cima do seu biquíni e estava de costas pra Vanessa, olhando para o mar inacreditavelmente azul a sua frente com os cabelos molhados e bastante bagunçados jogados em suas costas; a praia estava vazia e a areia era branca e fina como nos filmes.

Vanessa ouviu Flavinha entrar, mas não se incomodou. Não tinha vergonha nenhuma em falar do amor que ainda sentia por Marina, mesmo porque não era segredo pra ninguém, que ainda existia um amor ali.

– Viajamos pra tantos lugares, eu nem me lembro mais onde tirei essa foto. – Vanessa respondeu a pergunta não feita. Sem tirar os olhos das costas nuas da Marina ampliada na parede branca.

– E quem diria que a grande empresária Vanessa também tinha talento para fotografar? – Flavinha disse se aproximando devagar, com as mãos no bolso da calça jeans, tentando aliviar o clima que de tão pesado, quase era melancólico.

– Quem me dera – Disse tentando rir – Eu não tenho talento algum pra fotografia, Flavinha. A modelo que me interessava.

Vanessa sabia que não precisava vestir aquela armadura de grosseria com a produtora, deixou as imagens passarem uma por uma enquanto se sentava no sofá em frente a parede. Deu três tapinhas no lugar ao seu lado e Flavinha se sentou ao lado da ruiva, pegou sua mão e colocou em seu colo.

– Que amor é esse, Van? Que amor é esse que só te faz sofrer, que só machuca...

– Isso é amor de verdade, Flavinha. E se eu sofro hoje é por que essa mulher já me fez muito feliz um dia. E vai fazer de novo, você vai ver. – Não achou que a amiga entenderia, mas falou mesmo assim.

Flavinha quase não podia acreditar no que ouvia, Vanessa era uma das melhores assessoras que já conhecera, sempre foi extremamente focada e estrategista, mas quando se tratava de amor era inteligente como uma porta.

– Eu acho que dessa vez ela não volta, Van – Tentou falar com toda a delicadeza que alguém poderia entregar uma noticia assim. – Não é nem pela Clara. Nada disso. Eu só acho que pra ela passou, sabe? Ela tá mudada, Van. – Apertou sua mão.

– Eu conheço a Marina, Flavinha. Ela sempre teve outras mulheres. Ela é assim. Marina Meirelles não foi feita pra ser de uma pessoa só, ela sabe disso, eu sei disso... a diferença é que eu aceito ela assim – Vanessa olhava pra Flavia com os olhos cheios d’agua, ainda apertando sua mão e tentando sorrir – Eu já perdi as contas dessas paixões que duram verões inteiros, mas ela cansa de todas, viu? A paixão passa, a rotina toma conta, ela fica entediada e...

– E sempre volta pra você? – Flavinha completou a frase.

– Sim. Ela sempre volta... Às vezes demora, mas ela sempre volta pra mim. – Vanessa sorria tristemente para a foto que foi projetada logo que ela disse a ultima palavra. Ainda não tirava os olhos da parede. – Nessa daí, nós estávamos escondidas em algum lugar da Austrália. Ela tinha acabado de largar uma italiana que queria ter algo mais sério. – Vanessa riu e sacudiu a cabeça de um lado pro outro fazendo um sinal de não – Elas acham que podem prender ela assim... ninguém entende que ela precisa se sentir livre pra ser feliz.

Flavinha decidiu não dizer mais nada, até tinha a intimidade suficiente pra fazê-lo, mas percebeu que não faria diferença. Ela entendeu que aquele assunto não estava aberto a discussões. O amor que Vanessa sentia por Marina não estava aberto a discussões. Não para Vanessa.

A produtora soltou a mão da ruiva e se pôs de pé, passou a mão pelos cabelos encaracolados de Vanessa e deu um beijo no topo de sua cabeça. Pegou seu notebook no lugar que havia deixado e foi em direção à pesada porta vermelha do estúdio, mas antes de sair olhou uma ultima vez Vanessa perdida no próprio passado.

– Sabe que viver esperando... não é viver – Flavinha sussurrou antes de bater a porta atrás de si.

– Uma vida sem ela... não é vida – Vanessa respondeu pra si mesma.

Não se lembrava de como era antes de Marina aparecer. Tudo era um borrão de memórias, todas misturadas e ofuscadas pela primeira vez que sentiu a presença de Marina no ambiente. Já havia passado tanto tempo que amava a fotografa que não sabia mais não ama-la. Sua vida rodava em torno de uma pessoa e uma pessoa só.

~

O dia havia chego. Clara saltou da cama bem cedo e fez todo o ritual da mãe dedicada. Acordou Ivan com vários beijinhos e o preparou pra escola. Tomou café da manhã com a família e levou o filho para o colégio. Chegou ao bistrô antes do movimento começar, fez os preparativos do dia e a manhã seguiu tranquila.

Cadu chegou ao Galpão depois do almoço, no horário que havia avisado Clara que iria. Já não tinha dificuldade pra andar e não se sentia tão cansado, os remédios finalmente estavam fazendo o efeito que ele tanto esperava e a recuperação só parecia melhorar. Queria passar mais tempo no bistrô, tirar um pouco da responsabilidade dos ombros de Clara e voltar a o negócio que ele tanto sonhou ter.

Clara viu o ex-marido se aproximar e deixou que o balcão ficasse entre eles. Conversaram sobre os pratos do dia, sobre quando ele iria pegar o Ivan na escola, tudo muito superficial e raso. Quando Clara olhou para o relógio, já estava quase na hora da sua aula, pediu licença pra Cadu e foi em direção à cozinha deixar o avental e acertar os últimos detalhes; avisou o chef que o ex-marido estava presente e se arrumou em frente ao espelho pensando se Marina ia gostar do vestido de verão que usava. Quando ia saindo da cozinha, viu uma torta doce que deveria estar no mostruário lá na frente. Pegou a torta com as duas mãos e foi de encontro ao Cadu, Clara se esticou em cima do balcão para colocar a sobremesa no lugar certo e naquele momento seu ombro deu aquela conhecida fisgada. Ela quase deixou que a torta caísse no chão, mas Cadu apoiou seu cotovelo com uma mão e com a outra tirou o peso da torta dos braços de Clara.

Toda vez que Cadu via Clara sentindo aquela dor no ombro, alguma coisa dentro dele morria. Era como se aquilo fosse um lembrete constante da idiotice que fizera. Ele nunca mais seria o homem que um dia fora e estava ciente disso. Quando correu pra ajuda-la, era como se pudesse pegar o maior erro da sua vida em suas mãos e aperta-lo. E mesmo sabendo que toda escoriação e sequelas visíveis um dia desapareceriam completamente, as cicatrizes invisíveis que imprimiu em Clara, seriam eternas. Estava ciente disso também.

Com toda a movimentação, Clara não conseguiu perceber o quão próximo Cadu estava dela. Ainda com a mão em seus braços, ele parecia preocupado e sua expressão de culpado não deixava duvidas. Ele perguntou se estava tudo bem, fez menção de chegar mais perto e Clara paralisou. Nunca mais tinha deixado que Cadu se aproximasse assim, muito menos toca-la novamente; era estranho sentir aquele toque tão familiar e ao mesmo tempo tão estranho. Nenhum dos dois percebeu como aquela cena estava sendo vista de fora.

Marina havia chegado ao galpão alguns minutos antes, podia até mentir pra si mesma, mas sabia que queria ter alguns minutos a mais com Clara antes que a aula começasse; talvez roubar um abraço mais longo, um beijo de lado, um toque sem quere. Quando entrou pela porta principal seu instinto natural foi ir para o bistrô, mas se arrependeu no momento seguinte.

“O... que?” Seu queixo involuntariamente caiu. Cadu estava ao lado de Clara, segurando sua cintura e seu braço, extremamente próximo fazendo carinho no seu ombro e Clara estava deixando, ela se mantinha imóvel, mas ainda sim estava permitindo todo aquele contato! Marina foi andando pra trás, como quem não quer fazer barulho ou ser percebida, sorrateiramente fugindo daquela cena tão normal e triste pra ela. Antes de virar as costas viu Clara colocar a mão sob a mão de Cadu e não conseguiu manter os olhos abertos, juntou as próprias mãos em um movimento involuntário, torcendo pra que aquilo impedisse que Clara apertasse a mão de outra pessoa que não fosse a sua. Sem conseguir acreditar, deu as costas para o casal balançando a cabeça tentando fazer as imagens se embaralhar em sua frente. “Você só pode estar de brincadeira com a minha cara, Clara”. Marina já conhecia aquele sentimento que tomava conta de todo o seu corpo, as mesmas velhas dores, nos mesmos lugares doloridos de sempre e dessa vez, sem duvida alguma, doeu muito mais. Fugiu por tanto tempo de toda essa sensação de ser a segunda opção, algo substituível... algo... fácil demais. Por que era isso que ela sentiu enquanto a queda controlada que era andar a distanciava dali. “Fácil demais”. Ela não acreditou que abaixou a guarda o suficiente pra Clara faze-la sentir aquilo de novo. “Você deveria saber, Marina... Não ser tão fácil assim”.

~

Depois que Cadu perguntou se estava tudo bem, ele tentou se aproximar ainda mais de Clara que ainda não sabia se mexer, ainda sentia as mãos gigantes de Cadu no seu ombro, fazendo doer mais e respirou fundo. “Calma, Clara.” Ela colocou a mão sob a mão do ex-marido, apertando e disse em um sussurro doloroso.

– Tira as mãos de mim, Carlos Eduardo. – Sentiu como se tivessem tirado o peso do mundo dos ombros, quando Cadu interrompeu o toque. Ainda estava de olhos fechados e tremendo por dentro quando sentiu Cadu se afastar. A dor de ver aquele homem ali, tocando-a, era maior do que qualquer dor física. “Pare de relar em mim”.

– Clara! Me desculpa, eu só tava tentando aju... – Falava enquanto dava passos largos pra trás ainda meio atordoado em como tinha um efeito ruim sobre a mulher que ele ainda amava tanto. Foi interrompido.

– Eu não tô pronta. Não faz mais isso! – Não queria lidar com isso agora. Não tinha mais paciência, nem vontade alguma. Respirava fundo, voltando ao controle do próprio corpo. Só conseguia pensar em como queria que aquele toque fosse de Marina. De que aquelas mãos fossem pequenas e macias, como as de Marina. Olhou para seu próprio corpo e pensou em todos os pequenos machucados que se escondiam de baixo de suas roupas, algo a dizia que só o toque de Marina seria capaz de fechar todos, curar tudo e apagar as marcas.

Clara contornou Cadu e foi em direção as escadas. Precisa dos olhos da Marina nos seus. Precisava ouvir a voz leve que ao chegar aos seus ouvidos pesava no coração, aquecia. “Cadê você? Eu preciso de você.”

~

Marina correu até sua sala e não percebera o quanto seu corpo não a obedecia mais. Tremia como quem morria de frio e seu rosto queimava como quem morria de febre. Era como se tudo aquilo que ela experimentava naquele momento se tornasse palpável a seu corpo. Não conseguia pensar direito e por puro habito ligou aquela cena de carinho com toda a sua dor anterior; isso abriu portas que ela demorou meses para fechar. As memórias ruins escorriam pra fora dela, tomando forma de lágrimas pequenas e concentradas, fugindo para o canto do olho.

Não houve tempo para se recompor, Marina viu os primeiros ansiosos alunos entrarem pela porta e se pôs em pé, firme como rocha. Cumprimentou todos que se aproximaram dela, começou a retirar o material de sua bolsa, algumas apostilas e sua maquina, colocando tudo em cima da mesa. Respirou fundo quando sua mão tocou na alça que a dias atrás havia tocado o pescoço de Clara. Marina pensou que não daria tempo de sentir tudo aquilo, mas aí se deu conta que talvez não existisse horas o suficiente no dia, então resolveu não sentir nada.

A aula corria tranquila, animada e muito bem lecionada pela fotografa que se escondia por de trás do sorriso forçado. Marina respirava aliviada toda vez que ouvia um barulho e não era Clara entrando pela porta, até que uma hora... ela entrou.

Clara nem tentou abrir a porta com cuidado e também não disfarçou quando procurou os olhos de Marina pela sala, só queria sentir a segurança que era estar no mesmo local que a fotografa, sentir o calor que emanava dela. Mas ao invés disso encontrou uma imensidão de... vazio. Marina passou os olhos pela Clara e disse alguma coisa sem entonação. Clara paralisou ao lado da porta, não precisou entender o que ela dizia, não precisava ouvir a voz de Marina, pois dava pra ver nos olhos da fotografa que havia algo errado. Os olhos de Marina fugiam dos de Clara como numa dança. Uma triste dança.

Outros alunos chegaram atrasados e todos foram se acomodando pela sala, sentados em fileiras desiguais e tortas. Marina se apoiava na mesa enquanto falava sobre a identidade que cada fotografo tinha, explicou que mesmo se todos tirassem a mesma foto, do mesmo lugar, ainda sim existiriam fotos diferentes. Encorajou todos seus alunos a descobrirem seu estilo, seu jeito, seus gostos; Uma aluna comentou que queria fotografar como Marina fotografava, e com muito humor a professora disse que não seria possível, pois cada foto que ela tirava era um reflexo de tudo aquilo que ela já vivera, fazendo assim impossível de se copiar.

A conversa continuou rolando sobre como também era importante ser consistente em certos aspectos e quando Marina terminou de falar a parte teórica, pediu pra que todos tirassem 5 fotos de qualquer coisa, mas que todas tivessem alguma relação, que houvesse algum padrão. Todos se levantaram e começaram a se movimentar pela sala, discutindo ideias e mirando suas câmeras pra todos os lugares. Havia vários instrumentos na sala, uma estante cheias de livros, algumas peças de artes nos cantos, no geral era um lugar bonito e havia muita coisa a ser explorada ali.

Clara se aproximou receosa, não sabia por que, mas sabia que algo havia mudado, só não entendia o que era.

– Ei, tá tudo bem? – A voz tremeu.

– O que você quer, Clara? – Marina nem tentou disfarçar a voz. Doía e ela queria que Clara soubesse o quanto.

– Marina? Por que... – Clara levantou a mão pra tocar no ombro da fotografa, mas a viu desviar do toque e colocar a mesa entre as duas. Não estava entendendo nada. O que havia mudado?.

– Me desculpa Clara, mas eu não vou poder mais emprestar minha câmera. – Pegou a câmera de cima da mesa e passou a alça pelo pescoço, olhando pra todos os lados, menos pros olhos de Clara. – Eu acho importante cada aluno ter a sua própria... – Foi andando em direção a outros alunos ainda olhando pra dona de casa – afinal, isso aqui é um curso de fotografia, né? – Falhou em fingir um sorriso.

Clara deixou o queixo cair. Ficou refazendo todos os passos que deu, todas as coisas que falou desde que a viu pela ultima vez, tentando encontrar o que havia acontecido pra que Marina a tratasse assim. Nada! Não conseguia pensar em nada que se encaixasse. “O que eu fiz dessa vez, caramba?”. Clara sentiu um peso gigante sobre o peito, colocou a mão sobre a mesa pra que o corpo se apoiasse em algo, estava tudo tão difícil e ela estava tão perto, cerrou os olhos e sentiu que se se permitisse ia chorar tudo que havia pra ser chorado ali mesmo. “Eu não posso te perder”. Clara sentiu uma mão pegando em seu braço e por um segundo pensou que eram as mãos de Marina ali, apertando seu corpo.

– Ei, você tá bem? – A mulher perguntava sinceramente preocupada, ainda com a mão no antebraço de Clara.

– Sim – tentou sorrir, passando a mão na franja caída nos olhos – Tá sim, obrigada.

– Desculpa, é que eu vi você aí, achei que tava passando mal... – Dava pra ver que ela estava verdadeiramente preocupada.

– Ah, não é nada demais. – Clara se endireitou, firmou os pés no chão e tentou dar aquele sorriso de novo – E na verdade, eu já tava indo embora – Apontou pra câmera na mão da mulher – Eu não trouxe minha câmera hoje e isso é uma aula de fotografia, né? – Repetiu as palavras de Marina.

– Mas não seja por isso então – Ela colocou a câmera nas mãos de Clara – Eu te empresto a minha. – Ela sorrio e tinha um sorriso lindo; e sabia disso.

Clara não pode deixar de achar aquele gesto bonito. Mas colocou a câmera de volta na mão da mulher, assentindo com a cabeça como quem pede desculpas por não aceitar um presente.

– Magina, não quero atrapalhar e sinceramente... não acho que seja um bom dia pra eu fotografar nada. – Clara deu um passo pra trás, dando espaço pra mulher se retirar, se quisesse.

– Por favor – Se esticou e relou no braço de Clara novamente, no mesmo lugar – Eu também não estou nos meus melhores dias. Então a gente faz essa tarefa juntas, pode ser? – Seu sorriso era realmente lindo.

Clara não soube dizer não.

– A propósito, eu me chamo Ana. – Ela sorria tanto e tão grande.

– Clara, prazer – Estendeu o braço pro aperto de mão e sentiu Ana afastando sua mão para o lado. Foi tão natural quando o abraço veio que Clara nem teve tempo de reagir.

– Prazer, Clara! – Ela disse apertando o abraço mais um pouquinho e soltando um segundo antes do planejado. – Apresentações feitas, vamos terminar logo com isso? Antes que a professora fique brava com a gente. – Olhando na direção de Marina que assistia toda a cena de longe e evidentemente incomodada.

Clara se contraiu ao pensar no que Marina estaria achando daquilo tudo. Não queria mais problemas, não queria sentir sua fotografa longe, mas Clara percebeu de imediato que aquele olhar era ciúmes. Puro, simples e lindo... ciúmes. Não que a hora fosse certa, mas era impossível não constatar que Marina ficava linda de qualquer jeito.

“O que que ela tá fazendo?” Era só o que Marina conseguia pensar. Não existia nenhum nexo nas ações de Clara, tudo que ela dizia vinha contradizendo suas ações e parecia que ela não se incomodava nisso. A fotografa viu aquela mulher linda, morena, alta e com um sorriso extremamente lindo se aproximando da dona de casa e não conseguiu conter o ciúmes involuntário. Era quase um reflexo. Tudo que se aproximava demais de Clara, que a tocava, que a fazia sorrir e que não fosse Marina, a tirava do sério. Marina nunca foi ciumenta. Ainda lembra do dia que disse “Eu não sou exclusivista” e sentiu o amargo do arrependimento apertar a língua. E na verdade Marina não era ciumenta, nunca fora e antes de Clara, tinha certeza que jamais seria. Surpreendeu-se em saber que apesar de TUDO, do rio de emoções e coisas ruins que Clara a fez sentir naquele dia, ainda tinha a capacidade de querer ela só pra si... e mais ninguém.

A aula seguia movimentada na sala, pessoas andando e conversando pra todos os lados e Marina sendo requisitada em todos os cantos, por todos os alunos hora ou outra. Clara seguia do lado de Ana, que esbanjava elogias e risadas pra tudo que a dona de casa fazia. Era involuntário não responder a um sorriso sincero, Clara nem notou o quão próximas estavam enquanto discutiam quais seriam as fotos que iriam tirar. Em um momento de distração Clara parou um segundo pra olhar direito pra Ana. “Nossa”. Não era só seu sorriso que era lindo. Ana tinha seus bons um e oitenta e alguma coisa de altura, seu cabelo encaracolado formavam cachos densos e grossos que caiam perfeitamente sobre seu ombro, sua pele tinha cor de chocolate e brilhava em contato com qualquer luz. “Nossa”. Não que Clara tivesse qualquer interesse pela morena, nada disso! Mas não teria porque não confessar que aquela mulher era estonteante em sua própria maneira.

Marina assistia Clara olhar praquela mulher de uma maneira que a matava por dentro. Não sabia dizer se era desejo ou simples curiosidade... de qualquer maneira, doía igual, machucava igual, era igualmente triste. Não dava mais, Marina tinha chegado ao seu limite. Se aquilo era um jogo, ela já tinha desistido do fair play.

Pra toda vez que Ana relava em Clara, Marina se aproximava desnecessariamente de alguma aluna. Pra toda vez que Clara sorria de volta pra Ana, Marina soltava um elogio com segundas intenções. Já não dava pra esconder a batalha interna que rolava dentro da sala. Clara, como sempre, continuava alheia as coisas a sua volta, demorando tempo demais pra entender o que se passava. Ana não era idiota, era obvio que a professora não estava gostando da aproximação de sua aluna preferida, mas achou graça, não é todo dia que Marina Meirelles descia a campo.

– Professora – a aluna chegou por trás e falou perigosamente perto do pescoço de Marina – to estudando bastante sobre o que você disse, sabe? O estilo de cada fotografo e essas coisas – a menina dizia tudo muito baixo e de tão inocente, ficava quase obsceno. – Tem como você me dar algumas referências, me indicar alguma coisa pra ler – passou a mão levemente pelo braço de Marina – nas horas vagas...

Antes de pensar em responder, Marina olhou pros lados a procura de Clara. Queria que ela assistisse; que ela sentisse o ciúmes que ela sentia naquele momento. E achou. Ela estava a alguns metros dali, empunhando a câmera na direção da professora. Marina sorriu falso e vestiu sua melhor mascara de sedutora. “Game on”.

– Mas eu tenho coisas muito melhores pra te indicar pra fazer no seu tempo livre – Marina exercia todo seu poder de sedução em cima da aluna. Falava baixo, a olhava nos olhos, se movia em volta dela sem que ela percebesse.

– Então eu vou esperar pelas suas sugestões, professora – a menina piscou pra Marina antes de sair andando sorrindo escondido.

Clara assistia tudo aquilo pelas lentes da câmera, deixando toda pontada de ciúmes que sentia dar um click, foi tirando fotos da cena que doía tanto ver. O pensamento de perder Marina era demais pra ser pensado até o fim, cogitar a possibilidade de outra mulher estar ao lado dela então, não era possível. Sabia o que aqueles olhares significaram, sabia que aquele sorriso era um convite, que os pequenos toques no braço eram indiretas... sabia de tudo isso por que já viu Marina o fazendo, pra Clara.

– Você vai me falar o que ta acontecendo, Marina? – Clara não percebeu o tom de voz subir tanto, nem que segurava no braço de Marina tão fortemente.

– Que isso, Clara? – Soltou a mão de Clara de seu braço e se pôs distante.

– Por que você tá assim? Por que ta fazendo isso comigo, caramba? – Deixou que as lacunas dessa pergunta se preenchessem sozinhas.

– Eu?! – Deixou o queixo cair, não acreditando na cara de pau de Clara – O que eu to fazendo, ou deixo de fazer, não é da sua conta, Clara! – Deu dois passos pra se retirar dali, mas desistiu no meio do caminho, falando baixo perto do rosto de Clara – Então por que você não para de olhar pra sua “amiga” e vai fazer a atividade que eu mandei vocês fazerem.

– Claro! – A ironia não pôde ser evitada – Quando você parar de seduzir as suas alunas, a gente conversa Marina. – Deu as costas pra fotografa e não olhou pra trás. Nada fazia sentido. “Como chegamos aqui?”.

Marina não acreditou no que ouviu, Clara nem tentou esconder os ciúmes. Se manteve de pé vendo as costas da dona de casa se afastarem pensando onde isso iria acabar, ainda um pouco mexida pela ironia na voz de Clara.

As provocações das duas não pararam. Marina deixava que aquela aluna se aproximasse demais e sabia que era errado, mas ver Clara com ciúmes foi algo inédito. Clara não deixava por menos e se aproximava perigosamente de Ana, toda vez que sentia os olhos de Marina sobre ela. Era uma brincadeira perigosa e totalmente irresponsável. Estavam jogando com os sentimentos dos outros, o desejo dos outros e as coisas poderiam sair de controle a qualquer momento. Mas existia tanta coisa por ser dita, tanto sentimento mal sentido e falado, que o julgamento das duas foi prejudicado. Elas trocavam dores, arranhões em seus egos e farpas afiadas o tempo todo. Houve momentos em que não se sabia mais o motivo de tanta agressividade, apenas que queria machucar uma a outra, apenas pelo ato de fazer doer.

E se fez doer. Muito mais do que o necessário, muito além do que deveriam.

Ao fim da aula Clara se aproximou de Ana e entregou-a sua câmera, agradeceu imensamente pela ajuda e desejou tudo de melhor pra amiga. Não precisou que Clara colocassem em palavras que não havia nenhum interesse por parte dela, Ana já havia entendido que aquele jogo já estava perdido antes mesmo de começar. Mas verdadeiramente gostou de conhecer Clara, esse sentimento era reciproco. Ela deu dois beijos na bochecha da dona de casa e se retirou da sala de aula, sem olhar pra trás. Era uma mulher linda e incrivelmente sedutora, mas sabia muito bem a hora de tirar o time de campo.

Marina assistiu aos dois beijos de despedida que Ana deu em Clara e não soube lidar com o ciúmes que veio corroendo tudo por dentro. As duas já haviam perdido a razão e já era certo que todos sairiam feridos, mas nada disso importa quando as pessoas não raciocinam direito; Marina viu a aluna que tanto distribuiu sorrisos e segundas intenções vindo em sua direção, então ela encurtou a distancia entre as duas. A aluna abraçou a professora e Marina foi desnecessariamente calorosa dentro do abraço, passou as mãos nas costas da outra e pousou a outra em sua nuca. E foi cruel ter olhado nos olhos de Clara o tempo todo.

A gota d’agua. Clara deixou que os ombros caíssem e a respiração cessou por alguns segundos, deixou que sua cabeça pendesse pra baixo e encarou os próprios pés. Estava tão cansada de todos os jogos, de todas as lacunas, de sentir saudade de algo que ela nunca teve, da dificuldade que era dizer “eu te amo” pra mulher que abraçava uma outra qualquer em sua frente agora. Enquanto esvaziava seus pulmões dolorosamente, desejou apertar um botão onde pudesse parar o mundo inteiro e andar em direção a Marina, deixar que ela ficasse imóvel e incapaz de interrompê-la e falar... falar sobre todo o amor que ela sentia e sente pela fotografa. Sussurrar em seu ouvido sobre como havia sido difícil demais até ali, mas que Clara prometeria que daqui pra frente, seria melhor. Porém não existe essa coisa de “botão magico”, Marina não iria parar pra ouvir Clara dizer frases atrasadas e não existia garantia nenhuma de que dali pra frente seria melhor. Clara não tinha nada e de mãos vazias deu as costas pra Marina e saiu daquela sala.

No momento em que viu a sombra de Clara sumir porta a fora, Marina largou aquela mulher que abraçava tão forçadamente e como num lapso de clareza pediu desculpas pra moça a sua frente. Se despediu dos alunos que ainda restavam na sala de aula e foi pra perto da gigantesca janela que dava de frente a várias arvores e prédios antigos do Rio de Janeiro, passou as mãos nos cabelos tentando entender o que diabos tinha acontecido naquela tarde. Cogitou a possibilidade de simplesmente sair fugida do país novamente, só pra não ter que lidar com aquela pilha de sentimentos que vinham se formando em cima de seu peito. Clara era um assunto que só se estendia e parecia não ter um fim definitivo. Tremeu em pensar que todas aquelas feridas e arranhões que haviam sido feitos não se tornariam remediáveis, pois sabia que existiam coisas irremediáveis na vida sim. Talvez o amor fosse uma delas. Talvez o amor por Clara fosse assim... irremediavelmente doloroso.

Quando tudo parecia pesado demais pra se levar em frente, uma brisa leve entrou pela porta e preencheu a sala. A brisa vinha pelas suas costas e era incrivelmente leve, gostosa, cheirava a mar... era Clara.

Marina podia sentir a presença dela em qualquer lugar do mundo. Já havia dito que mesmo em uma sala completamente escura conseguiria reconhecer Clara pelo tato, pelo cheiro... hoje Marina sabia que reconhecia Clara por muito menos. Era algo quase sobrenatural, Marina sabia quando ela a olhava, não precisou virar pra saber que ela estava ali. Não disse uma palavra, apenas se deixou respirar o mesmo ar que a outra.

– Quando você foi embora... – Clara tentou manter a voz calma e baixa. Limpou a garganta. – Quando você foi embora, Marina, eu achei que nunca mais a veria de novo. E eu vou começar isso aqui pedindo desculpas, por que eu tive que fazer você ir embora... pra tomar coragem de lutar por você.

Marina não fez menção de se virar, apenas levantou uma das mãos como sinal de que Clara parasse e foi deliberadamente ignorada.

– Não precisa olhar pra mim não, mas hoje você vai ouvir o que eu tenho pra te falar – Deu dois passos pra frente e cerrou os pulsos num reflexo – ME DESCULPA! Por tudo. Pelo sofrimento, pelas noites em claro, pelas vezes que eu fugi de você... me desculpa! Eu sempre soube que te queria pra mim, mas eu nunca tive coragem de dizer isso pra você. – A voz falhava, mas Clara não conseguia parar. Eram verdades que precisavam ser ditas em voz alta. – E eu fui fraca. Eu estou admitindo que eu te queria perto demais, mas não o suficiente pra abalar a minha realidade. Eu te mantive em um lugar conveniente pra mim e você merecia mais que isso. – As lagrimas que vinham, vinham sem vergonha alguma – Você lutou por mim, mesmo quando isso ameaçou a sua sobrevivência você lutou por mim... e isso... – a voz tremeu – Isso foi a coisa mais linda que alguém já fez por mim, Marina. Você lutou por nós mesmo quando eu não o fiz e eu... eu não merecia... você. – Clara apontava pras costas da outra. Talvez o mundo tivesse parado sim.

Marina esqueceu tudo. A única coisa que se movia dentro daquela sala era a voz de Clara, que vinham batendo em suas costas, descendo pelos seus braços, se jogando contra o duro do vidro da janela. Ela respirava os sons que saiam da boca de Clara.

– Quando você foi embora eu fui pra casa e terminei o meu casamento. Eu disse pra ele que o amor que eu sentia por ele já não era o mesmo amor que eu senti... e que o que eu sentia por você era maior. – juntou as mãos como numa prece, pra talvez isso aumentar as chances da outra acreditar nas suas palavras — Era algo que eu já não podia controlar... que eu não queria controlar. Eu disse pra ele que queria você. – Diminuiu a distancia das costas da outra – Você, Marina. Eu quero você.

Marina deixou que aquele turbilhão de palavras se acalmasse e o silencio tomou conta do lugar. A respiração delas era a musica ambiente. Marina se virou lentamente, olhando para os próprios pés.

– Agora, Clara? Você me diz isso agora? – seu tom era baixo e fraco, quase inaudível – Agora que já doeu tanto, que já sangrou tanto... você me diz isso agora, Clara? – Eram todas perguntas retóricas. Clara tentou falar, mas Marina não deixou – Porra, Clara! – Marina bateu o pé com toda força que tinha em seu corpo no chão. Levantou as duas mãos em direção a Clara, como se estivesse a agarrando pelos ombros – Você sabe o quanto eu te amo. Você sabe o quanto eu te quis pra mim e mesmo assim você deixou doer! Você... deliberadamente... deixou doer em mim, Clara. E hoje, quando eu vi você e o Cadu, eu lembrei que ele sempre vai estar aqui, não é? Você nunca me deixou esquecer... – Desceu as mãos na altura da cintura – Eu não sou...

Clara interrompeu – O que? Como assim, eu e o Cadu? – Marina falou por cima.

– EU NÃO SOU TÃO FÁCIL ASSIM, CLARA! – Não era pra ter saído o grito, mas foi incontrolável. – Eu te amo e é verdade, eu faria tudo por você... mas eu não vou ser a sua segunda opção nunca mais. Eu não quero ser o seu estepe... a sua segurança... o seu porto seguro... CHEGA! – sussurrou – chega eu não consigo mais, por favor, chega.

Clara soube exatamente do que ela estava falando. Flashbacks de Cadu agarrando sua cintura e antebraço naquele dia invadiram sua memória. “Ela entendeu tudo errado”.

– NÃO. Você entendeu tudo errado! Ele tava me ajudando, o meu ombro... ele... – Tentou medir as palavras – Ele só estava me ajudando, Marina! Acabou. Eu não amo mais o Cadu. – Ia se aproximando, tentando de qualquer maneira faze-la entender. – Por favor, me ouve!

– CLARA TA DOENDO, EU NÃO PRECISO TE OUVIR, PORQUE TA DOENDO! – Marina parecia uma criança indefesa, segurando o próprio coração e chorando copiosamente – E eu to me sentindo uma idiota porque mesmo depois de tudo isso eu só consigo pensar no ciúmes que eu senti de você com aquela mulher! – Marina passava as mãos no cabelo como se estivesse perdendo a cabeça, não tinha certeza se fazia sentido mais.

Clara abaixou todas as guardas, a voz, o tom, as mãos.

– Marina, ela era só uma... – não conseguiu terminar.

– Eu não quero saber, Clara. Você é uma mulher livre. Você não me deve nada. – A garganta fechava toda vez que dizia algo assim – Da mesma maneira como eu também sou, como eu também posso fazer o que eu quiser. – Faltou ar.

– É por isso? É pra jogar na minha cara que você é uma mulher livre, que você fez isso hoje?

– Fiz o que, Clara? – Marina estava perdendo o controle.

– Me fez ciúmes... me fez acreditar que você queria outra mulher. – Doía dizer aquilo, por mais que ela soubesse que era mentira. Doía.

– É, CLARA! Foi por isso. Por que eu queria que você sentisse o que eu tava sentindo! Por que era pra doer em você também! – Nem percebeu que seu dedo indicador agora estava apontado e a centímetros do peito de Clara, também não deu por si que gritava cada palavra que saia de sua boca.

Clara entendeu o tamanho da dor que o seu amor sentia agora. Entendeu que às vezes essa dor pode ser tão grande que ela vaza da gente e se instala em outras pessoas. Lembrou-se de todas das vezes que Marina foi distante, ou que disse algo particularmente doloroso, e compreendeu que aquilo era apenas ela dividindo um pouco desse sentimento que já era demais pra uma só pessoa carregar. Clara podia ter causado tudo isso, mas decidiu que a partir daquele momento, ela iria deixar que Marina transferisse tudo o que doía pra ela mesma.

– Eu não tenho você, Marina! Tá sempre doendo em mim também! – Clara agarrou a mão de Marina que estava apontada para seu peito e a foi puxando devagar – Eu te fiz sofrer o que você nunca merecia ter sofrido! Isso vai ser uma dor permanente! – Já apertava o antebraço de Marina e continuava a puxando pelo braço – Eu te deixei ir embora uma vez e foi um erro que eu vou levar pra vida inteira! – Agora estava na sua frente, completamente imóvel, faltando só um passo de distancia.

– Eu não sou tão fácil assim, Clara – A frieza na voz de Marina assustou Clara. Era como se nada que ela falasse surtasse efeito. Marina estava irredutível. Manteve a voz firme e deu um passo pra frente. Clara deu dois pra trás.

– Eu sei

– E tudo que você me machucou? Que que eu faço com essa dor? – Marina ia dando passos largos pra cima de Clara e assistia ela indo pra trás. Tão irredutível quanto a outra.

– Me deixa fazer ela passar.

– Mas foi você quem me fez sentir ela. – Marina cerrou os punhos, com lagrimas escapando pela lateral dos olhos.

– Me desculpa.

– E se você me machucar de novo? – Elas estavam atravessando a sala em passos largos sem deixar de olhar nos olhos uma da outra.

– Eu não vou. – Clara tentou tocar no braço de Marina, mas ela desviou do toque e continuou andando.

– Você não sabe disso!

Clara sentiu suas costas encostarem à parede atrás de si e espalmou a parede com as mãos. Marina parou a centímetros do corpo da outra.

– Mas eu sei de uma coisa! – Clara sentia o hálito quente de Marina no seu pescoço. Sentia seu corpo encurralado, mas não havia um pingo de medo em seu corpo. Olhou pra dentro dos olhos da outra e agarrou a mão da fotografa e colocou sobre seu peito.

– O que você sabe, Clara? – A respiração inconstante fazia com que falar fosse difícil. Atravessar aquela sala cansou mais do que correr por quilômetros. Marina tremia por que tinha medo da resposta, por que já havia perguntado isso antes e só ouviu silencio.

– Que eu te amo! – Clara respondeu como um reflexo. Era algo tão guardado dentro de si, que esperava tão ansiosamente ser dito, que saiu feito um sussurro.

Marina prendeu a respiração e piscou algumas vezes pra ter certeza do que tinha ouvido. Sentiu o coração de Clara disparar sobre sua mão, como se estivesse certificando como verdade tudo que saia pela boca de Clara. Era real, por mais que parecesse não ser. Ela disse com todas as palavras e letras o que Marina sonhou tanto ouvir. As três palavras magicas que curariam todas as dores de uma vida inteira. Era o remédio, a solução, a promessa, a declaração que não podia ser imitada por nenhuma outra declaração. Era a resposta.

– Eu te amo! – Clara disse novamente, mais alto, mais forte.

Marina se manteve muda.

– Eu te amo, Marina! – Colocou a outra mão na nuca da fotografa e a puxou pra perto, encostando suas testas e começou a sussurrar – me desculpa ter demorado tanto tempo pra dizer... que eu te amo – sentiu toda a resistência de Marina desaparecer sob suas mãos. Largou a mão que segurava o braço da outra sobre seu peito e acariciou o rosto da fotografa. – eu to te amando, também – Deu a resposta muito mais atrasada pro dia em que Marina se declarou em sua sala de tv. Encostou sua bochecha na dela e soltou um suspiro por pensar em quantas vezes imaginou quão macia seria sua pele. – Eu não sabia, mas também te procurava em todas as pessoas que conheci – Clara passou a boca pela mandíbula de Marina e deixou que o ar quente da sua boca encontrasse seu rosto. Sentiu as mãos da fotografa deslizarem pelas suas costas e descansarem em sua cintura, como se pertencessem aquele lugar. Mesmo por cima de toda aquela roupa, sentir o calor que saia das mãos de Marina pra pele de Clara era insuportavelmente tentador.

Marina se mantinha de olhos fechados e sentia seu corpo virar ar abraçado pelos braços de Clara. Toda vez que ela respirava o perfume dos cabelos da dona de casa se embriagava um pouco mais, se perdia cada vez mais dentro daquele corpo. Marina que ainda segurando a cintura de Clara deixou que seu corpo fizesse peso em cima do corpo dela; Pegou sua mão direita e subiu até o pescoço de Clara, sentiu o coração da outra pular uma batida quando os dedos da fotografa entraram sem pedir permissão em seus cabelos.

Clara se afastou um centímetro pra relou seu nariz no de Marina e a olhos nos olhos. Elas sorriam uma pra outra como se todas as coisas do mundo simplesmente estivessem caído em seus devidos lugares. Elas se pertenciam. Se mereciam... desse jeito... juntas.

– Eu te amo – Marina disse um segundo antes de beijar o canto da boca de Clara e a sentir tremer sobre suas mãos. Quando sua boca finalmente tocou o lábio inferior da outra, as mãos de Clara se agarram na nuca de Marina por impulso e um suspiro involuntário escapou da fotografa. Marina agarrou os cabelos de Clara e puxou a pra si, enquanto a deixava descobrir o macio de seu lábio.

O beijo das duas começou calmo e devagar, mas Marina sentia a urgência de ter mais. Mais de Clara. A vontade que ela tinha da boca da outra, era muito maior do que ela podia expressar com um beijo, que foi ficando cada vez mais intenso. Marina puxava o cabelo de Clara e ouvir ela suspirando só fazia aumentar o desejo que ela sentia. Clara tentava se controlar, mas era impossível com a mão de Marina no seu pescoço, subindo pela sua cintura, puxando a pra ela, como se simplesmente grudar seus corpos não fosse o suficiente.

Marina não conseguia parar de beijar Clara, sentir sua língua brincando em sua boca era a melhor sensação do mundo, fazia todo seu corpo tremer sem esforço algum e não conseguia mais ficar ali, ela precisava de mais. Passou o polegar por dentro da blusa de Clara e no momento que encontrou a pele macia da barriga de Clara as duas pararam de se beijar e soltaram um suspiro compartilhado, Marina sentiu todos os músculos de seu corpo contrair. Todos. Foi respirando pela bochecha de Clara, passando pela sua mandíbula, deixando a respiração pesar sobre sua pele até chegar em sua orelha; Clara se segurou na nuca da fotografa quando saiu suas pernas falharem, até que ouviu Marina suspirar em seu ouvido.

– Eu te quero, tanto.

As unhas de Clara arranharam da nuca ao pescoço da fotografa, deixando uma leve marca vermelha de que passaram por ali, ela inclinou a cabeça pra trás e deixou que a outra passasse a ponta da língua pelo seu pescoço e não conseguiu sustentar o peso do próprio corpo. Marina passou as mãos por de trás das costas de Clara e deu o suporte pra que ela continuasse ali, em pé.

Clara experimentou todo seu corpo abraçado por Marina e só conseguia sentia o calor que vinha do corpo da outra, das mãos da outra, da boca da outra, pro seu. Aproximou-se da orelha de Marina e em um gemido baixo e rouco disse:

– Você me tem, minha professora.

Marina parou de respirar. “Sua”.

Notas finais
E aí? Todo mundo vivo? Todo mundo me amando?. kkk. Quero comentários, quero criticas, quero xingamentos; to aceitando qualquer coisa hen. obs: eu nunca escrevi cenas "quentes'' então, por favor, me deem um desconto! obg! Musicas do cap: - https://www.youtube.com/watch?v=JDZaiM8oAOU - https://www.youtube.com/watch?v=e2EHe2rmNF0