Notas iniciais
Aproveitando a chuvinha gostosa, temos um capítulo com chuva saudável aqui também ♥ me atrapalhei toda nas postagens, mas já me atualizo, prometo xD

A única coisa que me impede de prolongar a sensação de paraíso é a vibração do meu celular sobre a mesa. É como se estivesse em câmera lenta, sendo obrigado a interromper meu momento mágico para olhar para aquele bloco inconveniente de metal. Cassy ri da minha expressão de revolta, e eu também não resisto a sorrir. Começo a aprender que é contagiante – talvez eu devesse mantê-la por perto, para ver se consigo sorrir com mais frequência.

— Desculpa — peço, mesmo não sendo minha culpa. Olho para o visor e infelizmente me solto dela. Será que serei muito grudento se disser que quero passar todos os minutos do dia ao seu lado? — É o Sam. Você me dá licença para atender?

— É claro — novamente, ela sorri e se recosta na cadeira, tomando para si um dos últimos cookies. — Foi para isso que vim, afinal de contas.

Minha cabeça ainda está girando pelos acontecimentos dos últimos cinco minutos. Então, não é de surpreender que, ao pegar o celular, meus dedos estejam um tanto trêmulos. Se Cassy percebe, não comenta nada sobre. No entanto, assim como eu, ela parece um tanto aérea. Fico me perguntando se isso é uma coisa boa ou ruim. Para dizer a verdade, parando para perceber, pode não ter sido a melhor ideia de todas beijar a garota logo depois de ela ter me contado sobre o namorado que foi morto. Meu Deus. Será que ela me odeia? Será que fez isso só por dó?

Lá fora, a chuva começa a se fazer presente sorrateiramente. Pingo por pingo, crescendo a sinfonia nas telhas dos prédios e nas goteiras dos menos avantajados.

Por que a minha cabeça não me deixa em paz por um minuto?

— Ian? — Cassy me chama, pousando uma mão sobre a minha sobre a mesa. — Não vai atender?

— V-vou, vou sim — gaguejo, deslizando o ícone verde para o lado. É urgente: eu preciso parar de vegetar no meio do nada. — Sim?

Sam corresponde à falta de atenção com um riso zombeteiro. Como de praxe.

Da terra para Ian Walsh, na escuta? Devo mandar reforços?

— Muito engraçado. Bom dia para o senhor também. O que você quer?

Uau! — Sam gargalha, e pelo barulho abafado, suponho que tenha trocado o celular de uma orelha para a outra. — Liguei para dizer que estamos prontos. O wi-fi daqui caiu, senão eu mandaria uma mensagem mesmo. Onde podemos nos encontrar com a Cassy antes de ir?

— Por que eu saberia desse tipo de informação? — estou jogando verde para colher maduro? Sim. Mas é o modo como funcionamos, por aqui.

Hum... Por que foi você quem levou ela para casa, ontem? Mas, já que está perguntando, deve estar com ela agora, para tentar esconder isso de mim. Você é um péssimo mentiroso. Oi, Cassy!

E, pelo visto, é uma péssima estratégia.

Resmungo de brincadeira, repassando o recado para Cassy. Por sua vez, ela abre um grande sorriso e chega mais perto para poder transmitir os cumprimentos pessoalmente. Busco meus fones de ouvido nos bolsos da bermuda, e os conecto para poder escutar junto a ela. Ofereço um lado, e ela se ajeita na cadeira.

— Sam! Já estão prontos?

Com toda certeza! Quer fazer algo ao estilo “isca e troca” com uma maleta ou o tradicional envelope A4 cor creme da papelaria aqui do lado?

Cassy gargalha e, para mim, é como se ela complementasse os trovões. Eles, lá fora; ela, ao meu lado. Olho para ela de soslaio, suprimindo um sorriso.

— Olha... Eu adoraria a maleta, mas se faz questão da iniciativa diferenciada, você pode pegar um envelope pink. O que acha?

Sim, señorita — dito isso, foi possível escutar o riso de Yelena, ao fundo. — Venice?

— Mas é claro — respondo por ela. — Mal saímos da frente do Tamara’s. Veja se tenha a decência de tomar café da manhã antes de vir, sim?

— E tomem cuidado com a chuva — Cassy acrescenta.

Pode deixar. Estaremos aí às 11h. Não fujam, pombinhos.

Desligo o telefone rindo num tom bem-humorado, e Cassy me acompanha, dessa vez se recostando em meu ombro e erguendo os grandes olhos castanhos para mim. Retribuo o olhar – no caso, para baixo – e abro um sorriso breve.

— Então... — começa ela, sorrindo também. — Podemos continuar de onde paramos?

Como é possível que eu tenha me apegado tão rápido a alguém? Nós nos conhecemos há dois dias, no entanto ela sabe mais sobre mim do que eu mesmo. Pior: parece aceitar de bom grado. É como se fosse... Aquele negócio doido que as pessoas dizem. Destino.

Eca.

Mas, de verdade. Começo a pensar que posso ficar aqui, em LA, a cidade que odeio, apenas para estar ao seu lado. Todas as horas em que estou inquieto, em que tenho sonhos imprudentes, que fico para ver o sol nascer e a lua se por... Quero que todas as horas que estou aqui sejam nossas. Se ela quiser também, é claro.

Penso que talvez, se eu der uma chance, eu possa me apaixonar por ela. Amar, talvez.

Ou talvez eu esteja me precipitando e ela vai quebrar o meu coração em mil pedacinhos.

— Eu estava esperando você dizer algo do tipo — ri com maldade.

— Muito obrigada! Vamos lá, então — ela deixa o dinheiro sobre a mesa e guarda os pertences de qualquer maneira na bolsa. Pega meu celular para fazer o mesmo, colocando-o junto ao fone cuidadosamente lá, diferente dos outros itens. Sorrio com a consideração.

Cassy permanece me puxando em direção à saída. No último minuto, interrompo a jornada.

— Vamos sair na chuva, mocinha?

— É claro. É como a minha avó disse: ninguém aqui é de açúcar. Não está dando raios... É só chuva, Ian. Por favor...?

Seus olhos brilham com a perspectiva de um banho de chuva. Meus instintos primordiais gritam: “você acabou de tomar banho, Walsh. Não faça isso, pelo amor da sua sanidade higiênica”. No entanto, aqueles olhos brilhantes e pidões me conquistam de cara.

Que se dane se ela quebrar meu coração em mil pedacinhos. Estou feliz agora. É o que importa.

— Está bem. Mas só um pouquinho.

— Só um pouquinho é tudo que preciso — dito isso, ela me puxa gentilmente para baixo na intenção de me roubar um beijo. Quer dizer, seria roubado, se eu não correspondesse. Cassy sorri e acaricia a minha mão, que ainda segura como se o mundo fosse acabar. — Obrigada.

Assinto com a cabeça e a sigo chuva adentro. Os transeuntes, que procuram fugir dela, nos encaram com uma expressão de julgamento. Há uns três dias atrás provavelmente teria me encolhido e voltado para dentro, pensando “está bem, vocês estão certos, me desculpe”; contudo, estou com Cassy.

Já entendi que é ela quem manda.

— Ian?

Pisco para acostumar o olhar diante de toda a cortina de água que cai diante dos meus olhos.

— Sim?

— Quer dançar?

Gargalho com o pedido. Estendo as mãos indicando o ambiente e pontuo o óbvio:

— Com que música? O som da chuva?

— Eu canto muito bem — ela faz uma cara convencida e dá um passo em frente. Dou de ombros e arrumo a postura. — Lenta ou agitada?

— Eu gosto de músicas lentas — sorrio, estendendo uma mão para me segurar em seu ombro. A outra vai para a cintura, como manda o decoro. Seguindo meus passos, ela me acompanha, aprovando a escolha.

— Saindo uma música lenta do forno!

Cassy limpa a garganta e, depois de se ajeitar, embalamos o famoso ritmo de dança se mexer para lá e para cá e fingir que é dançar. A chuva acumula poças bem onde estou pisando, e posso sentir minhas meias se ensopando mais rápido do que consigo pensar.

Está tudo bem. É só respirar.

E então, a calmaria vem quando Cassy começa a música. É Love me Tender, do Elvis.

Eu posso jurar que o céu se abriu e emprestou um anjo para mim, o reles mortal. Fico tão dividido entre escutá-la, me remexer no ritmo e segurar a vontade de beijá-la até que todo o ar saia do meu corpo que acabo me travando todo. Cassy ri por um momento, soprando o and I always will num tom mais baixo. Permaneço escutando-a até a música terminar. Ela sorri e desvia o olhar para o chão. As poças d’água merecem atenção, também.

— Essa é a música preferida da minha avó — ela comenta, erguendo o olhar para mim. Quase sussurra. — Ela colocava para tocar na cozinha quando fazia o almoço de domingo, e eu ficava lá... Escutando... Cortando alface e tomate ao som do Elvis. É uma boa memória... Obrigada por ter me lembrado dela, Ian.

Eu não tenho o que dizer. Se, por um lado, pensei que ela poderia ter odiado minha atitude e me quisesse o mais longe possível, agora Cassy volta a falar com a doçura rara que só conheci quando começamos a permanecer perto um do outro com mais frequência.

Lembrei-a de uma memória ruim e uma boa no mesmo dia? Por esse motivo, giro-a na chuva, o que a faz gargalhar e se segurar em mim para não cair. Quero que ela preserve essa memória, e não a anterior.

É como eu disse: dane-se se ela quebrar meu coração. Todo meu amor será dela e de mais ninguém.

Notas finais
Música do capítulo: https://www.youtube.com/watch?v=gfPqofidv98 A música que eles dançam: https://www.youtube.com/watch?v=YC0BPcLea0Y Esse Ian é mesmo um amor. Cê vê, dois dias e já tá caidinho pela crush.