Suitai Monogatari - O Declínio do Conto
4 Parte 1 - Capítulo 1.3 - Nova Okinawa
Se passaram dois dias, dois desde que o ataque do Tokki para resgatar o suposto Octavius foi bem-sucedido. Mas algo imperava no ar, Tokki sabia que eu não era ele, e passou os últimos dias apenas me observando.
Eu estive até esse momento mantendo minhas aparências para observar o ambiente. Até onde eu entendi até agora, essa pessoa que chamam de Octavius era um ser magnífico e perfeito, era um líder inspirador, ele era justo e sensível com todos seus companheiros e jamais deixava ninguém para trás.
Parecia um monte de balela vindo de uma história romantizada, mas esse clichê foi o que eu concluí apenas observando, como eles pensam que eu sou ele, estive fingindo estar com amnésia para não soar estranho, esses tolos realmente acham que minha memória voltará. Uma piada gigantesca esses caras são.
Apesar disso tudo, tem um que olha estranho desde que me tirou da prisão, um cara que tem um nome que parece doença, Toc, Tok, Toque, alguma merda do tipo. Ele é o vice-comandante daqui, mas pelo seu olhar, julgo que ele conhecia profundamente Octavius, até me pergunto o tipo de relação que eles tinham.
Mas, apesar desse pessoal ser um bando de tolos idealizados, eles até que são boas pessoas, eu entendi consideravelmente bem a missão deles, querem destruir uma tal de Rainha da Alemanha, que é considerada a líder mundial do mundo, e apesar de “rainha” ser o título dela, aparentemente não existe nenhuma monarquia nesse universo e nem nada do tipo. “Elas” abandonaram o título de presidente por considerar masculino demais e se declararam “rainhas”. Não preciso nem dizer que achei bem ilógico, mas esse mundo é algo bem maluco mesmo, tenho que aceitar os fatos.
Nos últimos dois dias eles estiveram organizando uma festa de boas-vindas para mim, aparentemente porque eu morri e por algum milagre tô vivo aqui, e apenas sofri uma amnésia como dano colateral. Bom, se eles querem achar isso, que achem, eu só quero resolver o problema daqui e ir embora. Esse mundo que eu caí é bem estranho, quando cheguei aqui e fui tomar um banho eu tinha a porra de um pênis e abaixo das minhas bolas tinha uma vagina!
Eu entendi bulhufas daquilo, achei estranho uma merda dessas, nos meus tempos isso era uma condição biológica rara demais! Mas segundo os livros de biologia daqui, isso é algo normal faz alguns séculos, então eu tive de engolir a seco esse corpo.
Mas esse mundo era interessante, muita coisa mudou em relação ao que eu vivia antes de ser o que sou agora, o Brasil se dividiu em dois, os EUA tiveram uma guerra civil que os dividiu em quatro, Okinawa se separou do Japão, e vários dos países que queriam ser independentes conseguiram depois de muito esforço. Eu com certeza tenho que escrever sobre isso no novo mundo padrão.
Enquanto nosso protagonista lia um livro sobre a guerra civil americana que dividiu a grande potência mundial em quatro (os países eram chamados de República Unida Texana, Estados Unidos do Sul, Washington e Nova União do Leste, esta última de esquerda e atrasada em relação aos vizinhos), alguém bateu a porta, era um membro do esquadrão, ele estava lá para chamar “Octavius”. Como eles acreditavam cegamente que ele era Octavius, ele deveria tomar novamente o cargo de comandante.
E assim desceram. Ele olhará para os lados, as paredes no local eram mal acabadas, ainda no cimento, era um local feito às pressas, e com certeza feito para apenas ser uma base, ele, fingindo que ainda estava com amnésia, curioso, perguntou se haviam outras bases, o soldado respondeu que sim, apesar dele não saber onde todas ficavam, mas disse que haviam pelo menos mais umas 4 além daquela que se encontravam.
As escadas também simples, não haviam janelas, apenas algumas estruturas de suporte, era planejado de tal forma para que ventilasse o local, ao olhar para o lado, ao horizonte estava o mar, ali não ficava muito longe, logo ele achou estranho, um local tão próximo ao mar devia ser facilmente detectado pelos inimigos, ao perguntar isso ao soldado, ele respondeu que apesar daquilo fazer sentido, não era possível achá-los por haver um tratado de não-invasão que era seguido à risca, apenas se houvesse provas concretas que ali funcionava a base deles, como nunca conseguiram provar, nunca houve uma invasão, ali apenas ficava onde eles moravam, as armas que eram financiadas de alguma forma misteriosa, ficavam em outro local há alguns quilômetros de lá.
Ele entendeu um pouco do que se passava, achava meio absurdo, mas era o que foi dito, não seria ele a mudar aquilo que funcionava de alguma maneira.
Ao descer, Tokki, com seu olhar de desconfiado, entregou o uniforme de comandante. Nosso protagonista sabia que ele notou, mas ignorava enquanto o grupo entrava em festa.
A comemoração foi geral, não precisou de discurso para que todos ficassem felizes, para eles, o esquadrão estava novamente completo.
A comemoração logo começou, um belo banquete foi dado em homenagem ao retorno de Octavius, foi uma bebedeira geral, os homens estravaram todo o stress. Era uma vitória importante, e ele manteve as impressões, comemorando junto.
Tokki que sabia de tudo, não participou de nada, apenas ficou em um canto quieto, observando tudo.
Enquanto eles comemoravam, em Viena, onde ficava a sede das Nações Unidas do Primeiro Mundo, era manhã, com a notícia que Octavius estava vivo e foi resgatado percorrendo o mundo, a coisa não era nada boa para elas. O cenário era o pior impossível.
Assim como o imaginado, para elas foi como morrer para a faca em um jogo de tiro: Humilhante.
O poderio militar se tornou motivo de piada, as pessoas ficaram desacreditadas no governo, como poderiam ter deixado um “terrorista” como Octavius ser resgatado? Era inaceitável.
Enquanto lá era noite, o fuso horário de Okinawa até Viena eram de 8 horas, Viena estava em plena manhã. Como uma demonstração de poder, as Novas Mulheres prenderam diversos militares e policiais de Tokyo, incluindo Sakamoto, que teve a perna cirurgiada, sob a acusação de conspiração militar e traição.
Elas não tinham provas concretas que realmente houve tal traição por parte das forças japonesas, mas naquele momento de desespero, era uma medida válida para impor o medo.
Como a lei da época dizia que se fosse provada a colaboração com o GANM (sigla para Grupo Anti Novas-Mulheres, como elas chamavam os “extremistas”) a pena era clara: Pena de morte.
Com a necessidade de impor poder, nos canais de todas as nações aliadas ao governo das Novas Mulheres só havia uma coisa passando: O discurso de uma presidente desesperada.
–Eu sei que todos vocês se lembram do fádico dia da Batalha de Istambul, naquela batalha que parecia ser um ponto crucial nesse nosso conflito contra as forças que ameaçam a paz, a segurança e a ordem. Naquele dia, todos acreditávamos que com a morte do líder extremista da GANM, a paz seria finalmente instaurada. Mas tivemos aquela notícia de que ele estava vivo, mas para nossa felicidade, estava em um país aliado e foi preso com sucesso pelas forças nacionais. — disse a rainha alemã enquanto apontava para os prisioneiros. – Porém, estes homens que vocês veem aqui, são traidores, eles traíram a paz e a ordem, e entregaram de bandeja o terrorista que hoje poderia estar aqui sendo julgado pelos crimes que cometeu. Isto é algo que jamais podemos tolerar, é por isso que hoje, com base na lei vigente, eu digo que pelos atos que estes homens cometeram, eu os sentencio à morte. Desejam falar algo antes de morrerem para se desculparem pelos seus atos?
Naquele momento, Sakamoto levantou a voz e gritou “Jamais! Vida longa ao GANM”, aquela mensagem ecoou pelo mundo e não deixou outra opção à rainha alemã, a ordem de atirar foi dada, e ali, numa transmissão mundial, todos aqueles 20 homens foram fuzilados como uma prova de poder e medo. Sem temer as consequências, a rainha prometeu ainda mais esforços para combater os extremistas.
Um ataque logo viria, e os pobres heróis mal sabiam do que se passava enquanto comemoravam como se fossem vikings, aquilo estava longe de ter um fim ainda.
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