Summer
4 O Caso de Juvia Lockser. - Ex... O que?!
Notas iniciais
− Eu não acredito que eu comi caviar de jantar... — Natsu cantarolava ao rodopiar pelos corredores da mansão. – E depois ainda teve o petit gateau.
− Acho que nunca me alimentei tão bem. – Freed estava com uma das mãos sobre a barriga estufada. Conhecedor das culinárias mais refinadas, ele aproveitara para experimentar tudo que os cozinheiros daquela casa poderiam lhe servir.
− Não é? Acho que essa é a primeira vez que concordamos em alguma coisa, Verdão! Ainda serviram aquele tal de ratta... O do filme, vocês sabem.
− Ratatouille, Natsu. – a resposta surgiu em um coro não planejado e nada simultâneo, todos cansados e sonolentos demais para tolerar aquela animação. Freed revirou os olhos. Tinha ignorado quando o rosado tentara lhe dar um high five.
Já era noite, e ninguém queria dormir tarde demais para não arriscar perder o que quer que fossemos fazer durante a manhã seguinte. Lucy nos dissera que as opções eram conhecer outras praias, o artesanato local ou simplesmente vagar até encontrarmos algo de diferente. Sua mente estava, na verdade, ocupada com a notícia de que seu pai retornaria no dia seguinte: seu olhar variava de Natsu para a cabeceira da mesa de jantar de tempos em tempos enquanto comíamos. Uma ligação tinha sido feita para ela no meio da noite, da secretária do senhor Heartfilia. Sem aviso prévio, ele chegaria mais cedo do que o esperado – na noite seguinte.
− Eu te apoio, se quiser. – Erza sussurrou no ouvido da líder de torcida.
− Todas nós, na verdade. – Chelia sorria, tentando ser gentil com quem lhe proporcionara aquela viagem. – Mas acho que ele vai saber agir corretamente, quando precisar.
Eu a apoiei no seu ponto de vista. O Dragneel nunca fora burro, muito pelo contrário. Era só relembrar como ele agira quando Gray me rejeitara que sabia que ele seria capaz de fazer aquilo. Mesmo assim, Lucy estava desconfortável em um nível que excedia o normal. Eu não a compreendia nesse momento: até então achava que sabia onde o rosado estava se metendo, mas comecei a duvidar. A loira sorriu e nos explicou que estava exagerando, contradizendo seu tom inseguro.
Todas paramos em frente às escadas. Não era hora para se conversar, nem o melhor lugar: Virgo já havia nos avisado que os quartos estavam prontos e era bastante enfática ao dizer que deveríamos sair do primeiro andar. Foi para cima que seguimos, acompanhadas um pouco de longe pelos garotos.
− Esse quarto de visitas é maravilhoso! – Mira se apoiou nos meus ombros enquanto subíamos, saltitante. – TV, camas enormes, ducha quente... A propósito, o colchão da janela é meu, Juvia!
Já tomáramos banho mais cedo, antes do jantar – não teria coragem se me sentar naquelas cadeiras chiques estando coberta da areia. Sem complicações, a divisão fora feita assim: um quarto para duas pessoas, separando-se garotos e garotas. Eu dormiria com Mira, Erza com Cana, Levy no quarto de Lucy (não preciso mencionar que esse era maior) e Chelia com Meredy. Seria uma ótima oportunidade para as duas últimas, que poderiam descobrir mais coisas em comum e interagirem entre si. Não só por terem a mesma idade, elas já vinham se aproximando. Os homens também se dividiram, de modo que Natsu dormisse com Gray, Lyon com Gajeel e Freed com Laxus.
− Hehe. — ouvi um som estranho por detrás de nós.
− O que foi, Cana? – Levy indagou, com uma das sobrancelhas franzidas.
− Você não sabe de nada, Levy McGarden. – ela citou em um tom que já me deu uma ideia do que viria a seguir. – Trouxe a última temporada de Game of Thrones, vamos assistir alguns episódios.
− Ótima escolha para relaxar antes de dormir, realmente. Aquela série é tão relaxante... – Meredy revirou os olhos.
− Mas eu quero. – Chelia colocou a face no espaço entre as duas.
− Eu também! – Laxus não precisou gritar para que sua voz reverberasse até nos alcançar.
Em questão de segundos todos estavam na entrada do quarto da morena, a pressionando até que nos deixasse entrar. Talvez não fôssemos dormir tão cedo, afinal. Melhor dizendo, não fomos. Assistir o amanhecer do dia seguinte de dentro de um quarto lotado foi encantador.
...
O litoral norte da ilha era cheio de pessoas tomando sol, vendedores ambulantes, homens e mulheres jogando esportes de praia e, principalmente, de adolescentes. Ainda que tivéssemos chegados atrasados – por volta de duas horas da tarde –, existia muito movimento nas redondezas. Entre famílias e indivíduos sozinhos, tínhamos que atravessar o fluxo de pessoas que voltava para suas casas em prol de finalmente chagarmos onde desejávamos. Não éramos os únicos, no entanto.
Achava interessante como, não importava se estávamos em uma região diferente, todos os jovens pareciam se comportar do mesmo jeito. Era algo natural, acredito. Entre os desconhecidos e nós, a maioria estava fazendo a mesma coisa (não que isso importasse): se reunindo em seus grupos, rindo alto e usando telefones celulares. Os garotos vestiam suas bermudas de praia enquanto nós usávamos nossos respectivos biquínis.
É, nós. Fora levada por Mirajane a uma loja de roupas de banho dias antes de viajarmos, ela tinha dito que não me deixaria ir para a praia com “aqueles maiôs sem graça”. O plano inicial havia sido simplesmente comprar qualquer um que não se parecesse com uma farda escolar, segundo ela mesma. Após eu experimentar algumas peças, no entanto, ela decidiu que o que eu realmente necessitava era de um cortininha, e não houve discussão que eu pudesse vencer. Já estava começando a me acostumar, mesmo que não gostasse tanto daquilo. Não me escondia atrás de Gray, porque, sendo franca, sabia que isso só iria chamar mais atenção. Além disso, ninguém estaria me encarando, apenas mais uma garota na praia. Fora algumas piadas infames de Gajeel e o sorriso idiota na cara do Fullbuster, a mudança passava despercebida.
− Da próxima vez que vocês derem algum risinho eu prometo que os chuto lá embaixo. – ameacei.
− Eu não disse nada. – o Redfox levantou as mãos como se estivesse sendo abordado por um policial. Empurrei seu ombro de leve.
− E você não era assim até alguns meses atrás. – franzi o cenho para Gray. Ainda era meio constrangedor vê-lo daquele jeito, era engraçado e fazia meu coração palpitar.
O moreno ficou meio pedido com o meu comentário. Não sempre isso acontecia, porém era como se por alguns segundos ele perdesse a noção de como deveria responder. Talvez apenas não quisesse dizer a verdade, mas também era possível que, apesar da atitude confiante, ele ainda não conseguisse esconder todo o seu constrangimento, sua timidez.
− E-eu...
− Ele sempre foi assim, na verdade. Achava que já tivesse aprendido isso comigo, Juvia. – Gajeel passou um dos braços sobre os ombros de Gray como se fossem cúmplices, ao que ele respondeu retirando-o dali quase que imediatamente. Não deveria se esperar nada de bom do roqueiro quanto ele tinha aquela expressão suspeita. – Senhor-sama simplesmente focou toda a frustração sexual dele em você.
Pode ter sido a escolha de palavras, não sei. Provavelmente Gajeel não queria dizer o que aquela frase insinuou, também não tinha noção de que teria tanto impacto. Normalmente eu não me importaria com um comentário daqueles e apenas o socaria, mas certas razões me fizeram enrubescer e encarar o chão do outro lado oposto ao que eles estavam, sentindo minha respiração ficar mais pesada. Sabia que Gray deveria estar reagindo do mesmo modo, e agradeci mentalmente quando o vi agarrar o de cabelos longos pelo pescoço e arrastá-lo para longe. Gajeel, confuso, apenas questionava o que de tão ruim tinha feito.
Não me compreendam mal: não era nada profundo ou muito sério do que aquilo se tratava. Mas, com alguns meses de namoro, as coisas vinham ficando mais... Vocês sabem. Não acho que precise descrever profundamente. Nenhum de nós precisava perguntar, sabíamos onde aquilo um dia iria dar. Já tentáramos conversar sobre o tema, mas eu ainda me sentia um pouco estranha com tudo aquilo. Ele também, ao que parecia, mas em grande parte isso se dava por conta das minhas reações (eu tinha quase certeza, ele somente não desejava me deixar desconfortável). Tudo estava bem enquanto não chegássemos ao “quase lá”, quando eu simplesmente parava. Eram algumas inseguranças, aquele pensamento de como tudo poderia mudar depois e como eu teria que me modificar para conseguir viver aquilo. Não sabia se o problema era mental ou corporal. Ter noção que aquilo acontecia por minha causa me deixava ainda mais incomodada.
Sentei-me em uma das cangas que havíamos estendido sobre a areia. Poderia ter ficado observando as ondas enquanto continuava a pensar naquilo, mas isso poderia fazer com que outros percebessem que havia algo diferente, e, além disso, eu sabia que o problema era passageiro e deveria ser resolvido depois. Também não desejava ficar alheia ao que ocorria enquanto todos se divertiam e perder o momento – isso era algo que ocorreria frequentemente se me deixasse levar pela minha imaginação. Por isso, acompanhei o grupo que se dirigiu para a água minutos depois.
− Você não vem, Freed? – Mira perguntou para aquele que se encontrava abaixo do sombreiro. Gray, Levy, Erza e Meredy também haviam decidido ficar tomando conta das mochilas, porém ele era o único que não havia se banhado nenhuma vez.
− Não gosto muito de sol, areia, calor... Essas coisas. – ele buscou ser sutil.
− Então você não gosta de praia? – Meredy perguntou.
− Basicamente. – Chelia bufou ao apontar para o que passara os mais recentes minutos se cobrindo de filtro solar. – Não é qualquer um que consegue essa cor não. Tem que se esforçar muito! Até hoje não entendo como ele gosta tanto de nadar, mas odeia isso aqui.
− Então por que veio, Freed? Quero dizer... Não foi isso que quis perguntar. – Laxus abordou-o, em seguida corrigindo-se. Apesar da amizade que tinham, ele parecia também estar surpreso. − Você vai conseguir se divertir aqui?
− Claro que vou. Além do mais, não havia nada de especial que eu pudesse fazer em Magnólia, e vocês iriam viajar de todo modo.
− Bem, até o fim das férias fazemos você mudar de opinião.
A resposta não foi das mais satisfatórias, mas nos calamos. Realmente, ao observar Freed, era mais do que claro que ele não estava confortável: se irritava ao tentar se concentrar em um livro e não conseguir, os longos cabelos em nada ajudavam a diminuir o estresse quando se estava com tanto calor. Ah, isso é algo que eu devo comentar: se eu achava que Magnólia estava quente, era apenas porque nunca tinha visitado a Ilha Galuna. Não ficaria impressionada se a qualquer instante os termômetros marcassem mais de trinta e cinco graus.
Os moradores locais, portanto, tiveram que desenvolver meios de lidar com isso. Inferi que já estavam acostumados, pois cada “nativo” que eu identificava estava extremamente sorridente e nem um pouco frustrado pelo clima. Mais do que o esperado, eles eram simpáticos e acolhedores. Isso, acrescido do cenário local, realmente fazia o espaço parecer algo saído de algum filme produzido em um país desenvolvido que relata as “maravilhas do mundo tropical” – geralmente muito estereotipado.
− O surf é bastante popular por aqui, não é, Lucy?
− Sim, sim. – ela respondeu após mergulhar na parte rasa em que nos encontrávamos. Gajeel, Natsu e Laxus já estavam mais à frente, se esbarrando e espalhando água por todas as direções. – Esta praia é mais conhecida por esse esporte mesmo, não tanto pelos banhistas. Hoje até que está bom, mas geralmente há muitas ondas grandes. Se você olhar para a área mais funda, dá para perceber.
− É, e também tem muitas pessoas alugando pranchas ou oferecendo aulas por aí. – Cana comentou, ao nosso lado. – Pensei até em pegar uma, não deve ser muito caro se tentar aprender sozinha.
− Eu já tentei quando era pequena, mas desisti depois de duas aulas. Meu pai não motivava muito, de todo jeito. – a loira deu de ombros. – Mas não é tão complicado assim, Cana.
Realmente, em cada direção em que olhássemos havia ao menos uma pessoa surfando ou segurando uma prancha, além de pequenas “escolinhas”. A Heartfilia explicou que aquilo era quase um esporte local, apesar daquela não ser uma prática tão comum no país como um todo.
− Estou adorando esse lugar... – a Alberona comentou.
Mirajane, que até então se mantera calada, apena sorriu de canto. Não havia nem disfarce da parte da outra para o fato de estar observando quem estava. Bem, no fundo, quem mais deveria estar aproveitando aquele ambiente era Cana. Não só pelos costumes da população que a agradavam, mas também porque ela era uma das únicas solteiras no nosso grupo e havia mulheres e homens bonitos em qualquer canto que se olhasse (sim, ambos) – e ela já tinha se mostrado bastante adepta a relacionamentos temporários. Desde que se abrira a respeito da sua bissexualidade, declarando na cara de todos que por quase um ano tivera uma queda por Lucy e que já havia beijado inúmeras garotas, ela parecia ter mais confiança para falar a respeito dos seus interesses românticos. Nunca fora discreta, e já desconfiávamos, mas era engraçado e bom ouvir o que tinha a dizer.
Aquela a ser observada tinha cabelos na altura dos ombros, pretos e lisos, pele acobreada e grandes argolas metálicas como brincos nas orelhas. Vestia um maiô estranhamente bonito e ao que tudo indicava confortável, preto e com algumas tiras que atravessavam a região do pescoço e início do tórax. Aparentemente não notava nossa atenção nela focada, concentrada demais em conversar com alguns dos garotos que a cercavam.
− E aí? Vai lá puxar assunto? – Mira questionou.
− Pode ser, mas estava apenas observando mesmo. Além do mais, e se ela não for...? – Cana franziu o cenho. − Essa parte é um saco, eu tenho que ficar tentando adivinhar. Não é todo mundo que reage bem se eu sair perguntando, sabem? Povo fresco!
− Você não tem nada a perder. – Lucy lhe deu um empurrãozinho amigável. Sorri em seu apoio também. No fundo, me sentia levemente como uma pateta por motivá-la a fazer algo com o que não tinha a menor experiência, noção de como ajudar ou apreço por.
− Se ela ou alguém for grosso, a gente está aqui... Mesmo que não ache que isso vá acontecer.
A morena nos olhou de esguelha, desconfiada. O que Lucy dissera não deixava de ser verdade, e, mesmo que ela não quisesse nada naquele momento, a conversa era um modo seguro de “apenas conhecer” a garota. Deixando isso de lado, nós três nos divertimos ao observar ela se aproximando devagar para quanto estava ao lado do grupo fingir que estava perdida e pedir informação sobre algo. Não era das ideias mais originais, mas sua atuação estava sendo perfeita. E foi em meio a aquela conversa improvisada que ela gesticulou em nossa direção, apontando para nós em seguida. Segundos depois, eles caminhavam juntos, Cana nos chamando.
− É para a gente ir lá? − Mirajane olhou para nós buscando alguma confirmação.
− Ai meus deuses...
− Isso não vai dar certo.
Mesmo que quiséssemos, nós não teríamos como fugir. Nos aproximamos o mais lentamente possível. Eu, em especial, tentava bolar algo interessante para dizer, já que era péssima de improviso. O grupo, composto majoritariamente por inúmeros homens, impossibilitava que enxergássemos a todos.
− Acho que encontrei a ajuda que precisávamos. – Cana nos contou, juntando-se a nós assim que os alcançamos. – Essa daqui é Otona, ela é natural da Ilha. Se quisermos, ela disse que pode nos mostrar os lugares mais bonitos.
− Sim, sim. Não sou exatamente uma guia, mas, se quiserem, estou à disposição. Faço esses bicos durante as férias. – ela sorriu mostrando os dentes, tentando ser simpática. Quem não seria? Éramos possíveis clientes.
− Nós também somos turistas, na verdade. – um dos garotos se pronunciou, com uma expressão de constrangimento. Ele era alto, tinha cabelos castanho claros e cacheados, sendo notável seu bronzeado. – Somos universitários, moramos em Hargeon.
Talvez ele esperasse que a informação tivesse algum efeito positivo sobre nós, porém ela não fez a menor diferença. Sabíamos que a cidade citada era bastante aclamada por formar profissionais bem qualificados, e que se eles estudavam por lá eram porque eram inteligentes em um nível mínimo, mas isso não nos dizia muito. Ele tentou então voltar para o assunto anterior, evidentemente decepcionado.
Enquanto conversavam, me deixei ficar alheia ao assunto. Era preferível, Mirajane sabia lidar muito melhor com aquelas situações. Não eram todos que se envolviam naquilo, de todo modo: basicamente Otona, Cana, Mira e mais dois garotos desconhecidos. Não posso dizer que foi porque tive um pressentimento ruim ou algo do tipo, isso geralmente não ocorre com ninguém.
Infelizmente, também não tinha a habilidade da super audição ou visão, senão poderia ter evitado tudo o que se sucedeu. Eu estava completamente previsível ao que quer que fosse ocorrer, encarando o monte de areia próximo aos meus pés, quando ouvi aquela voz que me fez sentir como se meu sangue houvesse sido completamente drenado.
− Juvia?!
Magicamente, lá estava ele, aquela cabeça erguida por cima das dos outros garotos. De cabelos um pouco mais longos, algumas tatuagens nunca antes vistas e com um visual novo, mas definitivamente era ele. Sorriu bobamente como se fosse uma grande surpresa me encontrar, o que me surpreendeu ainda mais. Talvez eu não devesse ter ficado tão nervosa, se parasse para pensar aquela era a pior das reações, porém não foi algo raciocinado. Foi quase imediato: toda a conversa se silenciou, os olhares foram dirigidos a mim e o jovem caminhou por entre os amigos até me alcançar.
Ele segurou uma de minhas mãos, esperando que de algum modo eu interagisse com ele. Estava sem palavras, no entanto. Imersa em vergonha. Eu não queria vê-lo, não queria encontrá-lo nunca mais. Então por que ele estava ali logo quando tudo estava bem? Torci para que não soltasse nenhuma de suas frases irônicas, mas o que aconteceu foi inesperado: não só na sua aparência ele mostrou estar diferente. Me tratou como se fosse outra pessoa.
− Lembra-se de mim? Bora, Bora Prominence.
Os olhos arregalados apenas denunciavam sua animação. Se era falsa ou não, não podia distinguir. Presumiria que se alguém se esqueceria do outro, esse seria ele, não eu. Afastei sua mão, recuperando o raciocínio lógico.
− C-claro que Juvia lembra de você...
− Você? Não, não fale assim. Como é que você me chamava mesmo? Bora... – ele estalou os dedos, fingindo resgatar a memória.
− Bora-senpai.— sussurrei em um fio de voz.
− Isso, exatamente! Prefiro assim, Juvia. – ele bagunçou os cabelos do topo da minha cabeça. Recuei automaticamente, um pouco incomodada.
Bora não estava acostumado com a minha rejeição, então franziu as sobrancelhas. Parecia um pouco triste, até.
− Vocês... se conhecem? – um dos garotos indagou.
− Nós éramos am...
− Conhecidos. – o corrigi enquanto ainda havia tempo, me colocando na sua frente. – Nos conhecemos quando eu ainda estudava na Phantom.
Minha declaração foi seguida por um coro de “ahs”, especialmente da parte das garotas. Talvez tivessem ficado com receio de se aproximarem caso ele se parecesse com Sol ou Aria, mas à primeira vista Bora era inofensivo. Perguntaram-nos quando nos conhecemos, já que ele era mais velho. Tecnicamente, na verdade, Bora ainda não estava na faculdade – apenas após as férias iria ingressar no seu curso.
− Ele continua pintando o cabelo, como você pode ver. – um dos seus amigos debochou.
− Calem a boca! Já disse que azul, mesmo que não natural, é uma cor legal. – ele se soltou dos braços que o agarravam. – Enfim, ouvi dizer que vocês estão interessadas em aprender a surfar? Posso ajudá-las, se quiserem.
− Na verdade, é só Cana que quer aprender mesmo. – o cortei.
− Ah, mas você iria gostar também.
Novamente, ele se aproximou. Eu já tinha notado, mas Cana, Lucy e Mira estavam começando a notar algo estranho no modo como Bora se achava no direito de me tocar daquele modo. Lucy, em especial, tinha uma expressão de desgosto. Foi então que decidi olhar ao me redor.
A primeira coisa que avistei, ao longe, foi Gajeel saindo da água com um olhar curioso. Sabia que em questão de segundos, assim que se aproximasse e reconhecesse a situação, estaria irritado. Se isso nunca fora um sinal bom, naquele caso era ainda pior. A mistura dele com aquele que ainda tentava me convencer era sempre... Explosiva. Antes que pudesse dar mais um tapa no antebraço de Bora, para que ele desistisse de uma vez, um corpo se meteu entre nós com certa violência, fazendo com que o mais velho se afastasse à força.
− Aposto que ela ia adorar. – Gray, com uma carranca na face, me puxou para mais perto pela cintura.
Se não estivéssemos naquele clima desagradável, isso teria feitos ondas elétricas percorrerem o meu corpo. Naquele momento, tudo o que senti foi uma injeção de adrenalina. Não sei dizer se o palavrão que soltei foi audível. O olhar do de cabelos azuis nos analisou de cima à baixo, até que ele sorriu novamente. Por um segundo, pareceu estar sendo presunçoso, mas isso foi quase imperceptível uma vez que logo depois voltou a falar:
− Então é verdade que você está namorando com o estressadinho? Vi vocês naquela revista, mas não imaginava que fosse o que parecia. Poxa, depois daquela capa, eu estava todo alegre imaginando que...
− O que?! – Gray se insinuou para frente. Estava extremamente incomodado.
− Calma, Gray-sama! – eu olhava para trás de tempos em tempo, mas já tinha perdido o Redfox de vista. Infelizmente, ele estava próximo demais para que eu pudesse fazer algo a respeito.
− Calma nada. Dessa vez, ao menos, o Senhor-sama está certo. – Gajeel disse, em falsa simpatia. – O que você acha que está fazendo aqui, Bora?
O outro caiu na gargalhada, em meio a toda aquela confusão. Era algo único da sua personalidade: agia como queria, era espontâneo de um jeito até irritante. Ao observá-lo sorrir no meio daquilo, era difícil imaginar como eu já achara essa uma característica interessante sobre ele.
− Senti sua falta, Gajeel. – ele murmurou ao enxugar as lágrimas. – Ainda no... karatê? Era isso, não era? Lembro quando ela me levava aos seus treinos...
Até Gray se assustou com o soco repentino que Gajeel deu no estômago de Bora, fazendo-o engolir as palavras. Os outros garotos automaticamente os afastaram, também revoltados pela agressão, protegendo o amigo.
− Você acha que tudo bem falar todo alegrinho com ela depois de tudo que já a chamou?
− Gajeel, o que você está fazendo?! – Levy berrou a alguns metros de distância. Nem assim ele recuou.
− Mas nós já fomos namorados, temos essa intimidade. Não é mesmo, Juvia?
Mais uma vez, todos ficaram chocados. Era parcialmente culpa minha, nunca havia tocado nesse assunto com meus amigos. Mas como poderia imaginar que uma existência que eu decidira ignorar reapareceria na minha frente? Verdadeiramente, estando errada ou não, eu fiquei irritada. Muito. Ao ponto em que não importava quem estava ali ou se Otona era apenas uma desconhecida no meio daquela confusão, muito menos se eu iria exibir um lado novo meu que Bora nunca conhecera.
− Cale a boca, Bora. – quase cuspi a frase.
Novamente, ele não se sentiu pressionado. Teve a reação contrária a que todos esperavam: arregalou os olhos em excitação e chegou até a bater palmas.
− Uou! Você realmente mudou, hein?
Não respondi. Poderia ter discutido mais, mas já estava cansada daquilo. Agarrei a mão do Fullbuster, a de Gajeel e implorei com os olhos para que as garotas me seguissem enquanto caminhava até onde estavam nossas coisas. Eles poderiam ter resistido, mas só de olhar para mim notaram que não era o melhor momento para me desobedecer. Ignorei os gritos de Bora enquanto marchava para longe. Poderia dar o dia por encerrado. Queria apenas voltar para o meu quarto, deitar e dormir até que eu esquecesse aquilo, mas sabia que não era assim que as coisas funcionavam. Não era só Gray que parecia estar querendo uma explicação.
Não respondi nada, por mais que soubesse que era o que eles desejavam, enquanto vagávamos até a casa de Lucy. Não queria fazer daquela história algo para se discutir em grupo, ou ao menos não quando os ânimos estavam tão exaltados. Antes de tudo, teria que lidar com os dois maiores problemas do momento. Um deles estava logo ao lado, caminhando com uma pequena que o rodeava de questões e lutava para fazê-lo sorrir.
− Por que ele estava agindo tão confiante com você? E que história é essa de ex-namorado?!
O outro estava do meu outro lado, bem no pé do meu ouvido.
...
Qual foi a surpresa de Lucy Heartfilia ao chegar em casa após um evento estressante e se deparar com o carro de seu pai logo na entrada? Não posso descrever seus sentimentos, mas sei que o choque foi grande. O suficiente para fazê-la paralisar e todos esquecerem por alguns segundos de Bora ou qualquer outro problema.
− Eu tinha esquecido que ele disse que o avião chegaria no fim da tarde... – ela lamentou, mirando o céu escurecido.
− S-seu pai? – Natsu engoliu em seco ao receber um sim. – Para que tantos carros?
− Às vezes algum assistente vem junto ou é só por segurança. – ela deu pouca importância àquele detalhe.
Lucy estava bastante estressada. Não tinha noção do que era ter um pai me pressionando, mas pelo que ela relatara Jude chegava a um nível de radicalidade. Se ela desobedecesse a muitos dos seus pedidos, corria o risco de ser obrigada a abandonar seu apartamento. Natsu tinha noção disso, e talvez tenha sido por essa razão que fez questão de ajeitar as roupas, cabelo, e, após receber tapinhas nas costas dos amigos, ir até Lucy e segurar sua mão.
A loira finalmente o olhou, e o garoto apenas sorriu para ela do modo como sempre fazia. Natsu era a melhor companhia para momentos estressantes, desde que estivesse ciente do que ocorria: ele geralmente sabia como ajudar e tranquilizar. Sua expressão, mesmo que ingênua, era contagiante. Não levou muito tempo até que Lucy risse de leve e começasse a andar em direção a as pesadas portas.
Assim que o som da chave sendo girada, de passos no saguão e sussurros se fez presente, lá estava Virgo. Ela carregava uma bandeja com uma taça de alguma bebida, sorriu para nós e com o olhar indicou para onde a Heartfilia deveria seguir. Não sabíamos se aquilo era da nossa conta, mas acompanhamos o casal a alguns metros de distância. Gray, infelizmente, fez questão de ficar distante.
Jude era um homem de meia idade, de olhos frios e aparência impecável. A única coisa nele que imediatamente me remetia à Lucy eram os cabelos claros, mas em expressividade corporal já podia afirmar que eram opostos. De pernas cruzadas enquanto alisava o próprio bigode, o homem lia uma revista sobre a mesa do seu escritório. Não havia entrado ali antes e me surpreendi pela enorme quantidade de livros sobre economia e painéis que exibiam informações importantes.
Como é de se imaginar, já estava criando uma imagem dele, uma personalidade que explicaria tudo o que tinha observado. Presumi que ele falasse pouco, tivesse a voz firme e gesticulasse bastante ao gritar com alguém (o que deveria fazer com certa frequência). Isso tudo foi desfeito no momento que Virgo lhe serviu, sussurrou algo e ele ergueu os olhos, avistando a filha a alguns passos de distância. Sua expressão modificou-se, e ele sorriu docemente. Levantou de onde estava e em passos lentos chegou ao seu lado, a abraçando em seguida.
− Que bom que está de volta... Senti saudades. – ele respirou profundamente com a face em seu pescoço.
Ela demorou um pouco, mas sua reação veio. Abraçou o pai de volta e deixou escapara um suspiro de alívio. Com o canto dos olhos, observava Natsu.
− E-eu também. – ela falou ao se afastar um pouco e então indicar ao namorado e a nós.
− E esse deve ser o famoso Natsu Dragneel, não é? – ele sorriu e agarrou a mão do garoto, o cumprimentando com empolgação.
− É um prazer, un... Senhor.
Jude o olhou dos pés à cabeça para então apertar-lhe o ombro e sorrir novamente. Nenhum de nós, expectadores enxeridos, entendeu a cena: ou Lucy estava exagerando ou algo de estranho acontecera com seu pai. Mesmo que fosse apenas por desejar o melhor para a filha, a loira o fizera parecer uma espécie de descontrolado.
− Vocês devem ser os outros amigos, presumo. – ele nos cumprimentou com um meneio, ao que respondemos cada um de sua maneira. – Bem-vindos à minha casa, espero que estejam confortáveis.
− Eu não estou entendendo mais nada. – Meredy sussurrou, agarrada ao meu braço.
Não precisei dizer que concordava. A conversa fluiu, no entanto, especialmente entre o rosado e o suposto sogro. Este nos convidou a acompanhá-lo até a sala de jantar para que pudéssemos comer juntos, e não tivemos como recusar. Jude contou algumas histórias sobre como Lucy era quando criança, explicou a origem do aperitivo que nos foi servido. Estava sendo um perfeito anfitrião, tratando a todos com gentileza e polimento.
− Acho que estou atrasado, não? – uma voz masculina interrompeu as conversas animadas. Vinha do saguão, provavelmente das escadas.
A primeira figura a surgir foi a de uma jovem de pele branca com cabelos rosa, cacheados e fofinhos até um pouco abaixo dos ombros. Usava um vestido de veludo branco e saltos altos da mesma cor, e andava com as costas um pouco encurvadas. Parecia ser extremamente tímida, apesar da sua beleza e aparente idade superior à nossa.
− Boa noite, tio. – sua voz era tão mansa quando o seu modo de caminhar. – Como você está, Lucy?
− Áries! – a loira se levantou, correndo em direção à que estava parada.
Se jogou em seus braços como se a outra tivesse força o suficiente para lhe segurar, o que quase acarretou a queda das duas. Áries (eu então aprendera seu nome) conseguiu evitar isso, no entanto. Também alegre, fez um pequeno cafuné na loira.
− Quando chegou? – Lucy questionou-a.
− Junto com seu pai. Saímos de Bosco durante a madrugada, o encontramos no aeroporto de Crocus.
− Foi cansativa a viagem, mas pelo menos poderemos descansar em casa, não é mesmo?
Uma segunda pessoa apareceu ao lado do vão da porta. Dessa vez, um homem de cabelos ruivos espetados, um pouco mais alto que as garotas, e que usava óculos quadrados. Assim como Jude, vestia um terno, e eles trocaram olhares amistosos. Foi a primeira vez naquela noite que senti a imagem gentil de Jude falhar. Aquele cumprimento cúmplice parecia esconder algo, não sei. Lucy também ficou animada, mas visivelmente não tanto quanto quando vira a de cabelo rosa. Estava mais contida, posso assim dizer. Sendo abraçada pelo conhecido, ela fez do contato o mais breve possível.
− Gente, esses são meus primos Áries e Leo...
− Loki. – ele a retificou.
− Loki. – revirou os olhos. – Eles trabalham e moram em Bosco, são o presidente e a vice de uma filial da empresa de meu pai lá.
Os dois se curvaram, nos cumprimentando. Era estranho ouvir aquilo, visto que eles em nada se assemelhavam. Os dois estavam bastante confortáveis ali, porém, o que me fez imaginar que tinham o costume de visitar a casa de praia também.
− Você são bem jovens, no entanto... – Natsu soltou a frase, provavelmente sem nem perceber.
− Verdade. Nem somos tão mais velhos que vocês, talvez seja por isso que nós três nos damos tão bem. – Loki respondeu mesmo que não fosse necessário, fazendo questão de encarar a Natsu.
− Vocês eram amigos de infância? – ele, inocente, perguntou.
− Exato. Mas veja como muito mudou, eu nunca imaginaria que hoje seria quem sou para ela.
Senti Lucy murchar imediatamente. Olhou para o primo com raiva, e logo depois para o pai. Ela sabia exatamente o que ia acontecer, e provavelmente não seria algo bom.
− ...E quem você é? – Laxus foi o primeiro a perder a paciência e indagar.
− Como assim? Ainda não sabem? – ele foi irônico. – Sou o noivo de Lucy.
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