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Ken ignorou a batida na porta. Ele não estava a fim de falar com ninguém. Que eles pensassem que ele estava dormindo.

Ele virou a página do livro que estava lendo. Ele havia escolhido um dos livros de Aya, escrito por Edgar Allan Poe. Eram várias histórias de terror reunidas, e ele acabou gostando.

Algo que ele nunca imaginou que fosse acontecer para começo de história.

Quem quer que estivesse do lado de fora bateu de novo na porta, e ele rolou os olhos. Seus companheiros de time não sabiam que quando ele não respondia era porque ele estava a) dormindo ou b) fazendo algo que não queria interromper?

Julgando pelo jeito como a terceira batida soou, não. Eles não sabiam. Ele suspirou e não prestou mais atenção à porta, mas ficou difícil de ignorar quando alguém entrou com tudo no seu quarto, fazendo com que ele rapidamente apanhasse uma revista sobre futebol do chão, escondendo o livro roubado dentro da mesma.

— Ken! Você não me ouviu?

O moreno olhou o "seu" livro e ergueu a cabeça, encontrando olhos violeta não exatamente gentis. Aya estava olhando para ele agora, seu cenho levemente franzido.

— Não, eu não ouvi.

— Eu notei. É essa revista que impediu você de responder?

Ken negou com a cabeça nervosamente. Ele sabia que ele estaria perdido se Aya o pegasse; o ruivo odiava quando alguém entrava no seu quarto. Ele não queria saber o que Aya podia fazer com alguém que tinha... Pego emprestado um dos seus preciosos livros.

— Foi. Então, o que quer de mim?

O espadachim não respondeu, um pequeno sorriso no seu rosto enquanto ele sentava na cama desarrumada de Ken, os olhos fixos na revista. O moreno não gostou daquilo.

— Sobre o quê você estava lendo?

— Huh?

— A revista. Sobre o quê você estava lendo?

Ken engoliu em seco. Não era possível que Aya tivesse notado, era?

— Sobre... Futebol.

Boa idéia, Ken, ele se parabenizou mentalmente. Claro que ele estava lendo sobre futebol, duh.

— Ah, mesmo? Eu achei que você estivesse lendo alguma outra coisa.

— Alguma outra coisa?

— Sim. Como uma história de terror.

Antes que Ken pudesse fazer qualquer coisa, longos e pálidos dedos puxaram a revista das suas mãos, e o livro caiu no seu colo. Ele só ouviu o barulho da sua revista caindo no chão (o seu lugar original) e uma risada em voz baixa.

Espere um pouco. Aya estava... Rindo?

Olhos turquesa encararam Aya, somente para perceber que o olhar hostil havia ido embora. O ruivo parecia estar se divertindo com a situação. Ele gentilmente pegou o livro de Ken, olhando a página na qual o mesmo estava aberta e balançando a cabeça afirmativamente, aprovando alguma coisa.

— A Queda da Casa de Usher é uma das suas mais famosas histórias. Talvez você deva tentar O Barril de Amontillado e... O Retrato Ovalado. — ele disse, virando as páginas brancas com cuidado — O Corvo é uma boa opção, se você agüentar poesia. — ele acrescentou com um sorriso, ligeiramente malicioso.

Não, não era possível. Aya não sorria, muito menos daquele jeito, mas... Ken podia jurar que ele estava vendo tudo aquilo, e que os sorrisos não eram fruto da sua imaginação.

— Eu consigo agüentar poesia. — o moreno devolveu, um olhar determinado no seu rosto. O ruivo havia dado a entender que ele duvidava da capacidade de Ken de entender qualquer outra coisa que não fosse futebol. Não era preciso conhecer o assassino mais novo para saber que ele não tinha gostado do tom de voz de Aya.

— Muito bem. Então leia e me diga o quê você achou depois de terminar.

O moreno suspirou e deixou seu corpo cair para trás, franzindo a testa e tentando encontrar alguma coisa diferente ou suspeita em Aya. Alguma pista que pudesse dar certeza de que o espadachim estava sendo controlado pelo telepata doido do Schwarz ou algo do gênero.

Porque aquele não era Aya.

— Você está bem, Ken?

— Eu deveria estar perguntando isso!

Uma sobrancelha ruiva se ergueu elegantemente.

— Mesmo? Por quê?

— Você... Você... — Ken mordeu o lábio inferior e olhou para o seu chão, tremendamente desorganizado. Droga, ele tinha que limpar aquilo ou conseguir que alguém fizesse isso para ele. Omi! Omi tinha feito tudo uma vez, talvez o chibi estivesse entediado de novo e pudesse ajudá-lo com a limpeza.

Onde ele estava? Ah, sim, Aya não sendo Aya. Para ser mais exato, Aya agindo do jeito que todos gostariam que Aya agisse.

— Você... Não deveria me recomendar as melhores histórias. — Ken suspirou — Você deveria ter entrado sem aviso no meu quarto, olhado feio para mim e agarrado seu livro de volta, sem uma palavra. Ou talvez você murmurasse uma ameaça de morte.

O ruivo fechou o livro e riu. Ken tinha certeza agora, Aya estava rindo. Era um som gostoso de ouvir, a voz grave do seu colega de assassinatos ecoando no quarto. Era muita má sorte que Yohji e Omi estivessem nos andares inferiores, porque Ken precisava de testemunhas. Aquilo não podia estar acontecendo.

— Ken... Eu não te mataria por causa de um livro.

— Não? — o moreno perguntou, os olhos arregalados. Aquilo era novidade para ele — Mesmo se o livro foi emprestado... Sem permissão?

— Sim. — Aya concordou com a cabeça — O quê te deu a idéia? Edgar Allan Poe é muito bom, outros merecem ler seu trabalho.

— Whoa. Isso é algo que eu nunca imaginei ouvir de você.

Aya colocou o livro de volta na cama de Ken, olhos violeta atentos a cada movimento do outro homem:

— Existem outras coisas que você não espera que eu diga?

— Huh?

Ken parou por um segundo; ele podia ver... Uma luz diferente nos olhos de Aya. Ele não sabia o quê estava acontecendo ou por que Aya repentinamente estava falante, mas ele não se importava. Ele gostava do lado escondido do líder do Weiß, e estava ansioso para ver mais desse outro Aya.

— Esqueça. Eu vou fazer o almoço. Eu iria pedir para você descer e ver se o Yohji não está tentando escapar do trabalho, mas... Eu vou deixá-lo com Poe.

Sem mais palavras, Aya deixou o quarto, fechando a porta sem ruído atrás de si. Ken deitou-se sobre os seus travesseiros, olhando para o teto e pensando em tudo que havia acabado de acontecer.

Não era como se o teto fosse falar ou responder o que Aya queria dizer quando ele perguntou se Ken achava que haviam outras coisas que seriam inesperadas para o ruivo dizer, mas ele gostava de olhar para cima enquanto pensava. Sentindo os travesseiros macios sob a sua cabeça, ele foi repentinamente atacado com várias imagens e flashbacks da sua própria cabeça, Aya em todas as lembranças.

Ken levou algum tempo para perceber que em todas as cenas que ele havia acabado de lembrar, ele estava esperando que Aya fizesse alguma coisa, que acabou não acontecendo. Mas talvez ele também tivesse sua parcela de culpa. Ele nunca havia deixado claro o quê ele queria de Aya para começar, então... Ele achava que a maior parte das brigas travadas entre eles pudesse ter acontecido porque eles não conversavam muito.

Não conversavam muito como pessoas civilizadas. A pequena discussão sobre Poe havia sido uma exceção.

Ken rapidamente pulou da cama, abrindo a porta e correndo até a cozinha. Ele definitivamente queria ser surpreendido por Aya novamente, se isso significava que ele seria presenteado com gentis, doces e reconfortantes momentos como o do livro.

— Hey, Aya.

O ruivo não se virou para olhar para ele, continuando a cozinhar.

— Hm?

Reação típica de Aya. Talvez ele não devesse continuar...

— Ken? Você está aí? — Aya perguntou, se virando completamente e encarando o assassino mais novo, que parecia tentar se esconder atrás do batente da porta, como se pronto para fugir caso algo viesse voando na sua direção.

Reação nada típica de Aya. Ele encarou-a como um incentivo.

— Existem outras coisas que eu não espero você dizer. Ou fazer.

— Que coisas?

— Você vai ter que descobrir sozinho. — o moreno sorriu.

Um pequeno sorriso, que Ken havia descoberto que gostava de ver na cara do ruivo, torceu os cantos dos lábios graciosos de Aya para cima. O espadachim se encostou no balcão da cozinha, cruzando os braços.

— Eu descobrirei.

Com uma risada baixa, Ken voltou para o andar de cima, afundando na sua cama e abrindo o livro de novo. Ele não conseguiu manter sua atenção nas páginas brancas por muito tempo, já que a porta foi repentinamente aberta uma segunda vez, sem batidas antes.

Ele não teve tempo para entender o quê estava acontecendo, seu livro caindo no chão bagunçado e um maior e familiar corpo pressionando o seu contra o colchão. Seus olhos se arregalaram quando lábios doces encontraram os seus, e eles se arregalaram ainda mais quando Ken percebeu que estava sendo beijado por Aya.

Aquele era provavelmente a coisa mais "não-Aya" que o ruivo já havia feito. Sem esquecer que um dos seus preciosos livros havia acabado de capotar para o chão, e o outro homem não parecia ligar para o fato nem um pouco.

Quando o beijo terminou, Ken piscou. Piscou novamente e perguntou:

— Obra de Mastermind ou o quê?

— Ou o quê.

Ken sentiu lábios úmidos contra os seus novamente e não se importou em falar novamente. Aquele era um lado muito, muito humano de Aya. O lado que ele mais gostava.

— Ele é mais esperto do que eu pensei.

— Schu...

— Não, é sério. Ele chegou a pensar que eu estivesse por trás de tudo.

— Você está.

— Não exatamente. Eu só dei algumas... Sugestões para a mente de Abyssinian. — o telepata sorriu do seu jeito clássico, encarando o playboy agora — Eu não tenho nada a ver com o segundo beijo deles. Missão cumprida, Balinese. E a nossa diversão começa... Agora.

O loiro sorriu de volta, trancando ambos dentro da dispensa nos fundos da loja. Ele esperava que Omi pudesse lidar com todas as garotas.

FIM

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!