Sunset.
5 Capítulo 5 - Smoke and Mirrors
Notas iniciais
O sol já havia raiado á bastante tempo quando Clara acordou no quarto que antes era de Luiza. Olhou pro seu bichinho que ainda dormia pesadamente nos seus braços e deu-lhe um beijo na testa, arrumando seu cabelo loiro bagunçado. Levantou-se sem acordar seu filho e foi em direção ao banheiro, passou pela mesinha perto da janela e pegou seu celular, dando uma olhada rápida pelas notificações. Já fazia mais de um mês, mas Clara ainda tinha esperança de achar uma mensagem ou noticias de Marina por ali. Lavou o rosto e quando olhou se no espelho percebeu o quanto sua fisionomia era triste, pálida, quase que irreconhecível. Não que não estivesse bonita. Não. Clara era linda, seus traços quase que cotidianos era de uma pureza imper. Desde que conhecera Marina, percebeu como havia negligenciado a própria beleza. Beleza de mulher, que ela tinha de sobra e simplesmente escolhia esconder, dos outros e dela mesma. Quando terminou de se arrumar e olhou uma ultima vez no reflexo do espelho, percebeu o quanto tinha mudado, pra melhor, claro; Já não usava mais suas jardineiras e franjinha, quase que infantil, na testa. Agora parecia a mulher que sempre fora por dentro. Olhou no celular novamente e não conseguia não pensar em Marina.
Depois de ter acordado Ivan e arrumado todo o material pra escola, foi pra cozinha enquanto ele tomava seu banho. Passou por Rosa na cozinha e pediu pra apressar o café, dando-lhe dois beijinhos na bochecha e agradecendo o elogio que recebeu de volta. Adentrou a sala e antes de puxar uma cadeira pra se sentar a mesa, viu alguém parado ao lado do sofá, com as mãos nos bolsos e ombros caídos.
– Bom dia. – Disse seca, desistindo de se sentar e indo em direção a sua bolsa. Pegou alguns papeis levemente amassados e os depositou em cima da mesinha, sem ter que se aproximar muito de Cadu.
– Bom dia, Clara – Não conseguia a olhar nos olhos. – Como você tá se sentindo?
– Muito bem, obrigada. – Virando as costas e indo pro outro lado da sala – Esses são os orçamentos que pediu, decide aí sobre qual fornecedor você acha melhor e me passa até o fim da semana.
– Pode deixar – Pegou os papeis da mesinha e deu alguns passos pra trás – Você sabe que pode escolher isso, né? Não precisa passar tudo por mim – Tentou sorrir e falhou.
– Claro que sei, Cadu. Eu simplesmente não quero. Além do mais, é o seu Bistrô! Não meu. – Clara não sabia esconder a dor que era olhar para o ex-marido – E você sabe muito bem que eu não to fazendo isso por você.
Cadu não ousou olhar pros olhos de Clara. Ficou ali parado, ao lado da porta, sem jeito e assentindo com a cabeça, mudo.
– Pode ter sido o SEU sonho! Mas foi o NOSSO dinheiro. E quando você tiver bem de novo, você volta a tocar o SEU Bistrô.
– Entendido. – Olhou para o braço esquerdo de Clara, mas não conseguiu prender o olhar. “Como você pôde, Cadu?” – E o ombro... Tá melhor? – Disse quase em um sussurro, como se estivesse com medo da resposta.
Clara prendeu a respiração, com o braço direito passou a mão no ombro esquerdo involuntariamente e sentiu o corpo tremer.
– Bem. Felipe já disse que foi um musculo distendido. – Clara passava a mão no braço e cerrou os dentes ao lembrar daquilo de novo.
Quando caiu por cima da mesinha que ficava no centro da sua sala, Clara não teve apoio algum. O vidro se quebrou e deixou seu corpo se chocar com os caquinhos da mesa e o chão duro. Toda aquela cena ainda era um borrão de imagens e sons, e não sabia explicar também, como machucara tanto o ombro; Que doía mais do que o normal naquela manhã.
Felipe realmente disse que era só um musculo que foi distendido na queda, mas o ombro, particularmente, era um lugar difícil de recuperar desse tipo de lesão.
– Clara, eu... – Cadu caminhou alguns passos em direção a Clara, mas no momento que a viu dando os mesmos passos na direção contraria, parou. – Eu não vou te machucar, Clara.
– Cadu, tá na hora, né? – Se distanciou ainda mais do ex-marido e colocou a mesa de jantar entre eles – Era só isso por hoje. Se precisar de mais alguma coisa, eu peço pra alguém levar no apartamento.
Clara saiu antes que ele pudesse responder, voltou pro quarto de Luiza e viu o filho quase pronto, colocando os últimos cadernos dentro da mochila e amarrando o tênis. O dia mal havia começado e Clara já estava exausta.
~
A casa de Marina era um paraíso a parte no Rio de Janeiro, não só a casa, mas a propriedade inteira tinha sua própria beleza. Vanessa e Flavinha tomavam café da manhã à beira da piscina quando descendo as escadas da varanda Marina parou e olhou as suas assistentes ali, despercebidas a sua presença. Naquele momento sentiu a saudade de meses transbordar. Sorriu sem querer ao olhar em volta e ver sua casa, suas meninas, aquela vista que mesmo depois de anos, ainda tirava seu folego logo pela manhã.
Vanessa foi quem viu Marina alcançar o ultimo degrau da escada e quase derrubou a mesa quando correu pra abraça-la. Flavinha ainda com o copo de suco na mão foi de encontro a chefe e por um momento houve um histeria coletiva. Depois de todas as declarações de saudade e abraços intermináveis, elas tomaram café da manhã recheada de novidades e histórias de Marina Meirelles solteira na fria Buenos Aires.
Depois de comer e já estarem prontas pra começar o dia, Vanessa aconselhou Marina a dormir e tirar o dia de folga, mas a fotografa não aceitou. Queria dar inicio aos trabalhos e disse que mesmo se quisesse dormir, não iria conseguir. Todo o clima de viagem e as mudanças de horários deixou Marina sem sono algum, então pediu pra Vanessa ir ao estúdio e pegar as agendas e notebooks pra acertar os detalhes do trabalho daquela semana.
– Marina, você não sabe a falta que você faz aqui. – Flavinha dizia sorrindo e sentando do outro lado da mesa. – É diferente sem você.
– E você não sabe a saudade que eu senti desse lugar, sabia? – Olhou pros lados e pra visão que tinha de cima daquele morro – É impossível não sentir falta desse lugar, Flavinha.
– Mas pelo o que eu sei, Buenos Aires foi sensacional pra você, hen? – Não sabia por onde começar a falar e nem se devia tocar no assunto Clara, mas a pareceu errado simplesmente não dizer nada.
– E foi! Aquela cidade é diferente, Flavinha. – Colocou os óculos de sol e se pôs de pé – Acho que todo mundo tinha que ir pra lá um dia. – Pegou seu celular e caminhou em direção à piscina.
– E como você tá? – Flavinha definitivamente não sabia fazer rodeios.
– Eu to ótima! – Sorriu um sorriso grande, largo e mentiroso; porém convincente o suficiente.
– Ah Marina, eu não sei se deveria te contar... Vanessa pediu pra não comentar nada, mas sei lá – Ia gesticulando com as mãos como se pedisse desculpas por tocar nesse assunto.
– Eu não quero saber. – Marina sabia exatamente do que Flavinha estava falando.
– Marin... – Foi interrompida.
– Não existe nada que você pode me dizer que vá realmente importar agora, Flavinha – Marina fechou o sorriso no mesmo momento, virou-se rumo a casa e começou a andar. Congelou no instante que ouviu Flavinha terminar de falar. Quase não acreditou nas palavras da assistente. Quase.
– Nem que ela largou o Cadu?! – Disse, quase que com pressa, pra não ver Marina dando as costas pra algo que poderia sim, importar.
“O QUE?”. Dizem que é verdade sim, que depois de um trauma muito forte, o corpo demore alguns minutos, horas, até mesmo dias, pra entender o que aconteceu; Esse delay é normal. E era exatamente isso que Marina sentiu.
– Nem isso, Flavinha. – Marina simplesmente voltou a sua trajetória inicial e subiu as escadas pra casa, deixando Flavinha completamente sem reação pra trás.
“Ela realmente... esqueceu.” Era tudo que a produtora conseguia pensar, parada na beirada da piscina com o queixo no chão. Ela vira Marina nos seus piores e melhores dias ao lado de Clara. Da queda da escada até as tardes de alegria que eram quando Clara passava por lá; por um momento achou que a Marina que vira ali naquele momento, nunca mais voltaria a reinar. Mas lá estava ela. “Marina sendo Marina”.
Quando Marina chegou ao estúdio, viu Vanessa arrumando as pastas e deixando as coisas em ordem.
– Mas cadê essa agenda que você foi buscar e nunca mais voltou, Van? – Chegando por trás de Vanessa e depositando um beijinho no pescoço da ruiva.
– Que isso? – Vanessa sentiu tudo arrepiar. Tudo. – Marina!
Marina saiu de trás da outra rindo, olhando em volta e checando se tudo estava em ordem no seu estúdio.
– Calma Vanessinha! – Sentou-se no sofá ao lado da ruiva – Vamos falar de trabalho um pouquinho? – Rindo se deitou no colo da assistente, a deixando fazer carinho nos seus cabelos. – Acha que é possível não se cansar de fazer nada?
– Acho que é possível! Mas não pra você, Mari – Vanessa dizia num tom muito mais que carinhoso enquanto brincava com a franja da fotografa, pensando em como era bom ver a Marina que ela sempre conheceu de volta. – Você é o tipo de pessoa que precisa estar em movimento. Constante. Você sempre foi assim, lembra?
Sim. – Marina deu um outro sorriso largo e mentiroso, mas tão convincente quanto o de antes. E ficou em silêncio ali, deixando seu cabelo ser bagunçado, matando a saudade do cheiro do estúdio, se acostumando com a luz que entrava pela janela. Lutando com todas as suas forças pra não pensar em Clara.
– Ela se separou. – Vanessa quebrou o silêncio tão subitamente que demorou um tempo pra Marina assimilar o que ela havia dito. Ficou vigiando as expressões da fotografa enquanto enrolava uma mecha de cabelo no dedo.
– Eu sei. – Marina usou toda a força que já tivera para se manter imóvel, olhando pro ponto fixo no teto do estúdio. – Mas isso já não é mais problema meu. – Sorrio. – Certo?
Vanessa não escondeu o sorriso batendo de orelha de orelha.
– Certíssima!
Conversaram sobre mais algumas coisas e Vanessa lembrou que tinha que enviar alguns portfólios antes do meio dia, então nem viu quando Marina subiu as escadas de casa e foi para o quarto.
Marina abriu a porta do quarto e sorrio sinceramente quando viu tudo do jeito exato que ela amava. As janelas atrás da cama abertas, os lençóis que ela mais gostava e sua garrafinha de água na cabeceira da cama. “Vanessinha” Pensou. Deixou a bolsa sobre a cama, passou no banheiro e viu seu banho pronto, mas decidiu que não, apenas passou uma agua no rosto e respirou fundo. Pensou em Clara, uma, duas, três vezes. “Se lembre das noites frias”. “Se lembre das noites frias”. Como um mantra, Marina foi repetindo essas palavras até que elas pararam de fazer sentido, então parou e tentou pensar em alguma outra coisa. Se essa coisa fosse Clara, ela voltava para seu mantra. “Se lembre das noites frias”.
Marina lembrou quem foi à pessoa que disse a ela essas palavras pela primeira vez. Sentou na beirada da cama, imóvel, enquanto lembrava das noites frias.
[ Flashback on ]
Marina não vestia nada além dos lençóis que cobria seu corpo e da pessoa ao seu lado, no quarto do hotel que virara sua casa há semanas. Enquanto ouvia o vento judiar do mundo lá fora, sentiu um frio que não passava, nem cessava, dentro de si. Acabara de fazer sexo com uma desconhecida que encontrou num bar duas quadras de seu hotel. Não sabia seu nome, nem a cor dos seus olhos, mas estava ali ao seu lado compartilhando aquele momento depois do gozo compartilhado. Talvez ela fosse tão linda quanto Marina, porém, com certeza era algumas centenas de vezes mais triste. A mulher virou-se e observou a fotografa encarar o vazio e quase que poeticamente fez o mesmo, respeitando o silencio que crescia entre elas e os lençóis. Marina não precisou colocar em palavras a dor que estava sentindo ali, nem repousar a mão da mulher em seu peito pra que ela pudesse sentir o frio que se alastrava por dentro de si. Ela simplesmente olhou para o vazio procurando fugir de tudo aquilo que deixou pra trás quando entrara naquele avião; tudo aquilo que procurava em vão no corpo e no sexo das incontáveis mulheres que passaram por aquela mesma cama de hotel. Mas aquela mulher em particular tinha algo a mais, definitivamente era diferente de qualquer outra mulher. Ela pegou a mão de Marina e colocou sobre o peito da própria fotografa e disse calmamente que a dor pode até parecer física agora, mas que ela passaria cedo ou tarde, e que se o frio latente que Marina sentia naquele momento seria seu companheiro por muito tempo, que fosse para servir de lembrete das noites frias.
A mulher se levantou e pegou suas roupas do chão, não tirando os olhos de Marina que deixava cair uma lagrima no travesseiro. Com a maçaneta da porta em mãos se virou e disse “Não se esqueça das noites frias. E respeite suas lágrimas”. Saiu pela porta e nunca mais passou por ela novamente.
[ Flashback off ]
Voltou pra realidade ao ouvir Vanessa tentando abrir a porta. “Respeite suas lágrimas, Marina”.
Arrependeu-se de nunca ter perguntado o nome daquela mulher.
~
Era só mais uma tarde movimentada no galpão quando Clara voltou para o Bistrô só pra se certificar que estava tudo em ordem, já havia deixado as instruções com as garçonetes e todos os preparativos do dia estavam prontos. Cumprimentou Veronica ao passar pela entrada, avistando ela tocando seu piano de caldo longa no meio do salão e foi direto pra cozinha. Passou pelo escritório para pegar outros papéis de fornecedores e falou com o subchefe sobre o estoque da semana e de como precisava da lista até o final do dia. Demorou, mas Clara havia pegado o jeito da coisa. Controlar a demanda, os estoques, organizar o turno dos funcionários. “Tudo sob controle”.
Quando Clara se debruçou sobre o balcão do Bistrô enquanto preenchia alguns papéis e ouvia Veronica tocar seu piano, até que a ouviu parar de repente, e por um reflexo ela olhou em direção ao piano, que agora estava sem ninguém.
Clara sentiu quase que uma necessidade de entender onde Veronica havia ido e foi seguindo essa intuição de que havia alguma coisa errada, deu a volta no balcão e olhou para o salão como um todo. Não viu ninguém. Nem Veronica, nem nada de estranho. Quando estava dando a volta pra de trás do balcão, passou os olhos pela porta... e lá estava ela. Simplesmente ela.
Clara não conseguiu respirar, teve a sensação de que seu coração parara e ao mesmo tempo batia descontroladamente dentro do seu peito intercalando em extrema alegria e puro medo. Não conseguia parar de olhar pra silhueta que se formava e andava em sua direção até que parou, logo depois de ter passado pela porta. Ela estava ali, parada ali, com uma calça jeans clara e incrivelmente justa. Uma regata preta, soltinha e mesmo assim fazendo jus a sua cintura. E os óculos que ela usava pra fotografar, aqueles simples e pequenos, meio retro que caia perfeitamente sobre seu rosto. Linda. “Respira, Clara.”
Marina foi ao galpão procurando Veronica para acertar os últimos detalhes das aulas de fotografia que começaria em alguns dias. Sabia que havia um risco de encontrar Clara, mas também sabia que não poderia fugir daquilo para o resto da vida. “Que seja.” Mesmo porque não havia por que fugir, certo? Ao entrar no galpão lembrou-se da ultima vez que saia de lá e vacilou quando olhou pro segundo andar e viu aquela porta que ela fechou atrás de si, semanas atrás. Respirou fundo e não se deixou abalar. “Eu não vou voltar, Clara” Lembrou-se dando os primeiros passos pra dentro do salão. Marina não sabia dizer se tudo doía ou se simplesmente estava anestesiada em semanas de fuga. Até chegou a pensar que toda aquela fuga a tivesse levado para algum lugar de fato. De fato, não tinha.
Clara não sabia se aquilo era realidade, sinceramente duvidou se aquilo que estava vendo era realmente o que estava lá. “Não pode ser!” Sua reação natural foi querer toca-la. Depois de quase dois meses, ela só queria toca-la pra ter certeza de que ela era ali, parada naquela porta. Foi seguindo Marina com os olhos, até que eles se encontraram.
Clara congelou.
Marina congelou.
Fazia quanto tempo que Marina estava fugindo daqueles olhos? Semanas? Meses? E pra que? Por um milésimo de segundo Marina se esqueceu de tudo e simplesmente olhou praqueles olhos que um dia quis tanto pra si. Clara não tentou disfarçar, não desviou o olhar, não hesitou momento algum; Pela primeira vez, olhou pros olhos de Marina e não quis fugir, não dessa vez.
Veronica estava parada do lado oposto do salão que Clara estava e mesmo assim conseguia sentir tudo aquilo que elas não estavam usando palavras pra dizer. Era impossível não conseguir ver, tinha certeza de que todos naquele galpão viam.
Quando deu por si, Marina dava pequenos passos em direção ao Bistrô, quase como se Clara estivesse exercendo algum tipo de força sobre ela, puxando a pra mais perto. Também via Clara andando sem perder o contato visual e se esquivando das mesas como se nem fossem obstáculos no seu caminho.
Click. Respeite suas lágrimas. Click. Não se esqueça do frio. Click. Say something. Click
Marina despertou, colocou a mão sobre o peito e como se sentisse todas as dores do mundo, soltou o ar e jurou poder sentir os pulmões fecharem. Clara, também, pôde jurar que viu tudo pelos olhos de Marina e parou de se aproximar. O sentimento que irradiava dos olhos da fotografa fizeram uma barreira física que impediram qualquer passo de Clara, a dor era palpável.
Marina olhou pra sua esquerda e viu Veronica observando tudo aquilo de longe, e em um esforço sobrenatural mudou a trajetória dos passos que antes seguiam em direção a Clara, e agora faziam quase que o caminho contrario, pra longe.
Clara tentou se mover, tentou impedir a mudança da rota de Marina, pensou até em gritar seu nome... e não conseguiu. Era fisicamente impossível dizer algo em voz alta naquele momento, suas cordas vocais estavam todas torcidas num nó tão apertado por todas as vezes que Marina esperava ouvir algo e ela simplesmente não conseguiu falar.
Marina foi se aproximando de Veronica e passou a mão no rosto num movimento leve e sutil, quase que natural, mas só queria se certificar que nenhuma lagrima indisciplinada havia caído na frente de Clara. Agora cruzava o salão em passadas firmes e longas, retomando o controle e voltando a respirar. Podia sentir os olhos de Clara na sua nuca, observando cada musculo das suas pernas e costas mexer e se afastar dela.
Ver Marina deliberadamente se afastar foi uma das coisas mais dolorosas de se ver. Ela pode enxergar nos olhos da fotografa o momento que ela decidiu não seguir em frente. Fazia 6 semanas, um mês e duas semanas, 42 dias que elas não se viam e Marina simplesmente andou na direção oposta, como se fosse fácil assim. O momento que as razões foram se concretizando nos pensamentos de Clara, foi como se alguma coisa dentro do seu estomago explodisse. Não sabia que podia sentir seu corpo se contrair completamente e ainda sim continuar de pé; e o ar que entrava parecia que não entrava de verdade. “Eu não vou voltar, Clara”. “Eu não sou sua aventura”. Nem percebeu o momento que teve de se sentar. “Marina, volta”
Marina seguiu para o escritório de Veronica e lá discutiram as aulas de fotografia. Quantidade de alunos, quantidade de aulas, o que era necessário, algumas viagens a campo e claro, os horários que Marina disponibilizaria para oferecer as aulas. Tudo ocorreu muito bem, Veronica comentou como as inscrições se abriram e menos de uma semana depois, todas as turmas já estavam lotadas. Marina nunca tinha explorado o lado professora da fotografia, mas sabia a importância do cargo que é passar o conhecimento. “Ensinar é uma arte” dizia pra Veronica quando explicava o porquê de estar tão nervosa a espera dessas aulas. Depois que todos os detalhes foram acertados, Veronica passou a lista de alunos da sua primeira turma. Marina não olhou o papel, apenas dobrou e guardou na bolsa que se pendurava na cadeira e se despediu da pianista.
Cruzou o salão em passos largos e sem olhar para os lados. Não que estivesse fugindo de Clara, mas simplesmente sentiu uma urgência em sair daquele prédio. Rumou a porta e quando colocou os dois pés pro lado de fora e pensou em virar a esquerda, congelou pela segunda vez naquele dia.
– Marina – Foi quase um sussurro de Clara. – Oi
Marina olhou pra trás e realmente cogitou a ideia de simplesmente sair andando na direção contrária da de Clara, torcendo pra que ela chegasse a seu carro e trancasse as portas antes de ser alcançada. Não era uma boa ideia.
– Oi, Clara. – Sem mudanças de tom, sem vacilo na voz. Quase sem emoção. Quase.
– Você voltou! Eu não acredito! Achei que voltaria só daqui algumas semanas. – Tentava não falar tão rápido e com mais firmeza, mas era impossível diante daqueles olhos. – Mas você tá aqui...
– Sim, Clara. Você queria alguma coisa? – Marina olhou para o carro a algumas dezenas de metro – Eu tô meio atrasada, então... – Não se esforçou na mentira e nem sabia por que estava sentindo a necessidade de mentir. Deu um passo a frente pedindo passagem pra Clara.
– Marina – Clara bloqueou a passagem da fotografa pela calçada – Marina para. – Tentou passar a mão no braço de Marina e sentiu o corpo magrelo da fotografa se esquivar em um reflexo incrivelmente rápido.
– Clara! Oi! Sim, voltei. – Cruzou os braços sob o peito e suspirou alto – Mas pelo o que eu lembre, não temos mais nada o que falar, certo?
– Não! Logico que temos! Você foi embora e eu não tive tempo de... – Foi interrompida.
– De que, Clara? De ir na minha casa me fazer de idiota? – A ironia na voz de Marina saia com uma leveza assustadora – Não, pera! Você já teve tempo pra isso! – Sorriu dolorosamente.
Clara baixou a cabeça num sinal de quem se declara culpada. Mas havia muito mais do que isso e ela precisava dizer. Fazer Marina entender!
– Eu tava tentando fazer as coisas de um jeito certo, Ma... – Foi interrompida de novo.
– Certo pra quem?
Obvio que Clara sabia que seria uma conversa difícil, mas nunca imaginou que seria tanto assim. Marina se vestira numa armadura que talvez não houvesse brechas.
– Pra gente, Marina. – Olhando no fundo dos olhos de Marina, tudo que Clara quis foi ao menos saber que ela sentiria a sinceridade nessa frase.
– Nunca foi pra gente, Clara. Sempre foi pra você! Pro Cadu! Pra Todo mundo. Menos “pra gente” – Com os dedos, fez as aspas no ar. Marina sentia todo som que saia da sua boca acertar Clara em cheio. Sabia que estava doendo nela. “Ela escolheu assim”
– Marina, me escuta. Por favor – Clara se aproximou e sentiu aquele perfume que nunca esquecera. Quase perdeu o foco. Esticou o braço esquerdo pra relar em Marina e no mesmo momento sentiu a fisgada de dor, soltando um gemido involuntário.
Marina não entendeu nada, mas viu a cara de dor no rosto de Clara e aquela velha vontade de protegê-la tomou conta de si. Num movimento impensado, pegou no braço esquerdo de Clara, acima do cotovelo, sentiu que havia alguma coisa ali que não estava normal, como se a pele de Clara levemente estivesse machucada; vários pequenos cortes. Quis virar o braço de Clara pra olhar melhor, mas nem percebeu quando ela se afastou.
– Você tem que me ouvir! Não é assim – Cada palavra saia com certa urgência – As coisas mudaram... – Passou a mão no ombro e lembrou-se do que tinha mudado.
– Ah, verdade! Eu sinto muito pelo seu casamento – Marina pensou que não aguentarei manter aquela conversa por muito tempo.
– Você sabe? – Clara apertou seu ombro fazendo com que doesse mais ainda – Como?
Marina deliberadamente ignorou a pergunta.
– É isso, Clara? Achou que ia ser assim... – A ideia de simplesmente virar as costas e sair andando era cada vez mais plausível. – Que isso mudaria tudo?
– Não. Não achei que ia ser assim, Marina! – Tentava encontrar qualquer abertura pra dizer tudo, pra falar do seu amor, mas nada. Nada.
– Que bom! Por que não é assim que as coisas funcionam mais. E é verdade, as coisas mudaram! – Clara não percebera que Marina estava falando dela e não dava mais pra ficar ali. Marina virou as costas e saiu andando, até sentir as mãos de Clara a segurarem pela cintura e gira-la.
Clara segurou Marina pela cintura e se inclinou em cima dela, ficando a centímetros do seu rosto. Foi tudo tão rápido que a fotografa não conseguiu reagir, quando viu Clara se aproximando do seu ouvido.
– Eu vou merecer o seu amor, Marina. – A determinação na voz de Clara, assim tão perto da sua orelha ficou quase obscena.
Marina agarrou as mãos de Clara na sua cintura e fechou os olhos, respirou algumas vezes antes de se afastar alguns passos pra trás. A armadura já não estava mais lá, Marina já não estava mais lá.
– Eu não sei... se ainda vai ter alguma coisa pra você merecer.
Esperou alguns segundos pra que aquela frase fizesse sentido pras duas e foi largando as mãos de Clara gentilmente, olhando para o chão, lutando contra as lagrimas. Se não saísse dali, naquele instante, iria retirar tudo que dissera e se jogar nos braços de Clara. Então virou as costas e correu rua abaixo. Deixando Clara completamente a mercê, paralisada com a ideia de que talvez... só talvez... seria tarde demais.
“Respeite suas lágrimas”
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