Summertime Sadness
1 Ive got that summertime, summertime sadness.
Notas iniciais
Aquele lugar era melhor que a minha casa. O silêncio de lá não era tão tenebroso quanto o do meu quarto e a solidão dali não era assim tão dolorosa.
Hoje minhas olheiras estavam maiores e mais escuras. Passei a noite com lágrimas ainda mais grossas marcando a pele do meu rosto e minha cama nem fora desarrumada. O banheiro tinha se tornado o meu quarto. Levei o travesseiro simplesmente para abraçar enquanto o pouco que eu tinha comido saia pela minha boca e caia dentro do vaso sanitário.
Nem quatro dias haviam se passado e quase seis quilos tinham deixado o meu corpo. Era muito preocupante e eu tinha consciência disso e também estava desesperado com minha degradação, mas eu não tinha controle. Eu sabia que tinha muito para viver, mas será que queria?
Eu já evitava o espelho, mas a porta de vidro do meu segundo lugar preferido ainda me traia e condenava. Minhas calças estavam largas nas coxas e minha camisa parecia mais decotada ao mostrar meu pescoço e parte do tórax mais magros.
Os ossos estavam bem marcados e as rugas da noite mal dormida contornavam meus olhos. Olhos antes sempre elogiados por sua voz doce. Voz que passava por meus tímpanos e me alegrava, confortava. Conforto que eu só sentia em meu primeiro lugar favorito, seus braços. Braços que não mais me abraçavam.
Eu não entendia porque eu era obrigado a perdê-lo. Ele tinha que ir para longe de mim para que fosse feliz. Qual era o problema em ser meu? Eu havia me dedicado tanto, o amado tanto.
Empurrei a grande porta de vidro colocando mais força que o habitual. Minami, a organizadora da biblioteca, lançou-me um sorriso que logo sumiu de seu rosto. Eu não era idiota a ponto de não entender o motivo.
–Aoi-San. –Arregalou levemente os olhos saindo de trás do balcão e seguindo com pressa em minha direção. –O que aconteceu? Senti a sua falta. Faz uns quatro meses que não vinha.
–Não foi nada. –Minha voz saiu falha e eu preferi mudar de assunto. –Ne, o livro que eu queria já foi devolvido?
–Ah, hai. –Minami respondeu seguindo para uma das prateleiras e entrando em um largo corredor voltando com o grosso livro de capa verde em mãos. –Aqui está. –Sorriu forçadamente, pois a preocupação ainda era visível em seus olhos.
Fiz uma mesura em agradecimento e segui ao meu lugar de sempre: uma mesa afastada e ao lado da janela que dava para o parque.
As árvores estavam quase nuas. As folhas cobriam a grama verde criando uma espécie de longo tapete. O canto dos pássaros parecia mais baixo e desafinado. Poucas pessoas caminhavam por ali e fora em um dia completamente diferente de hoje que eu conheci o motivo do meu sofrimento.
O sol passou pela minha janela com uma força arrebatadora logo que abri as cortinas. O calor era tão intenso e só pude comprovar a minha tese ao notar o lençol que normalmente me cobriria durante a noite, caído aos pés da cama.
Espreguicei-me seguindo até o banheiro saindo do mesmo alguns minutos depois assim que terminei minha higiene pessoal. Em frente ao guarda roupas, escolhi uma calça jeans e uma camisa de botões com um tom de azul escuro. Vesti-me e sai de casa caminhando pela rua já bem movimentada.
Parei em um café de esquina pedindo um salgado e um suco de manga, tudo para viagem. Eu queria passar bastante tempo lendo, pois o trabalho começaria a tomar toda a minha disposição na próxima semana.
Empurrei a porta de vidro seguindo com passos rápidos até Minami-San sorrindo-lhe e deixando um leve beijo em sua bochecha, que tomou uma coloração avermelhada.
–Bom dia, minha bibliotecária favorita.
–Bom dia, Yuu. –Sorriu novamente apontando com a cabeça para uma pilha grande de livros sobre uma mesa.
–São novos? –Ela confirmou com um novo aceno e eu pude sentir meu peito ferver.
Um apaixonado por livros. Isso era o resumo de Shiroyama Yuu.
Caminhei até a pilha pegando um papel que continha a listagem dos títulos ali presentes. Meus olhos caminhavam pela caligrafia tão conhecida pertencente à bibliotecária e pararam bruscamente.
Summertime Sadness. Tristeza de Verão, que título intenso.
O livro era um dos últimos e, depois de certa dificuldade, consegui tirá-lo de baixo dos outros. Sua capa era de um laranja abafado que me causou uma curiosidade ainda maior para lê-lo.
Já sentado em meu lugar de costume, abri-o na primeira página.
“Os cabelos loiros quase dourados passeavam junto da brisa enquanto os pés sentiam a maciez da grama. O homem alto sorria enquanto observava o caminho que fazia uma borboleta...”
–Argh! Borboleta!
Sempre tive horror a esse bichinho. Chegava a ser pavor, mas, para mascarar esse medo exótico e um tanto desnecessário, eu preferi dizer que borboletas eram feias.
No mesmo instante, desviei meus olhos para o parque ao lado de fora e um banco vazio sob a sombra de uma árvore frondosa chamou minha atenção. Passei por Minami pedindo para que ela anotasse a retirada do livro e segui até meu destino... Que estava ocupado por um alguém que fora mais rápido do que eu.
Brequei meus passos logo em frente da pessoa, tentando parecer menos frustrado e interessado naquele banco do que eu realmente estava. O livro em minha mão acabou por cair e fazer um barulho relativamente alto sobre as pedrinhas que formavam o chão do parque naquele pedaço.
Olhos castanhos viraram em minha direção e eu senti o rosto queimar no momento em que ele me sorriu infantilmente e tirou suas coisas para que eu me sentasse ao seu lado. Para parecer ainda mais inusitada essa situação, o homem loiro ali sentado era o mesmo que imaginei quando li as primeiras linhas do meu livro.
–Desculpe-me por ser tão espaçoso. –Riu baixo sem tirar os livros de um caderno com as folhas ainda em branco.
–Oh, imagine. Eu quem fui muito desesperado em pegar esse banco. –Tentei formular alguma frase em meio a tudo o que acontecia.
Creio eu que acabei por despertar a curiosidade do homem, pois este se virou para mim e colocou um lápis marcando a folha de seu caderno guardando o mesmo dentro de uma bolsa de couro preto. Dessa forma, pude reparar nos trajes que compunham o seu visual: uma camisa de botões branca e com algumas listrar na vertical em um tom de azul tão ou igual ao da minha própria vestimenta. Um jeans claro cobria suas pernas até pouco acima dos tornozelos e um tênis despojado deixava aquela combinação ainda mais perfeita.
Levantei meu olhar tendo tempo de observá-lo tirar os óculos de grau de cima do nariz e pendurá-lo no pequeno decote que os últimos botões abertos de sua camisa formavam. Esticou-me a mão direita e completou com o nome que eu nunca mais esqueceria.
–Sou Takashima Kouyou, mas pode me chamar de Uruha.
Partindo deste dia, meus encontros com Uruha se tornaram uma rotina. Todos os dias no mesmo horário e local, eu encontrava com o meu loiro dos cabelos esvoaçantes que devia estar observando borboletas, mas não. Como ele disse, só tinha olhos para mim.
E a cada instante ao lado dele, sabendo mais sobre ele, descobrindo tantas coisas fascinantes sobre aquela composição que era Kouyou, eu me apaixonava mais intensamente a ponto de chegar ao momento em que eu não me via mais sem sua companhia, sem seu amor. Eu não me via mais vivendo somente pelo Aoi.
Um namoro que durou exatos três meses. Somente um verão.
–Yuu...
–Hm? –Mostrei que estava ouvindo-o enquanto o abraçava por trás enquanto ainda estávamos deitados na cama em minha casa naquele domingo de manhã.
–Amanhã é segunda, ne? –Disse com voz baixa mostrando certo medo ou desconfiança. –Dia vinte.
–Sim... E?
–Eu tenho que ir embora.
–HÃ? –Sentei-me bruscamente na cama encarando Uruha que se virava de frente para mim. –Embora para onde? Por quê? Aonde quer chegar, Kouyou?
O loiro levantou-se da cama seguindo para o banheiro e batendo a porta com força. Primeiro eu fiquei sem entender e depois me lembrei de que ele era sensível quando alguém gritava consigo. Respirei fundo e me livrei do lençol que cobria meu corpo caminhando em passos lentos até em frente à porta.
–Koi... Desculpa por ter gritado, sim? –Bati na porta levemente ouvindo um choro baixinho lá dentro. –Não chore. Vem conversar comigo. Eu estou mais calmo.
Ouvi quando ele abriu a torneira e lavou seu rosto amenizando seus gemidos. Destrancou a porta lentamente e colocou o rosto na fresta da mesma. Tentei parecer o mais relaxado possível porque só assim eu entenderia o que ele queria dizer com ter de ir embora.
Sentamo-nos novamente na cama e eu o segurei em meus braços fazendo um carinho em seus cabelos e deixando leves selos por seu rosto. Eu odiava vê-lo chorar por um motivo como esse. Nos meses que passamos juntos, eu já o tinha visto chorar algumas vezes, mas por causa de filmes ou quando eu lhe surpreendi com algum presente que ele realmente tenha gostado, como um colar que ele não tirava do pescoço.
–Meu tempo aqui em Mie acabou. Eu preciso voltar para casa. –Suas palavras começaram a queimar dentro de mim.
–Para casa? Você não mora aqui? Aqueles quem conheci não são seus pais? Você não trabalha com editoração de livros aqui em Mie? Uruha, eu não estou entendo. –Mantive meu tom evitando que ele se retirasse novamente.
–Estou aqui como intercambista, Aoi. Eu moro em Tóquio e os que lhe apresentei são os senhores que me cederam a casa aqui. Estou passando minha temporada de férias.
–Então tudo não passou de uma mentira?
Neste tempo todo, eu dediquei tudo ao que eu acreditava ser o homem perfeito para mim. Eu acreditava que poderia passar toda a minha vida ao lado dele. Uruha foi uma mentira. A minha mentira mais bonita e preciosa. Eu o guardaria mesmo que nunca mais fosse vê-lo. Eu cuidaria desse verão como se cuida de um filho.
Nada aconteceu para ser perdido ou esquecido. Aconteceu para que eu aprendesse que borboletas são terríveis bichinhos que nos iludem com essa beleza encantadora e que simplesmente voam para o além sem receio algum. Takashima era a minha borboleta e agora eu vivia a minha Tristeza de Verão.
Acabei por comprar o tal livro. Minami-San percebeu que eu realmente tinha gostado e não se importou em me vendê-lo. Passei muito tempo sem ler, pois estava ocupado demais com um amor que simplesmente virou pó em frente aos meus olhos.
Eu não conseguia sentir ódio do loiro. Eu o amava tanto que todo e qualquer outro sentimento que eu pudesse nutrir por ele não chegava aos pés do meu amor. Quando eu amo, eu grudo. Quando eu amo, eu cuido. Quando eu amo, por mais que eu veja que é preciso, eu não esqueço. Quando eu amo... Eu morro por amor.
“Por Tom não corresponder seu amor, Angelina acabou morrendo sobre a sombra de sua árvore frondosa.”
Creio que toda história de amor que se passa em um verão acaba da mesma forma. Creio eu que meu fim não será diferente do de Angelina-chan. Terminar de ler esse livro foi pior do que escrever minha própria história. A cada frase, palavra e declaração, eu sentia que eu ia afundando no esmo que se tornou a minha vida.
Uma vida que me dediquei tanto e terminou em um verão. Por você, Uruha, eu entreguei tudo o que eu tinha sem nem olhar para traz. Eu entreguei meu corpo, alma e principalmente o coração que você acabou levando consigo para Tóquio.
Pelo menos agora minha tristeza teria fim. Naquele dia, olhando pela janela daquela biblioteca que tinha vista privilegiada para o parque e para o banco, acabei adormecendo debruçado sobre o meu livro após ler a última linha.
Dormindo. Sonhando. Subindo e esperando o paraíso que nunca seria tão bom quanto seus braços.
Notas finais
Tem muito do que eu estou passando nesse textinho e eu espero que vocês tenham lido com carinho e que me deixei reviews sinceros nem que seja somente com um "gostei" ou algo do tipo.
Espero que entendam e não desanimem, pois logo eu volto atualizando as outras coisinhas. Assim espero, ne.
Até mais.
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