Summer Girl
1 summer slipped away into a moment in time.
00;
Sempre pensei que, ao tentar reconstruir memórias, muitas das informações seriam perdidas e tudo que conseguiria ver seriam flashes de imagens desordenadas e sem sentido. Entretanto, toda vez que lembro do verão de '98, até mesmo os mínimos detalhes estão lá.
Me lembro do primeiro ano da faculdade, da ansiedade compartilhada com os meus amigos de perder a virgindade, do tédio de passar tardes inteiras reclamando do desempenho da Inglaterra na Copa do Mundo e de outras coisas mais subjetivas; de como o cabelo ruivo dela preenchia o vazio do vento, como sua pele ficava quente toda vez que nos beijávamos e como que não importava onde quer que ela estivesse, meus olhos sempre conseguiam encontrá-la na multidão.
Na verdade, não é bem assim.
Acho que tentei manter todos esses momentos imortais por tanto tempo que acabei alterando algumas coisas no processo: as vezes me pergunto se ela realmente disse aquilo ou se foi só um produto da minha imaginação após escutar Boys Don't Cry. Além disso, o problema não está só nas lembranças, mas também no ponto de vista. Só eu sei como eu me sinto e nada me garante que ela se sente da mesma forma, que a nossa história é a mesma.
De qualquer forma, não acho que isso importe muito, não é?
Ela pode me considerar um tolo apaixonado, mas aquele verão continua sendo o meu verão favorito. E Lily Evans continua sendo, indiscutivelmente, a protagonista da minha única história de amor.
01;
Como disse, tudo aconteceu no verão de 1998 e, na época, ainda tínhamos o costume de passar o verão na nossa casa em Godric's Hollow. Não era uma cidade com muitas atrações, ela estava limitada a associações de remos localizadas perto da foz do rio, algumas praias, alguns bailes, um cinema, um fliperama e um boliche que estava caindo aos pedaços.
Não tinha muitos turistas por lá: as pessoas novas eram, geralmente, amigos dos moradores conhecidos ou alguma família de recém-casados que tinha decidido comprar uma casa no litoral. Outra coisa sobre Godric's Hollow é que os rumores eram sempre os mesmos; alguém tinha sido pego tendo um caso de verão com a pessoa errada, alguém estava se afundando em dívidas, alguém tinha se casado e algum filho rebelde tinha largado a faculdade ou feito alguma outra atitude considerada injustificável.
A única coisa fixa na minha rotina eram os treinos de remo que ocorriam pela manhã. O resto da tarde era preenchido por tardes entediantes no clube, chá com algum conhecido dos meus pais, filmes que não tinha visto por causa da faculdade, refrigerantes que comprava para Sirius por ter perdido no boliche e e-mails que trocava com Remus, um colega da faculdade de arquitetura. Também tinha alguns dias em que passava a tarde inteira caminhando pela praia (geralmente após discussões com o meu pai) achando que o mar, o sol e a solidão me mostrariam que todas as minhas percepções estavam corretas e que eu era mais sábio do que os outros pensavam.
É estúpido, eu sei. Mas imagino que seja um sentimento comum de quando você tem 19 anos: achar que todas as pessoas mais novas têm muito que aprender e que os mais velhos, em qualquer aspecto, estão atrasados. Pelo menos é assim que vejo aqueles anos e, ao lembrar das discussões que tive com os meus amigos (que, por sinal, nunca consigo me lembrar do assunto, só do sentimento de ser compreendido e de algumas falas que acabam ressurgindo de vez em quando na minha cabeça) sei que eles se sentiam da mesma forma. O passado não deveria ser reproduzido e o futuro, de acordo com os jornais, seria terrível; o que importava era a juventude, a chave para o progresso, a salvação da humanidade.
Não sei se acreditava nesse discurso, gosto de pensar que não, já que, agora, ele me parece idiota, mas talvez eu tenha ficado um pouco inspirado com a importância atribuída a mim. Não lembro muito das discussões com os meus pais (a prova de que elas eram igualmente idiotas), mas tenho certeza que elas envolviam promessas silenciosas de que eu seria melhor que eles.
Foi após passar duas horas observando o mar e tentando ter alguma ideia incrível (eu sempre estive atrás de ideias assim) que decidi mostrar a minha superioridade aos meus pais e caminhei os outros três quilômetros que me levariam até o clube, onde eles comentavam com outras pessoas sobre o mercado de ações. Talvez não estivessem, talvez estivessem rindo de histórias que vivenciaram em outra época, antes dos filhos, mas eu sempre associei meu pai com algum assunto entediante e, em '98, não existia, para mim, assunto mais cansativo que economia.
De qualquer forma, eu apareci por lá. Tinha tudo arquitetado na minha cabeça: pedir uma coca cola, falar com a Sra. Meadowes sobre o campeonato de remo e então passar o restante da tarde na mesa com os amigos dos meus pais, mostrando que tudo aquilo que eles diziam pelas minhas costas eram mentiras.
E foi naquela tarde que a conheci.
Uso conheci porque acho que tem uma grande diferença entre conhecer alguém, encontrar alguém e ver alguém. Eu já tinha a visto antes e até mesmo encontrado com ela, mas, quando isso aconteceu, em uma das cerimônias realizadas pelo clube (eles sempre encontravam algum motivo para criar um evento e cobrar entradas), passei o tempo inteiro me escondendo dela e de minha mãe para fumar cigarros que Sirius tinha roubado do seu pai.
Que fique claro que nunca fui um filho rebelde ou irresponsável e que não comecei a fumar porque aquele era o comportamento que certamente seria criticado pelos meus pais (eles não achavam fumar elegante e, desde que tinha lido em uma revista sobre os efeitos maléficos dos cigarros, minha mãe tinha aumentado o repúdio sobre eles) ou por alguma outra razão parecida. Tentei criar o hábito porque achei que aquilo fosse me deixar mais adulto; para mim, eu já era sábio o suficiente e só precisava que os adultos me reconhecessem como tal. Felizmente (eu acho), meu plano não deu certo: nunca aprendi a controlar a respiração e não sabia nem segurar o pequeno tubo de papel entre os dedos.
De qualquer forma, eu sabia quem ela era. Lily Evans. Sabia algumas coisas sobre ela também: que estava passando o verão com a irmã mais velha e o cunhado que tinham comprado a antiga casa dos Rosier (uma das famílias envolvidas nos rumores do segundo tipo); que era escocesa, nascida em Nairn; que era dois meses mais velha que eu; que cursava direito em uma faculdade na Escócia; que tinha alergia a lagostas; e que, de acordo com a minha mãe, era uma "garota fantástica".
Já tinha escutado esse tipo de descrição diversas vezes. Na verdade, acredito que a minha mãe estava mais empolgada com a ideia de eu ter uma namorada do que eu: todo verão eu era apresentado a uma mão de garotas que eram encantadoras, inteligentes, divertidas e que iam combinar muito comigo. Era sempre alguma prima, sobrinha ou afilhada de alguma mulher que ela tinha feito amizade com durante as sessões de bingo.
Apesar dos inúmeros elogios da minha mãe sobre ela, no primeiro momento ela não me pareceu tão atraente assim. Digo, ela era bonita, os cabelos ruivos dela se destacavam e os olhos dela não pareciam esmeraldas, eram esmeraldas, mas eu tentava ignorar isso, já que, na minha cabeça, ela era o tipo de pessoa adorada pelos meus pais e, portanto, era alguém que eu deveria manter distância.
Foi ela que falou primeiro.
Me lembro desse momento, de quando a vi me olhando pela primeira vez: minha mãe se virou e me viu, sua boca ficou num formato de um "O" enquanto ela soltava uma exclamação e Lily Evans virou o rosto para encarar qual era a surpresa, para me encarar.
Não me lembro qual era a roupa que ela estava usando e nem o corte de cabelo. As vezes penso que ela tinha o cabelo curto, mas então me lembro de enrolar algumas mechas do cabelo dela no meu indicador enquanto ela estava deitada no sol lendo alguma coisa. Para essa cena, gosto de imaginá-la com o cabelo preso em um daqueles rabos de cavalo que nunca fui capaz de reproduzir (nem mesmo em Sirius, que passou por uma dessas fases) e o típico uniforme branco de tênis.
A imagino assim para me justificar. Afinal, esse é o poder do narrador, não é? Você sempre pode alterar alguma coisa ou outra e tentar convencer quem quer que estiver lendo de que o protagonista tem razão em agir daquela forma.
— Você deve ser o James. Eu sou a Lily. – disse, estendendo uma mão para se apresentar. Foi engraçado ela achar que uma apresentação fosse necessária. – Sua mãe fala muito sobre você.
— Só coisas boas, eu espero. – Foi uma frase que tinha aprendido nos filmes. Umas das cenas em que todos os personagens riem, mas que, na vida real, só resultam em sorrisos de pena.
Eu me sentei ao lado dela. Não estava nos meus planos. Deveria ter ido falar com a Sra. Meadowes, comprado uma coca cola e contado todas as coisas inúteis que tinha aprendido durante aquele semestre na faculdade para impressionar desconhecidos que não veria até o ano seguinte.
Mas então impressioná-la, quer dizer, desbancá-la, se tornou a minha prioridade. Não consigo explicar; era algo nela, o uniforme de tênis, o sotaque escocês, o rabo de cavalo praticamente desfeito. Algo que dizia que ela era melhor que eu em todos os sentidos. E eu só era um adolescente de dezenove anos que queria continuar acreditando que era o jovem mais inteligente do salão.
— E então? Como está sendo o seu verão? – eu perguntei, antes que ela perguntasse alguma coisa ou desviasse o rosto, distribuindo a sua atenção em outra pessoa ou assunto.
— Bastante inglês, eu imagino. Caminhadas diárias, bastante chá, conversas entediantes sobre príncipe William e incontáveis derrotas em partidas de tênis.
— Acho que isso não é a descrição de um verão inglês, apenas um verão nessa parte do país.
— Tem certeza? Passei uma semana em Londres e as coisas não eram muito diferentes. Bem... tirando o fato de que eram incontáveis derrotas no xadrez, não em tênis.
— Godric's Hollow é uma das extensões de Londres. O que você esperava? – Eu me arrependo de ter dito isso. Na ocasião, como já disse, tinha sido para mostrar superioridade; ela era uma garota do norte da Escócia e, pelo visto, era o seu primeiro contato com a irritante classe média alta de Londres. Meu papel era claro: promover uma hierarquia.
— Honestamente? – ela esperou pelo meu uhum. – Algo bem Mary Poppins. Você sabe... entrar em desenhos de giz e dançar com pinguins.
— Cantar em telhados?
— Oh, claro! Não é Marry Poppins se não tiver limpadores de chaminé cantando em telhados. – Lily Evans tinha sardas espalhadas por toda a bochecha. Era absurdamente fofo.
— Você deve estar decepcionada então. – disse isso tentando retomar o assunto. Tínhamos sido interrompidos por um garçom trazendo uma soda e, consequentemente, fazendo com que Lily virasse o rosto para se concentrar no que Mr. Diggory falava. Aposto que era sobre política; Mr. Diggory era o mestre em criticar o primeiro-ministro.
— Não vou dizer que estou completamente feliz. É melhor que ter ficado em Nairn com os meus pais, mas não deveria ter criado tantas expectativas. Minha irmã, Petúnia, disse que seria um verão mágico quando me convidou e fez dezenas de planos para nós, mas acho que ela esqueceu que é uma recém-casada.
— Ah, você foi abandonada pela sua irmã?
— Hm... Acho que é o contrário. Petúnia provavelmente não se importaria em passar mais tempo comigo, mas o meu cunhado... bem... eu não quero causar discussões. Ele quer criar contatos e exibir sua esposa e eu estou feliz em praticar meu tênis. Tenho certeza que será muito útil no futuro.
— É uma pena que só tem pessoas do dobro da sua idade aqui.
— Não me importo. – devo ter dado algum olhar cético, pois Lily Evans revirou os olhos e sorriu. – Ok, é um pouco chato fingir ter a mesma opinião que eles o tempo inteiro, mas é melhor do que ficar em casa fazendo a mesma coisa que faria se estivesse em Nairn. Sem contar que as vezes dou um pouco de sorte e encontro algum entediado da minha idade perambulando por aí.
Eu não consigo lembrar da expressão dela nesse momento. Não tenho certeza se o olhar dela me desafiava, mas certamente dizia alguma coisa. Talvez me convidasse a passar mais tardes com ela, de fazê-la minha companhia definitiva para o restante do verão ou talvez não dissesse nada e apenas olhasse para mim, esperando que eu comentasse alguma coisa ou o tempo necessário passar para dar aquela conversa como concluída.
Entretanto, lembro que a minha mãe perguntou se eu tinha desmarcado meus planos com Sirius aquela noite e, por causa disso, comentou com Lily sobre a nossa rotina de andar por Godric's Hollow, alternando entre o cinema, o boliche, a praia, a nossa sala de estar e a pizzaria dos pais de Peter Pettigrew.
E foi mais ou menos assim que eu convidei Lily Evans para sair pela primeira vez.
02;
Conheci Sirius no internato, aos 11 anos.
Não foi um choque quando descobri que a sua família também se refugiava em Godric's Hollow no verão (já que boa parte das crianças também eram de Londres e as suas famílias tinham a mesma rotina), mas foi uma coincidência valiosa; até conhecer Sirius, meus amigos de verão mudavam ano após ano, dependia das crianças que eu tinha sorte de encontrar no clube ou nos eventos sociais.
Desde então, passar meus dias ao lado de Sirius tinha se tornado uma rotina. Dividíamos o dormitório no internato e passávamos as férias juntos, seja brincando que éramos piratas no jardim da minha casa nos dias que fazia calor ou criando estratégias para xadrez quando chovia. Nessa época, Regulus Black – irmão mais novo de Sirius – se juntava a nós, mas, após crescermos, era difícil convencê-lo a sair com a gente: ele dedicava suas horas livres ao fliperama.
Quando entramos na faculdade, em '97, Sirius teve uma grande briga com os seus pais devido a faculdade. A mãe de Sirius queria que ele seguisse a carreira da família e fizesse direito, mas Sirius queria fazer algo associado a informática (área que achava fascinante) e, apesar de ter cedido e entrado no curso de direito, ele frequentemente discutia com a sua mãe e, por causa disso, dormia no nosso quarto de hóspedes por um tempo.
03;
Minha mãe também disse que íamos assistir "Zorro" e, aparentemente, Lily era, como todas as outras garotas de 19 anos, uma grande fã da Catherine Zeta-Jones. Me lembro da forma em que ela listava todos os trabalhos da atriz enquanto estávamos na fila para comprar os ingressos, da discussão que ela teve com Sirius sobre os trabalhos da Meg Ryan e de como eu achei adorável o fato dela de se virar para sussurrar algum comentário após alguma cena engraçada ou emocionante.
Descobri ser uma mania quando fomos no cinema na semana seguinte. Como eu disse, não se tinha muito o que fazer em Godric's Hollow e então sempre acabávamos no cinema; daquela vez, assistimos "Para Sempre Cinderela" (queria ter assistido "O Show de Truman" que estava prestes a sair do cartaz, mas tinha prometido a Sirius que assistiríamos juntos e ele não pode ir por ter um jantar de família) e ela tentou prever os diálogos, dizendo ser uma especialista em filmes "daquele tipo".
Identifiquei outras manias naquela noite. Por exemplo: ela constantemente tentava estralar os dedos, tentava sempre manter os lábios com um uma camada de protetor labial e tentava sempre olhar as pessoas nos olhos enquanto elas diziam alguma coisa. Essa última me deixava um pouco incomodado, já que, por parecer que ela escutava tudo, tinha medo de cometer algum erro ou dizer alguma coisa estúpida.
Aconteceu, uma vez, de irmos a uma livraria e eu ter feito um comentário mal elaborado sobre James Joyce e, por alguns instantes, achei que ela tivesse percebido que eu estava mentindo sobre ter lido Ulysses em uma semana. Lembro de tentar criar alguma desculpa esfarrapada para caso ela fizesse alguma pergunta, para caso ela decidisse que a minha companhia, de alguma forma, não era mais útil; porém, ela só sorriu e fez uma piada que eu fingi ter entendido.
04;
Em 1998, um dos tios de Sirius faleceu e isso fez com que os Black retornassem a Londres antes do previsto. Por causa disso, sempre me pergunto como as coisas teriam sido se esse grande evento não tivesse acontecido.
É certo que desde Zorro, Lily tinha passado quase todas as tardes conosco, mas nós éramos um trio. Foi apenas quando Sirius voltou para Londres (sem nenhum aviso se retornaria a Godric's Hollow ou se só nos veríamos no próximo semestre) que nos tornamos uma dupla. Os momentos em que tinha Lily só para mim deixaram de ser pontuais e passaram a ocupar horas no meu dia-a-dia.
Após aquele momento, todos os e-mails que recebia de Sirius eram sobre como a família dele era um lixo; todos os e-mails que enviei eram sobre a minha obsessão com Lily Evans.
05;
Apesar de gostar da companhia de Lily, eu negava todos os comentários que insinuavam que nós éramos um "casal". Não era bem assim. Nós apenas estávamos juntos por uma questão de: aquela cidade era um grande tédio quando você tem 19 anos; velho demais para fazer coisas estúpidas e novo demais para ser considerado um adulto.
É claro que ainda tinha algumas opções divertidas, afinal era 98 e estávamos na Inglaterra. Existiam algumas festas, algumas drogas e até mesmo alguns eventos (como uma festa fantasia patrocinada pela pizzaria dos pais de Peter e até um baile temático organizada pelo clube) e não é como se eu fosse contrário a tudo isso (tinha até mesmo comparecido a alguns deles com Sirius), mas tudo era bastante igual: a progressão de acontecimentos era a mesma; as reclamações eram as mesmas e até mesmo as pessoas eram as mesmas.
Sei que isso soa um pouco absurdo. Não vou negar que, na época, achava ser diferente dos demais (por mais que isso soe absurdamente vergonhoso toda vez que penso a respeito), mas também é preciso levar algumas coisas em consideração: estava tentando ser reconhecido – pelos meus pais, pelas pessoas a minha volta, por mim mesmo – e também estava cansado do cotidiano.
Até então a minha vida tinha seguido um cronograma restrito: até os 11 anos morei em Londres com os meus pais, tendo aulas com uma tutora, depois fui enviado para um internato e só voltava para casa nas férias de inverno (que passávamos no norte, já que minha mãe não suportava Londres no inverno) e nas férias de verão ia para Godric's Hollow e o restante você já sabe; na adolescência, frequentávamos os eventos em busca de diversão e de "liberdade", mas não era tão divertido como parecia quando éramos crianças e, em 98, parecia bastante monótono.
E não é como se as minhas férias de verão fossem muito diferentes da rotina na faculdade. As pessoas diziam que as coisas iam melhorar e, afinal, só estava no segundo semestre, mas não parecia bem assim. Participar dos clubes pela manhã, assistir as aulas de tarde e frequentar o pub de noite e, nos finais de semana ou após as provas do semestre ir a alguma festa clandestina organizada pelo campus; me sentia dentro de um ciclo.
Parecia que esse seria o meu futuro: em algum verão, o plano da minha mãe daria certo, eu conheceria uma garota, nos apaixonaríamos, trocaríamos e-mails, eu viajaria para encontrá-la nos finais de semana e nos casaríamos assim que eu terminasse a faculdade ou até mesmo antes. Compraríamos uma casa em Godric's Hollow, teríamos filhos e então repetiria a vida dos meus pais, que repetiam a vida dos seus pais e assim por diante.
Portanto, eu tentava evitar qualquer coisa que me lembrasse daquilo, apesar de, ao fazer isso, estar criando outra rotina que, no fim das contas, não era tão diferente assim. E, toda vez que escutava insinuações sobre o meu relacionamento com Lily, minha primeira reação era negar: nós éramos apenas amigos; ela não era A garota; eu não seria como eles.
Isso não parecia incomodá-la, no entanto. Por sinal, é uma das coisas que lembro com mais clareza: o sorriso dela. É como se ela soubesse, bem, acho que ela sempre soube e acho que eu sempre soube também, mas o sorriso dela em todas aquelas ocasiões se mantêm frescos na minha memória. Ela sorria, os olhos dela brilhavam, e, por um instante, ela sabia de tudo.
06;
Nosso primeiro beijo foi na final da Copa do Mundo.
Gosto de imaginar ela usando as roupas do Brasil, já que, como britânicos, seria um crime torcer a favor da França, mas sei que isso não aconteceu: Lily disse que não via mais graça em assistir os jogos depois que a seleção da Escócia foi eliminada; e, mesmo se ela estivesse empolgada para final, o convite para assistir ao jogo na residência dos Rookwood veio como uma surpresa, enquanto caminhávamos pela margem do rio.
No meio do jogo, quando a derrota do Brasil já era iminente, saímos calmamente da sala onde todos estávamos reunidos e fomos para o quintal. Tinha ali alguns adultos segurando copos de cerveja ou de drinques e algumas crianças correndo pelo pátio. Nos sentamos na grama e fui tomado por uma sonolência enquanto ela falava sobre como tinha sido o jantar com Petúnia e Vernon, sua irmã e seu cunhado, respectivamente.
Em algum momento adormeci, já que lembro de acordar com Lily acariciando o meu cabelo enquanto tentava se esconder na sombra das nuvens e árvores. A algumas horas dali, o jogo terminava com 3x0 e eu conseguia escutar uma certa reclamação dos adultos na sala com a TV.
Lembro de olhar para ela. Gosto dessa memória. Toda vez que recrio esse momento, no ponto de vista de uma terceira pessoa, vejo um casal embaixo da árvore; a garota está em silêncio e, sem que ela saiba, ele furtivamente olha para ela e eles se encaixam perfeitamente no espaço, pertencem a ele.
Também me lembro da realização que tive ali. Do silêncio que a transforma na mulher mais bonita do mundo e, sem perceber, se aproxima e a beija; porque é inevitável.
07;
Remus me mandou um e-mail naquelas férias dizendo que ia passar alguns dias em Londres e, como Sirius estava por lá, me perguntou se não queria pegar um trem para a capital e ficar um dia com eles.
Considerei essa possibilidade por uma semana, mas acabei recusando, usando a desculpa que não podia ir para Londres por causa do campeonato de remo. A verdade era clara para mim e provavelmente também era para eles: eu queria ficar com ela.
Já estava apaixonado. Pelo menos considero que sim. Eu simplesmente não conseguia me cansar dela, das suas palavras, das suas reações, dos momentos que algum casal já tinha tido antes, mas que parecia como se fossem inteiramente nossos. Mas, naquele verão, nunca conversamos sobre isso; nossos sentimentos eram um segredo.
08;
"Você realmente não sabe jogar esse jogo ou só não quer machucar meus sentimentos?" – perguntei quando fomos ao fliperama. Tínhamos ido para jogar a versão improvisada de boliche que tinha no fundo, mas acabamos ficando presos em uma máquina de Street Fighter.
"O único fliperama em Nairn está caindo aos pedaços. Mas ainda acho que a minha coordenação é melhor que a sua. O que é engraçado, já que você disse que passa quase todos os verões aqui."
"Geralmente eu e o Sirius ficamos na máquina Space Invaders tentando bater o recorde do Regulus."
"O irmão mais novo?"
"Sim."
"Como ele está, por sinal? O Sirius. Ele e o tio eram próximos?"
"Hm." – eu ajustei a postura após ser nocauteado. – "Acho que não. Não é como se desse ser muito próximo de alguém com esse tipo de vida, mas acho que era o tio favorito de Sirius."
"Esse tipo de vida?"
"Você sabe. Estudando longe, sem ter motivos para pegar o trem ou o carro e atravessar o país para voltar pra casa. Esse tipo de coisa."
"Ah, sim."
09;
Nós nunca brigamos. Na verdade, é uma mentira, muita vezes discutimos devido a conflito de interesses ou por causa de livros; nosso gosto para literatura era bem diferente, ela gostava realismo mágico enquanto eu era fã de literatura alemã contemporânea. Por conta disso, nosso ponto de vista sobre a mesma situação e o mesmo objeto variava frequentemente.
Terminava, é claro, com um de nós cedendo. Ela mais vezes do que eu, o que, mais tarde, me deixava um tanto quanto nervoso, já que parecia o tipo de discussão que você aceita a derrota apenas para não continuá-la, porque ela já ultrapassou algum limite socialmente estipulado.
Mas essa raiva não durou muito tempo e, com medo de o meu orgulho afastá-la, até cheguei a ler alguns livros de Cortázar e Rubião. Por sinal, lemos juntos "Casa dos Espíritos" de Isabel Allende, que Lily tinha trazido consigo de Nairn para ler nas férias, porém confesso que não lembro muito da história.
Nossa sala de leitura era o jardim da minha casa, perto de uma fonte que meu avô tinha encomendado quando a casa fazia parte de sua propriedade. Estávamos tomando sol e, enquanto Lily lia – interrompendo-se para fazer algum comentário – eu tentava distraí-la dedilhando meu nome nas suas costas.
Mais tarde, naquele mesmo dia, uma tempestade caiu e tivemos que encontrar refúgio na casa. Meus pais, presos no salão de chá da Sra. Jones, não deram importância quando avisei que Lily ficaria lá até a chuva passar e Lily apenas riu quando informei que não sabia fazer chá.
Ainda estava chovendo quando, depois de assistir Thesis e jogar scrabble, quando Lily ligou para a sua irmã. E, quando ouvi os meus pais chegando, já no fim da noite, Lily estava usando a minha camiseta e dormindo pesadamente ao meu lado.
10;
O campeonato de remo aconteceu no meio do mês de agosto. Naquele ponto, tinha que desviar das insinuações da minha mãe a respeito de uma possível briga com Lily já que ela tinha decidido reduzir o tempo que passávamos juntos: seu cunhado tinha ido para Londres resolver alguns assuntos pendentes e sua irmã queria aproveitar a oportunidade para passar tempo com ela.
Eu entendia a situação. Claramente. Petúnia tinha se mudado para Londres dois anos antes e, assim como a cidade natal de Lily, a faculdade dela também fica no extremo norte da Escócia; por isso era certo que, quando tivesse a oportunidade, Lily gostaria de passar o tempo ao lado de sua irmã, ainda mais quando, de acordo com Lily, seu cunhado era "extremamente desconfortável".
Aquela distância chegou em bom momento. Foi o suficiente para me dedicar mais ao treino e a passar mais tempo com os meus colegas de equipe, mas, mesmo frequentando mais eventos organizados pelo pessoal do time, ainda me sentia bastante solitário indo ao cinema sozinho.
Por as coisas estarem mais complicadas com a família de Sirius devido a questões relacionadas a herança e Remus estar focado em encontrar alguma experiência profissional, decidi não importuná-los com essas questões. O máximo de comentários que fiz foi com Peter Pettigrew, quando o convidei para uma partida de boliche e, depois, fomos para o restaurante dos pais deles.
Peter não deu nenhum conselho e estou certo de que, mesmo se tivesse recebido um, não teria seguido-o. Ele apenas escutou o que eu tinha para dizer, fez um aceno com a cabeça e me deu uma bebida grátis, por eu estar com "problemas".
Na época, associei todas essas questões como medo de ficar sozinho, porque era o que parecia óbvio; meus amigos que estavam lidando com "problemas" reais, meus pais continuariam sendo quem eles sempre tiveram sido e Lily, de certa forma, tinha me abandonado (apesar de achar os seus motivos completamente justificáveis). E eu estava bem. Relativamente bem. Ninguém tinha morrido e deixado uma herança para mim, não tinha nenhum irmão que tinha se mudado para longe e não tinha motivos para eu arranjar um emprego (apesar de ter considerado essa possibilidade apenas para entender uma parte do que Remus estava passando por). E reclamar sobre isso me soou infantil, carente por atenção ou qualquer coisa parecida; as pessoas não entenderiam o que eu estava sentindo, não por ser único, mas por ser uma coisa completamente estúpida.
Portanto, decidi focar no remo e em me socializar com as pessoas a minha volta, apesar de saber que elas desapareceriam assim que o verão acabasse. Naquelas semanas longe de Lily, voltei a ler autores europeus, participei de um campeonato de tênis que aconteceu em um fim de semana e até mesmo fui a uma festa na casa dos Jones, esperando encontrar alguém interessante por lá.
No último dia do campeonato de remo, Lily apareceu por lá. Com certeza o seu cabelo estava preso em tranças e ela usava um vestido branco, consigo a imaginar assim para a ocasião. Ficamos em segundo lugar e, quando caminhei até ela, ela disse que tinha sentido minha falta e me abraçou.
Após o jantar, minha mãe me perguntou se nós tínhamos "nos resolvido", já que ela viu a gente caminhando pela cidade após a competição. Eu disse que não era bem assim e que nós não estávamos juntos, mas duvido que ela tenha acreditado: lembro de ter deixado minha excitação clara para todos a minha volta quando a vi se aproximando.
11;
Não sei como aconteceu, mas lembro de que, em algum momento, criei uma contagem regressiva na minha cabeça. Quando chegasse no 0, as férias chegariam ao fim e eu seria mandado para o meio do país e Lily voltaria para onde veio e colocaria um fim no seu verão tipicamente inglês.
Mas até a contagem aparecer, nós estávamos vivendo como tínhamos vivido até ali; seguíamos a nossa rotina, caminhávamos pela praia, conversávamos sobre filmes, tomávamos café e, quando o silêncio nos encontrava, ela lia a primeira coisa que encontrasse e eu encontrava algum espaço no meu bloco de anotações para desenhar um esboço de algum prédio ou até mesmo dela.
"Por que você escolheu arquitetura? Foi por causa do seu pai?" – Lily me perguntou uma vez. Estávamos no meu lugar favorito: de frente para o oceano após entardecer. O céu ficava rosa e então roxo e então azul-escuro em questão de segundos. Provavelmente já tinha passado das oito horas.
"Bem... é a única coisa que ele falava a respeito quando eu voltava do internato, então acho que isso deve ter influenciado bastante, mas... é... acho que sim. Provavelmente é por causa dele, mas não quero seguir os mesmos passos que ele."
"Você sempre fala isso..." – ela começou a desenhar figuras na areia.
"Não é como se ele não fosse uma pessoa ruim, eu só acho que se fosse ele teria feito algumas coisas diferentes."
"Mas guarde as memórias boas em algum lugar, James. Eu tenho medo que você se arrependa disso depois."
Não lembro o que fiz após ela dizer isso. Se retruquei ou se fiquei em silêncio. Se ficamos mais tempo ali ou se nos levantamos logo e fomos embora. Mas mantenho essa frase sempre fresca, por alguma razão. Sei que ela não significa muito para ninguém além de mim e que repeti-la agora seria bastante vergonhoso, mas se tornou um momento em que eu carrego comigo, ao lado de "frases que não deveria ter dito" e "coisas que eu gostaria de ter feito".
12;
Quando o relógio apareceu, faltava cerca de três dias para voltarmos a Londres. Sirius disse por um e-mail que ia fugir de casa e largar a faculdade, aparentemente tinha recebido uma boa parte da herança do tio e poderia finalmente mudar de vida; haveria consequências e nós dois sabíamos disso, mas podíamos deixar elas rodarem em segundo plano e ficarmos felizes pelo ocorrido.
Naquele dia, Lily me devolveu todos os livros que tinha pegado emprestado da biblioteca do meu pai e, por alguma razão, aquilo me deixou ansioso. Foi a realização de um pensamento que, até ali, tinha dado o meu melhor para ignorar: o verão estava chegando ao fim e Lily era uma das pessoas que desaparecem para sempre e se perdem na memória.
Disse que, devido aos negócios de Vernon, não ficaria em Londres por muito tempo e logo seria mandada de volta a Nairn. Até então, não tinha nem mesmo considerado a opção de nos encontrarmos em Londres, gosto de pensar que a razão para isso é porque estava completamente absorto no espaço a minha volta e não porque inconscientemente já sabia que estávamos em uma rua sem saída.
Naquela noite, saímos para jantar. Uma forma de celebrar o fim da estação. Ela usou um dos vestidos que deveria ter usado em algum baile e, apesar do calor, usei o único terno que tinha trazido e que era absurdamente desconfortável.
Me arrependo de não ter dado algum presente a ela; uma prova física de que aquelas semanas foram reais, caso, em algum momento, ela se duvidasse deles. Talvez eu esteja pensando de mais, já que, como disse antes, sou incapaz de medir até onde os meus sentimentos foram correspondidos.
Também me arrependo de não ter dito "Eu te amo", ou qualquer coisa que passasse esse sentimento. É claro que, aos 19 anos, dizer aquelas palavras era estranho e, assim como em outros momentos, não tenho certeza se seria o certo, mas imagino que deveria ter dito algo, alguma coisa que fizesse com que... bem... com que ela se lembrasse de mim, eu imagino.
Tenho a mania de ficar ansioso com despedidas, mas, naquela situação em questão, me lembro das coisas terem seguido como sempre. Ela fez algumas piadas com o sotaque escocês carregado quando a levei na porta de casa e me deu um beijo de boa-noite antes de entrar. Foi só quando cheguei em casa que senti que tudo estava acabado.
13;
Disse, no início, que me recordo até mesmo dos mínimos detalhes, mas, não, não é bem assim.
Disse que nunca brigamos, mas sei que passamos algum tempo nos evitando por causa de uma discussão feia após eu ter jantado na casa de sua irmã. Disse que neguei a vida dos meus pais, mas sei que, principalmente na semana em que Lily ficou com Petúnia, considerei diversas vezes um futuro com ela. E também disse que nunca falamos sobre nossos sentimentos, mas sei que nos comunicamos por sinais e gestos que estávamos apaixonados um pelo outro.
Talvez, mesmo com as omissões, no fim das contas, essa história não parece tão impressionante assim. No entanto, é a história que representa, para mim, um ponto de virada; foi a última vez que fui em Godric's Hollow e, já no semestre seguinte, tive que assumir responsabilidades que, até então, me sentia protegido de. Manter essas memórias é fundamental porque foi o último verão em que as formas pareceram as mesmas, apesar de suas funções e seus significados terem sido completamente alterados.
Voltei para a faculdade em setembro sem Sirius, porque tinha decidido se mudar para Brighton. Antes disso, quando ele decidiu fugir de casa, passou uma semana e meia dormindo no nosso quarto de hóspedes e dizendo que, como agora eu era a única família que restava a ele, tínhamos que passar todos os feriados juntos.
Meus pais morreram em um acidente de carro em dezembro de '98, quando iam para a nossa casa no interior adiantar os preparativos para o Natal. No verão de '99, trabalhei em um escritório de arquitetura no sul da França e, quando terminei a faculdade, em 2002, vendi nossa propriedade em Londres, me mudei para Barcelona e, em 2006, fui transferido para um escritório de arquitetura em Edimburgo.
Foi apenas nesse verão em que voltei para Godric's Hollow. Durante esse tempo, emprestei a casa algumas vezes para alguns amigos, mas ela ficou vazia pela maior parte do tempo e agora precisa de uma dezena de reparos. O jardim, que era palco das minhas aventuras com Sirius e então o meu ponto de encontro com Lily está arruinado, a cozinha está com um problema de infiltração, os livros estão mofados e o meu antigo quarto não possui mais o perfume de Lily espalhado pelos travesseiros.
Mas, apesar disso, ainda gosto de preencher minhas tardes caminhando até praia. Como se o sol, o mar e a solidão me mostrassem que todas as decisões que fiz até aqui são justificáveis e que cheguei onde podia chegar.
De frente para o oceano, vendo o céu se tornar rosa e então roxo e então azul-escuro, eu tenho a certeza de que existe um universo, em que, assim que me mudei para Escócia, procurei pelo sobrenome Evans em escritórios de advocacia e que, após a chamar para sair em nome dos "velhos tempos", confessei o meu amor incondicional.
Notas finais
Se você gostou dessa história por favor comente! É muito importante!!!
Fale com o autor