Sunset.
6 Capítulo 6 - Como faz
Notas iniciais
Marina andava tão depressa rua abaixo que passou despercebida pelo seu carro e continuou andando. Descendo as calçadas e esbarando nas pessoas sem pedir desculpas. Só conseguia olhar pra frente e para os lados, nunca pra trás, não podia se dar ao luxo de ver Clara parada assistindo vê-la partir. Ela passava a mão no rosto e agarrava sua bolsa enquanto o chão ia simplesmente passando embaixo de si, cada vez mais rápido, cada vez mais sujo. Quando se deu conta, já não sabia onde estava. Tinha descido a rua do galpão e virado algumas direitas e esquerdas, mas agora estava verdadeiramente perdida. Chamou um taxi e decidiu deixar o carro pra alguém pegar mais tarde, ou até mesmo no dia seguinte. Sentou numa padaria esperando o taxista chegar e não demorou nem alguns minutos; já estava dentro do carro em direção a Santa Tereza.
Quando finalmente sentiu o macio no banco do passageiro nas costas foi como se o cansaço de uma vida caísse sobre seus ombros. Olhou se no espelho do retrovisor e viu aquela pessoa que fora por tanto tempo. Ela podia ter tudo e todos. Todas. Quando conheceu Clara todos os pesos e medidas que conhecia foram trocados e foi difícil sim, ver toda sua realidade se transformar em algo completamente novo. As coisas que faziam sentido antes de Clara, agora pareciam verdades tortas, quebradas. Nunca negou pra si mesma que tinha a total condição de se apaixonar por várias mulheres ao mesmo tempo, e o que sentia era sim a paixão e o tesão a flor da pele; e só se importava com a sua felicidade, o seu bem estar, acima de todo o resto. Mas nunca foi dito que isso era errado; E não era! Vivia sua vida como se ninguém estivesse vendo e foi assim por tanto tempo... Mas tudo mudou.
Não queria mais paixões que duravam meses ou seduzir mulheres apenas por que tinha tal poder. Queria seduzir a mesma mulher, todos os dias, todas as manhãs para o resto da vida. Não procurava sentir as emoções de amores frágeis e temporários que não lhe atraiam mais. Queria uma existência com alguém. Com Clara.
– Senhora? – O motorista não conseguiu chamar a atenção de Marina – Senhora!
– Oi! – Ela despertou dos próprios pensamentos e reconheceu o portão da própria casa.
– Chegamos – Ele sorriu carinhosamente quando percebeu que talvez aquela moça tivesse tido um dia difícil. – Dinheiro ou cartão?
Marina pagou o senhor e agradeceu pela gentileza. Entrou pelo portão cumprimentando o segurança que ficava na guarita e atravessou o jardim. Avisou ao motorista onde seu carro havia ficado e que ele tomasse providencias de ir busca-lo. Passou pela entrada de casa e foi direto para a piscina, já tirando seus sapatos e deixando em cima da cadeira. Sentou-se na beira colocando os pés pra dentro da água morna. Por mais que tivesse sido um dia extremamente tenso, ainda sim, era um lindo dia.
– Marina! Tava preocupada, você disse que não ia demorar, só acertar alguns detalhes. Porque demorou tanto? – Vanessa se aproximava e tentava moderar o tom de mandona na voz.
– Ih, Vanessa. Nem voltei direito e você já ta tentando mandar em mim? – Ela ouviu o tom de mandona – Só tive um pequeno contra tempo...
– A Clara mudou de nome, então? – Já irritada pela ideia de ver Marina cometendo os mesmos erros.
– Mas como você tá engraçada, Vanessinha – Forçou um sorriso – Acho que quem tem que ir dar uma viajada é você – Viu a amiga se sentar ao seu lado e passou a mão em seu rosto – Faz bem pra pele.
Vanessa pegou a mão da fotografa e a segurou forte. Suspirou.
– Você sabe que eu me preocupo, Marina. – E não era mentira.
– Eu sei – Baixou a cabeça sabendo que Vanessa tinha toda a razão em se preocupar. Marina também se preocupava – Mas foi só um contra tempo.
– Ok – Fingiu acreditar.
– Ah, já ia me esquecendo. Aqui é a lista dos meus alunos lá no galpão. Manda um e-mail pra cada um, por favor? Dando boas vindas, essas coisas. Avisa que as aulas começam daqui dois dias. – Marina alcançou a bolsa e procurou o papel que Veronica a entregara. Ainda não havia olhado.
– Sem problemas. Faço isso antes do jantar. – Vanessa abriu o papel e correu os olhos rapidamente pelos nomes. Quase não acreditou no que viu. – Ela só pode estar de brincadeira!
– Ahn? – Marina olhou pra cara da Vanessa e quase soltou um riso por ver sua cara feia. – Que foi, Van?
– Você já olhou essa lista? – Chacoalhando o pedaço de papel no ar – Você já viu quem vai ser sua aluna?
– Não, ainda não. Por que? Quem que vai... – Marina pegou a lista da mão de Vanessa e começou a passar os olhos pelos nomes classificados em ordem alfabética. Logo no topo da pagina, na letra C, ela deixou o queixo cair – Clara Fernandes.
Marina teve que ler duas vezes. Como assim “Clara Fernandes”? Será que existiam duas Claras Fernandes no rio de Janeiro? No mesmo galpão? Oi?. Marina sorriu involuntariamente quando se lembrou de Clara falando “Eu vou merecer o seu amor”. Ela realmente estava falando sério. Vanessa viu aquele riso nascendo nos lábios de Marina e se levantou da borda pegando bruscamente o papel da mão de Marina.
– Eu não vou nem falar nada. – Vanessa virou as costas e saiu andando. – É sempre a mesma história... – Foi interrompida.
– Vanessa. Espera! – Marina se virou e olhou pra assistente que parara antes de chegar à escada – Aproveita que você tá em pé e coloca um Blues pra tocar. – Marina sorriu e mandou uma piscadinha pra ruiva que bufava de raiva. Voltou sua atenção para seus próprios pés debaixo d’agua e ouviu a musica começar a sair das caixas de som.
Não sabia o que esperar daquela atitude de Clara. Na verdade, só estava tentando entender da onde tirara forças pra não ter se declarado pra ela no momento que a viu.
Seu amor ainda estava ali. Claro que estava, ela podia senti-lo toda vez que seu pulmão se enxia de ar. Mas não podia ignorar a parte que doía. E ainda doía muito. Viu o dia ir embora pensando naquele encontro. Clara a pegando pela cintura como nunca havia feito antes, naquelas palavras que sonhou tanto em ouvir “Eu vou merecer o seu amor”. Lembrou também de ter se esquecido de tudo quando a viu fazer aquela expressão de dor, ainda não havia entendido o que tinha acontecido, mas foi impossível não se importar. Pensar nela sofrendo e não poder ajudar era algo que Marina não sabia conceber.
Respirou fundo, jogou a cabeça pra trás deixando que as notas tristes do Blues a tirassem daquela encruzilhada por um momento. O dia foi embora sem que nada fosse resolvido ou explicado. Existiam mais duvidas e incertezas no ar, do que moléculas de água naquela piscina.
~~
Clara estava se arrumando para ir ao Bistrô, mas na verdade se vestia para a aula de fotografia que teria naquela tarde. Já se passara dois dias desde que via Marina de novo e sentia uma saudade gigante da fotografa. Não imaginava como seria a reação dela ao entrar por aquela sala, nem sabia se Marina estava ciente que seria sua professora.
De todas as pessoas no mundo, Marina era a ultima que queria machucar e sabia que fora a que mais machucou. Claro que já havia admitido os erros do passado, mas isso não importava agora, ela iria merecer todo aquele amor de volta! Depois de tudo que Marina disse a ela alguns dias atrás, Clara teve certeza de que ainda existia pelo o que lutar sim!
O amor que viu nos olhos de Marina, mesmo muito escondido lá no fundo, ainda estava lá. E Clara iria busca-lo.
~
Marina chegou ao galpão meia hora antes do horário marcado pra aula, queria dar uma olhada na sala e arrumar seu material. Antes de subir as escadas, passou pelo escritório de Veronica e confirmou a informação de que Clara era uma de suas alunas. A pianista explicou rindo que sim, ela pediu que quando as inscrições fossem abertas, que ela fosse a primeira a se matricular no seu curso de fotografia. Marina deixou que um sorriso no rosto aparecesse, quase que imperceptível, mas estava lá. Veronica se despediu de Marina para cuidar de outras coisas e a deixou no pé da escada. Clara saiu de dentro da cozinha com o avental ainda posto, carregando uma torta na mão, quando avistou Marina a seguindo com os olhos. Quase deixou a torta cair no chão e não pôde deixar de sorrir, cumprimentou a fotografa com um aceno sutil com a cabeça e esperou a resposta, que veio em forma de um aceno tímido com a mão, fazendo Clara tremer. Marina ficou mais alguns segundos ali parada na escada acompanhando Clara fazer seus afazeres no Bistrô, seria muita cara de pau mentir pra si mesma e dizer que não tinha vontade de esquecer tudo e fugir com a ex assistente dali. Nem tentou se convencer.
Quando Marina terminou de subir as escadas, Clara já estava preparando pra ir atrás, deixou o avental sobre o balcão da cozinha, se olhou no espelho algumas vezes, retocou a maquiagem e saiu para o salão. Antes de chegar a primeira pilastra, viu a funcionário do Bistrô fazendo sinais pra que ela voltasse, com alguns papéis em mão e cara de quem não estava entendendo nada. Algumas folhas de pedido haviam sido perdidas e deveriam ser enviadas naquela tarde, Clara não teve escolha a não ser resolver aquele problema e sem tirar os olhos do relógio torcia para que não se atrasasse pra sua primeira aula.
Marina deu boa vindas a todos presentes, muito simpática e quase que imperceptivelmente nervosa, foi se apresentando e contando um pouco da sua história como fotografa e expressando a preocupação por sua experiência quase que nula de professora. A conversa seguia descontraída entre todos na sala, Marina foi perguntando pra cada um o porquê do interesse a fotografia e o que levaram eles a fazer o curso. Existia toda uma variedade de pessoas naquela turma, de adolescentes que ainda estavam no primeiro semestre de Jornalismo ou Artes, até pessoas mais velhas que procuravam aperfeiçoar o hobby da fotografia. Não havia como deixar passar batido algumas pessoas em especiais, claro. A mulher com ar de menina, sentada na primeira fileira, uma morena extremamente alta e esbelta ao lado da janela, e assim Marina não deixou de perceber que Clara não estava lá. E antes mesmo de respirar aliviada, sentiu uma pontada de decepção! Não queria admitir, mas queria sim, Clara ali. O barulho da porta interrompeu seu pensamento...
Clara tentava entrar sem que fosse percebida e quando viu Marina lhe encarando, pediu desculpas com os olhos por ter chegado atrasada. E não foi desculpada.
– Pessoal, lembrando que eu sou uma professora muito legal sim – dizia rindo – mas eu realmente agradeceria se vocês chegassem no horário. Tudo bem? – Olhou pra sala como um todo tentando não prender os olhos em Clara. – Então já que agora todos estão presentes, vamos começar a falar do que realmente importa?
Marina achou que seria difícil ser professora, mas conforme foi se soltando e pegando o ritmo da sala, percebeu que na verdade seria algo muito simples. Ela amava seu trabalho, suas fotos e a arte que era fotografar, mas falar disso era sua segunda paixão. Ela se viu dentro de uma sala com dezenas de pessoas que queriam ouvi-la falar, explicar, ensinar o conhecimento que ela obteve durante todos os anos como fotografa profissional. E a satisfação de saber que talvez ali, naquele momento, alguém poderia se apaixonar tanto quanto ela era apaixonada por fotografia, era grande demais para se colocar em palavras.
Clara olhava do fundo da sala Marina falar sobre como a luz é a alma da foto e que com o ângulo certo e um pouco de sorte, qualquer um poderia se tornar um grande profissional.
– E é obvio que vocês não vão aprender só me ouvindo falar, né gente?! – Pegou sua câmera pessoal e colocou a alça em volta do pescoço — Então peguem suas câmeras e sintam-se livres pra fazer o que quiserem. E claro, eu estarei a disposição pra qualquer duvida.
Todos começaram a se levantar e brincar com a luz da sala. Marina havia pedido especialmente por aquele espaço, por saber que havia uma janela gigante a sua direita e a claridade perfeita pras fotos in doors.
Clara olhou pra Marina enquanto todos andavam pela sala e apontou pra máquina pendurada no pescoço da fotografa e fez um sinal para que se aproximasse. Marina não entendeu nada.
– Oi – Marina sorriu pequeno – Tudo certo por aqui?
– Tudo ótimo! Só que eu me esqueci de uma coisa – Apontou pra câmera e fez uma careta como se tivesse feito arte.
– Ah! Você não tem câmera né? – Olhou pras mãos de Clara que estavam vazias. Sorrio pra si mesma “Que que ela tá fazendo aqui, meu Deus?”.
– Não. – De repente o olhar de Clara mudou e ela falou espantosamente baixo – Mas eu tava pensando que você poderia... – Clara deliberadamente foi fechando a distancia entre as duas, como se não houvesse mais ninguém naquela sala, passou a mão pela alça da câmera de Marina e deixou que sua unha arranhasse levemente pela pele exposta no seu pescoço. Suspirou. – Sabe?
Marina perdeu o chão. Aquela voz. Aquele jeito de olhar. “Uau”. O arrepio.
– Sei? Oi? – O ar sumiu.
Clara tinha conseguido o que queria. Por enquanto. Então resolveu não maltratar ainda mais a sua fotografa. Deu dois passos pra trás e como num passe de mágica, voltou a falar normalmente e olhar pra Marina com uma doçura quase sem malicia. Quase.
– A câmera! Você pode me emprestar uma câmera? Eu juro que é temporário. – Sorria inocentemente, ainda olhando fixamente pra parte descoberta do seu pescoço.
– Ah! – Desorientada, foi passando a alça da câmera pelo seu pescoço e a colocando no de Clara. – Claro, eu trouxe outra e... – Não conseguiu continuar quando Clara deu um passo pra frente e respirou pesado, arrumou o cabelo da fotografa que foi bagunçado pelo movimento de retirar a câmera...
– Obrigada – Ajeitou o próprio cabelo e pegou a maquina com a mão direita e se inclinou pra frente. – Eu fico te devendo um favor, tudo bem? – Abriu o maior sorriso do mundo, levantou a câmera até seus olhos e tirou uma foto. – Não esquece de me cobrar.
Clara virou-se e deu as costas pra Marina que se mantinha completamente imóvel. De boca meio aberta e perdida. Vendo Clara se afastar e mirando sua câmera pra vários lugares e pessoas, lembrou-se como a amava quando estava do outro lado da lente. Ou melhor, como a amava de qualquer lado da lente. Sem perceber já dava pequenos passos em direção a sua aluna preferida quando foi chamada por um grupo de alunos a beira da janela. Salva pelo gongo.
A aula passou tranquila. Clara aparecia de vez em quando perto demais de Marina e na mesma velocidade sumia deixando a fotografa rodando no meio da própria sala de aula, completamente perdida. “Ela tá jogando comigo!” Marina ia pensando, enquanto falhava em anteceder os movimentos de Clara. “E ela tá ganhando!” Não sabia se ficava brava ou extremamente feliz.
Lá se foram às duas horas de aula e o resultado não podia ter sido melhor. Os alunos tinham uma vontade louca de aprender e Marina descobriu um tesão gigante em ensinar. Tiraram várias fotos, e algumas ficaram surpreendentemente boas, a aula foi encerrada com alguns comentários de Marina e algumas dicas básicas sobre abertura do obturador e a quantidade de luz necessária para certos ambientes. Todos os alunos foram saindo até que a sala ficou extremamente silenciosa. Clara se manteve sentada em sua cadeira com as pernas cruzadas e a câmera pendurada em seu pescoço, olhando Marina arrumar seu material sobre a mesa.
Marina não precisou se virar pra saber que Clara estava ali.
– Você sabe que até agora eu não sei o que é que você tá fazendo aqui... – Marina disse ainda sem manter um contato visual, arrumando sua bolsa. Secretamente sorrindo por dentro.
– Eu trabalhava em um estúdio de fotografia, sabe? E me disseram por lá que eu talvez tivesse dom pra fotografar. Sei lá, nunca botei fé nisso aí, mas né, resolvi tentar. – Clara dizia cada palavra com uma ironia gostosa, sorrindo.
Marina abriu mais o sorriso, lembrando-se de todas as vezes que deu uma câmera na mão de Clara e a viu desajeitadamente focar algo. Mas ela tinha uma vontade encantadoramente verdadeira de tentar, e ficava linda o fazendo. Marina se virou e encostou-se à mesa, já com suas coisas todas arrumadas.
– Essa pessoa aí parece ser extremamente entendedora do assunto, né? Acho que você tem que botar fé no que ela diz – Abaixando a guarda, mas cruzando os braços.
– Ah, ela é sensacional. Sem duvida uma das melhores fotografas do mundo – Lentamente foi se levantando da cadeira – Foi uma das coisas mais prazerosas ter tido o prazer de trabalhar com ela – Caminhando em direção à mesa. Parou a alguns metros de Marina, com a câmera em punho.
– Clara, que que você tá fazendo? – De repente Marina ficou séria. A brincadeira tinha acabado.
– Fazendo um curso de fotografia, Marina.
– Clara...
– Ei, você pode falar o que quiser, mas eu não vou a lugar nenhum! Eu vejo o seu amor; eu tô vendo ele agora, Marina. Então, continua tentando se enganar e dizer que acabou, que nesse meio tempo, eu vou estar aqui, tentando te merecer. Você queira ou não, eu não vou desistir de você! – Dizia calmamente, com um sorriso nos lábios, como se já tivesse ganhado o jogo antes de terminar. – Mas eu fiquei pra te devolver a câmera e agradecer pela ajuda – Clara esqueceu-se do ombro machucado. Levantou a esquerda retirando a alça do pescoço e antes de chegar a altura da sua cabeça, sentiu a dor irradiar do braço pra todo o corpo, quase derrubou a câmera e Marina, de novo, não conseguiu conter o instinto de protegê-la, agarrando o braço esquerdo e descendo-o até a altura da sua cintura, pegou a câmera com a outra mão, deixando a alça ainda no pescoço de Clara.
– O que aconteceu com seu ombro, Clara? – Marina se lembrara da sensação ruim que sentiu quando pegou em seu braço pela primeira vez, em frente ao galpão. Aquelas pequenas cicatrizes, a dor que a Clara não conseguiu disfarçar, algo estava errado.
– Foi só um mau jeito – Mentiu – Já está melhorando. – Delicadamente retirou as mãos de Marina de si. A dor que sentia naquele momento não era nada se comparando com a sensação de proteção que sentia nos olhos e mãos de Marina.
Não que Marina não acreditasse em Clara, ela só sabia que ela não estava dizendo toda a verdade. Perdida daquele jeito nas duvidas, a fotografa nem percebeu que Clara se aproximava de novo, com aquele mesmo olhar malicioso de antes; Seu corpo foi reagindo pra cada sopro de ar que saia da boca de Clara e acertava a sua. “Faz alguma coisa, Marina!” Ela pensava, mas todas as vontades de se mover se perdiam antes de se tornarem realidade. “Ela vai ganhar” Já aceitava a derrota... “Hoje não, Clara”.
– Então – Limpou a garganta fazendo com que Clara parasse de se aproximar – Sobre aquele favor – Marina desencostou-se da mesa e dessa vez foi a outra que não soube reagir – Vamos falar sobre ele um pouquinho. – Colocou a ponta do dedo na alça da câmera que passava em cima da clavícula de Clara, sentiu-a trancar a respiração.
Se Clara achava que ganhava naquele jogo, ela teria que lembrar quem o inventou. Marina iria ajuda-la a lembrar.
– Eu tenho algo em mente... – Foi descendo o dedo pela alça que logo se transformou em sua mão inteira agarrando aquele pedaço de tira que segurava a câmera no ar – Que eu queria te pedir... – A voz de Marina era algo a parte, quase obscena. Ela agarrou a alça e começou a puxa-la pra si, Clara foi dando pequenos passos pra frente, sentia a tensão sob seu pescoço e nem tentou criar resistência. – Posso pedir, Clarinha?
Marina sabia que usar esse apelido era golpe baixo, mas que Clara pensasse nisso antes de querer ganhar de Marina em seu próprio jogo. E quando não obteve resposta da sua pergunta, entendeu que Clara consentia.
Quando já não tinha mais alça para ser puxada e Clara estava a literalmente centímetros de distancia, Marina se inclinou lentamente pra frente, viu os olhos da outra fecharem e vibrou por dentro. “Hoje não, Clarinha”. Direcionou sua boca para a orelha da outra, quase tocando na mandíbula com os lábios enquanto não chegava perto o suficiente. Fez questão que Clara sentisse o quente do seu hálito fazendo o contorno na sua nuca. Sussurrou.
– Não chega mais atrasada não.
Foi crueldade, Marina não negara, porém extremamente divertido. Afastou-se o mais rápido possível de Clara e observou o que acabara de acontecer sincronizar pra aluna. Esperava alguma reação frustrada, ou até mesmo decepcionada, mas viu um sorriso. Daqueles pequenos e impossíveis de se fingir. Por reflexo sorrio também.
Na verdade Clara não queria ganhar nada. Ela só queria jogar. E mais importante, jogar com Marina. Não se importava em perder pra ela, poderia perder pra ela a vida toda.
– Pode deixar, minha professora.
As duas prenderam a respiração. Game on.
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