Suicídio
1 Capítulo único
A noite estava bela: o céu límpido, a Lua cheia, as estrelas brilhantes e a brisa soprava sombria, quase melódica. Uma música para a morte. Não que ela fosse enfiar uma adaga em alguém, não, isso não. Por mais que desejasse, não conseguiria. Mas não lhe faltava coragem para arrancar a própria alma de seu escultural corpo juvenil.
Aproximou-se da janela; seus cabelos ruivos dançavam entre si, conforme os suaves sopros cantantes. Fechou os olhos castanho-dourados e inspirou o cheiro da noite, que era de seu agrado. Sua cabeça inclinava-se levemente, encantada pela melodia. Abriu os olhos repentinamente, estacando-se por completo e deixando escapar todo ar que lhe pertencia ainda na boca; por um momento, sentiu-se insana.
Passou as mãos pelo pescoço e o apertou, em uma tentativa fracassada de se sufocar. Talvez seu desejo de morte não fosse tão grande assim... Bobagem! Alisou sua cintura fina por cima do corpete escarlate – um tom de sangue negro – e deixou as mãos abandonadas por cima da saia do vestido, preta como um corvo.
Afastou-se dali e dirigiu-se ao centro da parede norte, pintada de branco com finas listras verticais vermelhas – tinta que descia das inúmeras rosas presas ao alto da parede, seu gosto poderia ser considerado um pouco bizarro –, onde se encontrava o órgão ilustre, firme e afinado. Sentou-se no banco posto pouco a frente do instrumento, ajeitou-se e pôs-se a tocar. Os dedos ligeiros não erraram uma só nota da música francesa, porém pararam no meio dela e buscaram uma outra coisa, um pequeno copo cristalino, com um líquido da mesma tonalidade escarlate – e mortal – dentro. Segurou-o com força – tanta que imaginou que o delicado vidro poderia quebrar-se nos dedos – e levou-o a boca. A bebida desceu amarga, queimando a garganta e parte de seu intestino. Deixou o copo quebrar de encontro ao chão e voltou a tocar; era o seu final – tanto da melodia, quanto de sua pobre vida -. Empalideceu e o corpo tornou-se gélido e mórbido, as lágrimas escorriam involuntárias até a boca e misturavam-se com o pouco veneno ainda nos lábios. O ar já estava em falta e ela respirava com dificuldade, resgatando a última força de seus pulmões. Os dedos moviam-se fracos e, na última nota, sua alma foi levada. E parte do corpo caiu por cima das teclas graves de marfim.
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