Sunset.

4 Capítulo 4 - Não existe amor em SP


Notas iniciais
Aou gente! Vim agradecer de novo esses comentário lindos que me deixam boba! Obrigada ;D E eu sei que demorei mais do que o normal pra postar, mas esse cap foi especialmente TENSO kkkk. Espero que gostem e um bj especial aqui pra Tami, que é uma linda!

– Sem problema algum, Marina. Fica tranquila, querida. A gente te espera quando voltar. Um beijo! Aproveita aí.

Veronica desligou o celular e colocou sobre o balcão de mármore do Bistrô, voltando à atenção para os seus papéis. Nem percebeu que Clara passara por de trás do banco enquanto ela falava ao telefone e só conseguiu notar sua presença, quando ela se sentou no banco ao seu lado.

– Ah! Oi, Clara. – Cumprimentou-a com dois beijos no rosto – Desculpa, viu? Eu nem vi você chegar. Você sabe como ando distraída esses dias... – Voltando os olhos para os papeis a sua frente.

– Imagina, Veronica. Eu que cheguei de fininho mesmo. – Sorriu quase que forçadamente – Hen... deixa eu te perguntar uma coisa. Bobeira, sabe?

– Claro. Pode perguntar sim – Virou-se para Clara e abaixou os papeis.

– Então, me desculpa! Mas eu ouvi você falando com a Marina no telefone. – Falou baixinho – Eu sei que ela deveria ter começado a dar aulas aqui. E sabe, né? Já faz semanas... – Deixou a frase em aberto.

Veronica percebeu que não era uma pergunta qualquer. Alias quem não perceberia?

– Ahh sim! Deveria mesmo, Clara. Mas ela teve que ir viajar para aquela exposição em Buenos Aires e depois pra outra. E outra – Riu para tentar descontrair o clima e pegou o celular na mão – A gente tava tentando acertar os detalhes pra quando ela voltar... – Foi interrompida.

– E quando ela volta? – Clara imediatamente pôs a mão sobre a boca e sorriu tristemente para Veronica. Parou de tentar esconder. – Quer dizer, só se você puder me contar... é que eu não to conseguin... – Veronica já se adiantou e cortou

– Não mais que uma semana, ela já ta aí, Clara. – Veronica disse cada palavra como se fosse um consolo, passando a mão em seus ombros e sorrindo tentando conforta-la. – Já até pediu para abrir as inscrições pras aulas de fotografia. E já tava na hora, né? Faz quanto tempo que ela está viajando? 1 mês?

– 5 semanas e contando... – Clara olhou pra porta como se num passe de mágicas, Marina fosse aparecer ali.

– Ahn, mas o importante é que ela vai voltar, né?! – Veronica tentava animar Clara com o tom de voz.

– Sim! Claro que é! – Nem escondeu a alegria – Então eu vou te pedir outro favorzinho, Veronica. Juro que é o ultimo! – Sua voz vibrava e agora Clara parecia outra pessoa.

Contou sobre o favor, comentou sobre os detalhes e Veronica aceitou na hora. As duas se abraçaram e toda a tensão da conversa desaparecera. A pianista comentava sobre o Galpão, as aulas de piano que ela mesma decidira começar a lecionar e quando perguntou como andava o Bistrô, foi quase automático perguntar do Cadu.

– Desculpa, Clara. – Disse corando de vergonha e visivelmente desconfortável.

– Ei, Veronica! Para com isso hen, cara. – Bateu no joelho da pianista de leve. – Não precisa pedir desculpas e sabe de uma coisa? – Riu – Eu acho engraçado até, como todo mundo fica com receio de falar sobre o Cadu comigo, acredita? – Clara tomou um ar e arrumou a franja, agora falando mais séria – Mas olha, está tudo bem sim. Ele ainda não se recuperou completamente, né? Por isso ainda tá lá em casa. Mas daqui algumas semanas, sem duvida, ele já vai estar 100%!

– Ah, mas que ótimo! A gente sente tanta falta dele aqui. – Veronica ficou imaginando se Clara percebeu a quantidade de carinho que depositara naquela frase.

– E ele de vocês! Mas me fala uma coisa, Veronica. Sinceramente mesmo... – Fez uma pausa dramática.

– Sim? – tentou disfarçar o nervosismo. “Será que ela realmente percebe? É tão visível assim?”

– E de mim? Vão sentir essa falta toda? – Clara riu e se divertiu vendo o corpo de Veronica relaxar logo após a pergunta.

Sabia que a pianista nutria sentimentos por Cadu há muito tempo já. Nunca se incomodou. Até achava que fariam um belo casal, além do mais, Veronica era uma boa mulher, merecia a chance de ser feliz e amada como qualquer outra pessoa. Mas hoje já não sabia se Cadu seria o homem certo para a posição, na verdade, o homem certo para qualquer posição.

Clara se despediu de Veronica e foi vagando pelo Galpão quase vazio logo antes de fechar. Pensou de novo no homem que Cadu se tornara. E no homem que ele foi um dia. Tocou no rosto e sentiu os olhos lacrimejarem, era sempre assim quando pensava nele. Saber que agora já não conseguia mais olha-lo nos olhos. Era difícil demais, mas respirou fundo e se recompôs. Ainda tinha que ver o filho e repassar alguns orçamentos pro Cadu.

~

Era quase uma da manhã em Buenos Aires e o frio assolava a cidade. As ruas sempre tão vazias depois da meia noite, sempre tão mal iluminadas e escorregadias, era um convite praquelas almas perdidas que vagavam de bar em bar escutando o tango, acompanhando as danças e procurando pessoas pra compartilhar uma dor parecida.

Marina pensara que não havia melhor cidade para se curar um coração partido. As noites eram frias e os ventos não perdoavam ninguém, mas nunca lhe faltava companhia. Os vinhos eram secos, de safras raríssimas. E o mais importante, a madrugada era viva. Sentia que aquele lugar no mundo fora feito para que as pessoas sofressem ali. Não sabia se era o tango, os boleros ou as dores cantadas e dançadas por todos de forma tão bonita e verdadeira, que fizera bem pra ela.

Quando seu avião aterrissou em terras Argentinas a mais de um mês atrás, Marina ligou o automático na primeira semana da exposição e não quis pensar em mais nada além do trabalho. Foi uma das mais belas e bem criticadas amostras de sua carreira, com repercussão mundial, o nome Marina Meirelles estava em todos os lugares novamente. Havia boatos de que aquela seria a ultima exposição dela pelos próximos anos. “Férias para o ócio”. Mas logo Vanessa soltou uma notinha oficial dizendo que não passava de rumores, e que Marina M. estava de volta sim e não pretendia parar tão cedo!

Quando as exposições acabaram e o tempo finalmente começou a sobrar, Marina pensou em parar por um instante e entender o que tudo aquilo significava. Pensar na dor que estava oprimindo há tanto tempo e em como bebia todas as noites pra poder dormir sem pensar nela. Nela. Desde que saiu do território brasileiro nem ao menos tivera coragem de dizer aquele nome em voz alta. Mas decidiu que não pensaria, nem sentiria nada. Perdera meses de sua vida apenas pensando. Pensando em como seria a vida ao lado dela. Imaginando como seria o primeiro beijo. Sonhando com a declaração na janela, com flores roubadas do jardim alheio. “Não seja idiota, Marina”.

Nas semanas que se seguiram, como Vanessa profetizara, a velha Marina estava de volta. Aquela mulher que não deixava sobreviventes por onde passava. Enfeitiçava pessoas por diversão, caçava por esporte. Entrava em um bar qualquer, escolhia a mulher mais bonita ali presente e aproximava seu batom vermelho do pescoço qualquer.

– Não vai perguntar meu nome? – Elas perguntavam.

– Eu não preciso saber seu nome. – Marina respondia todas às vezes.

Definitivamente tinha parado de sentir.

~

Clara resolveu dispensar o taxi e ir andando pra casa, sabia que estava atrasada, mas um pouco daquela maresia e vento faziam com que ela sentisse um pouco de paz. Com os saltos em mãos ia caminhando lentamente de pés descalços, afundando os dedos na areia morna, deixando as ondas mais mansas lamberem seus pés. O vento ia jogando seu cabelo pra todos os lados e Clara sem muito sucesso tentava doma-lo em um coque mal feito. Quando deixou seu sapato cair na areia, sem pensar duas vezes, se inclinou pra pega-lo antes que a onda o fizesse primeiro. No momento em que curvou seu corpo bruscamente para frente, sentiu o braço esquerdo doer. Paralisou. Lembrou daquela noite...

[ Flashback on ]

Naquele dia Marina estava saindo de viagem sabe Deus pra onde, tinha mandado Clara sair de sua casa e não quis ouvir explicações. Clara dirigia como uma louca pelas ruas do Leblon, sem dar seta ou respeitando sinalizações, queria chegar a sua casa logo. Quando estacionou em frente ao prédio onde morava, parou por um instante e olhou pro espelho retrovisor. “É ela. Sempre foi ela.” Respirou fundo, agarrou sua bolsa e não teve tempo de esperar pelo elevador. Subia as escadas em degraus duplos até o segundo andar. Antes de rodar a maçaneta, a ideia de que quando saísse por aquela porta novamente, sua vida como ela conhecia, estaria acabada, fez Clara vacilar por um segundo; Mas no mesmo segundo pensou em uma vida sem Marina e não conseguiu suportar o vazio que sentiu, simplesmente pensar, em perder aquela mulher.

– Cadu... – Disse em um sussurro.

– Aleluia hen, Clara?! – Cadu dizia da cozinha, de costas pra Clara, apoiado no balcão. – Achei que não viria almoçar.

– Cadu!

– Fala, Clara. – Ainda dizia de costas, servindo um copo d’agua.

– OLHA PRA MIM, CARAMBA! – Clara jogou a bolsa em cima da poltrona em sua frente com a mesma força que gritou.

– Que isso, Clara? – Com os olhos arregalados, quase deixando o copo cair no chão da cozinha quando se virou olhando pra esposa – Quer me matar do coração, cara?

– Cadu, senta! – Clara já chorava sentindo seus olhos lacrimejarem – Senta, por favor.

– Ok, sento. Mas calma, me diz o que tá acontecendo, cara. Por que tá chorando? Clara... – Cadu queria levantar e abraçar Clara. Dava pra sentir a aflição na voz dela, a preocupação na ruga da testa.

– Não tá acontecendo, Cadu. Já aconteceu. Faz tanto tempo que já aconteceu. E eu tentei, Cadu! Pela gente, eu dei tudo de mim – Dizia quase sem entonação na voz – São 10 anos, eu sei! Você acha que eu não sei? Mas ela tá indo embora agora... – Não conseguiu terminar o pensamento.

– Você não ta fazendo sentido, Clara! Ela quem? Quem ta indo embora? – Cadu parecia realmente não entender.

– A Marina, Cadu. Ela tá indo embora. Eu não sei se ela vai voltar, eu nem sei pra onde ela vai... – Cadu interrompeu.

– Não! Não, Clara! – Cadu fez menção de levantar, mas Clara não deixou. – Me solta! Por que eu não vou mais discutir sobre ela, Clara! Eu não aguento mais discutir POR CAUSA dela.

– É sobre isso que eu quero falar Cadu! Eu também não aguento mais... – A voz de Clara se fez tão baixa que quase não dava pra ouvir.

– Não aguenta mais?! Que que isso significa?

– Significa que eu não aguento mais fugir dela. – Clara sentou na outra ponta do sofá que Cadu estava. Dizendo tudo com calma e cautela – Eu tentei, e tentei e fugi todas as vezes que pude, mas agora é diferente. Eu não quero mais fugir.

Cadu parecia não escutar nenhuma palavra que Clara dizia, olhando pra TV em sua frente o tempo todo, concentrado na tela preta, imóvel. Pensou que talvez seu coração fosse parar ali mesmo, enquanto ele ouvia sua mulher falar.

– Mas isso não tem mais a ver com ela, Cadu. Isso tem a ver comigo. Eu to fazendo isso, por mim.

Cadu se pôs em pé e deu as costas pra sua esposa. Andou até a cozinha e ainda de costas se apoiou na mesa de jantar.

– E, o que exatamente, você tá fazendo, Clara? – O medo daquela resposta fez Cadu prender a respiração, baixar a cabeça e fechar os olhos quase que em uma prece.

– Eu tô tomando coragem. – Se levantou e limpou a garganta – To indo atrás da minha felicidade alegre, Cadu. Eu quero me sep...

– Não fala! – Cadu interrompeu Clara virando-se bruscamente e já com o dedo apontado para ela, foi andando em sua direção – Não fala isso. Porque no momento que você disser essa frase, não vai ter volta, Clara!

– Você não entende, cara? Já não tem volta! – Clara tentou continuar, mas Cadu não deixou.

– SEMPRE TEM VOLTA, CLARA! – Gritava e gesticulava em frente ao sofá, com os olhos cheios d’agua. O desespero em sua voz era palpável – Sempre teve volta, pra gente. Lembra? – Pegou as mãos de Clara e beijou-as – Mas essas coisas passam, tudo isso vai passar também, cara! A gente só não pode desistir...

Clara não conseguia acreditar naquela cena. Cadu ali, pedindo para que ela não desistisse do seu casamento, beijando sua mão. Qual foi a ultima vez que Cadu havia beijado sua mão? Ela nem se lembrava. Quase quis que Cadu fosse ter um surto nervoso e que desistisse também, mas não, lá estava ele, deixando as coisas ainda mais difíceis.

– Eu não to desistindo – Passou a mão no rosto do marido – Eu nunca desisti de você, Cadu. Eu lutei pela gente até onde eu.

– Mas... – Deixando algumas lagrimas escaparem – Mas você me ama... não ama?

– Claro que amo! Você é meu parceiro há 10 anos, cara! A gente construiu uma vida linda juntos e o Ivan é a prova de que todo esse amor valeu a pena! – Clara dizia sorrindo, com os olhos embaçados ainda segurando as mãos do marido com força.

– Então, Clara...

– Então que o amor que eu senti por você não é mais o amor que eu sinto. Entende, Cadu? – Clara segurou seu rosto gentilmente e torceu pro marido entender o que ela estava dizendo – Ele se transformou... virou amizade, virou carinho. Você sempre vai ser meu amigo...

Cadu não podia acreditar. De todas as coisas que achava saber na vida, o amor de Clara era a que mais tinha certeza. Ficou parado ali, imóvel, sentindo sua face ser acariciada e olhando pros olhos daquela mulher que tanto amou, do seu próprio jeito, por quase um terço de sua vida. Naquele momento, Cadu nem sabe por que, tentou se lembrar de como era sua vida antes de Clara; Antes de ter conhecido aquela menina boba, de riso fácil que usava jardineiras demais. Não conseguiu se recordar de como era acordar e ir dormir sem ter ela ao seu lado.

– Me deixa tentar... eu posso te conquistar de novo.. eu posso... – Disse se despindo de todo orgulho que já tivera. Estava ali, pedindo uma segunda chance sem nenhuma vergonha.

– O desamor é algo que não tem volta, Cadu.

Clara passou as mãos pelos cabelos do marido, olhou pras suas mãos ainda entrelaçadas e depositou um beijo sobre seus dedos. Não havia mais nada a ser dito, o silencio existia por que já não era a função das palavras consolar os dois. Eles se entre olharam e Cadu assentiu com a cabeça, assim fez Clara segundos depois. Era o fim de uma história que durara dez anos e rendeu uma vida. Ambos sabiam que foram feliz, sim; mas que também havia acabado ali.

Então Clara de distanciou do marido e sentiu a necessidade de sair dali. Correndo. Pegou sua bolsa e antes de abrir a porta, olhou para o apartamento e aquele homem parado na frente do seu sofá, como se despedisse deles. Claro que voltaria pra casa e olharia de novo para aquele homem, mas entendeu que no momento que entrasse por aquela porta novamente, tudo estaria exatamente no mesmo lugar e ainda sim, completamente diferente. Girou a maçaneta e respirou fundo algumas vezes.

– Eu te amei – Clara sussurrou.

– Eu te amo – Cadu sussurrou de volta.

Saiu pela porta. Agora não havia mais volta.

~

Cadu ficou parado por um bom tempo no mesmo lugar onde vira seu casamento acabar. Sabia que Clara tinha razão ao dizer que o desamor não é algo que se possa mudar, mas a dor de aceitar essa verdade era insuportável. Retirou a aliança do dedo e olhou para aquela pequena joia que carregou no dedo por um décimo de século, e aquele conhecido filme começou a rodar em sua frente.

O dia em que conhecera Clara. O primeiro beijo roubado. O primeiro beijo que Clara roubou. A primeira briga por algo tão banal que não valera pena lembrar. O dia que viu Clara entrar de branco em uma igreja pequena e cheia de pessoas queridas. O teste positivo. O resultado: é menino. A primeira foto em família. Os primeiros passos. Os primeiros sonhos. A vontade de envelhecer juntos.

Tudo isso, se foi. Gentilmente colocou a aliança sobre a mesinha de centro e sentou ali em frente, olhando-a brilhar. Começou a imaginar na possibilidade de voltar no tempo e não ter ido naquela exposição de fotos maldita. Imaginou se tivesse desligado o celular e dado mais atenção pra Clara, ela ainda estaria naquele apartamento. E se ao invés de ter entrado pela porta da direita, entrasse pela principal, Marina nunca teria colocado os olhos em Clara.

Pensou em tudo isso pra não pensar que talvez, apensa talvez, ele também tinha sua parcela de culpa no fim.

~

A madrugada já chegava ao seu fim quando Clara percebeu que havia rodado o Rio inteiro sem rumo algum. O céu já não era mais tão escuro e as ruas voltavam a se encher com todo tipo de carro e ônibus. Precisava voltar pra casa e lidar com a parte pratica do fim do casamento. Fez retorno na avenida que seguia e rumou sua casa, na velocidade mínima, dando a preferencia pra todo carro que passasse, adiando o inevitável.

Quando se aproximou da porta do seu apartamento, parou por um segundo. Passou a mão na porta, como se sentisse que algo estava errado. Abriu a porta devagar... Não acreditou no que via.

– Cadu... o que... – Tentava entender o que o “marido” fazia no meio da sala, toda bagunçada e suja, no meio de dezenas de papeis e fotos dos dois.

Cadu olhou pra mulher como se estivesse esperando vê-la chegar em casa. Com muito esforço se levou cambaleando, mas caiu sobre o sofá que estava.

– VOCÊ! Eu achei... você jurou... tá tudo aqui Clara. – Cadu estava completamente bêbado. Com a camisa aberta e com a garrafa de vodca em seus pés, completamente vazia. – Vem ver, amor. Eu e você naquela viagem... – Segurava a foto no alto, sorrindo um sorriso quase piedoso, com os olhos cheios d’agua.

Clara estava perplexa, quando saiu de casa estava tudo “bem” na medida do possível e agora tudo mudara. Não conseguia se mexer, nunca viu Cadu tão bêbado.

– Cadu! Cadu você ta tomando remédio! Que que você tá fazendo?

– Nossas fotos, amor. De quando a gente era feliz e você me amava! – Tentava se levantar, mas não conseguia firmar o pé no chão.

– Cadu, para com isso! Eu sei que a gente foi feliz... e eu ainda te amo... – Deixou a bolsa no chão mesmo e foi se aproximando devagar de Cadu.

– Ama... ama mas tá me deixando. Ama... mas tá amando outra... – Riu alto – Que merda de amor, hen Clara? – Rasgou a foto que segurava.

Clara ficou em choque.

– Por que você tá fazendo isso, Carlos Eduardo?

– Por que tá aqui ó, em todas essas fotos, em todas essas cartas – pegou uma carta que estava em cima do sofá – “Eu vou te amar pra sempre, meu amor” – Leu cada frase da carta com toda a ironia do mundo – “Eu quero envelhecer ao seu lado, meu bem” — Jogou a carta pra trás do sofá – Tudo isso, amor. Todas essas lembranças que você tá virando as costas – Conseguiu se levantar e abriu os braços – Mas tudo bem, né? Por que você me ama, certo? – Sorriu e colocou a mão no coração que nesse momento batia incrivelmente rápido.

– Eu não vou falar com você assim. Você tá bêbado, Cadu! Nem sabe o que tá falando. – Clara tentou se aproximar, mas ele deu dois passos pra trás fazendo um sinal com a mão para que parasse.

– Ah, eu sei do que eu to falando, amor. – Pegou a aliança no mesmo lugar que deixara horas atrás – Eu to falando disso aqui – Jogou a aliança em cima de Clara, batendo em seu peito e caindo no chão, rolando pra baixo do sofá – Do momento em que você resolveu acabar com o NOSSO casamento por causa de OUTRA PESSOA.

– Eu não terminei NOSSO casamento por outra pessoa, Cadu. – Clara tentou manter-se calma mesmo sabendo que não aguentaria por muito tempo. Cadu estava fora de si. “É a bebida falando”.

– CLARO QUE TERMINOU! – Uma raiva súbita preencheu o olhar de Cadu e sua voz subiu tanto, que fez Clara tremer. – Como você consegue entrar aqui, me olhar nos olhos e dizer que não fez isso pela Marina? COMO? – Ele cuspia todas as palavras e andava de um lado pro outro como um animal enjaulado.

– Eu fiz isso por mim! – Bateu o pé no chão e a mão aberta no peito – Eu fiz isso porque EU não estava feliz! Por que VOCÊ não me fazia mais feliz. Eu tenho o direito de procurar a MINHA felicidade onde eu quiser!

– E me diz, onde exatamente você achou essa felicidade mesmo? – Bateu o dedo no queixo – Ah, sim. Na cama da Marina, certo?

– Você cala essa boca pra falar da Marina! – Foi pra cima dele e mesmo parando a passos de distancia dava pra sentir o cheiro da vodca no seu hálito – E pra falar de mim também! Por que eu nunca te trai, Cadu! Eu não deitei na cama da Marina... eu nunca beijei aquela mulher! – Clara explodia por dentro, como ele podia dizer essas coisas.

– Mas você queria, não queria Clara? Eu imagino como desejava ela... – Cadu falava olhando dentro dos olhos de Clara. Sua voz ficou assustadora sombria e ele se inclinava pra frente como um predador.

Clara sabia que tudo que dissesse a partir daquele momento iria magoar Cadu pra sempre e por mais que ele merecesse, não queria machuca-lo assim. Então respirou fundo e agarrou o pouco do respeito que ainda tinha por ele e virou as costas indo em direção à porta.

– Olha aí, você desistindo de novo. – Riu forçadamente – Eu já devia saber mesmo, que você não é mulher o suficiente pra dizer na minha cara...

Foi à gota d’agua. Clara parou no mesmo momento e sentiu que iria se arrepender disso para o resto da vida, mas não estava mais sobre seu controle. Cadu havia passado dos limites. Então virou-se e o respondeu categoricamente.

– Você não sabe o quanto eu quis, Carlos Eduardo. Não sabe quantas vezes eu quis beijar aquela mulher. – Clara foi baixando a voz cada vez mais – O quanto eu imaginei deitar na cama dela – Sentiu as palavras atingirem Cadu como balas, viu ele dando passos pra trás a cada fim de frase, mas ele havia pedido. Agora ele teria que aguentar — ...em cima dela.

– Para... – Ele se sentou no braço do sofá como se estivesse fisicamente ferido.

– Fazer amor com ela! – Gritou.

– PARA! – Gritou mais alto e levantou em um pulo.

– NÃO PARO! Não paro por que você pediu por isso! Por que você quis ouvir e agora você VAI!

Os dois agora estavam em frente à mesinha de vidro no centro da sala e a tensão era palpável. Cadu se esforçava pra se manter em pé enquanto Clara respirava descompassadamente, já tinha perdido o controle.

– Eu amo ela! Você consegue entender isso? Eu a amo com toda fibra do meu corpo!

– Fica quieta, Clara – Dizia balançando a cabeça, de olhos fechados.

– Não! Eu não vou mais ficar quieta. Eu quero sim, ter ela pra mim, Cadu!

– Você é a minha mulher, Clara! – Apontou o dedo para o próprio peito e disse gritando, no seu limite.

– E agora eu quero que ela seja a minha!

Clara não entendeu o que aconteceu em seguida. Tudo ocorreu muito mais rápido do que ela podia acompanhar. Em um momento estava em pé, discutindo com Cadu e no outro estava coberta de cacos de vidros e sangue. Cadu parecia uma estatua ao lado do sofá, com as mãos na cabeça e os olhos cheios d’agua; Ele dizia alguma coisa sobre desculpas e perdão, mas Clara realmente não conseguia manter o foco, olhou pro braço esquerdo e sentiu o quente do sangue escorrendo do ombro ao dedo mindinho. Sua bochecha direita ardia tanto que Clara passou a mão na face por achar que havia sangue escorrendo pelo seu rosto, mas nada, estava apenas dolorido e inchado. Tentando entender o que tinha acontecido olhou pro Cadu novamente, que agora estava de joelhos perto dos seus pés, ainda calado e com os olhos arregalados, ainda não entendia! Respirou fundo algumas vezes tentando não se mexer por sentir seu corpo doer toda vez que tentava.

Quando se levantou e olhou pra todo aquele cenário de guerra que era sua sala de televisão, como uma bala na nuca, tudo veio à tona.

No momento que Clara disse a palavra “minha” Cadu simplesmente perdeu o controle do seu corpo. Foi como se naquele momento ele se transformasse em um homem que nem ele mesmo conhecia. Aquela palavra em especial fora à gota d’agua para Cadu perder as rédeas da vida. Quando deu por si, já estava com a mão erguida e fazendo a trajetória em direção ao rosto de Clara, em câmera lenta, até dando tempo de se arrepender no ultimo centímetro antes do contato com a sua mandíbula; mas era tarde demais. Em um piscar de olhos, Clara estava na sua frente e no outro, caindo por cima da mesinha de vidro do meio da sala. O barulho estrondoso que veio em seguida tirou o Cadu do transe que as ultimas palavras de Clara o colocara, imediatamente piscou os olhos pra saber se aquilo era realidade e quando percebeu que sim, sentiu alguma coisa morrer por dentro. “Como?”

Clara estava se levantando em choque, tonta, dolorida, perplexa. Olhou pra Cadu uma ultima vez e não reconheceu aquele homem sentado em seu sofá, e pensando bem, não queria. Andou até a porta segurando o braço esquerdo percebendo que talvez tivesse se machucado muito mais do que imaginava. Ouviu Cadu se levantar atrás de si e antes mesmo dele pensar em dizer alguma coisa, ela se antecipou.

– Acabou. Você morreu pra mim, entendeu?

Ele nem tentou responder. Ela não esperava resposta.

Clara subiu para a casa de Helena e todos estavam lá tomando café da manhã, sem perceber quando ela abriu a porta e ficou parada ali, com os olhos cheios d’agua, sem dizer uma palavra até que Rosa notou alguém na sala de estar. Quando todos viram o estado de Clara foi um frenesi de acontecimentos, impossível de se acompanhar, pessoas correndo pra todos os lados com gases na mão e Felipe com uma maleta preta ao seu lado. Viu Nando correr porta a fora, provavelmente indo ver Cadu. Helena já estava no telefone ligando pra sua mãe e Virgilio se mantinha calmo ao seu lado. Tudo acontecerá rápido demais.

[ Flashback off ]

Clara nem percebeu por quanto tempo havia ficado ali, parada no meio da praia com os sapatos na mão. Respirou fundo o vento que vinha do mar e passou a mão nos cabelos, tentando afastar também as lembranças daquele dia em que seu casamento acabou. Já fazia algumas semanas, mas ainda doía, tanto os machucados como a lembrança. Decidiu ir pra casa. Estava ficando na Helena com o Ivan enquanto Cadu não se recuperava de vez, e tivesse condições de achar um lugar pra ele mesmo.

~

– Olha quem deu sinal de vida, meu Deus! – Vanessa andava pelo estúdio enquanto falava com Marina pela primeira vez em semanas.

– Quem é vivo, sempre aparece, né Van? – Marina dizia animada.

– E assim se fez! Mas me diz, a que devo a honra dessa ilustre ligação?

– Então Vanessinha, sabe quando é meu voo de volta? – Foi uma pergunta honesta, Marina realmente não sabia quando era.

– Claro que eu sei, Marina. Deixa eu confirmar aqui – Ficou um tempinho em silencio enquanto revirava os e-mails da Chefe. – Tá marcado pra daqui duas semanas, certo? Não foi isso que você pediu? – Disse meio desconfiada

– Foi sim, Van. Mas agora eu to pedindo pra marcar pra daqui, não sei, 3 dias?

– Oi? Por que, posso saber? – Vanessa imaginou se aquilo ainda era por causa de Clara e suspirou.

– Calma, meu guarda costas, calma. – Riu baixinho e voltou a falar sério – Tenho trabalhos pra fazer, depois te envio os detalhes, fica tranquila.

– Ah sim – Respirou aliviada – Eu resolvo isso, ok? Te aviso qualquer coisa.

– É por isso que eu te amo, Vanessinha. Agora, me da licença, eu tenho que aproveitar essa tarde linda, com a... a... – Marina afastou o telefone do rosto. – Como é seu nome mesmo, querida?

Vanessa já tinha entendido o que estava acontecendo.

– Carmen! Eu vou aproveitar aqui com a Carmen e depois te mando noticias. Beijos, van!

Marina desligou antes que Vanessa pudesse responder. Realmente. Marina estava de volta.

Notas finais
UFA! Mas e aí gente, me digam, sinceramente o que acharam?! Criticas? Duvidas? Alguém querendo escrever pra mim, pq essa vida tá dificil demais? kkkkk. E, sempre né, Beijo pra Nany que me aguenta o tempo todo, todo o tempo.