Sunset.
1 Capítulo 1 - Say something
Notas iniciais
Espero que gostem da minha versão desse ship lindo.
Marina se arrumava em seu quarto e jogava roupas e sapatos para todos os lados, experimentando milhares de combinações e ainda sim extremamente perdida no meio do seu guarda roupa. Ela precisava estar perfeita! Já fazia algumas semanas que Clara tivera que se afastar para ajudar o marido no Bistrô e toda aquela distância estava a matando lentamente, por mais que entendesse todos os motivos de Clara e que apoiasse sua assistente preferida, ficar sem sua presença causava uma dor massacrante.
Cadu não precisou fazer o transplante, pois os remédios começaram a fazer o efeito que Silvia esperava, mas para que a recuperação fosse total, primeiro ela teria que ser lenta e dolorosa. Já que se demorou tanto para acertar a dosagem do remédio que pudesse exercer uma melhora considerável, o coração de Cadu estava completamente debilitado. As ordens médicas eram expressas e dessa vez não teria escapatória para o Chef: Repouso absoluto! Com todos aqueles problemas e a convivência com Cadu ficando cada vez mais pesada, as brigas cada vez mais frequentes, ela decidiu que se dedicaria plenamente ao Bistrô do marido para que seu sonho continuasse de pé, pois Clara sabia que aquele estabelecimento era um dos maiores incentivos para que Cadu conseguisse superar essa fase ruim, então ela decidiu que o manteria funcionando até que seu marido melhorasse por completo. O problema de estar fazendo isso era que teve que sair do estúdio que tanto amava, deixando pra trás não só um trabalho que ela verdadeiramente gostava, mas também Marina. Deixar Marina sem duvida nenhuma foi a parte mais difícil, pois já tinha se acostumado em ver seu rosto todos os dias, escutar sua voz, vê-la fotografar e ouvir “Bom dia, Clarinha” carregado de sentimentos que só marina podia pronunciar. Toda vez que Clara sentia saudades de tudo aquilo que teve de se afastar repetia dezenas de vezes pra si mesma: “Foi a coisa certa, Clara. Você fez a coisa certa!”.
Marina já não aguentava mais encarar suas roupas em cima da cama e pensou a coisa mais clichê que podia pensar naquele momento “Eu não tenho nada pra vestir” quando Vanessa abriu a porta sem bater e como se pegasse o pensamento no ar simplesmente andou até a cama e parou do lado de Marina, olhou pra toda a bagunça por alguns momentos e quebrou o silencio.
- Vai logo, pergunta de uma vez.
- Por favor, Vanessinha! Eu não consigo decidir, nada fica bom! Me ajuda... – Se jogou na cama em cima de alguns vestidos e suspirou como se tivesse desistido de sair, fez um bico e olhou pra Vanessa com cara de dó.
Vanessa sabia que provavelmente se arrependeria por ajudar Marina ficar deslumbrante para outra mulher, mas aquela cara de dó era algo que ela não estava imune, ainda. Então abriu o guarda roupa da fotógrafa e pegou algumas peças, passou por um armário para pegar sapatos, voltou do banheiro com um colar e um anel no dedo indicador, ajeitou tudo no sofá em frente à cama e se jogou na poltrona no canto do quarto. Obviamente não era nenhum trabalho pra ela escolher roupas pra Marina, provavelmente conhecia mais do guarda roupa dela do que ela mesma, mas essa ocasião em especial foi dolorosa demais pra Vanessa. Ela ainda não acreditava que uma pessoa como a Clara pudesse ter encantado tanto Marina, ainda mais por conhecer sua chefa tão bem, nem em um milhão de anos a Marina que ela conhecia poderia se apaixonar por uma dona de casa sem graça, hetero, mãe e por cima de tudo meio bobona. Vanessa queria acreditar que todo esse “amor” fosse fogo de palha e que Marina se cansasse de Clara assim como também se cansou dela, mas a cada dia percebia que esse dia talvez jamais chegasse.
- Você é um anjo, Vanessinha! – Marina dizia correndo com o vestido pendurado no dedo para o banheiro.
- Eu sei. – Vanessa respondeu propositalmente baixo para que só ela ouvisse. Secou os olhos molhados e saiu do quarto antes que Marina pudesse voltar. Ela também teria que se arrumar e já estavam atrasadas pra grande inauguração do Galpão.
~
Clara já estava no galpão desde muito cedo preparando a comida, ajudando na limpeza do local e coordenando os empregados, queria que tudo estivesse simplesmente perfeito. Seria a primeira vez que Cadu voltaria lá e mesmo que só por uma hora e estritamente proibido de se levantar da cadeira de rodas, ela queria mostra-lo o que tinha feito nesse tempo que ele estava fora, tinha colocado todo seu empenho para deixar o marido feliz e orgulhoso. Passou dias preparando os aperitivos e os pratos do cardápio que fora sugerido pelo Chef e deixou tudo pronto, era só esperar pela sua reação.
Quando Clara olhou para o relógio em cima do caixa do Bistrô se assustou com a hora, ainda teria que ir pra casa e tomar banho, se trocar, se maquiar e voltar antes de todo mundo chegar; se planejou tanto para que não ficasse em cima da hora e mesmo assim estava atrasada. Correu pra casa e se jogou em baixo do chuveiro, deixando todo aquele nervosismo e estresse de lado por alguns minutos. Saiu do banho vestindo um roupão branco e quando tudo se acalmou dentro de Clara e ela olhou para a roupa estirada na cama no reflexo do espelho e o inevitável aconteceu. Pensou no porque tinha escolhido cuidadosamente o que iria vestir naquela noite, ou melhor, para quem. Por mais que tentasse negar sabia que estaria se arrumando para Marina, seu coração num impulso começou a bater mais forte e Clara se apoiou na penteadeira e permitiu-se lembrar do sorriso da sua fotógrafa, colocou a mão no peito por ter pensado naquele pronome. Sua. Sacodiu a cabeça, respirou fundo algumas vezes tentando sem sucesso parar de pensar em Marina e foi se arrumar.
~
O Galpão estava lindo, todo iluminado e decorado para receber todos aqueles que ajudaram o projeto se tornar realidade. Clara estava fazendo mil coisas e delegando tarefas para todos os funcionários quando as pessoas começaram a chegar e de repente o lugar estava lotado. Cadu ainda não havia chegado e nem nenhum membro da família Fernandes quando Clara olhou de relance para a porta e viu Vanessa entrando com cara de pouquíssimos amigos. Naquele momento Clara segurou a respiração enquanto procurava com o olhar algum sinal da Marina e depois de ter percorrido todo o salão e não ter conseguido achar a fotógrafa soltou o ar pesadamente e pensou que talvez ela não viria, na mesma hora desfez um sorriso que nem percebera que tinha formado e virou-se rumando a cozinha. Quando Clara girou-se sobre seus calcanhares e foi dar o primeiro passo a frente deu de cara com Marina e seu sorriso se abriu de orelha a orelha.
- Oi, Clarinha!
- Marina! – Clara não conseguiu esconder a felicidade em seu tom de voz e sem pensar duas vezes pulou pros braços de Marina, fazendo-a dar alguns passos para trás e ter que agarrar sua cintura para se equilibrar.
Marina observou seu coração parar quando sentiu o perfume de Clara preencher o ar que ela respirava. Não tirou as mãos da cintura de Clara mesmo quando já tinha conseguido se equilibrar e segurou ela no abraço alguns segundos a mais do que deveria. Quando Clara percebeu o quão próximas estavam, toda a felicidade se transformou em uma tensão sem precedentes. Era como se o Galpão tivesse parado para vê-las se abraçarem. Tentou se desvencilhar dos braços da fotógrafa, mas não sentiu seu corpo obedecer então Marina suavizou o toque como se desse permissão para que ela se afastasse e Clara assim o fez.
- Ah, eu estava te procurando e não te achei... achei que... não viria. – Clara tentava sorrir e fazia uma cara de dó involuntária, mas desviou o olhar para tentar não se entregar tanto.
- Claro que viria! – Marina dizia entusiasmada – Não perderia isso por nada! – Sem tentar disfarçar muito, deu um passo pequeno para trás e olhou Clara dos pés a cabeça. – Por nada. – A ultima fala saiu muito mais sensual do que Marina planejara.
Clara ficou extremamente feliz quando percebeu que toda a preocupação com a roupa valera a pena. Tinha se esquecido como a voz de Marina mexia com ela.
- E você? Quando eu acho que não consegue ficar mais linda, olha aí! – Clara imitou o gesto de Marina e olhou seu corpo de cima a baixo. – Me surpreende de novo. – Ficando levemente vermelha voltou a abraça-la tentando se esconder nos cabelos de Marina.
- Você me mata de saudades assim, Clarinha. – Marina sussurrou enquanto se entorpecia com o perfume que exalava dos cabelos de Clara e sentiu-a assentindo com a cabeça como quem diz: Eu também senti saudades.
Elas ficaram conversando por mais longos minutos sobre o estúdio e como anda tudo calmo e chato por lá sem a Clara, sobre os dotes culinários que a assistente teve que aprender e como essa distancia dava saudade. Quando Clara teve que se ausentar do estúdio, Marina não imaginava que seria de uma forma tão brusca, pois por mais que ninguém colocasse em palavras, ela e Clara estavam em um bom momento, bem mais próximas e intimas, não queria perder todo o progresso que havia feito, entretanto não queria invadir o espaço dela, muito menos do Cadu, então resolveu esperar Clara tomar as atitudes e seguir daí.
A festa já estava no seu ápice e todos comendo, bebendo e conhecendo cada canto do prédio que tinha várias salas e instrumentos espalhados para todos os lugares. As mesas e o balcão do Bistrô estavam cheias quando Clara viu o Ivan correndo entre as cadeiras em sua direção todo feliz e saltitante. A mãe do Ivan agarrou o filho pela cintura e lhe deu um beijo na testa e em seguida uma palmada de leve na bunda. Quando Clara olhou pra direita das mesas viu Silvia e Felipe empurrando a cadeira de rodas com Cadu sorridente e cumprimentando as pessoas no caminho. Cadu fez menção em se levantar quando sua esposa foi se dirigindo a ele, mas Silvia antecipou o movimento e apoiou a mão sobre seu ombro e fazendo com que Cadu desistisse da ideia. Clara deu um selinho rápido nos lábios do marido e começou a empurra-lo pra dentro da área restrita só para funcionários do Bistrô, mostrando tudo que havia feito e contando detalhes dos preparativos dos pratos principais, dos aperitivos e sanduiches que estavam oferecendo aquela noite. Silvia se aproximou do casal e cumprimentou propriamente Clara.
- Cadu, Cadu hen? Nada de exageros hoje. Espero assistir você saindo por aquela porta antes das 11 horas. – Silvia dizia descontraída e sorrindo para seu paciente preferido.
- Sim senhora, Doutora. – Cadu fez um esforço para fingir bater continência, mas desistiu no meio do caminho, ainda estava fraco demais.
- E por que você é meu paciente preferido, eu vou até deixar você sair um POUQUINHO da dieta hoje – Disse dando uma piscadinha para Clara. – Mesmo porque você deve poder experimentar a comida do seu próprio restaurante, certo?.
Clara pediu licença para os dois e adentrou a cozinha para acertar alguns detalhes e preparar os pratos especiais da noite para Cadu. Depois de alguns minutos Cadu observa a esposa voltar e se juntar a ele e médica.
- Clara, isso aqui está uma delicia! – Silvia colocou a mão na boca, enquanto tentava falar e mastigar ao mesmo tempo a torta recheada.
- Obrigada, Silvia. Você sabe que eu não sou a melhor na cozinha, mas eu estou tentando! – Clara disse toda alegre e orgulhosa de si mesma.
- Nem tanto né, Clara. O molho tá meio fraquinho demais. – Cadu colocou o garfo de volta no prato – E essa massa tá pesada, cara. Eu já te ensinei o segredo, pô.
A esposa do chef abaixou a cabeça e arrumou a franja que caia sobre seus olhos tentando disfarçar o constrangimento. Balançou a cabeça sem acreditar como Cadu podia ser grosso as vezes.
- Pô digo eu, Cadu. Eu tô tentando caramba!
- Eu sei, amor. Mas tem que tentar mais, né? – Cadu parecia não perceber o quanto isso machucava sua esposa.
- Dá licença, Silvia. Eu tenho que dar uma olhada no pessoal. – Clara se levantou antes que Cadu pudesse dizer alguma coisa e sumiu no meio das pessoas.
~
Marina conversava com Verônica enquanto descia as escadas que dava acesso ao segundo andar do Galpão quando avistou Clara vindo em sua direção, então se despediu da pianista e encontrou Clara no meio do caminho.
- Clarinha, já estava indo te procurar! – Marina pegou na mão de Clara e começou a subir novamente a escada que acabara de descer, deixando a assistente sem entender direito o que estava acontecendo.
- Pra onde você tá me levando, Marina? Tá tudo bem? – Clara dizia meio aflita.
- Tá tudo ótimo! Vem comigo. – Passando toda aquela segurança que só Marina conseguia fazer Clara sentir.
Elas subiram as escadas e andaram pelo corredor que rodeava o salão principal e entraram numa sala a direita perto de uma pilastra. A sala não era tão pequena, mas era incrivelmente escuro, o que fez Clara pensar duas vezes antes de passar pela porta. Marina já estava lá dentro procurando o interruptor e quando acendeu as luzes, viu o olhar desconfiado de Clara e não segurou o riso que soltou só de pensar no que ela estaria pensando.
- Adivinha quem foi chamada para dar aulas de fotografia aqui no Galpão? – Marina falava com uma despreocupação total.
- Mentira!
- Ouvi dizer que é uma tal de Marina Meirelles. – Fez uma cara de espanto e colocou a mão na boca como se tivesse deixado escapar um segredo.
- Para! Ah, que coisa boa, Marina! – Clara ia de braços abertos em direção a Marina que agora já estava à espera do seu abraço. – Nem acredito que vou ter você aqui, pertinho de mim! – Clara se calou na mesma hora quando percebeu que talvez tivesse falado demais e parou alguns passos de Marina.
Marina então caminhou a distancia que faltava entra elas e alinhou seu corpo de frente para o de Clara, a centímetros de se tocarem. Estava tudo tão silencioso que dava pra ouvir a respiração das duas ficando cada vez mais pesada. A fotografa foi além e se moveu mais um pouco pra frente e agora elas estavam praticamente coladas, as duas olhando para baixo sem dizer nada.
- Clara... – Marina disse, mas logo não teve condições de continuar o raciocínio quando sentiu os dedos de Clara subirem dos nós entre seus dedos, passando pelo seu antebraço e indo em direção ao seu ombro nu. Quase não havia contato direto a sua pele, mas era impossível não sentir o arrepio que isso lhe causava. Marina achou que não iria aguentar ficar ali parada por muito tempo, suas pernas, suas mãos, todo o seu corpo pedia pra que ela tomasse uma atitude.
Quando Clara se deu conta do que estava fazendo com a fotografa, ela congelou de imediato. Olhou de relance pros olhos de Marina, mas não conseguiu o fazer por muito tempo. Era perigoso demais, portanto decidiu se afastar pra quebrar o clima com a distancia. Sem deixar de olhar pra fotografa ela deu um passo para trás fazendo um sinal com a cabeça como quem pede desculpa e parecendo um tango argentino, Marina sem vacilar deu um passo pra frente colando seus corpos de novo, agora muito mais próximos. Jogou seu braço direito ao redor de Clara e agarrou sua cintura em um ato tão rápido que deixou as duas sem reação. Clara estava totalmente a mercê dos movimentos de Marina, era como se estivessem mesmo em algum tipo de dança e ela só acompanhava o movimento da sua parceira. Marina apertou seus corpos com o braço e estremeceu ao pensar que nunca tivera ficado tão perto assim daquela mulher que mudou sua vida, mas mesmo assim havia invadido o espaço de Clara, aquele mesmo espaço que prometeu pra si mesma que não invadiria; mas era impossível não fazer nada quando Clara a tocava daquele jeito, pois sabia exatamente as sensações que surtia na fotografa.
- O que você tava dizendo, Clarinha... sobre me ter aqui pertinho. – Marina falava cada palavra devagar e pausadamente, perigosamente perto do rosto de Clara e se divertia em como a deixava sem jeito.
- Eu... – Clara não conseguia se concentrar sentindo a respiração de Marina na sua face. – Quis dizer que vamos nos ver mais, né? E que vai ser bom pra você e pro estúdio – Clara tentava sem sucesso disfarçar – E pros alunos também, que vão poder aprender com você. – Agora já nem fazia mais sentido.
- E porque você vai me ter aqui pertinho, né? De você. – Marina agora tinha um tom desafiador em sua voz.
- Sim. – Clara confessou baixinho.
- É tão difícil assim dizer? – Marina passou a mão no rosto da assistente, fazendo carinho em sua bochecha.
- Dizer o que Marina? Que eu te quero aqui perto de mim? Que eu me arrumei pra você? – Agora Clara quem colocou as duas mãos no rosto de Marina e grudou suas testas – Que eu sinto saudades?
Todas essas perguntas retóricas pegaram Marina de surpresa. Definitivamente, uma surpresa boa.
- Que me ama. Que quer ficar comigo! – Agora Marina segurava o rosto de Clara pra que ela não pudesse desviar o olhar.
- Marina... – Clara tentou se afastar, mas a fotografa não deixou.
- Diz Clara! Por favor, diz alguma coisa pra me fazer ficar aqui. Pra eu saber que não to perdendo meu tempo... que eu sou mais do que sua amiga, sua segurança.
- Claro que você é mais do que uma amiga, Marina!
- Mais quanto, Clara? – Marina se afastou alguns metros e gesticulava com os braços – Você sabe que nunca pedi nada. Nunca te cobrei nada! Mas agora eu preciso de alguma coisa mais palpável que isso. Eu preciso saber que você tá nessa comigo. Porque eu já disse tudo o que eu sinto por você. Você lembra? – Sua voz baixou alguns tons e seu sorriso desapareceu.
- Sim, claro que lembro. – Abriu um sorriso bobo por lembrar-se daquela cena.
- Lembra também que nunca me respondeu, nem ao menos tocou no assunto novamente.
- Marina... – Clara esticou a mão fazendo menção de tocar seu braço, mas Marina se esquivou.
- Eu não ligo pras dificuldades, Clara. Todas as dificuldades me fazem ter mais certeza de que eu quero estar com você! Eu enfrentaria tudo pra te ter comigo, juro que não ligo... – Marina sentia sua garganta dando um nó – Porque eu te amo! Eu estou te amando desde o dia que eu disse isso pra você na sua sala de estar. Mas e você? – Se alinhou ao corpo de Clara novamente – Só hoje, Clarinha. Responde pra mim... e você?
Clara sentia tudo rodar. Ainda não estava preparada para aquela pergunta e nem queria ter que responde-la naquele momento. É claro que havia se questionado sobre tudo aquilo, todos os dias, desde que soube que Marina era mais do que uma amiga, que aquela saudade que sentia era mais do que saudade, que a vontade de toca-la quando ela se aproximava significava outra coisa. Obvio que Clara sabia de tudo aquilo, mas ela nunca disse em voz alta por medo de que no momento em que sintetizasse tudo aquilo em palavras a realidade seria pesada demais pra suportar. Era um pouco por falta de coragem de Clara, se jogar de cabeça naquele sentimento que crescia todos os dias sem sua permissão, mas era também por 10 anos de comodidade. Tudo era complicado demais.
- Marina, não faz assim... você não pode me pressionar. – Agora era Clara que andava de um lado pro outro, sem paciência.
- Não estou te pressionando! Eu to pedindo pra você me dizer o que você sente. Eu não to pedindo pra você largar seu marido, seu filho, sua casa! Só estou pedindo o mínimo, Clara. Alguma certeza nesse mar de incertezas que a gente se encontra hoje! E mesmo porque não poderia te pedir algo assim! – Marina terminou se mostrando um pouco magoada por Clara acreditar que ela poderia pedir algo do tipo.
- Não poderia mesmo! Eu já tinha uma vida antes de você chegar, Marina. As coisas não são tão simples assim no meu mundo! – Clara subira o tom de voz e cuspia as palavras.
- Seu mundo? – Marina repetiu essa ultima parte não escondendo a ironia e dor em sua voz. – E no meu mundo as coisas são simples, Clara? – Marina agora sentia seu olho embaçar, mas não se permitiu chorar. – No meu mundo eu me abri completamente pra você! Eu coloquei todos meus sentimentos a sua disposição – Marina colocou a mão no peito como se quisesse acalmar seu coração – Eu te dei tudo o que havia de melhor em mim e eu sofri, Clara! Eu sofri por todas as vezes que você fugiu de mim por medo. Sofri por te ver viver uma vida contada e rasa enquanto eu estava aqui, te oferecendo o mundo! Todas as vezes que eu pude te mostrar como a vida seria boa comigo e você simplesmente me ignorava, eu estava sofrendo, Clara! – Marina não percebeu as lagrimas caindo pelo canto do olho. Nunca tinha colocado em palavras essas verdades, e realmente pesavam as costas.
Clara se sentia em um filme em câmera lenta, passou tanto tempo preocupada em não machucar seu marido, seu filho, sua família que se esqueceu como aquilo tudo machucava Marina.
- Eu não sabia, Marina. Que doía tanto assim em você... eu não imaginava – Clara não sabia se podia se aproximar então só olhou pros olhos da fotografa pedindo permissão, mas não obteve resposta.
- Sabia, Clara. – Marina falava quase em um sussurro – Claro que lá no fundo você sabia. E eu juro que entendo quão difícil é pra você também, mas pare de achar que pra mim é fácil, porque não é. Eu amo uma mulher que não é minha. Isso é sofrimento pra uma vida toda.
Clara abaixou a cabeça e fechou os olhos por não ter coragem de olhar nos olhos de Marina. A sala ficou em um silencio incomodo e por um instante Clara pensou que Marina tivesse ido embora quando de repente sentiu o perfume da outra vindo de algum lugar perto demais. Quando Clara abriu seus olhos Marina estava a olhando como nunca olhara antes, com a bochecha lavada de lágrimas e a ponta do nariz levemente vermelha. Clara instintivamente agarrou sua cintura com medo de que ela fosse embora a qualquer momento, passou o polegar pela sua face branca e tentou falar alguma coisa, mas nada parecia bom o suficiente, e o que Marina queria ouvir sabia que não teria condições de dizer então resolveu não dizer nada.
- Mas eu sofreria... – Marina dizia de olhos fechados e com uma calma que Clara não sabia de onde tinha vindo – eu sofreria uma vida toda por você, Clara.
Clara puxou o queixo de Marina com o polegar e a olhou sem entender o que ela estava dizendo.
- Se você me falar que vale a pena. Se você puder me dizer que eu não estou sendo uma boba esperando por algo que nunca vai acontecer... eu fico, eu espero, eu permaneço, aqui... por você... pra você, Clara. – Marina abraçou Clara com toda a força que restava no seu corpo e serrou os olhos deixando várias lágrimas caírem sobre seu ombro. Respirou fundo. – Mas se você não me disser alguma coisa nos próximos segundos, eu juro por tudo que eu sinto por você, eu vou embora, Clara. – Respirou fundo – Eu vou embora e dessa vez eu não vou voltar... e eu não vou deixar você voltar também.
Clara havia se esquecido de respirar. Todas aquelas palavras saíam da boca de Marina e iam chegavam como socos no seu estomago. “Não faz isso”. Clara pensou quando fechou os olhos e sentiu o cabelo de Marina na ponta dos seus dedos. “Não faz isso comigo”. Lógico que Clara a amava! Lógico que Clara queria fugir com Marina pra longe onde poderia gritar que a amava em plenos pulmões, mas não era assim e talvez ela não fosse tão corajosa mesmo. O tempo parou quando Clara começou a pensar em tudo o que havia escutado ali naquela noite. A dor que fizera Marina sofrer e egoistamente escolhido ignorar. A lembrança de que era um ser completamente indeciso e sem coragem. A questão não era se Clara queria, pois era evidente que ela queria. A questão sempre foi se Clara um dia faria. Será que um dia Clara seria capaz de deixar pra trás a história de uma vida para se permitir começar outra nova, totalmente diferente. E quão justo era ter Marina esperando pra que ela fizesse algo? Não era.
Clara já tinha tomado sua decisão. Amava Marina, mas não podia mais deixar que ela parasse sua vida no aguardo de uma decisão que poderia nunca chegar, que ela poderia nunca ter coragem de tomar. Não conseguiria.
Os segundos se passaram e o silencio era ensurdecedor.
Marina vagarosamente se desvencilhou de Clara, deu vários passos para trás olhando para o chão e respirou fundo algumas vezes. Tudo doía.
- Mar... – Clara ia dizer, mas foi interrompida por Marina.
- Não diz mais nada.
- Mas eu quero xpl.... – Marina a interrompeu novamente.
- NÃO DIZ NADA! Eu juro que se você disser algo agora eu não vou nunca te perdoar. – Marina ainda olhava para o chão com os pulsos cerados. – Você teve sua chance de dizer algo pra fazer toda essa dor que eu estou sentindo agora passar e você não disse. – A dor era tanto que não tinha como não a sentir no final da frase. – Você não tem mais o direito de falar nada.
- Não precisa falar assim – Clara nunca ouvira Marina falando assim com ela. Esse tom de voz agressivo e rancoroso.
- Realmente não precisa, mas você quis assim. Nunca esqueça que foi você quem escolheu isso. – Marina já rumava em direção a porta quando Clara pulou em frente a maçaneta impedindo a saída de Marina.
- Por favor, não vai assim! – Clara disse tentando agarrar os braços de Marina.
Mas Marina já não aguentava mais. Era dor demais.
- CHEGA! Vai viver sua vidinha de dona de casa, Clara! Vai cuidar do seu marido que você DIZ amar tanto – Marina gritava cada palavra – Então vai! Vai ama-lo! Eu to cansada de ser esse encosto que você usa quando cansa de brincar de casinha com a sua família “perfeita” – Enfatizou essa palavra – Eu não sou sua aventura, mas você vai ser uma pra mim. Pra mim já deu! Todos me diziam que você nunca iria se decidir e eu nunca acreditei... Bom eu acabei de tomar essa decisão por você, já que parece que você não da conta de fazer isso sozinha! – Marina se aproximava de Clara com o dedo indicador apontado para a janela – Mas eu quero que você se lembre de mim toda vez que olhar por uma janela e ver o mundo lá fora. Por que eu vou estar nesse mundo, e eu juro que vou te esquecer e viver minha vida, mas você vai estar aqui presa em uma história que não existe mais. Presa em uma vida vazia, sem amor, sustentada por obrigações e deveres! – Marina abaixou o tom de voz drasticamente e olhou no fundo dos olhos de Clara – Eu vou sair por essa porta de cabeça erguida por saber que fiz tudo ao meu alcance por esse amor, Clara... Me dói saber que você não poderá fazer o mesmo.
Marina encarou a porta e esperou Clara mover seu corpo liberando o caminho. Puxou o ar com dificuldade e limpou o rosto, como prometido ergueu a cabeça e saiu fechando a porta atrás de si. Não olhou para trás, não vacilou ao descer as escadas. Era hora de seguir em frente.
Notas finais
E pra quem gosta de Fics lacradoras, por favor, dar uma olhada na Fic "Velvet touch" que é a melhor fic de Clarina! ;*
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