Sunflower
1 Capítulo I
Notas iniciais
(ps. a correção foi feita por mim mesma, já com algum tanto de sono no corpo, então se encontrar erros, peço que por favor avise, ou apenas releve).
Maya estava tendo um argumento acalorado com sua eu interior, debatendo os pontos favoráveis a ela cortar o cabelo de novo, mais curto dessa vez, quando Sr. Jenkins distribuiu as notas do teste de Teoria Econômica pela sala.
Ela estava um pouco auto-centrada demais, dentro de seu próprio mundo, para perceber o olhar de desespero que muitos de seus colegas estavam lançando uns aos outros. Quando recebeu sua nota, ela olhou o 9,3 no papel com sua caligrafia, guardando sem muito mais reação a prova em sua mochila. Em sua mente, ela argumentava que sim, sua vida realmente melhoraria se ela cortasse, tipo, só mais uns centimetrozinhos do próprio cabelo.
Quando a aula acabou, ela ainda ouvia sua outra eu pontuar em sua cabeça todos os motivos do porquê ela não precisava de um corte novo (dinheiro!), nem devia arriscar-se a fazê-lo (alguém ainda lembrava do terror de franja no ensino médio?), e que sua vida seria a mesma se seu cabelo continuasse com os centímetros a mais.
“Srta. Jacinto, pode vir aqui um instante?” Sr. Jenkins chamou. Um garoto estava saindo da mesa dele, o olhar no chão, enquanto ela fazia seu caminho até lá.
Maya deu seu melhor sorriso, e perguntou. “Alguma coisa, Professor?”
Maya gostava de Sr. Jenkins. Ele era um senhor de pouco cabelo, orelhas grandes e óculos tartaruga, que usava terno em todas as aulas, independente da temperatura que estivesse fazendo no dia. Ele também era um dos poucos professores homens, acima dos 60 anos, que não falavam abertamente sobre moral e bons costumes durante trinta minutos em suas aulas. Abertamente, é claro. Ela conseguia imaginá-lo perfeitamente fazendo churrasco todo domingo no jardim de sua casa com cerca branca para seus 2.5 filhos e os netos que vieram no caminho.
Além disso, ele deixava que ela abordasse Marx mais vezes do que ela realmente deveria em suas dissertações e trabalhos, então ele não devia ser de todo mal.
“Como você pôde perceber, o desempenho de muitos de seus colegas nesse último teste não atingiu o esperado,” começou.
Maya se conteve para não esboçar nenhuma expressão. Ela devia ter percebido? Embora, olhando bem—ela conseguia ver pelo menos duas pessoas no fundo da sala consolando uma menina de cabelos rosa com o rosto excessivamente mais vermelho que o normal.
“Por causa disso, e porque eu sou um só, estou designando alguns dos meus melhores alunos—os que obtiveram resultados satisfatórios, é claro—para servirem de tutores para seus colegas no período que está por vir. Pensei que podia contar com você, Maya, já que economia clássica é um assunto que tanto te fascina.”
Maya piscou.
Ah.
Ela. Ajudar um colega? Ajudar um colega—ensinando—o.
Sr. Jenkins claramente não sabe o terror que ela passou em toda sua vida acadêmica quando colegas seus, vendo seu bom-desempenho, vinham pedir ajuda sua. E ela, sendo a boa pessoa que era, ajudava. A pior das situações foi quando um menino no segundo ano, Kaleb alguma coisa, precisava de 4,5 para passar em Química Inorgânica, e preferindo não arriscar, pediu sua ajuda. Ela lembra até hoje de chegar no seu último ano de colégio e vê-lo na série anterior, repetindo porque não conseguiu tirar nem 2 na última prova.
“Sr. Jenkins...”
“Imagino que vocês tenham tempo de se preparar para isso, com o feriado de Natal chegando. As aulas só voltam ano que vem, quando retornarmos, e isso garante créditos extras para você, é claro. Haverá um quadro para você preencher o número de horas e os dias em que você oferece essa aula, e vou acrescentar esse número ao seu teste final em Maio.”
“Eu—eu não acho que sou a melhor pessoa para dar aula para uma turma, Sr.”
“Mas que besteira! É claro que você não dará aula para uma turma.”
Maya piscou.
“Felizmente, consegui chegar a um número em que a quantidade de alunos ajudados e seus tutores é par, então você terá somente um colega para focar. Sinto que assim fica mais fácil para todos. Sempre fui um grande defensor de uma educação mais personalizada, com foco maior nas necessidades do aluno, mas com uma turma tão grande, é praticamente impossível lembrar o nome de todos vocês, quem dirá ajustar minha aula para cada um. Você terá a parte fácil, Maya, confie em mim!”
E ele continuou falando. Maya sentiu-se tão sobrecarregada com a quantidade de palavras sendo direcionadas a ela sobre educação e métodos pedagógicos, ainda pensando na tarefa a sua frente de dar aula a alguém, que mal ouviu o que ele havia dito. No final, apenas para se livrar de uma conversa na qual ela realmente não sabia sequer o que acrescentar, acabou concordando com essa história de ser tutor.
“Ah, ótimo! Seu colega-aluno será Sr. Castro. Ele acabou de sair daqui. Sabe quem é, não é? Acho que se correr, ainda consegue encontra-lo no corredor. Aproveite para conversar com ele e organizar direito como as aulas vão ser.” E com isso, ela foi dispensada.
Maya estava saindo da sala, ansiedade cobrindo suas entranhas com a perspectiva de criar uma situação Kaleb 2.0 em plena universidade, quando processou a última informação direcionada a ela. Seu colega será o Sr. Castro. Sabe quem é? Ela tinha quase certeza que sabia, sim, quem era esse garoto. Mas não precisou duvidar por muito tempo, porque ele estava esperando por ela mais à frente, com um ombro apoiado próximo a um dos inúmeros vasos de plantas que havia nessa parte do Campus.
Samuel Castro havia sido sua primeira paixonite universitária, a um ano e meio atrás. Havia sido severamente platônico, e severamente doloroso, principalmente porque ele era um dos principais jogadores de futebol da Universidade, e praticamente todas as meninas do campus tinham alguma coisa por ele.
Tudo estava correndo muito bem, porém. Ela o via passando pelo corredor e morria de amores. Via uma foto sua no Instagram e suspirava acordada. Sonhava com ele, e acordava com o coração apertado. Era saudável, essa sua paixão. E ela tinha ciência de que não tiraria nada dessa história, até porque o garoto nem fazia ideia da sua existência.
As coisas mudaram, no entanto, numa festa de fraternidade. O que não é muito específico, porque festas de fraternidade acontecem a torto e a direito, a qualquer momento, na menor das justificativas. Mas essa festa foi especial. Maya estava na sua, vivendo a experiência de universitária—enchendo a cara—, conversando com um grupo de pessoas, quando deixou escapar que podia ter Alguma Coisa por um jogador de futebol Específico. Ela já estava completamente bêbada, e um dos garotos no grupo achou legal gravá-la em seu pequeno monólogo no qual a pauta era sobre o maxilar perfeito de Samuel Castro, e como o ângulo de seu rosto formava 90 graus perfeitamente—ela afirmava que já havia medido por foto.
Na hora, todo mundo ria e encorajava-a a falar mais, e ela não se importara nem um pouco com uma câmera em seu rosto. No dia seguinte, ela acordara com a pior das ressacas, e seu rosto tendo viralizado no campus.
Todo mundo havia assistido o vídeo, e comentado, e repostado, e feito memes sobre ele. Ela nunca soubera o que era se sentir mortificada de vergonha, até aquele momento. Mas a pior parte, quebrando todas as desilusões e afirmações que Maya vinha alimentando para si (ele não havia visto o vídeo, era um atleta ocupado demais para isso), foi quando Samuel Castro postou em sua conta oficial e verificada uma foto de seu rosto, com o maxilar pronunciando, com a legenda: noventa graus perfeitos, huh?
Esse huh a atormentava até hoje.
Mas memes caem no esquecimento. A internet descobre outra coisa engraçada para ridicularizar. E para ajudar a enterrar seu vídeo de vez, Samuel Castro acordou um dia e decidiu sair do seu time de futebol, desativar todas as suas redes sociais e, até onde Maya sabe, chegou a trocar até de curso na faculdade. A esse ponto, Maya já não era mais muito apaixonada por ele, e embora o mistério ficasse e todos sussurrassem incrédulos no corredor tentando adivinhar o que acontecera, Maya achara que sua história com Samuel Castro havia acabado.
Sr. Jenkins tinha outros planos.
(Ele provavelmente assistira seu vídeo bêbada em um dos churrascos que ele faz aos domingos, ela tinha certeza.)
“Oi,” Samuel Castro murmurou, chegando perto dela.
Talvez Maya não tivesse perdido totalmente o encantamento por aquele menino, ou talvez ele só fosse muito alto, mas ele sentiu a necessidade de dar dois passos para trás e espichar um pouco mais o pescoço para conseguir vê-lo olho no olho.
“Olá.” Ela disse, e seu eu interior perguntou quem diabos diz olá na vida real. Como ela estava chateada com seu eu interior, preferiu ignorá-la, mantendo contato visual.
“Então, você é minha tutora, certo?”
“Isso,” Maya assentiu. E imaginando—torcendo—que ele não fizesse ideia de quem ela era, acrescentou: “Meu nome é Maya.”
“Sei quem você é.” Ele balançou a cabeça em reconhecimento. Maya não sabia dizer se havia ou não um brilho divertido nos olhos dele, ou se sua vergonha estava sendo tão grande que ela estava imaginando ele rindo de sua cara. Ela não saberia afirmar, mesmo, porque no momento seguinte, sua expressão estava fechada.
Tudo nele era fechado, na verdade.
Na época em que suspirava por ele pelos corredores e tinha suas notificações ativadas, sua escolha de roupas era muito mais despojada. Ele costumava usar jerseys vermelho e prata (as cores da universidade), regatas coloridas e tinha até uma foto—a favorita de Maya naquela época—em que ele estava usando uma camisa havaiana.
Agora, no entanto, o Samuel Castro que olhava para ela parecia outro cara. Ele ainda tinha o maxilar de 90 graus, mas de resto, tudo mudara. Sua cabeça estava raspada, ele usava um moletom cinza escuro que cobria metade do corpo, e o resto da roupa em seu corpo era predominantemente preta—calça, botas, mochila.
“Então, quando você quer começar as aulas?” Samuel perguntou, tirando-a de sua própria cabeça.
“No ano que vem?” Ela perguntou de volta, confusa.
Ele riu pelo nariz. “Sim, mas não acha que vale a pena marcar um dia?”
Maya piscou. Ela não costumava ser o tipo de pessoa que marcava coisas que fossem depois de uma semana do dia em que estava. O que ela estaria fazendo daqui a uma semana e um dia? Ninguém é capaz de saber. Era com esse tipo de pensamento que ela seguia sua vida.
Mas Samuel Castro parecia o tipo de cara que gostava de datas. Então ela disse, “Primeiro Sábado da volta as aulas, tá bom pra você?”
Ele assentiu. “Certo.”
E deu as costas.
Sequer perguntou onde seria ou a que horas se encontrariam, o que fez Maya franzir o cenho. Esses obsessivos por compromissos não costumavam combinar tudo antes?
Mas ela não se demorou muito pensando nisso. Sua paixão por aquele garoto havia, de fato, passado, deixando apenas uma leve onda de vergonha no lugar. E além do mais, ela estava mais interessada em voltar a seu debate interno, já pensando em perguntar a Miranda se ela tinha uma tesoura de cortar cabelo.
É por causa disso, Maya afirma até hoje, pela falta de hora e local, que com a chegada do ano novo e do primeiro Sábado de volta às aulas, ela havia se esquecido completamente dessa história de tutor e Samuel Castro.
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