Summer Sunshine
1 Malibu
Notas iniciais
Malibu, Fevereiro de 2022.
O primeiro emprego
Se eu tivesse um pingo de vergonha na cara, eu nunca mais voltaria nessa loja. Vergonha na cara eu até tenho, porém, meu amor pela Sra. Swan era maior do que isso.
Mas para a surpresa de ninguém, o que eu sentia de amores por aquela doce velhinha que me atendia todas as manhãs, eu sentia de nojo de Isabella Swan, sua neta.
Não me leve a mal, eu verdadeiramente tentei ser o mais gentil possível desde o primeiro dia em que coloquei meus pés naquela loja e ela me cumprimentou com suas patadas.
E o pior disso tudo é que Isabella era um doce com os demais clientes, sua implicância inexplicável era apenas comigo. Certa vez abordei a Vovó Swan sobre o motivo de tanta raiva em sua neta, naquele momento, descobri que Isabella – ou Bella como os íntimos a chamavam – era órfã e talvez por isso ela fosse assim tão “fechada” como descreveu sua avó. Ela não era fechada, era uma ignorante insuportável mesmo, mas não seria eu quem discutiria isso.
— Bom dia, meu filho, como você está? Veio arriscar nas ondas hoje? – A doce senhorinha me cumprimentou com um abraço.
No mesmo dia em que sua neta me tratou como o lixo da primeira vez que apareci na loja, a Vovó Swan foi o total oposto e desde então mesmo que Isabella sempre esteja lá para me dar um pé na bunda, a gentileza e o carinho da senhorinha sobressaíam as grosserias da neta.
— Bom dia Marie, eu estou bem e você? Vou tentar arriscar hoje, afinal, o que seria melhor numa manhã de sábado?
— Você não aparecer... – Isabella resmungou do caixa.
— Isabella! – A senhora Swan repreendeu e pude vê-la ruborizar.
— Ah, Vovó, ele perguntou, estou apenas respondendo. – Deu de ombros.
— É bom te ver também, Bella. – Enfatizei o apelido que eu era proibido de pronunciar.
— Eu estou bem também, querido, o movimento está de vento em polpa e como Bella está mais tranquila nas aulas da faculdade por estar de férias por agora, consegue me dar uma mãozinha, mas você sabe né? Ela é só uma moça, carregar essas pranchas com sua avó não é seu sonho de vida. – Ela sorriu.
— Vovó, eu já te disse que isso não é um problema. – Isabella retrucou.
— Eu sei meu bem, você é muito boa comigo para reclamar de qualquer coisa. – A senhorinha afagou seus cabelos e pude ver a Swan dando um leve sorriso. — De qualquer forma, querido, se souber de algum jovem forte que queira uma rendinha extra avisa que estamos contratando aqui na loja? – Ela pediu.
Nesse momento, foi como se uma luz iluminasse os pequenos problemas de jovem rico que eu vinha sofrendo. Talvez eu não lembre sempre de anunciar, porém, eu estava à procura de um emprego de meio período, para que eu pudesse conciliar com a faculdade e pudesse pagar eu mesmo a minha parte do apartamento que eu dividia com Emmett e Jasper, meus melhores amigos de infância e agora também de faculdade.
— Quais os requisitos, Vovó? – Questionei.
— Não ser um babaca riquinho mimado igual você. – Isabella respondeu.
— Você é bem resmungona como uma senhorinha, mas não é com você que estou falando. – Rebati. — Então... – Continuei com a atenção voltada para a Sra. Swan, ignorando os sinais de dedo médio e xingamentos que Isabella proferia pelas costas da própria avó.
— Bem, basicamente é isso, ser um rapaz forte, com compromisso de horário, estar preparado para aguentar as criancices de Isabella e estar ciente de que não é um salário tão alto. – Explicou.
— E onde posso me inscrever? – Indaguei.
— Para você a vaga não existe. – Isabella resmungou.
— Você tem certeza, filho? Não sei se minha loja permaneceria intacta com você e Isabella...
— Se depender de mim, Sra. Swan, Isabella nem mesmo vai existir para mim se não for como uma colega de trabalho. Eu amo surf, sei tudo sobre os equipamentos, quais são os melhores e mais adequados para determinada prática e eu ainda fiz curso de primeiro socorros, isso deve ser um diferencial, certo? – Questionei ansioso.
Seria esse meu emprego dos sonhos? Trabalhar com uma das coisas que mais amo fazer no meu dia a dia.
— Não, seu diferencial é ser riquinho chato e mimado, já falei. – Isabella respondeu.
— Eu não vou te responder. – Retruquei decidido a ignorar suas provocações.
— Então se é o que você quer, está contratado. – A Vovó Swan anunciou e enquanto eu sorria de felicidade, Isabella olhava com ódio diante da decisão da avó.
— Vovó! – Ela exclamou.
— Sim, querida? – A senhorinha indagou.
— Ele não vai saber fazer nada, vai ser um folgado do caralho. – Reclamou.
Meu Deus, de onde essa mulher tira tanta raiva? Se bobear era capaz dos seus olhos castanhos ficarem vermelhos a qualquer momento em decorrência do seu ódio.
— E você será a pessoa educada, respeitosa e gentil que eu criei, filha. – A senhorinha rebateu. — Você também não sabia nada da loja, Bella, e agora será a pessoa experiente que ensinará o Edward, tenho certeza de que isso não será um problema, certo? – Indagou e pude ver a morena bufar. — Edward, aguarde um minuto, vou até o escritório pegar o contrato e uma caneta para que possamos acertar os detalhes da contratação, ok? – Ela informou e logo em seguida saiu do meu campo de visão, indo até os fundos da loja.
— Olha aqui, Edward merdinha Cullen, você vai falar para minha avó que tem outro compromisso e não vai poder lidar com as exigências do emprego. – Ela ameaçou.
— E por que eu faria isso, Swan? – A desafiei.
— Ou você faz isso, ou eu vou fazer da sua vida um inferno nessa loja.
— Bom, minha série favorita é Lúcifer. – Retruquei.
— Eu não estou brincando.
— E muito menos eu. – Rebati.
A Vovó apareceu novamente, pigarreando, interrompendo o momento em que Isabella colocava em evidência todo o seu ódio por mim.
Ela me entregou o contrato e uma caneta. Após acertarmos horários e salário, assinei o documento.
— Crianças, por favor, não se matem na minha loja. – Pediu com um sorriso brincalhão.
Se ela soubesse que sua neta era bem capaz de me matar na primeira oportunidade que tivesse...
O primeiro dia de trabalho
Acordei me sentindo mais animado para ir à praia do que o normal. Fiz minha higiene matinal, separei a roupa que iria usar no meu primeiro dia de trabalho e tomei um banho bem gelado para refrescar do calor comum da Califórnia.
De banho tomado, vesti a camisa que era o uniforme da loja e uma bermuda de praia. Coloquei meu chinelo e peguei meus pertences e a chave do carro.
Se meu relógio de pulso estivesse certo, eu estaria adiantado o suficiente para tomar um copo de café acompanhado de torradas com patê que Emm anunciou que preparou.
— Bom dia, irmão. – Cumprimentei pegando a torrada.
— Bom dia, playboy, o que te fez acordar tão cedo? – Indagou.
— Vai fingir que vai pegar onda para ficar secando a Swan. – Jasper implicou.
Meus amigos conheciam Isabella da Universidade, desde que contei para eles sobre o primeiro encontro com ela na loja, descobri que ela estudava no mesmo campus que eu, porém, desde que descobri, sempre que eu a cumprimentava, ela me ignorava completamente.
Aquela mulher era da pá virada, juro.
— Muito engraçado. – Resmunguei. — Não é isso, a Senhora Swan me ofereceu um emprego de meio período e eu resolvi aceitar. – Expliquei.
— Como? Edward Cullen trabalhando? Esme vai surtar quando descobrir. – Emmett zombou.
— Ele nem vai contar, é capaz da mamãe mandar a passagem de volta para que ele fique debaixo das asas dela. – Jazz implicou também.
— Vocês são chatos para a porra, viu? Ela já sabe, e ela aceitou numa boa, só para vocês ficarem sabendo mesmo. – Retruquei.
Ok, quando dei a notícia para minha mãe há dois dias, ela surtou com o discurso que não era meu momento de trabalhar, que isso poderia atrapalhar meus estudos e exigiu conversar com Marie antes.
Desde que entrou em contato com minha nova chefe, assim como todos que eu conhecia, ela também caiu nos encantos da Senhora Swan. A grande verdade era que minha mãe odiava surf e tudo que envolvia mar desde que ela se afogou ainda adolescente.
Creio eu que em sua mente, pelo fato de eu estar sempre em meio a ondas de tamanhos assustadores para leigos, isso só reforçava em sua mente os perigos em que eu estava.
Bom, mas não sou eu quem ela deve culpar e sim a meu pai, Carlisle, que me ensinou a surfar desde os meus nove anos, não é minha culpa se o surf chamou mais a minha atenção que o basquete ou o vôlei.
— Uau, mamãe Esme está muito mudada, vou ligar mais tarde para ela e contar que você está resfriado porque ficou muito tempo na praia. – Emm ameaçou.
Meus amigos adoravam implicar com o quanto minha mãe era protetora comigo, principalmente por eu ser o filho único.
Antes de me ter, Esme abortou cinco vezes e desde então ela não pode mais engravidar.
Foi quando Carlisle teve a ideia de adoção. Meus pais me adotaram quando eu completei cinco anos, e sinceramente? Não consigo me lembrar de um momento em minha vida em que eles não estavam presentes.
Esme e Carlisle eram meus pais, independente se era de forma adotiva ou não, eles eram minha referência para tudo e eu os agradeço imensamente por terem me dado uma nova vida e por isso não ligo por ser tão “mimado” por minha mãe, ela apenas me quer bem e seguro.
Sim, eu era o filhinho de mamãe, mas quem pode me julgar? Se tivessem uma mãe como a minha, certamente seriam iguais.
— Para cara, eu apoio você, amigo. Você é um cara inteligente, esforçado e tenho certeza de que foi por isso que sua mãe te apoiou. – Jazz apertou meus ombros. — Mas fala a verdade... – Lá vem merda — Você só quis esse emprego pela Swan, certo? Pode falar a verdade, somos seus amigos, vimos você crescer. – Jazz falou.
— Nossa, como vocês conseguem? Eu não posso ter paz? Não tem nada a ver com Isabella, vocês mais do que ninguém sabem que ela me odeia. – Respondi lavando a louça que usei.
— Não foi o que Rosalie falou. – Emm retrucou.
— O que Rosalie falou? – Rosalie ou Rose era a melhor amiga de Bella, junto de Alice, que era namorada de Jasper e minha colega de classe no curso de Direito.
— Olha, Jazz, ele está doidinho para saber o que a Bella fala sobre ele. – Emm zombou.
— Alice me contou que a Swan puxou uma aposta de que ele não dura mais de uma semana. – Jasper contou.
— Não acredito que aquela canalha fez isso, sério, qual o problema dela comigo? Eu nunca fiz nada com ela, se é pelo bolo que eu dei no dia do encontro de casais vocês estão de prova que eu estava mesmo com catapora, isso é mais comum do que parece! – Falei indignado.
Quais as chances de que a menina que mais me odeia na Terra ser meu par em um encontro de casais? E o pior, ela realmente acha que eu sou o pior ser existente simplesmente porque ela acha que inventei uma desculpa para não aparecer no encontro.
Ok, talvez esse seja um motivo real para que Isabella me odiasse, mas que culpa eu tenho se nunca tive contato com catapora antes?
— Cara, ela realmente tomou um ranço mortal da sua cara. – Emmett riu.
— Eu sinceramente já pedi desculpas, não sei mais o que ela quer de mim.
— Que você morra afogado da próxima vez que for surfar. – Jazz respondeu.
— Vira essa boca para lá, loirão. – Emmett socou o braço do meu amigo, fazendo o sinal do Pai Nosso em seguida.
— Vocês são absurdos, mas eu realmente preciso ir. – Me despedi dos dois pegando a chave do carro.
Após conferir se esqueci alguma coisa, fui até a garagem para buscar meu carro e liguei o rádio, ouvindo minha playlist mais recente enquanto fazia o caminho para a loja da Vovó Swan, em Malibu, alguns quilômetros longe do apartamento que eu dividia com os meninos.
— Você está atrasado. – Isabella falou assim que coloquei meus pés na loja.
Olhei em meu relógio, marcavam 08:01, ou seja, um minuto de diferença do que combinei com Marie.
— Tecnicamente, não estou. As 08:00 meus pés estavam na escada, então eu já estava dentro do território da loja, ou seja, dentro do horário. – Retruquei e ela revirou os olhos, voltando sua atenção para os frascos de protetor solar nas prateleiras.
— Tem café? – Perguntei depois de um tempo que fiquei empilhando as pranchas de surfe.
Isabella me lançou um olhar de reprovação, mas respondeu logo em seguida:
— Eu fiz mais cedo, quer? – Perguntou.
Uau, ela finalmente tinha aceitado minhas desculpas e estava sendo tão agradável comigo como era com as outras pessoas?
— Se não for incômodo, eu aceito uma xícara, por favor. – Pedi realmente agradecido.
Ela foi até a cozinha e esperei enquanto ela não voltava, voltando a atenção para o meu trabalho.
— Toma. – Ela cutucou meu ombro, chamando minha atenção.
Peguei a xícara e agradeci. No momento que iria colocar a xícara na boca, ouvi Marie gritando.
— EDWARD! – Ela exclamou.
Ah não, que merda eu fiz no meu primeiro dia de trabalho?
— Não bebe isso, meu filho.
— Vovó! – Isabella reclamou.
— Não bebe, querido. – Ela falou novamente pegando a xícara da minha mão.
— Está amargo? Isabella fez com boa vontade Sra. Swan, eu não me importo. – Mentira, eu odiava café amargo, mas a Swan quis levantar a bandeira da paz, não seria eu quem reclamaria de algo.
Isabella gargalhou e fiquei confuso.
— Ela cuspiu no seu café, querido. – A Sra. Swan prendeu o sorriso.
— Você não pensou mesmo que eu iria servir você de bom grado, né playboy? Acorda, não sou sua empregadinha. – Isabella zombou.
— Não se preocupe, meu amor, vou pegar um café fresquinho para você, sem cuspe dessa vez. Chega de atormentar o garoto, Isabella. – Marie falou e pela forma como Isabella ruborizou, soube que sua avó falava sério.
— Demônia. – Resmunguei quando estávamos sozinhos.
— Achei que Lúcifer era sua série favorita. – Retrucou.
O primeiro apagão
Eu completei hoje três meses trabalhando para a Sra. Swan. Três meses em que Isabella me torturava e tentava a todo custo acabar com minha paz, mas eu estava focado em meus objetivos, não seria ela quem atrapalharia isso.
Hoje o dia estava frio, propício para pegar ondas, afinal o mar estava bem rebelde. Como felicidade de rico também dura pouco, minhas férias acabaram e consequentemente as aulas da faculdade voltaram.
Após voltar as aulas, Marie era quem atualmente ficava na parte da manhã, enquanto eu e Isabella chagávamos próximo ao horário do almoço, que era quando terminavam as aulas do dia.
Isabella tinha praticamente os mesmos horários que os meus, então Marie ficava sozinha na parte da manhã em que o movimento era fraco e eu e Isabella estávamos na loja nos horários de maior público, que era após o almoço.
Assim que minha última aula encerrou, fui em direção ao local onde estava meu carro.
Quando passei pelo ponto de ônibus, pude ver Isabella correndo atrás de um, não conseguindo entrar no veículo a tempo. Sorri ao ver a praguinha praguejando Deus e o mundo a sua volta.
— Problemas no Paraíso? – Zombei, abrindo a janela e parando o carro próximo a calçada.
— Vai se fuder, Cullen. – Respondeu e começou a xingar novamente.
— Quer uma carona? – Ofereci.
— Pois eu prefiro que o chão se abra e um enorme raio caia na minha cabeça provocando a morte na hora. – Rebateu.
Meu Deus, como cabe tanto ódio naquele corpo minúsculo?
— Bom, se você prefere deixar sua avó na mão, pegando vários pesos e ficando cansada, tudo bem, eu fiz minha parte.
Levantei novamente a janela do carro e antes que eu pudesse dar partida, Isabella abriu a porta.
— Você não vai conversar comigo durante todo o caminho. – Ela ameaçou.
— Não faço questão. – Retruquei.
Durante todo o trajeto, ficamos em silêncio, às vezes eu podia ouvir Isabella bufar, mas tentei ignorá-la o máximo que pude.
Vez ou outra podia ouvir ela cantarolar algumas músicas que tocavam da playlist, porém decidi ignorar para não causar mais ódio em seu coraçãozinho.
Quando chegamos na praia, assim que estacionei o carro, Isabella abriu a porta e saiu.
— De nada! – Impliquei quando ela tirou as sandálias para andar na areia.
— Vai se fuder. – Ela resmungou alto o suficiente para que eu pudesse ouvir.
Entrei na loja e cumprimentei Marie, indo direto para o banheiro para vestir o uniforme, quando voltei, apenas Isabella estava na loja.
— Onde está sua avó? – Questionei.
— Virei seu GPS? – Ela rebateu.
— Definitivamente você não seria um bom GPS, só me manda a merda. – Respondi e se eu não estiver delirando, pude ver Isabella sorrir.
— Ela foi ao médico. – Falou depois de um tempo.
— Por qual motivo? Ela está mal? Aconteceu alguma coisa? Posso ajudar? – Questionei verdadeiramente preocupado com a senhorinha.
— Sossega, ela foi apenas fazer alguns exames de rotina. – Explicou e eu me acalmei.
— Ah sim, e por que você não foi? – Indaguei.
— Não é da sua conta, virou jogo de perguntas? – Reclamou.
— Neta ingrata. – Rebati.
— Para sua informação, animal, eu só não fui porque ela não quis, ficou preocupada em deixar você sozinho. – Ela revirou os olhos.
— Está com ciúmes, Swan? – Impliquei.
— Por mim você já estaria no fundo daquele mar ali. – Ela apontou para fora da loja. — Então não, zero ciúmes por aqui, Cullen. Marie é minha avó, antes de tudo. – Respondeu.
Durante o tempo que ficamos trabalhando, não trocamos míseras palavras. Quando anoiteceu, Isabella anunciou que em breve sua avó chegaria e que eu podia voltar para casa que ela iria fechar.
Bem, ela me odeia, eu tenho plena consciência disso, ainda assim, não iria deixá-la sozinha na loja, principalmente sendo de noite.
Mesmo que as luzes estivessem acesas, por conta do tempo nublado e frio, era quase impossível enxergar algo do lado de fora.
— Vou apenas terminar algumas coisinhas antes, se você permitir. – Respondi e ela assentiu, concordando.
Quando coloquei o último par de roupas de surfe no lugar, a luz que iluminava a loja apagou e eu pude ouvir um grito estridente logo em seguida.
— Que isso? – Indaguei tateando o vazio, para tentar entender em qual lugar da loja eu poderia ficar.
— Edward. – Ouvi Isabella falar desesperada. — Edward! Edward, cadê você? – Cada vez que ela falava, eu seguia o som da sua voz, até que enfim encostei em suas costas, fazendo com que ela gritasse novamente.
— Calma, Bella, sou eu, vai ficar tudo bem, calma. – Tentei tranquilizá-la e pude ver que Isabella chorava de forma desesperada.
Imediatamente me preocupei, por que ela estava tão desesperada? Será que ela se machucou por não enxergar nada no escuro? Acho que não ou ela estaria reclamando de dor, certo?
— Não me deixe sozinha, Edward, por favor, não me deixe no escuro, por favor. – Ela pedia.
— Eu não vou te deixar, eu vou ficar aqui com você, fica tranquila, eu estou aqui. – A tranquilizei, e nos sentei no chão próximo ao caixa.
Cantarolei a música que Esme cantava para mim nos primeiros dias em que morei em sua casa, noites em que minha mãe não dormia pois eu tinha terríveis pesadelos lembrando de forma inconsciente do tempo que passei no orfanato.
Peguei meu celular e a luz da tela foi o suficiente para iluminar o ambiente. Bella parecia mais tranquila, mas ainda assim chorava baixinho.
Disquei o número de sua avó e esperei enquanto a ligação completava.
— Marie, é o Edward, você está chegando? – Questionei quando consegui falar com a Sra. Swan.
— Ei, querido, o que aconteceu? Bella está ferida? – Ela questionou preocupada.
— Não, fica tranquila. Houve apenas um apagão e acho que ela se assustou. – Expliquei e eu pude ver a garota em meus braços estremecendo.
— Edward, filho, eu estou no meio do trânsito agora, seria pedir muito você ficar com ela até eu voltar? Eu vou tentar ser rápida, prometo. – Pediu.
— Não há problema, Sra. Swan. Vou cuidar dela até a Sra. chegar, não se preocupe. – Respondi.
— E Edward... – Ela suspirou e eu esperei paciente até ela continuar. — Não deixe que ela fique no escuro, por favor, tire ela daí. – Ela praticamente suplicou e eu concordei.
Depois de conversar com a Sra. Swan, tentei procurar de forma inútil uma lanterna, mas Bella estava tão atordoada que não soube me dizer onde estava.
Nesse momento, tive uma ideia.
— Bella? – A chamei.
— Sim?
— Você consegue se levantar? – Perguntei.
— Sim... – Ela disse baixinho.
— Então vem, eu tive uma ideia.
Quando saímos da loja, o tempo lá fora ainda estava escuro, aparentemente não foi só na loja que faltou luz, mas sim na praia toda, inclusive nos postes de luz que iluminavam a praia.
— Você pode me esperar aqui? Não quero que você ande assim. – Falei e eu pude ver pela luz da noite o seu olhar amedrontado.
— Eu não me importo de andar. – Ela falou com medo.
— Tudo bem, use o meu chinelo então. – Coloquei meu chinelo em seu pé.
Fui até o carro e o destranquei, ligando os faróis para que pudesse iluminar uma parte da praia.
Meu carro era uma Range Rover, então a altura do carro associada ao local onde ele estava estacionado, foi propício para iluminar o espaço para que Bella ficasse bem e segura.
— Está melhor? – Questionei.
— Estou, obrigada, Edward. – Ela agradeceu de forma sincera.
Peguei duas toalhas de banho que havia no meu banco traseiro e abri o mini frigobar do carro, pegando duas cocas e um chips.
Forrei o chão de areia e esperei que Bella sentasse e me sentei em seguida. Abri a coca para nós dois e o pacote de chips, nós dois comemos em silêncio, apenas o barulho das ondas quebrando era escutado.
— Nossa, se você perceber, eu fui bem idiota. – Comentei para quebrar o silêncio e ela me olhou confusa. — Meu primeiro pensamento foi buscar uma lanterna, assim que não consegui simplesmente te trouxe para ficar na frente do farol do carro e sabe o pior de tudo? Podíamos simplesmente ficar na loja e eu ligaria a lanterna do celular. – Completei e pela primeira vez Isabella sorriu para mim.
— Eu acho que meu grito afetou seus sentidos. – Ela comentou.
— Eu ainda estou tentando assimilar que Isabella Swan tem medo de escuro. – Impliquei e ela suspirou, ficando quieta demais.
Porra, as vezes eu só tenho que ficar quieto...
— Quando eu tinha sete anos, eu sofri um acidente de carro com meus pais. Estávamos em uma viagem para visitar o Inyo National Forest, era o meu sonho e foi meu pedido de aniversário desde o momento em que vi um documentário que minha avó assistia. – Ela começou a falar.
— Bella, se falar sobre isso te faz mal, por favor, me desculpa.
— Não, Edward, eu quero contar isso para alguém, na verdade eu acho que preciso disso. – Ela segurou em minha mão e eu a apertei, então Bella continuou.
— Desde que vi o documentário, meu sonho se tornou visitar aquele lugar, fazer escaladas, apreciar a paisagem... Mas isso nunca aconteceu. Minha mãe estava com a minha avó na loja naquele dia e mesmo que meu pai dissesse estar cansado para dirigir a noite, eu insisti que queria ver o amanhecer na estrada, se eu não tivesse insistido tanto... – Lágrimas voltaram a aparecer em seu rosto e eu a abracei novamente. — Naquela noite, enquanto meu pai dirigia em meio a escuridão, eu não sei se foi um coiote, um veado ou até mesmo um susto que meu pai tomou, mas ele perdeu o controle do carro e saímos da estrada. – Ela continuou. — O carro capotou mais vezes do que eu podia contar, a única coisa que eu ouvia além da lataria se chocando com a terra, era meu pai gritando para que minha mãe me salvasse. Depois que o carro enfim se chocou com o tronco de árvore, eu tive a noção de que estava presa em um carro de cabeça para baixo. A única coisa que consigo me lembrar era de Charlie pedindo desculpas a minha mãe e sussurrando que me amava, enquanto Renée me puxava para fora do carro. Eu vi meu pai morrer, Edward, mas eu ainda tinha esperanças de que minha mãe estivesse viva, mas isso também não aconteceu. Assim que minha mãe me tirou do carro, ela se apoiou na árvore e eu pude ver um grande pedaço de vidro da janela em sua perna, enquanto sua cabeça sangrava de forma significativa. – Bella estremeceu, provavelmente lembrando da cena. — Vários carros passaram depois, mas demorou até que alguém oferecesse ajuda. Um casal de turistas brasileiros viu o nosso carro fora da estrada e pediram ajuda, só consigo lembrar da mulher fechando os olhos da minha mãe morta e me pegando no colo, dizendo em inglês, com seu sotaque em evidência, que eu ficaria bem. – Ela olhou para mim e em seguida bebeu um gole da sua coca. — Logo conseguiram falar com minha avó e desde então somos só nós duas. É estranho, eu faço Psicologia, certo? Devia ser uma pessoa normal, sem traumas. – Ela riu. — Minha avó me incentivou a começar a terapia e desde que comecei a faculdade eu venho lidando com esse trauma nas sessões, mas o escuro me causa gatilhos inexplicáveis e eu não consigo controlá-los sozinha e a forma como aconteceu foi algo inusitado para mim – Explicou.
— Eu te entendo. – E eu realmente entendia pois fiquei muito tempo fazendo terapia por conta dos pesadelos no orfanato.
— Me desculpe por você ter que passar por isso, até que para quem odeia pobre você foi acolhedor com a dor alheia. – Ela brincou.
Se você parar para você, ela tem um jeitinho bipolar, repara bem.
— Eu odeio pobre? – Questionei e ela revirou os olhos rindo.
— É o que ouço sobre você. – Explicou.
— Eu não odeio pobres! – Reclamei.
— Não é o que se ouve na faculdade. Há boatos em que você falou que não iria ficar com uma menina do curso de Design porque ela usava perfume barato. – Ela contou séria.
— Eu nunca conversei com nenhuma menina do curso de Design! – Exclamei indignado com a mentira.
Ela me olhou desconfiada.
— Bella, eu juro pela vida da minha mãe. Eu não odeio pobres, juro por tudo quanto é sagrado nessa vida. – Exclamei novamente, desesperado para que ela acreditasse nisso.
Ela apenas balançou a cabeça, como se estivesse na dúvida se acreditava em mim ou não.
— Que merda, hein, cara? Que fofoca feia para se fazer sobre alguém. – Ela forçou uma empatia. — Se eu soubesse que era mentira, teria te poupado de algumas patadas.
— O que? Você me odeia por isso? – Questionei.
— Eu não te odeio, apenas só não me agrado da sua pessoa. – Corrigiu. — E bem... é quase isso, quando você me deu um bolo no encontro com o pessoal, isso meio que reforçou a narrativa de que você não se envolvia com pobre. – Ela deu de ombros.
— Você percebe o quão absurdo é isso? – Indaguei.
— Na verdade não, você é um rico fora das estatísticas.
— Mas isso que inventaram sobre mim é mentira, Isabella. Eu tive catapora, eu ligo para minha mãe agora para ela confirmar, eu nunca peguei catapora no orfanato, uma hora isso tinha que acontecer. – Tentei me defender.
— Orfanato? – Indagou confusa.
— Sim, você não sabe que sou adotado? – Questionei e ela negou.
Suspirei.
— Diferente de você, eu não perdi meus pais em um acidente, eles apenas não me queriam e mesmo que minha mãe biológica tenha ficado comigo por um tempo, quando completei dois meses ela me entregou para o orfanato, ou uma casa de grupo, que é o nome real dessa casa em que eu vivia. Minha mãe, Esme, participou de um evento beneficente e foi quando ela me conheceu. Eu estava tocando piano para os convidados e ela diz com os olhos orgulhosos de que o momento em que soube que ela era minha mãe foi quando eu toquei a música que tocou no casamento dela com meu pai, Carlisle. Desde então Esme sempre vinha me visitar, até que um dia ela perguntou se eu gostaria que ela e Carlisle fossem meus papais. – Sorri com a lembrança. — Eu respondi que sim e meu pai me entregou um papel, nesse papel dizia que eles estavam em processo para me adotar. Pouco tempo depois, eu fui morar com minha nova família e eu não me lembro de muitos detalhes da minha vida de antes e sinceramente? Eu não faço questão. – Fui sincero.
— Uau, Edward, nem sei o que dizer. – Bella falou realmente chocada.
— Eu sou um filhinho de mamãe sim, mas você não pode me julgar por isso. – Sorri.
— Mimadinho. – Zombou.
— Eu sou mesmo, mas estou melhorando nisso. – Concordei e rimos juntos.
— Crianças! – Vovó Swan apareceu no começo da praia e pude ver como ela andava de forma rápida para alcançar Isabella. — Como você está minha filha? Me desculpe por isso, eu senti em meu coração, eu não devia ter saído. Me perdoe, filha. – Ela pedia beijando o rosto da neta e a abraçando.
— Não foi sua culpa, vovó, por favor, não se cobre tanto. – Isabella pediu.
— Obrigada por cuidar dela, Edward, você foi um anjo encaminhado por Deus para proteger meu maior tesouro da vida. – Ela abriu um de seus braços livres e me abraçou também.
Iluminados pela luz do farol do carro, com o som das ondas do mar se chocando no começo da areia, pude ver o sorriso sincero no rosto de Isabella, seja qual tenha sido sua implicância comigo no momento em que coloquei meus pés naquela loja, teve seu fim naquela noite.
O primeiro caldo
Era uma manhã de sábado e eu e Isabella teríamos um compromisso importante hoje. Desde o dia na praia, eu e Bella desenvolvemos uma amizade, sim, o ódio que a Swan sentia por mim virou gratidão enquanto suas patadas tinham se tornado implicâncias de bons amigos.
Só havia um ponto faltando nessa questão. Desde que ficamos mais próximos, eu não estava mais tão a fim de ser só o amigo de Bella. Eu queria mais e ela parecia não ter se tocado disso ainda.
Chegávamos sempre juntos na loja, afinal dar carona a Bella se tornou um hábito. Dividíamos os lanches, playlists e até mesmo saímos juntos no tão esperado encontro de casal.
Bella não era tão avoada, eu tinha plena noção de que ela tinha conhecimento sobre meu interesse por ela, mas a mulher era tão tinhosa que provavelmente pensava que era coisa de sua cabeça.
Mas hoje eu tinha um plano, hoje Isabella Swan teria conhecimento sobre os meus sentimentos a seu respeito.
— Pensando de boca aberta? Virou peixe? – Ela implicou comigo quando me viu parado na frente da praia.
— Estava te esperando. – Expliquei.
— Bom, eu estou aqui. – Respondeu e então me atentei a sua roupa.
Assim como eu, Bella estava com roupa de surfe, afinal hoje eu iria ensiná-la a surfar.
Suspirei ao vê-la tão linda naquela roupa ridiculamente apertada.
— Para de olhar para os meus peitos! – Ela exclamou e eu ri envergonhado por ter sido pego em flagrante.
— Desculpa? – Pedi e ela me respondeu com um soco no ombro e um sorriso.
Passamos algum tempo na água, Bella felizmente tinha alguma noção da prática do esporte então passar por algumas ondas foi tranquilo. O tempo estava agradável e mesmo que a água estivesse terrivelmente gelada, ríamos o tempo todo, nos divertindo com o nosso programa do dia.
— Vai, eu vou subir na minha e você sobre na sua. Quando eu gritar vai você começa a remar, no três você pega impulso e sobe na prancha, a partir daí você coloca em prática tudo que te ensinei hoje. – Expliquei e ela assentiu atenta.
Deitei-me na prancha e assim que dei o comando, Bella também subiu na sua. Assim que mandei, começamos a remar juntos.
— Ok, Bella, presta atenção. Nos três: UM, DOIS, TRÊS! – Pude ver ela ficando de pé quase no exato momento em que fiquei também.
Conseguimos pegar uma onda rápida, não muito longa, mas perfeita para que Bella praticasse o que aprendeu.
Me sentei na prancha, procurando Bella pelo mar. Quando finalmente a encontrei, seu cabelo castanho molhado estava em todo o seu rosto, quase um cosplay de Samara do poço.
Sua animação era evidente e extremamente contagiante, quando ela sorriu de orelha a orelha, não tive como não sorrir também, feliz por ela ter se divertido.
— Gostou? – Questionei enquanto ela se apoiava em meus ombros, quando desci da prancha, nós dois boiando na água.
— Foi bom para porra, eu amei demais. Agora sei o porquê de você ter aceitado as minhas patadas. – Sorriu.
Ok, acho que essa era a hora.
— Não foi esse o principal motivo que aceitei suas patadas, Isabella. – Respondi.
— Ah, lógico, a vovó também faz parte do combo. – Revirou os olhos como se fosse óbvio.
Ela era tão sonsinha às vezes.
— Também não estou falando da Marie. – Rebati e ela me olhou confusa.
— Foi você, Bella.
— Eu? – Indagou e eu assenti, tomando coragem para falar tudo que vinha sentindo.
— Mesmo que naquela época eu não soubesse o real motivo, era você. Mesmo quando eu não sabia que era você, nosso destino estava interligado de alguma forma. Você me faz bem, Bella, é um dos motivos que me faz amar viver e eu amo você por isso. Eu sinto algo por você, Isabella. E sinceramente? Cara, eu espero mesmo não estar te assustando, mas eu não consigo mais guardar isso para mim. – Declarei e prendi a respiração com seu silêncio.
Merda, ela estava a muito tempo em silêncio, isso é ruim, né?
— Droga, quando eu treinei com o Emmett ele não reagiu dessa forma, merda, merda, merda! – Praguejei e ela gargalhou com meu desespero.
— Você tem um motivo bem merreca para viver, viu? – Implicou e então encostou sua testa na minha. — Obrigado por ter aceitado as implicâncias, as pegadinhas e a forma feia com a qual te destratei. No momento em que mais precisei você estava lá e eu nunca esquecerei disso. Não pense que o sentimento não é recíproco. Você me faz feliz todos os dias mesmo que não perceba, tentei te odiar no começo porque eu tinha medo, tinha medo de como lidar sendo amada e amando alguém além da vovó novamente. Obrigada por ficar, mesmo quando estava assustado e com medo do que eu aprontava. Eu te amo, Edward, desde o momento em que te vi na faculdade mordendo a ponta de um lápis e lendo um livro idiota sobre Direito. – Ela falou e eu fiquei surpreso com isso, porque até então nunca tinha visto Bella. — Alice me contou que você era a dupla de turma dela, e desde então me preparei para o encontro e você não ter aparecido mexeu com meu ego. – Falou envergonhada e eu ia me justificar, mas ela interrompeu. — Eu sei, foi a catapora, mas mesmo assim. Enfim, o que quero dizer é que o sentimento é recíproco, sempre. – Ela falou antes de beijar levemente meus lábios.
— Sorriam para a foto, crianças! – Pude ouvir a Vovó Swan gritando da praia e ao olhar para a areia, vi que a senhorinha tirava uma foto nossa. — Eu sempre soube que esse seria o destino de vocês – Ela gritava animada pela praia.
— Meu deus, será que ainda dá tempo de você provar que gosta de mim de verdade e me afogar? – Bella pediu vermelha como um pimentão.
Bom, quem diria que eu ficaria tão caído por uma garota que me tratou da pior forma desde que a conheci?
O que posso dizer para me defender? Talvez no meio de tantos traços da minha personalidade caótica, tenha alguma parte voltada para um lado sadomasoquista.
Virei de frente para Bella e a abracei, depositando um beijo demorado em seus lábios, saboreando algo que eu desejava há tempos.
Sorri feliz com o rumo da minha vida, parece que agora eu tinha muitos outros motivos além do surfe para visitar a praia de Malibu...
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