Summertime Sadness
29 My Immortal
Notas iniciais
Finalmente o fim. Ver a terra caindo e cobrindo o caixão chegava a ser sufocante, como se estivessem me enterrando. E acho que de certa forma estavam. Eu não era eu sem Claire. Não era o mesmo Derek.
Só que agora eu não tinha muita opção. Eu podia aceitar e tentar seguir em frente, ou eu podia ficar murchando até desistir. E eu não gostaria de deixar alguém naquele estado.
Acabou. A mãe de Keane pegou o garoto mais novo pela mão e viraram-se para irem embora. Keane seguiu com Carlotta, depois de secar o rosto mais uma vez. Michael foi sendo levado pela senhora que viera com ele.
Um a um iam dispersando. A família amiga do pai de Claire, mais alguns colegas de classe. Kramisha falou alguma coisa com Lily, que olhou para mim e concordou. Devia ser para esperá-la.
Não queria falar com Kram. Nem com ela, nem com ninguém. Só que ela tinha me dito que precisava falar, e ela tinha bom senso. Devia ser importante.
Lily passou por mim com a guitarra e o amplificado. Ela parou do meu lado e suspirou.
– Tonight’s the night the world begins again. – A música dela. Era verdade. O mundo ia começar de novo. Sorri para ela, sentindo os olhos arderem. – Você é forte, garoto. Pergunte Kram, ela deve estar te vigiando.
– Valeu, Lily. – Sorri para ela, a voz tendo que lutar contra o bolo que se formara em minha garganta. – Foi muito bonito. Obrigado.
Ela deu um tapa fraco no meu ombro e voltou a caminhar, indo embora. Fiquei olhando a imagem embaçada pelo choro de Kramisha ajudando o funcionário do cemitério a colar o quadro na pedra.
– Pra onde você foi, hein? – Perguntei para o vento. Era nessas horas que eu gostaria de saber como era a morte. Saber se ela estava num lugar bom como ela esperava. Ou talvez fosse melhor nem saber.
– Derek. – Kramisha me chamou, parando na minha frente. Ela também estava bem abatida.
– Ei, Kram. – Falei, dando um sorriso fraco. Ela olhou para trás. A raiz perto do túmulo. – O que foi?
– Você acreditaria... – Os olhos dela ficaram cheios de lágrimas de novo, a voz trêmula. – Acreditaria se eu te dissesse que ela está ali? Sentada na raiz, olhando para nós.
Olhei na direção da raiz. É claro que eu não via nada, mas concordei, fechando os olhos. Ela piscou duas vezes, tentando não chorar.
– Ela me pediu para te dar isso. – Era um envelope feito os outros. Igual aos que eu sonhava. Só que mais amassado, com as pontinhas dobrando. Tinha meu nome nesse.
– O que é isso?
– Eu sonhei com ela. E Claire me disse que isso estava no armário dela, lá na escola. Pediu para eu te entregar. – Ela falou, se dando um abraço. Peguei o envelope, um pouco hesitante.
– Ela me escreveu outra carta?
– Você devia ler sozinho. A igreja deve estar aberta...e vazia. – Ela comentou. – Pelo menos eu acho que sim.
– Obrigado. – Agradeci, respirando fundo. Ela deu um sorriso fraco. Dei um abraço nela. – Muito obrigado.
– Estou aqui sempre que precisar. – Ela respondeu, me apertando de volta.
Soltei-a, olhando o envelope de novo. Kram me deixou sozinho, indo na mesma direção de Lily. A saída. Respirei fundo e olhei para a raiz.
– Ainda está ai? – Perguntei, olhando a árvore. – Porque se sim, você vai vir ler essa coisa comigo.
E fui para a igreja. Estava mesmo vazia. Até demais. Sentei-me num dos bancos da frente, próximo ao altar. Respirei fundo e abri o envelope, ansioso.
Tirei duas folhas lá de dentro. Uma era a carta, mas a outra era um bilhetinho pequeno. Peguei o papelzinho e li a caligrafia enfeitada de Claire.
“Talvez você não consiga ler direito. Sério, está tudo borrado, principalmente no final. Espero que não tenha ficado com raiva da outra carta, achei melhor não falar muito. Essa eu escrevi antes. Te amo.”
Borrado? Não entendi. Coloquei o bilhetinho de volta no envelope e desdobrei a carta. Duas páginas, grampeadas. Respirei fundo mais uma vez e criei coragem para ler.
“Derek
Eu realmente não sei como eu poderia te agradecer mais. Você sempre cuidou de mim. Me deixou pintar seu cabelo. Ia na minha casa, era meu amigo. O melhor deles.
Queria ser forte para poder continuar a aproveitar de sua amizade. E espero que não fique com raiva de mim, como acho que alguns vão ficar, mas eu não posso mais.
Porque a cada dia que passa, eu sinto que os sorrisos que te mostro são mais e mais vazios. Fracos. Cansados. Não é uma questão de não gostar da minha vida. É de não ser forte o suficiente.
Eu sei que deve ser confuso. Você me ajudou. Sempre, sempre, sempre. Você até quis me ajudar de maneiras mais eficientes, mas era eu quem não deixava. Foi egoísta, eu sei. Me perdoe, mas quero deixar claro que não foi culpa sua. Se as coisas chegaram até aqui, foi por minhas atitudes.
Foi porque eu fui covarde, eu tive medo.
Derek, por mais que eu nunca tenha acreditado plenamente, tinha um pedacinho da minha cabeça que sempre pensava que ninguém gostava de mim. Nem minha família, nem meus colegas, nem ninguém. Eu sonhava que vocês me odiavam.
Eu sei que não. Você me adorava.
Só que eu fui idiota ao ponto de deixar essa partezinha ganhar a guerra que ela travava com o restante.
E é por isso que eu quero que você grave bem essas palavras...
Eu te amo.
Do fundo do meu coração, te amo como se fosse parte de mim.
Só que não dá mais. Eu não quero mais esperar. Eu vou apostar com a sorte e esperar que eu possa morrer e ir para um lugar tranquilo. Quero paz. Uma que eu não vou conseguir até me desprender de tudo que me faz mal. E infelizmente, essas coisas estão misturadas às coisas boas.
E se tudo der errado, pelo menos eu quero poder imaginar que você está bem.
Prometa ser forte, tudo bem?
E me perdoe por essa decisão. Por desistir.
Eu te amo.
Claire.”
Borrado era pouco. Eu custei a ler certas palavras. Ela tinha chorado muito escrevendo. Igual eu chorava ali, depois de ler.
– Eu prometo, Claire. Prometo.
E fiquei chorando, até vai saber quando.
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