Summertime Sadness
18 Falling In Love
Notas iniciais
POV Claire
~Flashback On
Manhã de domingo. A missa mal começara, eu dei um jeito de sair e ir até o bosque do lado. Peguei meus fones, ligando numa música aleatória. Procurava Michael, pela primeira vez sem sucesso.
– Ele não está aqui. – Olhei ao redor mais uma vez, ainda sem achá-lo. Aquilo foi um pouco desconcertante. Meus domingos sempre eram preenchidos pela certeza de ver Michael.
Considerei entrar na igreja de novo, mas desisti da ideia. Acreditava em Deus, mas achava uma total perda de tempo ouvir a missa. Me sentei entre duas raízes, finalmente prestando atenção na música que tocava.
I Tried. Akon e Bone Thug’n’ Harmony. Tinha aprendido a letra inteira daquela música. Até mesmo os raps, partes que ainda embolava um pouco, mas conseguia cantar.
E que sempre me deixava triste.
Comecei cantando. Até a introdução eu tinha decorado. Literalmente, a letra inteira.
“Bone Thugs, Akon, Yeah.
You know though nothin’ come easy, you gotta try real, real hard.
I tried hard, but I guess I gotta try harder.”
Será que eu devia tentar mais? Já achava que não. Procurei por Michael de novo, mas nada.
“I tried so hard, can’t seem to get away from misery.
Man I tried so hard, but always be a victim of these streets
It ain’t my fault cause ,I try to get away but trouble follows me
And still I try so hard, hoping one day you come and rescue me”
– Triste? – O sussurro arrepio todos os pelos do meu braço e da minha nuca, me fazendo parar de cantar. – Não devia ter parado. É estranho te ver cantando rap.
– Lord, would you help me and stop this pain I keep inflicting on my family? – Cantei a frase em que a música tinha parado. Michael se sentou ao meu lado.
– Para com isso. – Fiquei olhando a terra entre minhas sapatilhas, calada. – Claire, é sério. São eles que te machucam.
– Eu sei. – Suspirei. – Quer escolher alguma coisa?
Ele pegou meu celular e começou a olhar as músicas. Fiquei observando seu perfil, séria. Ele era bonito, apesar da carinha de sono. Talvez fosse aquilo que o deixava bonito, na verdade.
– Que foi? – Foi quando percebi que sorria. Simplesmente balancei a cabeça e apontei com o queixo para o celular. – Ok, essa é ótima.
Prestei atenção assim que ele deu play. Thinking Out Loud.
“Darling, I will be lovin’ till we’re seventy”
Não podia deixar de sorrir com aquela música. Ele sabia que eu amava o vídeo dela. Ele sorriu pra mim, riscando alguma coisa em seu caderno.
“Kiss me under the light of a thousand stars”
Por coincidência, a música estava justo naquela frase. Cantei em voz alta, continuando com a música.
“We found love, right where we are.”
– Tenho que reconhecer que essa música é melhor que a outra. – Puxei uma mecha do cabelo dele. Mal percebi que o celular estava repetindo a música.
Michael tinha pegado um dos fones, usando-o. Fechou o caderno, encarando a capa azul.
Fechei meus olhos, cantando a música, com a certeza de que não atrapalhava a missa. Tinha certeza também que Michael me encarava.
Me beije sob a luz de milhares de estrelas.
Senti os dedos dele na minha nuca. Abri os olhos, surpresa. Michael se afastou como se nada tivesse acontecido. Não que fosse nada muito marcante, mas ainda assim, ele tinha me beijado. Foi mais um selinho, mas que importância tinha?
– Você que pediu. – Ele riu. Olhei pro céu, respirando fundo.
– Não vejo milhares de estrelas.
– Bem, elas estão lá. – Deu um tapinha leve na minha cabeça, voltando a abrir o caderno.
Voltei a ouvir as músicas no aleatório. Por mais leve que tivesse sido o contato nos meus lábios, eu ainda sentia a pressão que Michael fizera.
Fiquei observando enquanto ele escrevia, sem me deixar ler a carta. Não que eu quisesse. Minha mente ficava rodeada por pensamentos e sentimentos confusos.
~Flashback Off
POV Derek
~Flashback On
– Ele fez o quê? – Me sentei na cama, enquanto Claire ria. Ela estava sentada no chão, brincando com Breeze. A gatinha agora já estava enorme.
– Me beijou sob a luz de milhares de estrelas. – Ela segurava uma corda, arrastando a gata que se prendia com unhas e dentes. Literalmente. – Foi tão...
– Tão? – Eu sorria feito besta. Parte pelo choque, claro. Mas estava realmente feliz. Michael gostava de Claire, então talvez ele a ajudasse a ficar melhor. Mais alegre.
– Sei lá. Acho que ele fez de brincadeira. Quer dizer, ele riu depois e agiu como se nada tivesse acontecido.
– E se bem te conheço, você ficou encarando algum ponto invisível fixamente e nem olhou mais pra ele.
– Basicamente. – Ela deu de ombros. – Você devia tentar com Kramisha.
– Tentar o que?
– O truque das milhares de estrelas. – Ela largou a corda, fazendo a gata soltá-la também e vir se aninhar sobre a cama, ao meu lado.
– Ficou com raiva? – Estranhei. Ela deu de ombros.
– Talvez um pouco. Não teve graça.
– Claire, julgando Jehra pela aparência ele devia estar mais chocado que você. – Dei um leve tapa na cabeça dela. – Você é uma negação, Claire.
– Falou o garoto que nem olha para Kramisha direito.
– É diferente. Ela sempre fica com Lily. E ela me assusta.
– Lily te assusta?
– Ela parece pronta pra espancar alguém a qualquer instante. – Retruquei. Ela concordou. – Você podia me ajudar.
– Entendi. Vou tentar.
– Valeu, gata. – Sorri pra ela. – Quer ajuda com Jehra?
– Eu te odeio. – Foi a resposta dela. Ri, dando de ombros. Aquilo era uma resposta que eu interpretaria por sim.
~Flashback Off
POV Michael
~Flashback On
Era uma ferida no meu orgulho hetero. Mas ainda assim, eu estava deitado na minha cama, falando com os outros garotos como imaginei que Claire faria com Derek.
– Só um selinho, cara? Toma vergonha na cara. – Joguei minha camisa na cara de Leonard, quase derrubando seu PSP.
– O que vocês queriam que eu fizesse? Agarrasse ela?
– Olha, Jehra, não seria má ideia. – Foi Chang que respondeu. Leonard concordou.
– Acho que o problema mora em você ter falado com tom de brincadeira depois. – Infelizmente, eu reconhecia que Aaron provavelmente tinha razão. Como sempre.
– Sei que sou retardado. – Me sentei, coçando as costas.
– Ela jamais negaria esse teu corpinho sarado, Jehra. – Olhei pra baixo instintivamente. Eu até não teria um corpo dos piores, não fosse a porcaria da cicatriz que cortava da altura da última costela esquerda até o lado direito do meu quadril.
– Cala a boca, Leo. – Respondi, revirando os olhos.
– Ah, a cicatriz não é pra tanto, Jehra.
– Essa merda atravessa minha barriga inteira. E é horrorosa. – Chang não soube responder mais. Olhei o rasgo na minha barriga de novo.
– Como conseguiu isso mesmo? O acidente da rodovia?
– Foi. Um pedaço gigante de metal decidiu abrir caminho pelo meu estômago e o que você está fazendo com meu celular, Leo?
– Vendo a opinião da sua garota. – Ele deu de ombros.
– Leonard! – Quase voei até a beliche, puxado o celular. – Vai pro inferno.
– Ele mandou uma foto? – Aaron perguntou, pronto pra arremessar uma almofada em Leonard.
– Não, ele só... – Parei pra abrir a conversa, lendo o que ele mandara. – Perguntou o que ela acha de cicatrizes? O quê?
– Leo, quem fala isso? – Chang perguntou por mim.
– O que importa é se ela respondeu. E ai? – Olhei a resposta, de pé no meio do quarto.
– Ela falo que tem algumas pequenas. – Franzi o cenho. – Será que foi o pai dela?
– Pode ser. Ela perguntou por quê da pergunta? – Leo falou.
– Uhum.
Ele pegou o celular de novo, digitou correndo e me devolveu. Li a “minha” resposta.
– Pensei nisso agora que vi a minha.
– Bem, agora você termina a conversa com ela. – Chang deu de ombros. – E por favor, deixe claro que a história do beijo não foi brincadeira.
– Eu não sou tão imbecil, Chang. – Voltei pra minha cama, respondendo normalmente.
~Flashback Off
POV Claire
~Flashback On
Quase não percebi que estava cantarolando enquanto arrumava meu quarto, depois que Derek foi embora. Breeze esfregou a cabeça em minhas pernas, me fazendo sorrir. Por algum motivo, foi isso que me fez identificar a música que eu cantava.
Thinking Out Loud.
Respirei fundo. Meu celular vibrou, com uma mensagem dele. Jehra. Abri, suspirando. Mesmo horas depois do ocorrido, podia sentir a leve pressão da boca dele sobre a minha.
Aquela mensagem não era dele, mas respondi sinceramente. Percebi que o próprio Michael voltou quando ele me perguntou se foram “presentes” do meu pai.
Estiquei meus braços. Ali ficavam as mais visíveis. Uma que cortava meu antebraço esquerdo e uma pequena perto do cotovelo. As duas causadas por garrafadas. Não precisava ver as que eu tinha nas costas, dos açoites com cinto.
Devia ter umas cinco delas.
Não respondi direito. Falei que conversava com ele no dia seguinte e larguei o celular. Respirei fundo de novo.
– Escrever. Ajuda. – Peguei um caderno qualquer e arranquei uma folha, pegando uma caneta também.
Quando terminei, minha mãe bateu na porta. Escondi a folha, ficando de pé. A expressão no rosto dela não me era muito boa.
– Seu pai quer jantar. Nós três. – Foi um arrepio só, da nuca até o fim da minha coluna. Ela me parecia tão apavorada quanto. – Venha.
As refeições lá em casa eram bem individuais. Minha mãe cozinhava para nós três e cada um comia sozinho. Eram, normalmente, minhas únicas horas na sala.Minha mãe comia na cozinha e ele no quarto.
Jantar junto me parecia algum tipo de maldição. Caminhei pelo corredor atrás da minha mãe, rezando pra que ele nunca acabasse. Infelizmente, em menos de um minuto eu já estava ao lado da mesa.
– Sentem. – Meu pai falava de maneira bem direta. Normalmente, ele não precisava de mais que uma palavra para que nós obedecêssemos.- Muito bem.
– Algo errado? – Minha mãe perguntou, servindo-o de macarrão. Eu apenas observava aquela conversa desconfortável.
– Jantar com minha família é errado? – Se eu tivesse um alarme de pânico,já estaria soando a muito tempo. Peguei a colher que minha mãe me estendeu. – Claire.
– Senhor? – Falei, engolindo em seco.
– Vou trazer alguns amigos meus para cá na semana que vem. Um deles tem um filho da sua idade, que vai vir com ele. Quero que fique com o garoto, seja educada como sei que você é.
– Tudo bem. – Concordei, um pouco mais tranquila. Claro que a ideia do meu pai conseguir ter algum amigo era estranha, mas um filho seria fácil de aguentar. Assim esperava.
– Sua mãe vai cozinha para nós. Afinal, é meu aniversário. Você, vista-se decentemente, feito uma pessoa normal. E não traga seu amiguinho viado para cá.
Derek. Ganhou aquele título por causa da mecha rosa. Ele começava a ter a ideia de mudar para um azul escuro quando o rosa começasse a desbotar.
– Tudo bem. É só isso?
– Pra você, sim. Educação e normalidade. Sua mãe o mesmo, com a melhor cozinha dos tempos. E eu como anfitrião.
– Ok. – Minha mãe concordou, séria.
Aquilo, os planos de aniversário, me fizeram esquecer por alguns instantes o ocorrido com Michael na missa daquela manhã. Acabei de jantar rapidamente e pedi licença, deixando a mesa sob a permissão do meu pai.
Voltei para meu quarto, a mesma música ainda colada na minha mente. Me deitei, suspirando. Derek tinha razão, como sempre. Eu só dei tanta importância porque eu não queria que fosse só aquilo.
Eu estava mesmo gostando de Michael.
~Flashback Off
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