Summer Camp
5 Só que não
Notas iniciais
[15 DE JULHO, QUARTA-FEIRA]
05:19 AM
Perdi o sono mais cedo do que eu esperava; ainda não era dia quando me levantei e entrei na água morna do chuveiro da cabana. Tudo estava apagado, quieto, exceto pelo ronco do professor Baldrick. Tentei ser o mais silencioso possível, andando nas pontas dos dedos pelo quarto em busca de uma troca de roupa, temendo acordar minha querida companheira de quarto. Tomar banho foi a melhor alternativa para fugir de Rose Weasley e de toda a sensação claustrofóbica que ela me causava.
Minha noite foi difícil, para não dizer irritante. Meu corpo inteiro começou a me trair depois de vê-la deitada, em sua cama, me olhando daquela forma estranha; foi um inferno dormir de bruços, excitado, bravo e ardendo. Excitado porque não era humanamente possível ficar contido perto de Rose Weasley, bravo porque eu sabia que era burrice cair na laia dela e, mesmo assim, eu queria muitíssimo cair. Não iria dar meu braço a torcer de forma alguma, mas não me importaria dela tentar me convencer, é claro, e só de pensar nisso eu ficava ainda mais duro. Precisava falar com Alvo urgentemente, mas não queria trair mais um dos meus ideais. Eu disse que eu iria ficar em paz em Hogsmeade, e eu ficaria. Fim.
Quando terminei o banho, me sentia mais calmo. Vesti uma bermuda, coloquei os tênis e peguei a pomada que Rose deixou em cima do criado-mudo para passar novamente nos meus ombros, e fiquei sem camisa esperando secar. Sentei numa poltrona perto da porta de entrada para ver o nascer do sol enquanto o acampamento não acordava.
Na época em que eu fui para o acampamento como um quase aluno de sexta série, costumava acordar cedo também, sempre animado e pronto para confabular planos novos junto com os garotos da sonserina e fazer de tudo para que o meu grande segredo não fosse anunciado aos sete ventos. Admitir sentimentos por uma pessoa não é fácil em qualquer idade, mas com onze anos as coisas são mais trágicas, visto que os garotos costumam achar as garotas nojentas e eu não estava disposto a contrariar esse fato para passar um vexame na viagem mais legal do ano. O problema foi que Alvo me convenceu de que, talvez, a história pudesse ter um bom desenvolvimento, porque tinha certeza que a garota também gostava de mim — só que não.
— Caiu da cama, Malfoy? — a dita cuja perguntou enquanto escovava os dentes.
— Bom dia para você também, cabeça de tomate.
Com o fim dos devaneios, coloquei uma camiseta e fui nas cabanas da sonserina acordar a criançada. Para a minha surpresa, Hilliard, Travers e Wilson já estavam de pé, trocados, e prontos para me derrubarem com uma avalanche de perguntas sobre as atividades do dia; Madson foi a primeira garota a sair lá fora e, aparentemente, não teve uma noite tão boa, sua feição era de quem estava triste e nem mesmo Hilliard conseguiu deixá-la nervosa logo de manhã.
— Eles estão felizes assim porque acham que vai ter uma guerra de argila durante a oficina — Rebecca apontou para os garotos falantes que andavam na nossa frente, claramente desaprovando. — Mas acho que vamos ficar com a corvinal e a monitora deles não vai deixar… Ela é muito brava.
— E quem disse que eu deixaria? — ela pareceu pensar por um tempo, aconchegando-se mais perto de mim. Ela era uma garotinha simpática quando não estava reclamando. — Sou um monitor tão bravo quanto ela. Ou até mais.
— Hmm, acho que conseguiríamos te convencer. Você é o mais legal daqui.
— Não posso discordar.
A guerra de argila realmente seria muito legal, diga-se de passagem.
Todos foram devorar o café da manhã como se não comessem há dias, e eu me incluí nesse grande grupo de esfomeados, enchendo meu prato de batatas, feijão, ovos e bacon. As garotas demoraram para sentar e, pelo o que eu pude perceber, Madson não era a única esquisita, visto que Roxanne parecia estar puta por alguma coisa e Alice demasiadamente sonolenta. Não interessado em me intrometer na vida alheia, deixei o papo sobre o colchão da cabana ser péssimo rolar, até que Rose apareceu na minha frente.
— Acordou com apetite hoje? — fiquei olhando para o sorrisinho irônico dela por um bom tempo, e ela pareceu se divertir com isso.
— Um pouco. E você? — seu prato não estava menos cheio do que o meu.
— Bastante.
Me rendi a uma risada, tentando me firmar o máximo possível na realidade para não entrar em mais um devaneio. O problema era que Rose parecia estar ficando mais bonita a cada dia e o diabinho do meu ombro esquerdo falava sem parar no meu ouvido: por que continuar levando uma birra de tantos anos sendo que você pode fazer outras coisas mais divertidas? E ele estava totalmente certo.
Com o início da oficina de argila, não tive mais tempo para os meus dilemas existenciais. A grande proposta era que as crianças fizessem uma escultura que representasse sua respectiva casa, e o grande empecilho era que elas estavam intentadas a fazer bagunça. Novamente, dividi a sonserina em grupos de cinco, mas Madson não parecia estar satisfeita em ficar com os garotos, mesmo eu perguntando se ela queria trocar de grupo.
— Ela está chateada, mas não com a gente — Jones, o nerd de óculos quadrado, disse enquanto eu distribuía a argila entre eles.
— Eu vou contar o que aconteceu — Hilliard, com a sua melhor expressão de seriedade, ergueu a voz.
— Você não sabe o que aconteceu.
— Fica quieto, Travers.
— Mas você não sabe!
— Deixa eu falar! — grunhiu, ficando com o rosto redondo ligeiramente rosa.
— Por que a Madson não conta, hum? — perguntei como se fosse óbvio, numa tentativa de amenizar o clima de tensão infantil instalado.
— Porque ela não está falando nada.
— Tá bom, então. Conta você, Hilliard.
— Aquelas meninas ali — ele apontou para a mesa das garotas da sonserina — foram muito chatas com ela.
— Elas falaram que a Madson é uma abóbora de halloween porque... — Travers abaixou o tom de voz, cruzando os braços sobre a mesa. — Ela é assustadora, brava e tem cabelo laranja.
— Provavelmente elas disseram isso porque gostam do seu cabelo — ocupei o lugar ao lado dela, pondo em sua frente um pedaço de argila; minha fala não surtiu efeito algum. — E te chamaram de brava porque você é a única que consegue aturar esses moleques.
— E a gente gosta de você, Mad — Jones acrescentou, ajustando o óculos no rosto. — Você é a garota mais legal que eu conheço, as outras são nojentas.
— É, elas sempre estão com o cabelo penteado e só passam aquela gosma esquisita¹ na boca — o argumento de Hilliard pareceu ser mais convincente do que o meu, pelo sorriso que aos poucos começou a mudar a feição de Madson. — Sem falar dos unicórnios que elas gostam tanto. Eles nem são reais!
— São sim — Wilson, o dentuço, pareceu se sentir ofendido, iniciando um debate sobre a existência de criaturas de um chifre só.
Depois de muita conversa e pouca execução, eles começaram a pensar no que poderiam fazer para a sonserina e como faturaríamos os quinze pontos do primeiro lugar. Tentei ajudar os três grupos igualmente, andando entre as bancadas e fornecendo mais argila. Ao final, tivemos uma cobra gigante que parecia um cocô, uma cobra enrolada num suposto cálice e, é claro, uma imitação do antigo jogo da cobrinha. Pela ambição, criatividade e trabalho em grupo, a sonserina conseguiu o primeiro e o terceiro lugar, um equivalente a vinte pontos na somatória da Taça das Casas. Eles ficaram até a hora do almoço confeccionando chaveiros como lembranças do acampamento, ansiosos pelo período da tarde.
A lufa-Lufa e a grifinória chegaram mais tarde no refeitório, quando já estávamos de saída, falantes sobre a incrível gincana na lama que tiveram. Talvez essa gincana fosse o auge da programação para as crianças, mas percebi que — pelo tamanho do sorriso na cara de cada um e a altura que conversavam — poderia ser o meu pior pesadelo.
A gincana consistiu num longo percurso lamacento cheio de obstáculos para se arrastar, dependurar, pular, se equilibrar e correr; a casa que conseguisse concluir duas vezes o trajeto, sem erro, venceria. Como sempre, os monitores tiveram que demonstrar como deveria ser feito o trajeto; a minha sorte foi que Rose perdeu no par ou ímpar e foi no meu lugar. O ápice do dia foi vê-la fazendo todas as peripécias necessárias para vencer o lamaçal, e escorregar algumas vezes; as crianças morreram de dar risada, e eu também. O único esporte que Rose praticava era correr atrás de Alvo para lhe bater, só.
Porém, as coisas ficaram mais difíceis para as crianças, porque Hooch achava bons motivos para fazê-las voltar ao início e elas não eram das mais habilidosas, de qualquer forma. A torcida pelas casas estava animada ao ponto de eu ter quase convicção que teria uma enxaqueca se continuasse ali por muito tempo, o que provavelmente seria o meu destino.
Ao fim, a sonserina conseguiu vinte e cinco pontos. Como comemoração, eles acharam que seria engraçado arrastar o monitor — eu — para a lama e realizar, finalmente, a guerra que queriam ter feito mais cedo com argila. Apesar de ter sido um momento bem nojento, foi divertido, e terminou com vários porquinhos correndo em direção ao lago para se livrarem da lama e não transformarem tudo num grande chiqueiro.
Foi imensamente satisfatório entrar na água gelada; o sol não estava tão ardido como no dia anterior, já passava das três e meia da tarde, as crianças estavam se divertindo e a noite teria uma fogueira com marshmallow.
— Suas costas melhoraram? — ainda estávamos na água quando Rose se aproximou de mim.
— Bastante — passei a mão pelo cabelo, tentando tirar os fios que estavam grudados no meu rosto. — Acho que estou te devendo uma pela pomada, foi a única coisa que eu não trouxe.
— E como vai me pagar? — ela pôs as mãos na cintura, me encarando com os olhos meio fechados por causa dos raios de sol em sua direção.
— Da forma que quiser — imediatamente, Rose deu risada. — Qual é a graça? Não me diga que está considerando a hipótese de uma massagem nos pés! Se estiver, a resposta é não.
— Credo, Malfoy. Eu estava pensando em outras alternativas, na verdade.
— Quais?
Antes de ouvir o que ela responderia, Hooch berrou com seu megafone para que todos voltassem ao marco-zero, o que foi decepcionante ao extremo. Rose deu ombros com uma falsa serenidade, batendo no meu braço para seguirmos a professora e recrutar os diabinhos.
Tivemos um tempo livre antes do jantar, mas foi totalmente preenchido pela maravilhosa atividade de espetar marshmallows em palitos de madeira; além de que o professor Baldrick me convocou para ajudá-lo a acender a fogueira. Por volta das nove horas da noite todos estavam se deliciando à beira do fogo, o céu completamente limpo e estrelado, com um cheiro de eucalipto impregnado no ar. Se eu achei que o lamaçal seria o meu pesadelo, era porque eu não contava com a hipótese de ter que ficar segurando palitos até às dez e meia da noite. Baldrick disse que seria perigoso e uma zorra caso as crianças se aproximassem demais do fogo, portanto, todos nós tivemos que entrar na dinâmica de serví-los. Não houve um minuto de trégua, meus braços pediam arrego, e eu suava mais do que o normal. A única coisa que me animou um pouco foi o que Hooch disse quando as crianças se levantavam para ir para as cabanas.
— Coloquem todos para dormir e aproveitem o resto do fogo, se quiserem.
As crianças não deram trabalho para se deitarem, pelo menos os sonserinos. Quando eu terminei de falar com eles e cheguei na fogueira, Roxanne já estava comendo e digitando no celular como se estivesse numa DR com Kira e Alice parecia estar desanimada. A salvação, ironicamente, foi a Weasley ruiva; o problema era que minhas mãos começaram a ficar gradativamente mais geladas e eu não conseguia prestar atenção no que ela falava. Eu estava completamente imerso num dilema existencial: ser trouxa e aproveitar o momento ou guardar um rancor infantil que não vai virar nada? As duas opções pareciam ótimas.
— É muito estranho estar aqui de novo — a Longbottom dizia. — Faz muito mais sentido aproveitar tudo isso com dez anos de idade, do que voltar com dezessete e sentir uma sensação meio… Não sei.
— Nostálgica? — arrisquei, me concentrando no marshmallow que eu ainda comia.
— Sim… Não sei vocês, mas eu não gosto de olhar para as coisas e lembrar de como elas eram. E, ironicamente, na época eu estava me sentindo mal por deixar a quinta série e começar um novo ciclo.
— Sério? Eu estava super animada pela sexta série — Rose deu risada. — Teríamos vários professores, mudaríamos para o prédio do colegial, isso sem contar as matérias novas.
— Quem que fica animado por matérias, Weasley?
— Ah — deu ombros —, eu queria fazer as optativas, entrar nos clubes, fazer coisas diferentes.
— A minha melhor lembrança da sexta série envolve o professor Binns, a cadeira dele e um chiclete — Roxanne suspirou cansada, erguendo o celular em busca de sinal.
— Não lembro disso — a ruiva disse enquanto se esgueirava para mais perto de mim. Tentei não olhar, talvez fosse o mais indicado.
— Eu ouvi falar, foi um pouco antes da festa de Halloween, não foi?
— Isso! Aí eu levei uma detenção e tive que ajudar os monitores a arrumar o salão. Bons tempos.
— Não dá para acreditar que você conseguiu a vaga da monitoria, Rox — Alice deu risada. — Embora o pessoal da sua casa se importe mais com o time de basquete.
— Nem eu acredito, se quer saber, mas o meu irmão conseguiu me convencer de que seria algo legal para constar para as universidades. Quando acordei para realidade, eu já estava implicando com crianças nos corredores.
— Entendo. Eu também achei que vir pra cá seria uma boa atividade voluntária e só acordei para a realidade porque meu colega de quarto ronca muito alto — revirei os olhos, sendo vencido por um sorriso.
— É o ronco do Baldrick, Weasley, não o meu. Hoje acordei mais cedo e pensei que o acampamento todo estava ouvindo aquela serra elétrica.
— Eu ouvi quando você fechou a porta do banheiro, levei um susto achando que tinha perdido a hora… E também pensei que você ia acabar com a água da cabana, ficou um século lá dentro — assenti para Alice, e, sem saber o que dizer, dei risada.
— No nosso quarto faz muito calor — era uma verdade. — Sempre acordo suando e… Eu demorei para dormir, acho que… Quatro horas de sono foi muito.
— Deve ser mais quente que o nosso mesmo — Roxanne riu, levantando-se do chão. — Vou colocar meu celular na tomada porque tenho uma discussão para terminar. Vamos? — ela cutucou a Longbottom.
— Meu celular já está carregando — murmurou, levando outro cutucão. Roxanne a olhou com uma cara de poucos amigos e, depois de um silêncio constrangedor, Alice subitamente abriu a boca, como se tivesse entendido. — Nossa, você tem razão, Rox, eu tenho que… Que… Eu tenho que terminar… Terminar de ver se as…
— Ai, Alice, vamos logo. Boa noite para vocês.
— Noite — eu respondi, um pouco atônito e confuso. Não era como se fôssemos ficar ou algo do tipo, além de que eu-
— Elas já foram melhores — a Weasley disse e, bem, eu apenas concordei. — Eu acho que a Alice tem razão.
— Sobre?
— Nostalgia. É estranho estar aqui de volta e viver coisas diferentes, embora… Algumas coisas nunca mudam — ponderei um pouco antes de olhar para ela, que me encarava com uma feição tranquila. — Você sempre foi meio… Acomodado.
— Acomodado? — arqueei a sobrancelha, incrédulo, esperando uma boa justificativa.
— É… Nas duas vezes que nos beijamos, eu que tomei a iniciativa.
— Que duas vezes? — franzi o cenho.
Eu me lembraria caso tivesse beijado ela duas vezes. A minha única lembrança era apenas de seis anos atrás, no último dia de acampamento.
O ônibus roxo já nos esperava, todas as crianças estavam lá fora com suas respectivas mochilas, os monitores desesperados implorando para que ninguém esquecesse nada, mas Alvo deixou o boné na cabana e pediu para eu ir buscar porque eu seria mais rápido do que ele. Fui correndo e, por sorte, estava em cima da cama dele. Quando eu peguei e dei meia volta, Rose Weasley apareceu na porta do dormitório, olhando para a entrada atentamente.
— Ah não, o que mais ele esqueceu? — perguntei desanimado, morrendo de medo do monitor me deixar no acampamento sozinho.
— Nada. Eu que esqueci de uma coisa.
O que ela poderia ter esquecido no dormitório dos meninos?, foi o que eu pensei segundos antes de ver Rose ficar cada vez mais próxima de mim.
Tinha sido difícil fazer de conta, durante a semana inteira, que eu não estava feliz por ela ter ido na viagem, disfarçar minha admiração quando a observava contar suas histórias quase sem fim; entender que ela era uma menina e que eu gostava dela foi o auge dos meus recém completos onze anos. E, de repente, me encontrar numa situação onde a boca dela estava relando na minha bochecha, que ficou toda melecada por causa da estranha gosma com cheiro de morango que ela passava, foi … Memorável, e também o motivo que me incentivou a mandar o estúpido bilhete no primeiro dia da sexta série — o culpado, inclusive, desse segundo beijo nunca ter acontecido. Infelizmente. Ou primeiro beijo. Teoricamente segundo, praticamente primeiro.
— Não nos beijamos duas vezes, Weasley — falei, ainda pensativo, alheio à situação real que acontecia. Talvez Alice estivesse certa, era estranho viver situações de anos atrás com dezessete anos.
Nem tive tempo de me preparar psicologicamente para o que se sucedeu, tampouco prever que aquela seria a segunda vez (ou a primeira). Rose endireitou o corpo, levou a mão na minha nuca — bem firme, inclusive, o que me arrepiou inteiro e fez meu coração quase sair pelo nariz —, inclinou-se na minha direção e quando estávamos próximos de realizar 1% dos meus sonhos não-ortodoxos…
— Scorpius — uma voz melodiosa me chamou, um pouco distante, fazendo com que ela me repelisse instantaneamente. Forcei minha visão atordoada para a criança e vi que era, isso mesmo, Hilliard.
— O quê? — grunhi, me levantando.
— Eu fui na sua cabana e a monitoria da grifinória disse que você estava aqui…— ele passava a mão na barriga num movimento circular, a expressão embargada de manha. — Meu estômago está estranho…
— Hm. Vamos ver se a Madame Pomfrey está acordada para te dar um remédio — coloquei meu braço nos ombros dele e olhei para Rose. — Eu vou lá… Com ele — ela assentiu, abraçando os próprios joelhos.
Levemente desapontado, acompanhei Hilliard até a Ala Hospitalar, fui chamar a Madame Pomfrey, que acabou dando um remédio efervescente para ele, o que rendeu um trajeto cheio de arrotos até a cabana dos meninos. Saí de lá só depois de vê-lo dormir, o que aconteceu perto da meia noite e meia.
Passei pela fogueira apagada apenas para me certificar de que Rose não estava mais lá, mas a encontrei deitada na cama, mexendo no celular. Sem saber muito bem o que fazer, peguei meu short de dormir para me trocar, escovei os dentes e… Voltei para o quarto, ajustando o ventilador, ignorando todos os pontos de interrogação que bagunçavam a minha cabeça.
Eu nunca tive uma resposta do fatídico bilhete. Talvez o pior foi vê-la se distanciar de mim ignorando que aquilo, de fato, aconteceu; e eu não tive coragem de confrontá-la sobre isso, afinal, era uma questão muito infantil. O problema era que sempre vinha na minha cabeça e que foi difícil superar minha quedinha por ela. Quando nos aproximamos novamente no colegial, foi mais fácil conviver usando a ironia e a implicância como escudos do meu ego, mas não foi uma alternativa tão eficiente assim, visto que eu me tremia inteiro quando pensava nela.
E não era uma tremedeira de raiva.
Antes de me deitar, senti vontade de lhe dar um beijo, mas… Não pareceu uma boa ideia, então eu virei de bruços, desejei uma boa noite de sono para ela, fechei os olhos e, em menos de alguns segundos, não tive forças o suficiente para me impedir de levantar e ir até a beirada de sua cama.
— Nós nunca nos beijamos duas vezes — ressaltei, assistindo seu rosto se contorcer numa careta que dizia claramente: fala sério! — Na verdade, nós nunca nos beijamos, praticamente.
— Muito relevante, Malfoy — riu, passando os dedos nos olhos. — Mais alguma observação?
Assenti, inclinando meu rosto sobre o dela para beijá-la.
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