Summertime Sadness
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Notas iniciais
POV Derek
Kramisha era uma garota baixinha, com os cabelos pretos lisos e os olhos castanhos claros, quase verdes, tão firmes que era possível se perder neles por horas. Ela tinha ficado na escola, depois de quase todos terem ido embora.
Entreguei a carta dela, junto com um pincel. Eu me lembrava de Claire falando dela. Das telas da garota. Acho que Kramisha era como uma melhor amiga dela, se é que chegava a tanto.
Fiquei um pouco aliviado em saber que mais alguém estava triste por Claire. Triste de verdade. Saí da escola, deixando a garota sozinha, com sua carta. Podia entregar a de Lily depois. Fui para casa.
— Oh, meu bem. – Assim que abri a porta de casa e entrei na cozinha, minha mãe secou as mãos num avental e me deu um abraço. Tinha o cheiro habitual de lavanda.
— Mãe... – Deixei minha mochila cair aos meus pés e a apertei com força, tremendo. Minha mãe acariciou minha cabeça.
— Soube o que aconteceu por uma vizinha. Não quis acreditar, mas... – Ela falava baixo, como se estivesse se esforçando para não chorar.
— Eu a vi, mãe. – Consegui falar entre os soluços. – Eu vi quando ela puxou o gatilho.
— Oh, meu bem. – Minha mãe me afastou um pouco e limpou meu rosto com uma das mãos. Os olhos azuis dela se cravaram nos meus, se enchendo de lágrimas. – A culpa não foi sua. Não foi de ninguém.
— Mãe, ela matou os pais. Ela os matou, os deixou na praça. — As lágrimas caíam sem parar por meu rosto. Minha mãe também chorava.
— E o que você sente por eles? – Ela me sentou numa cadeira e se abaixou na minha frente, se sentando nos calcanhares.
— Raiva. – Respondi, sem pensar duas vezes. – Eles a culpavam pelo erro deles. Eles eram os covardes, não ela.
— Eu sei, meu bem, eu sei. – Ela secou o próprio rosto, sorrindo. – Tenho certeza de que ela encontrou a paz que queria. Vá tomar um banho agora, ok?
Concordei com a cabeça. Não conseguia falar depois de chorar tanto. Só queria entrar debaixo daquele chuveiro e ficar ali para sempre. Observei minha mãe, enquanto ela se levantava e voltava para a pia.
O cabelo loiro descia em camadas até a cintura, tão liso quanto o meu. Ela era alta, magra, bonita, delicada. Me levantei, pegando minha mochila no chão e indo até meu quarto.
POV Keane
Tomei um banho e troquei de roupa assim que cheguei em casa. Liguei o rádio, me deitando na minha cama. Wonderwall, do Oasis, acabava de começar.
There are many things that I would like to say to you,
but I don’t know how.
O nó na minha garganta voltou a se formar. Claire amava aquela música. Respirei fundo. De que adiantava, chorar agora? Não a traria de volta. Suspirei, me sentando.
— Keane, mamãe tá te chamando. – Corey apareceu na porta do quarto. – Vem almoçar.
— Já vou, baixinho. – Ele fez uma careta com minha resposta, que me fez dar um sorriso fraco. Corey era meu irmão mais novo, de 7 anos. Ele não era tão baixo, era um dos mais altos da turma dele, mas eu o chamava assim só para irritá-lo.
Desliguei o rádio e saí do quarto, desci as escadas para a sala de jantar. A mesa estava posta, quatro lugares, como de costume. Meu pai estava na sala de estar, com os pés para cima, tomando uma cerveja. Me deu um aceno quando me viu.
— Fiz lasanha, Keane. Sei que você ama. – Minha mãe colocou o tabuleiro no centro da mesa, assim que Corey, meu pai e eu nos sentamos. – Então, como foi a escola hoje? Você chegou mais cedo.
— Não anda matando aula, né? – Corey riu, estendendo o prato para minha mãe serví-lo.
— Claro que não, baixinho. – Ele revirou os olhos. Peguei um pedaço da lasanha antes de responder. – Fomos liberados mais cedo.
— Por quê? Algum evento na escola? – Meu pai me encarava, calmo. Engoli em seco, negando com a cabeça.
— Foi Claire. – Os três me encaravam agora. – Ela se matou.
Corey soltou o garfo sobre o prato, boquiaberto. Meu pai se moveu na cadeira, desconfortável. Mas minha mãe não fez nada, só continuou a comer.
— Bem, não me surpreende. A garota tinha um parafuso a menos. Eu sempre te disse que era uma péssima ideia ser amigo dela Keane. – Ela jogou o cabelo castanho para trás, indiferente.
— Como é? – Apertei o cabo do garfo. – Mãe, isso é horrível.
— Ora, Keane, poupe-me. Aquela família, os Cooper, mereciam tudo que caíssem sobre eles. – Ela me olhou, indiferente. – Aquela garota nem devia ter nascido. E depois que nasceu, arruinou a vida dos pais. O pai era um brutamontes e a mãe uma vadia.
— Katherine... – Meu pai tentou dizer alguma coisa, mas eu o interrompi.
— E acha que a culpa é dela? Claire nunca escolheu nascer. Aqueles dois podiam muito bem ter se separado. Nunca ninguém disse que eles tinham que ficar juntos por Claire. – Me levantei, quase jogando o garfo no rosto da mulher sentada à minha frente. – E quer saber uma coisa, mãe? A senhora também é uma bela vadia.
— Keane Hopkins! – Meu pai se levantou, jogando a cadeira no chão. – Respeite sua mãe.
— Pra que? – Joguei o garfo no chão. – Ela é mesmo uma vadia, pai! Que tipo de pessoa é tão ordinária que não consegue enxergar a dor dos outros?
— Isso não te dá o direito de chamá-la assim. – Ele estava mais calmo, só queria que eu e minha mãe parássemos de brigar.
— Respeite os mortos, se lembra, mãe? – Me virei para ela, que soluçava. – Como pode ser tão hipócrita a ponto de me ensinar que devemos respeitar os mortos, enquanto você está quase festejando um suicídio?
— Keane, eu não estava falando por ela. Disse que os pais dela mereciam essa dor. E merecem, você também acha. Mas se disser que não achava que ela fosse fazer isso, estaria mentindo.
— Bom, ai vai o resto da notícia. Ela matou os pais antes. Os deixou numa praça. – Subi de volta para meu quarto, pisando duro. Os soluços de Corey chegavam aos meus ouvidos, me deixando ainda mais triste.
O garoto subiu atrás de mim, abraçando minhas pernas. Passei os braços ao redor dele e voltei a chorar.
POV Kramisha
Meu pai me buscou na escola poucos minutos depois que liguei para ele. Entrei no carro em silêncio, colocando o cinto de segurança. Aumentei o volume do rádio, encostando a cabeça na janela.
Foi um caminho silencioso. Em menos de 10 minutos chegamos em casa. Meu pai não perguntou em momento algum se eu estava bem ou o que tinha acontecido. Achei melhor assim. Esse era o tipo de coisa que minha mãe diria, não ele.
Desci do carro, ainda em silêncio, e fui direto pro meu quarto. Minha cadelinha me seguiu pela casa. Dei um sorriso fraco, ouvindo as patinhas dela pelo soalho.
Me sentei na cama, coloquei a mochila no chão. Os quadros que eu já pintara entulhavam minha parede, pendurados por todos os lados. Já devia ter me livrado de alguns. Cada um deles me lembrava da carta de Claire.
Um em especial travou minha atenção. Foi um dos primeiros quadros que eu fiz, uns cinco anos atrás. Havia pouco tempo que minha mãe morrera eu comecei a ter os sonhos de que Claire falou. Aquele tinha sido um pesadelo, mas que eu só consegui parar de pensar nele depois de transformá-lo em quadro.
Meu pai colocou-o em uma moldura, como todos os outros. Eu o pendurei na parede do quarto, atrás da porta, assim eu não o veria se acordasse de madrugada.
Era um pouco confuso. Olhando uma primeira vez, tudo que se via era um olho cinzento, que se enchia de sangue, deixando a parte branca do olho completamente vermelha. Aquilo por si só já era uma imagem aterrorizante.
Quando se observava o quadro com mais atenção, porém, era possível ver os rostos agonizantes de pessoas mortas. Eram espíritos que rodeavam o olho sangrento, berrando com desespero e rancor.
Nunca entendi aquele sonho, seu significado. Mas naquele momento, por alguma razão, aquele olho me observava, vermelho e cinzento, pavoroso. Como se quisesse me fazer algum mal. Como se alguém ali quisesse me fazer mal. Os espíritos queriam que eu me tornasse um deles, era o que parecia.
Levantei e abri a porta, tampando o quadro atrás dela. Eu estava tremendo, respirava pesadamente, como na noite em que acordei por causa do pesadelo e tive que dormir com meu pai.
— O que eles querem de mim, Didi? – Perguntei para a cadela, parada no vão da porta, olhando para o vazio. – Eu não quero saber de espíritos, só quero sofrer em paz.
Percebi que estava chorando. Um arrepio desceu por minha espinha, me fazendo paralisar, ainda segurando a porta. Didi começou a latir para alguma coisa no canto do quarto.
E então a vi. Parada, no canto do quarto, encarando um dos quadros na parede. Olhei de soslaio qual deles era: uma pessoa flutuando, enquanto sua alma era despedaçada. Claire não parecia me perceber ali, paralisada tão perto dela.
E então ela se foi. Do mesmo jeito que surgiu, desapareceu. Consegui soltar a porta, depois que Didi andou pelo quarto e deitou no tapete. A imagem do espírito de Claire parado no canto do meu quarto ainda estava bem nítida na minha mente.
— Por que a Didi estava latindo tanto? – Meu pai parou no vão da porta, com os braços cruzados. O encarei, me sentando na minha cama. Olhei cada um das pinturas que ele enquadrara antes de responder, hesitante.
— Claire...estava aqui. – Limpei meu rosto com uma mão, ainda trêmula. – A alma dela se partiu, pai. Por isso ela...
Não consegui terminar a frase. Os braços do meu pai me envolveram, de forma protetora, me fazendo chorar, de novo. Como há anos ele fazia, presente apenas por gestos. Nada poderia ter ajudado Claire, porque ela já estava morta. Sua alma se fora, levando consigo todas as forças dela.
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