Sunrise

1 Capítulo Único


— Sunrise

Assumir a liderança de uma superpotência como a Terra de Áries era uma ideia atraente, mas Sora achou a realidade uma perfeita decepção. A coisa toda era muito mais burocracia e longas horas de conversas enfadonhas do que... bem, agora que pensou melhor, nem a ideia era divertida. A parte mais irada era sentir o poder que tinha nas mãos, não que ele fizesse o tipo obcecado por poder, mas qualquer um estava sujeito a gostar daquela sensação.

Havia sido difícil demais convencer todo o conselho de que o homem mais inteligente que a Terra de Áries já teve a sua frente realmente o tinha indicado para sucedê-lo, o que justificava os lembretes constantes de Yue de que dali em diante devia ser mais cuidadoso com as palavras e as atitudes que tomava. Quem dera Sora a tivesse ouvido, porque por causa das maneiras desleixadas com as quais se acostumou a lidar com as coisas, ele estava prestes a se meter em problemas.

O Raikyuu estava no meio de uma reunião muito importante, e achando estranho o seu silêncio, o orador da vez, um sujeito velho, alto e carrancudo, parou de falar para ver o que tinha de errado com ele. Sora estava dormindo há um bom tempo. Sentado naquela cadeira virada, o que esperava o ancião parecia mais um jovem egocêntrico e inconsequente do que um homem digno de ter nas mãos o destino de bilhões de vidas.

A maioria dos presentes em volta daquela grande mesa de ferro prateada se sentiu desrespeitada, os mais jovens só acharam graça, quase não conseguiram segurar as risadas. Tinham que concordar: todo aquele papo era de dar sono, sim. Os mais velhos já não gostaram de saber que ele entraria na sala com o peito nu e as tatuagens a amostra, com mais aquela, então, todos os seus preconceitos sobre ele pareceram se transformar em conceitos bem fundamentados.

— Senhor Raikyuu! Por favor! — Reclamou o homem, acordando Sora de susto.

— Sim... ? — Sora, com estilo, girou a cadeira e respondeu, tentando fingir que não havia acabado de acordar dos minutos de sono mais tranquilos que já teve. Um asiático cheio de mechas loiras espalhadas pelos cabelos negros, olhos castanhos claros, tênis brancos esportivos e calças escuras folgadas, ele era o inverso do que qualquer um esperaria para líder mundial.

— Recomponha-se! — Enquanto brigava com ele, constrangido, o parlamentar de rosto enrugado, terno e gravata que estava com a palavra, vasculhava na memória uma só vez em que um parlamentar deu uma bronca em alguém com o cargo dele. Não, as paredes alaranjadas que cerravam a sala onde ocorria aquela reunião e o piso verde nunca haviam servido de cenário para semelhante acontecimento.

— Desculpa. — Foi o que Sora respondeu, por dentro decepcionado consigo mesmo por sua atuação não ter dado certo. Levantou da cadeira marrom como quem tinha reumatismo, se espreguiçou e avisou: — Vou ao banheiro lavar o rosto e já volto. Cinco minutos de pausa, gente.

Idiota! — Hina, sua guarda costas pessoal, estava sentindo por ele a vergonha da qual ele havia aberto mãos há anos. Ruiva natural, magra e pequena, ela estava acostumada a ser subestimada pela aparência e até usava isso a seu favor em combates.

— Francamente — O orador, estressado, murmurou e se sentou. Por essas e outras odiava lidar com jovens, a exceção foi Arashi. — No que será que o garoto da essência de gelo estava pensando quando indicou essa criança?

— Sora e Arashi lutaram muitas batalhas juntos, ele conhecia os limites e as capacidades do Sora tão bem quanto o próprio Sora. — Um rapaz também muito novo tentou fazer o advogado do diabo, muito embora perdesse a empolgação quando lembrava de quem estava defendendo. — No entanto... ele deveria saber que habilidade de combate não é o pré-requisito principal pra esse cargo.

— Ele sabia. — Hina não tinha a intenção de limpar a barra do Sora, mas ouvi-los falar tão mal dele sem que ele estivesse ali pra se defender despertou essa vontade nela. — Do contrário, teria deixado o cargo pro Haru, cunhado dele. Se vocês não acreditam no Sora, acreditem pelo menos no Arashi...

Naomi estava com a orelha grudada na porta ouvindo tudo. Discreta, quieta e quase sempre, como agora, trajando vestido preto, nunca fez o tipo fofoqueira, mas depois de tudo o que ocorreu para que ele estivesse ali entre aquelas pessoas, ela estar tão curiosa era completamente natural. A sua raiva também não era irracional. Porém, compreendia o lado deles. Sora não estava facilitando pra ninguém.

Falando no diabo, ele estava voltando pra sala para dar prosseguimento a reunião quando chegou na entrada e a surpreendeu com a cara grudada na porta. Pensou em pedir licença, mas hesitou quando percebeu o quanto aquilo a entretinha e decidiu juntar-se a ela.

— De quem eles estão falando? — Disse, em tom de sussurro.

O susto a fez pular para trás.

— Garoto! — O repreendeu, com a mão no peito e as costas na parede. — Estão falando de você! Dormir no meio da reunião? Sério?!

— Foi mal, é que não preguei os olhos essa noite, não fiz por mal. — Ele se justificou.

— Eu sei que não, mas tem que se manter atento, Raikyuu! Arashi tinha fé em você, sua noiva tem e eu também tenho, por isso você precisa ser o melhor líder de toda a história dessa Terra! Volte para lá e prove para aquela cambada de velhotes chatos que o nosso amigo estava certo de confiar esse cargo a você!

— Vocês... — Ele não era o tipo de pessoa que assumia os erros com facilidade, mas ficou sem argumentos. Ela estava certa, falhar ali seria o mesmo que jogar no lixo a confiança de Arashi, então não teve outra saída além de concordar com a cabeça e voltar para lá.

Deu dois passos confiantes na direção das portas douradas de madeira e as empurrou como quem havia acabado de sofrer uma epifania, de receber uma revelação divina. Naomi, sentindo firmeza, cerrou o punho e deixou o riso escapar. Todo mundo estava se perguntando por que ele, não Haru ou mesmo ela, herdou o cargo, todos, sentia a francesa, estavam para descobrir por quê.

Em casa, grávida de oito meses, Yue não parava de se perguntar como Sora estaria se saindo no primeiro dia. Mas o que realmente a afligia não era isso, era, sim, o sofrimento de Kin e a culpa que esmagava o coração de seu noivo. Ele desconversava e às vezes até negava, mas ela sabia que ele ainda se castigava pelo que aconteceu com Arashi há alguns anos. A angustiante vez em que Kin deu um tapa na cara dele e gritou que ele foi o responsável pela tragédia ainda fazia seu peito arder.

Logo após dar luz aos filhos que seu marido não teve a chance nem de saber que ela estava esperando, Kin se trancou dentro de casa e não saiu para mais nada. Ela não falava com ninguém desde que seus gêmeos nasceram, não atendia ligações, só sabiam que ela estava viva porque Naomi ia lá diariamente ajudá-la com as crianças e, assim mesmo, a loira não dizia nada, nem sequer olhava a francesa nos olhos. Com Haru, a pessoa mais próxima dela, longe da galáxia, não restou ninguém capaz de consolá-la, de fazê-la se abrir.

Sentir os chutes da criança que acolhia no ventre era a única coisa que, de uns tempos para cá, levava alegria ao coração de Yue. Todos os dias, ela punha uma camisola larga, se sentava na cadeira de balanço ao lado da janela e, enquanto apreciava a paisagem, esperava sua menina chutar. Sora, a seu pedido, semana passada pintou de branco as paredes da sala, poliu o piso e comprou aquela cadeira para ela. Ela adorava saber que ele não conseguia lhe dizer "não", até seus lisos e curtos cabelos azuis claros ele escovava diariamente.

Desviou os olhos violeta para o relógio na parede do outro lado da sala. Eram dezoito horas. Sora provavelmente já estava voltando para casa. Assustando-a, alguém abriu a porta, no entanto, não era Sora, e sim um menino que ele vinha treinando pessoalmente. O garoto, em nítido desespero, entrou, imediatamente bateu a porta bege de madeira da sala de estar dela e usou o corpo para travá-la.

— O que está acontecendo, Kyo?! — Yue levantou-se da cadeira e, irritada, o questionou.

— Hiroko está vindo atrás de mim! — Ele se explicou. Branco, loiro, tímido, com óculos e cabelos lisos divididos, Kyo sofria bullyng no colégio. Suas roupas, uma bermuda xadrez verde pouco acima dos joelhos, meias próximas da canela e camisa larga demais para o seu peso, davam uma prévia de sua personalidade retraída.

Yue caminhou até o tapete branco circular da sala.

— Ué, pensei que você não tinha mais medo dele...! — Confusa, cruzou os braços e o provocou.

— Eu não tenho. — O pirralho se defendeu. — Eu o e-enfrentei, mas ele n-não gostou, ficou furioso quando viu que tínhamos o m-mesmo nível de força e chamou os amigos pra me c-cercar!

Alguém esmurrou a porta. Pela violência, foi Hiroko. O pivete planejava derrubá-la e entrar quando Sora, no meio da rua, pigarreou e chamou, para si, a atenção dos garotos que foram até sua casa atrás de Kyo.

— Vocês têm três segundos para vazar da minha porta... — Ele os avisou. Antes de poder completar a ameaça, porém, todos os moleques já haviam corrido. Depois disso, enraivecido, o Raikyuu atravessou a rua, a calçada, abriu a porta de casa e Kyo, apoiado nela, caiu sobre seus pés.

Aliviado, o garoto levantou correndo e o abraçou.

— Chegou bem na hora! Eles iam-

— Iam derrubar a porta? Eu sei. — Sora o interrompeu. Kyo, que nunca o ouviu falar tão sério, recuou. — O que eu não entendo é por que você veio pra cá! Eu achei que tivesse te ensinado alguma coisa nesse tempo em que treinamos juntos, Kyo.

Kyo, entristecido e desorientado, abaixou a cabeça.

— Você e-ensinou! É que-

— Eu ensinei?! — Mais zangado ainda, se é que era possível, Sora, o forçando a ir mais para trás, andou dois passos na direção dele e continuou: — Quando foi que eu te disse para invadir a minha casa, onde a minha namorada grávida está descansando, quando um bando de pivetes te perseguisse?! Eu perdi meu tempo com você, Kyo?!

Muito mal, o garoto nem conseguia olhá-lo.

— Sinto muito. — Conseguiu dizer, apenas.

— Eu também sinto. Vá embora daqui, Kyo. — Ordenou. — Nunca mais ponha os pés na minha casa.

O menino concordou. Cabisbaixo, passou por Sora, saiu pela porta e, sem nada dizer, a bateu e se foi. Sora, no fundo, não estava tão bravo com ele quanto consigo mesmo. Achava que o havia treinado bem, que o impedira de seguir pelo mesmo caminho que ele próprio seguiu, mas, como disse, só perdeu tempo. Jamais seria um bom líder para a Terra, muito menos um bom pai. Falhou como guerreiro, consigo mesmo, com Arashi, com Yue, com Naomi, com Kin, com Haru e falharia com sua filha. Estava chateado, queria ir para o quarto, mas Yue precisava de sua companhia, então a abraçou e ficou.

A milhares de milhas dali, fora do conhecimento de todos, um homem absorvia toda a força vital de um outro usando uma só mão. Conforme sugava a vida que animava sua vítima, seus cabelos castanhos escuros espetados ganhavam mais cor e seu peitoral e seus braços, expostos à luz da lua, tornavam-se maiores, mais firmes. Fechados pelo prazer proporcionado por tão funesta atividade, seus olhos e seus lábios tremiam convulsivamente. Seu corpo pardo, ao pé daquela cachoeira, não tinha nem terminado com o que estava em suas mãos e já clamava por mais.

Haviam outros cadáveres próximos da beira do rio. O sujeito que segurava pela testa não foi sua primeira, única e nem será sua última "fonte", como gostava de chamar aqueles de quem retirava energia até ficarem deploravelmente magros. Ao terminar com este, deixou que ele caísse de cara nas pedras e, recuperado do excesso da deliciosa sensação da qual se carregou, estalou os ombros. Hora de ir atrás do próximo banquete, do próximo e de prosseguir se alimentando até ficar poderoso o bastante para lutar contra Sora Raikyuu. Se através daqueles peixes pequenos já adquiria tanta força, imagine depois de beber do líder da Terra de Áries.

Todos os dias, às vinte horas, Kin colocava seus filhos para dormir e ia ela mesma para o quarto se deitar. Se lhe perguntassem, ela não saberia dizer o porquê de tal rotina. Algo em seu coração simplesmente lhe falava que tinha que ser assim. Então, com a camisa branca de mangas compridas e listras amarelas e a calça comprida vermelha que usou o dia todo, ela fez a mesma coisa hoje. Abaixou os tristonhos olhos castanhos, soltou a longa cabeleira loira encaracolada ao redor do rosto cândido arredondado, subiu as escadas com calma e se dirigiu ao quarto. Na frente da cama, sacudiu os pés, se livrou dos chinelos, ergueu o lençol rosado e se deitou em baixo dele.

Como que por hábito, esperou o doce perfume de seu marido agraciar seu olfato. Lembrou, então, que já não o tinha mais. Olhou para o lado dele da cama e esticou o braço. As lágrimas, também como que por hábito, desceram em abundância. Mais vazia do que a cama, só ela. Seus filhos eram a única coisa que a mantinha viva, que a impelia a se alimentar, se hidratar. Tudo o que fazia era por eles, foram tudo o que lhe sobrou dele. Arashi nunca partiria e a deixaria desamparada.

— Mamãe...? — Acompanhada de um ursinho branco de pelúcia, Saori entrou em seu quarto sem que ela ouvisse. Dos dois, era a mais parecida com Arashi, tinha os olhos azuis dele, a cor acastanhada da pele e o preto dos cabelos. De fato, por causa dessa semelhança com Arashi, Kin era mais carinhosa com ela do que com Iori, Naomi pensou em alertá-la sobre isso várias vezes mas, para não irritá-la, se calou. Só o que Saori herdou de Kin foi o cacheado da juba.

Kin enxugou os olhos com as mãos, fabricou um sorriso gigante e se voltou para ela.

— Oi, meu amor! — A recebeu de braços abertos. — Pensei que tava dormindo, o que houve? Teve pesadelo? — Em resposta à sua pergunta, a pequena, de cara fechada, balançou a cabeça em sinal afirmativo. — Vem cá, deita aqui comigo, vem! Sua mãe é uma das retalhadoras mais poderosas desse mundo e não vai deixar que nada te aconteça!

Seu plano era entreter a menininha até ela dormir, contudo, acabou apagando antes dela. A garota deu um beijo em sua testa, aninhou o rostinho em seu peito e caiu no sono em segundos. A tia das crianças, irmã de Arashi, chegou no meio da noite, depois do que aconteceu com seu irmão, Shiori se mudou para a rua de Kin e pediu a ela uma cópia da chave da casa, queria estar lá para os sobrinhos e para a loira sempre que eles precisassem. Kin, que queria sair de casa o menos possível, não viu por que impedi-la de ajudar.

Sora e Yue puseram a cadeira de balanço na varanda para, enquanto conversavam, apreciar as estrelas. Ela estava com nuca apoiada no peito dele e ele, com a mão na barriga dela. Queria sentir sua filha chutar pelo menos uma vez, para poder dizer que naquele dia pelo menos uma coisa boa aconteceu. Aparentemente, quando ele estava fora, ela parecia uma lutadora de taekwondo.

— Eu acho que até ela deve estar chateada comigo. — Foi a conclusão a qual ele chegou, desistindo de sentir uma pancada dela. — Hoje é o dia de odiar o Sora! Quem não me odeia hoje?

— Eu. — Yue se manifestou. Ele a olhou, ela disse: — Talvez um pouco. Brincadeira. Pode ser que eu esteja um pouco sensível por causa da gravidez, mas acho que você pegou um pouco pesado com o Kyo.

Sora suspirou com pesar.

— Não vamos falar sobre isso, vamos falar sobre... — Começou a tentar pensar num assunto, mas nada lhe ocorreu. — Sei lá. Qualquer coisa, menos sobre isso.

Mas Yue não se deixaria vencer tão fácil.

— Será que foi por que você se vê nele? — Ela acertou em cheio. Na sua opinião, Sora ainda estava com raiva de si mesmo por ter cometido o erro que custou a vida de Arashi, projetou-se em Kyo e descontou sua frustração nele. — Você cometeu um erro, todos estamos sujeitos a isso. Ninguém te culpa mais, Raikyuu. Só você.

Ah, Sora queria tanto que acreditar nisso. Simplificaria muito as coisas para a consciência dele. Não acabaria com sua dor, ele nem queria que acabasse, se achava merecedor daquele sofrimento, mas tornaria mais fácil olhar Kin nos olhos de novo e pedir perdão a ela. Por causa da falha dele, o amor da vida dela morreu, os filhos dela não tinham um pai.

Arashi, amado como um irmão por Yue, Naomi, Haru e por ele mesmo, o melhor líder que a Terra de Áries poderia ter, um pai maravilhoso que duas crianças jamais terão, morreu e a culpa era dele. Às vezes, revivia em sonhos o momento de seu erro. Em pesadelos, melhor dizendo. Acordava em pânico, irritava-se consigo por ter despertado Yue e ia para a cozinha beber água. Às vezes, desejava ter morrido no lugar dele.

A madrugada do dia seguinte foi a mais fria do ano, até a lua, minúscula no céu, parecia estar se escondendo daquele clima gélido. Uma escuridão quase palpável dominava as ruas do Reino de Órion. Sora e Yue acabaram dormindo na varanda, Sora não tinha ideia, mas a tranquilidade de seu sono contrastava com a agitação crescente que tomava o reino. Vários soldados estavam sendo mortos por um só guerreiro.

Hina, Naomi, Keitaro e outros dez retalhadores eram a última linha de defesa dos parlamentares contra aquele poderoso oponente. O enorme palácio branco onde ficava a sala da reunião do dia anterior estava cercado de cadáveres. Até então, ninguém convocou Sora porque todos acreditavam que podiam dar conta da situação sem ele, mas o cenário estava ficando crítico. Após avançar sobre o inimigo e barrar a entrada dele no palácio mais uma vez, Naomi voltou para perto de seus outros doze aliados e ordenou:

— Alguém liga pro Raikyuu!

— Isso, liguem pro Raikyuuu! Cadê esse covarde?! — Concordou o vilão. — Vai ser um prazer reduzi-lo a um saco de ossos na sua frente!

Sora já estava até babando de sono quando o comunicador tocou, mas acordou no mesmo instante. Estava a caminho. Cientes disso, os treze só precisavam segurar o adversário até ele chegar — uma tarefa nada fácil, mas em prol da qual todos eles estavam dispostos a sacrificar suas vidas. No intervalo de tempo entre a chamada e a chegada dele, Naomi telefonou até para Kin, mas a loira, como o esperado, ignorou. Era com eles mesmo.

Keitaro, atacando de frente, levou um chute e foi arremessado longe. Hina, pela esquerda, levou um soco e Naomi, pela direita, uma pernada, mas se manteve de pé. O vilão identificou nela o mais poderoso dos treze, ansiou ardentemente por absorver o seu poder, investiu sobre ela e teria conseguido o que queria, se Sora não tivesse se posto entre eles e o afastado dela com um chute.

A primeira coisa que Sora fez foi analisar a arena. Ela não era asfaltada, e se não fossem alguns tufos de mato, seria pura terra. Estava de bom tamanho.

— Leve a Hina, o Keitaro e quem mais estiver vivo para longe daqui e diga pra ninguém interferir. — Foi o pedido dele. Naomi concordou em silêncio e obedeceu.

— Olha, olha, muito bem! Que porrada! — Empolgado, o desgraçado se recompôs. — Eu vou ficar tão poderoso quando isso acabar!

Vinte metros de distância foram, pelos dois, percorridos num piscar de olhos. Sora se abaixou, esquivou-se do cruzado dele e o acertou no queixo com um gancho de direita. Não satisfeito, acertou-o novamente com um cruzado de esquerda, outro de direita, desviou um direto do infeliz com a mão e lhe deu uma cotovelada no estômago. Persistente, seu inimigo girou e desferiu um murro, Sora afastou o rosto, deu um direto na cara dele, esquivou-se de dois socos, se agachou e o chutou no queixo, lançando-o para cima.

"Cuidado", Naomi o advertiu, "ele pode absorver energia". Na opinião de Sora, porém, aquela era uma luta ganha. Na dele e na de qualquer observador. O miserável, muito ferido, levantou, atacou Sora com uma série de pernadas, não acertou nenhuma, Sora segurou-lhe a perna, puxou-o para perto e lhe deu uma cabeçada tão forte que o afundou no solo dentro de uma cratera. A medida que o tocava, por mais breve que o fizesse, ia perdendo forças e fôlego. Ele também absorve pelos poros da pele?

Confirmando sua teoria, o oponente voltou a ficar de pé. Escudar-se do ataque dele nunca foi tão difícil. Sora conteve o punho dele, libertou uma das mãos e a apontou para a cara dele, disparando nela uma rajada de poder sonoro tão violenta que, se não o matou, o deixou perto disso. O infeliz, embora muito machucado e ensanguentado, se reergueu. Sora tentou atacá-lo a distância mais uma vez, mas não tinha energias. O outro cara, por sua vez, estava tão ferido que não era mais capaz de absorver. Os dois estavam em igualdade de condições.

A troca de socos tornou-se impassível, os impactos dos golpes deles eram sentidos e escutados no planeta inteiro. O palácio começava a ruir. Protegidos por Sora, os parlamentares que ficaram lá dentro, fugiram e se refugiaram o mais longe que podiam dali, exortando todos nas casas das ruas pelas quais corriam, a fazerem o mesmo. Em todo o mundo não havia ninguém seguro. Yue acordou com os tremores e com os sons dos choques dos golpes, ela sabia que Sora estava lá. O risco de desabamento de estruturas numa batalha como aquelas era iminente em toda a parte, o recomendado, durante elas, era que todos deixassem suas casas.

Os tremores pararam, Yue, fora de casa com um celular na mão, não sabia se isso era bom ou ruim. Ela ligou para o noivo querendo verificar se ele estava bem, mas não foi atendida. Preocupada, esfregou a face com as mãos, foi até o meio da rua, olhou a esquina e voltou. Uma aflição muito grande a possuiu. Resolveu, então, ligar para Naomi, levou alguns segundos mas a francesa atendeu.

— Você está com ele? — Foi a primeira coisa que, com a voz distorcida pelo choro preso na garganta, perguntou.

— "Não" — Disse a morena. — "Ele me mandou ficar longe, não vai aceitar ajuda."

— Liga pra Kin! — Sugeriu. — Ele não vai recusar a ajuda dela!

— "Eu pensei nisso, mas ela não tá atendendo."

— Deixa comigo!

Yue ligou. Quando recebeu a chamada, Kin estava fora de casa pela primeira vez em anos, fez do céu e das estrelas o teto de seus filhos e da tia deles para que a residência, caso desabasse, não os ferisse. O desfecho da batalha de Sora, enquanto isso, não deixou de ser imprevisível. Um golpeou a cara do outro com um soco, os dois, certos de que aquela troca de socos não levaria a lugar algum, se afastaram e se puseram a tentar elaborar uma tática para vencer. O vilão sentiu parte de sua energia retornar. Olhou para o chão, se deu conta de que havia uma fonte de vitalidade caída bem aos seus pés e, sorridente, sugou dela e se fortaleceu, ao que Sora se atentou com consternação.

Antes do Raikyuu poder pensar no que fazer, seu oponente o atacou, agarrou sua garganta, o imobilizou e começou a drenar suas forças. A princípio, Sora resistiu bravamente, chutou, socou, mas lentamente foi rebaixado à quase que total impotência. Fez-se um silêncio estarrecedor. O vilão preparou a mão livre para matar o herói, mas, quando ia fazê-lo, uma criança se agarrou ao braço que ele alçou para usar. Era Kyo. As pálpebras de Sora, pesadas de exaustão, não o impediram de reconhecê-lo.

Um sorriso involuntário estendeu os lábios do Raikyuu. Ele estava orgulhoso. Estava preocupado com Kyo, é claro, mas mais orgulhoso.

— Ah, olha essa mosquinha! Que insetinho corajoso! — O inimigo, por sua vez, não ficou muito feliz de vê-lo ali. Ele sacudia o braço, o mexia para baixo e para cima tentando se livrar do moleque, bateu em Sora usando ele e nada. No começo achou engraçado, agora aquilo ficou irritante e o estava tirando do sério. — Não quer soltar? Muito bem! Eu o mato usando o outro braço!

Soltou Sora para fazer o que disse que faria, mas, gastando a última gota de poder que circulava por seu corpo, o líder da Terra de Áries provou que era mais forte do que ele imaginava, lhe apontou a mão e o atirou para longe com uma potente rajada de energia sonora. Em seguida, caiu. Teria ido de cara no chão se Kyo não o tivesse socorrido e o mantido de pé. Sora buscava forças para mandá-lo fugir, correr pro mais longe que pudesse, entretanto, não as encontrava. Estava fraco demais até para falar, podia jurar que estava tendo alucinações.

O antagonista estava de pé. Mais animado do que nunca, ele investiu sobre os dois com uma fúria titânica, mas Sora empurrou Kyo da frente e recebeu, sozinho, todo o avassalador ataque, tão devastador que, vindo de cima para baixo, o afundou na terra e fez a arena inteira desmoronar junto com ele. Sora nunca fez o tipo que reclama de dor, mas daquela vez nem ele foi capaz de segurar. Seu grito se alastrou por todo o reino junto com a poeira da destruição. Jurando poder ouvi-lo, Yue, em prantos, virou o rosto para baixo e tapou as orelhas com as mãos.

— SORA! — Ela ergueu o olhar e bramiu, em desespero.

Acima da poeira e dos destroços, o inimigo, triunfante, dava risadas. Ele se cansou de jogar com os arianos. Estava entediado. Com Sora morto, não existia ninguém mais capaz de vencê-lo. Era hora de destruir a Terra de Áries e partir para a próxima. Assim decidido, subiu mais alguns metros, ergueu a mão direita e construiu na palma dela uma esfera brilhante como um arco-íris concentrado. Ia dispará-la contra o planeta, mas uma espada dourada trespassou seu peito.

Olhou para trás, reconheceu sua agressora na mesma hora e deixou uma risada amarga escapar. A viúva, assim se referiu à Kin, em pensamentos. Kin enterrou a lâmina mais fundo em seu peito e o escutou gemer de dor. Logo depois, vasculhou a arena com os olhos em busca de Sora. Estava tudo destruído, não o via em parte alguma. Esperava não ter chegado tarde demais. O homem que apunhalou, a quem acreditava ter assassinado, começou a se impulsionar para frente.

Assim que removeu o corpo da lâmina dela, o pulha girou, ergueu a perna e a chutou, Kin usou os braços para se defender — eles não a ajudaram muito, mas amenizaram os danos. Há muito tempo não entrava numa luta ou se exercitava. Estava fora de forma. No entanto, não havia saída. Tudo dependia dela. Ao menos até Sora aparecer. Kin tinha certeza absoluta de que ele não estava morto.

Ela tinha razão. Embora muito mal, inconsciente, o Raikyuu estava vivo e Kyo, nas profundezas da terra com ele, o jogou nas costas e se pôs a escalar. Vamos, o garoto, também muito machucado, ciente de que não venceriam ainda que voltassem à superfície, não desistia. Dava o máximo de si, porque foi isso que aprendeu com Sora. Suas mãos estavam dilaceradas, o sangue delas pingava em seu rosto. Suas unhas foram estilhaçadas pelas pedras do caminho. Havia poeira em seus olhos e em seus pulmões, até respirar estava difícil.

As palavras de Arashi chuviscavam na memória de Sora. "Uma coisa que aprendi com aqueles que me antecederam nesse cargo é que o poder não é tudo", disse ele, "o que realmente não pode faltar no líder de uma Terra Gêmea é o amor ao seu mundo, a vontade de continuar lutando por ele mesmo que só possa mexer um dedo. Eu vejo isso em você muito mais do que nos outros, Sora. É por isso que você vai me suceder". Sobre os ombros de Kyo, os dedos de Sora tiritaram. Saber que ele estava vivo encheu o peito do garoto de coragem. Os olhos dele, ao mesmo tempo que os do Raikyuu, miraram determinados o topo daquele abismo.

Lá em cima, Kin estava em sérios apuros. Se ainda estava em combate era graças às recomendações de Naomi. Não tocou no oponente, não deixou que ele a tocasse por mais de meio segundo, usou a espada para não ter de exercer contato direto com ele. Mesmo assim, a vantagem era toda de seu adversário. Isso, todavia, não lhe servia de pretexto para desistir. O amor de sua vida morreu por aquele mundo, desistir dele estava fora de cogitação. Faria igual a ele e iria até o fim.

— Isso é tudo o que a grande Kin Suzume pode fazer?! — Seu oponente, das alturas, a menosprezava. — Eu escutei lendas sobre você! Vamos! — Implorava para ver em ação aquela de quem tanto ouviu falar. Ela lhe apontou a mão cheia de energia dourada, ele riu e disse: — Isso aí! Eu vou deixar você disparar, vai lá!

Kin mirou bem na cabeça dele e atirou. Seu alvo planejava se esquivar, mas uma dor aguda afligiu seu coração, fazendo-o sentir como se uma mão o tivesse agarrado e espremido com força entre os dedos. Imóvel, indefeso na presença da luz, teve a cara atingida em cheio e completamente explodida. Seu corpo despencou do céu, sem vida, e o som do impacto dele com o solo ecoou nas redondezas, anunciando o fim da luta. Kin caiu sentada e respirou tranquila. Olhou para o lado, na direção do abismo, e viu Sora deitado na terra. Nunca o viu tão destruído. Chamou uma ambulância, levantou e correu até ele.

O sol nasceu. Sora, deitado de barriga para cima, abriu os olhos quando sentiu uma sombra acobertá-lo e não acreditou no que eles lhe mostraram. Era mesmo Kin ou ele estava alucinando? Engoliu seco.

— Ainda fazemos um bom time... — Disse, confessando-se o responsável pelo "infarto" do desgraçado. — Eu queria poder viver... poder viver para ouvi-los nos chamar de heróis de novo...!!

— Não diga isso! — Kin pegou em sua mão e o exortou. Se recusava a acreditar que ele estava morrendo. — Você não vai morrer! Disse pra Naomi que queria me pedir perdão por ter cometido o erro que matou o pai dos meus filhos? Eu só te perdoo se você sobreviver! E tem mais, ele confiou a você o cargo de líder da Terra de Áries, honre isso! Sua noiva está esperando uma menina, sua filha! Lute por elas!

Ele assentiu com a cabeça, respirou fundo e cerrou os olhos. Kin tinha razão. Morrer ali seria o mesmo que deixar mais uma criança sem pai. Infelizmente, isso não estava sob seu poder. Queria, mais do que nunca, sobreviver e voltar para casa, mas não dependia dele. O último som que captou antes de perder de vez a consciência foi o da sirene da ambulância, a última imagem que sua mente projetou, a dele na varanda com Yue.

Semanas depois, o Reino de Órion festejava algo. Era o dia da reinauguração do palácio destruído na batalha e, para cortar a faixa, foram chamados os heróis daquele embate. Sora, ainda de cadeira de rodas, era o único com a tesoura na mão, porque, a pedido de Kin, apenas ele levou os créditos pela vitória sobre aquele adversário, e ela só concordou em comparecer na condição de espectadora.

Praticamente todos os habitantes do Reino de Órion estavam lá para presenciar a reabertura do palácio. Fogos estouravam, o sol resplandecia, as nuvens se ausentaram do céu. Kin, o adorável casal de gêmeos dela, a tia das crianças, Yue, Naomi, Kyo, Hina e Keitaro estavam na linha de frente da plateia.

— Então... — De terno e gravata pela primeira vez na vida, Sora falou ao microfone. — Me pediram pra fazer um discurso, mas quando minha noiva me pediu para escrever um, eu jurei que conseguiria improvisar. Eu menti, porque não posso. Eu poderia perder vários minutos falando da honra que é poder fazer isso aqui, poderia falar sobre o peso da responsabilidade de ser o representante máximo da Terra de Áries, mas não quero entediar vocês. A verdade é que eu só consigo pensar naqueles sem os quais eu não estaria aqui, hoje. Em quem me ajudou a vencer. Então Kin, Kyo, Naomi, Hina e Keitaro, podem vir pra cá! Eu não aceito "não" como resposta! Vocês aceitam "não" como resposta?!

O público, em coro, concordou com ele. Hina, Keitaro, Naomi e Kyo foram sem hesitar, Kin relutou, mas, convencida por Shiori e Yue, acabou indo. O som dos aplausos foi ensurdecedor. Os seis posaram para a foto, cortaram a faixa e acenaram para as pessoas durante os aplausos. Todos sabiam que aquele não era o fim das lutas, que um dia teriam de passar por mais maus bocados semelhantes àqueles, mas estava tudo bem. Que viessem.

Fim.

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